sábado, julho 14, 2007

A caixa de ferramentas do sociólogo

O problema (d)

O problema tem problemas. Fica bem dizer, como eu o faço, que a melhor contribuição que podemos fazer consiste na formulação de problemas? Esta afirmação faz mais sentido num contexto como o nosso, onde me parece haver uma maior preocupação com a elaboração de soluções para problemas ainda não definidos. Alguns entre vocês podem, todavia, contrapôr um outro argumento; podem, efectivamente, perguntar-me o que sobra para a sociologia num contexto em que o problema já está formulado. No caso da venda de bebidas alcoólicas, por exemplo, qual é o papel do sociólogo uma vez apurado que a questão é das bombas de combustível ao longo das avenidas com muitas discotecas e que os acidentes ocorrem às sextas e sábados?

A resposta simples a esta pergunta é: venha daí a solução! Sim, dirão alguns. Mas, e depois? O que acontece à ideia de que devemos formular problemas? Já podemos abandoná-la? Já podemos voltar ao conforto de “implementar” soluções? A pergunta é boa e a resposta vai ser, para alguns, um banho de água fria. Na verdade, o sociólogo deve, em minha opinião, ver a solução como um problema! Os problemas, lamento ter de dizer, não acabam. É só pensar um bocado em todas as “soluções” que cada um de nós conhece: quantos problemas não criaram? Puderam ser aplicadas da forma imaginada? Até que ponto alteraram a estrutura social do meio em que agiram? Que novos comportamentos suscitaram? Soluções são intervenções em meios sociais vivos e, por conseguinte, produzem efeitos difíceis de prever.

A independência foi a solução ao problema da opressão colonial. Vejam no que isso deu? Alguém teria imaginado o que depois aconteceu? As vacinas contra várias doenças foram também uma solução; alguém teria imaginado o desafio que a explosão demográfica, o aumento de população com necessidade de emprego, saúde, alimentação, etc. viriam a constituir? A melhoria da estrada que liga Maputo a Xai-Xai foi uma boa solução; alguém teria imaginado que o aumento do trâfego iria produzir mais acidentes? Que mais populações do interior iriam afluir às cidades bem como à berma da estrada para vender castanha? Que donas de casa haviam de abandonar as lides caseiras para ir comprar – “guevar”, como dizem – fruta no mercado da Macia para vender à berma da estrada?

É evidente que não quero sugerir, com estas perguntas todas, que devemos evitar as soluções a todo o custo. Não. Quero apenas dizer que há muita utilidade em considerar as soluções como problemas, pois é a partir dessa postura que teremos maiores probabalidades de fazer valer a nossa formação. A solução, repito, é uma intervenção num meio social vivo. O que é que isso significa para esse meio, para as pessoas que vivem nesse meio e para todos quantos estão de uma ou de outra maneira ligados a esse meio? Esta é que é a famosa “dimensão social” de não-sei-quantos de que tanta gente fala quando tem na mente práticas culturais, mulheres, crianças e os pobres.

Então, o Ministro do Comércio pediu ao seu sociólogo soluções. O sociólogo formulou o problema e identificou várias soluções. Delineou alguns cenários prováveis em resultado da opção por uma solução e pediu ao Ministro, diplomaticamente, para escolher a solução que ele acha politicamente responsável. A partir daí a tarefa do sociólogo começa a ser de elaborar os critérios de avaliação da aplicação da solução. Para esse efeito, ele precisa de ter uma ideia dos actores envolvidos, dos interesses em jogo, das articulações com outros factores e, sobretudo, da grande possibilidade de emergência de uma situação social nova que anula completamente a solução inicial. A nossa experiência está cheia deste tipo de situações. É só olhar para a liberalização económica. A ideia era de que com ela seríamos capazes de estimular a iniciativa privada. Isso aconteceu. Mas também a fraqueza do Estado daí resultante criou um novo tipo de funcionário público, um novo tipo de empresário, um novo quadro de trocas económicas que começou a fazer da solução um grande problema. A solução não é de anular a solução, mas sim de estar atento à sua implementação. A prevenção ao HIV: vamos distribuir preservativos. Muito bem, mas também, provavelmente, isso aumentou a promiscuidade, banalizou as relações sexuais, atentou contra a moral tradicional, criou novas formas de estar no mundo. Por mim podem continuar a distribuir os preservativos – sobretudo àquele preço! – mas nós os sociólogos devemos estar atentos às novas situações que isso cria.

Um aspecto que me parece de importância crucial, mas muitas vezes os nossos decisores políticos e nós mesmos descuramos, é o aspecto da avaliação do que é feito. Uma vez adoptada uma solução, como é que sabemos que ela surtiu os efeitos desejados? Como é que sabemos que foi bem aplicada? Como é que sabemos que pode ser alargada a outros problemas? Isto também faz parte da contribuição que um sociólogo pode dar. Que lições aprendemos da aplicação de uma solução? Será que a estrutura do Ministério ou da Organização em que trabalhamos é a mais adequada para responder a este tipo de situações? Será que existe pessoal suficiente? Será que existe necessidade de maior articulação com outras instituições? Nando Menete: Sei que ainda te devo uma resposta!

Quando oiço alguns jovens formados em sociologia a reclamarem das condições de trabalho, da falta de ocupação ou mesmo da ocupação em “coisas que não têm nada a ver com a sociologia” – som original – só me dá vontade de virar a cabeça e chorar amarga e copiosamente. Tanta água e tanta sede! Há tanto que podemos fazer. Não é o Ministro do Comércio que nos vai dizer o que fazer, somos nós que devemos dizer a ele o que podemos fazer. Não há nada neste mundo que não seja de interesse sociológico, nada onde o sociólogo não possa meter a sua colheirinha. É verdade que a generalidade pode ser um problema, mas nos dias de hoje, em que muita coisa técnica é feita por máquinas e computadores, leva vantagem quem tem a visão geral, quem pode estabelecer relações entre as coisas e, sobretudo, quem – vamos todos respirar fundo... – formula problemas!

Sem comentários: