Consultorias (b)
Se ser assessor é o cúmulo da realização profissional, ser consultor, ou melhor, fazer uma consultoria é o paraíso de um sociólogo. Tem classe dizer “fiz aí uma consultoria” ou ainda com ar cansado “para a semana tenho aí uma consultoria por fazer”. Consultoria é o que está a dar, é o sonho secreto de muitos estudantes de ciências sociais que vislumbram mundos e fundos cuja condição de possibilidade é a nossa miséria. Pessoalmente, não gosto da influência negativa que as consultorias estão a ter sobre o desenvolvimento das ciências sociais no país. Já falei, inclusivamente, da morte anunciada que elas representavam para a nossa actividade.
As minhas reticências, contudo, são de ordem estrictamente epistemológica e estratégica. Não dizem respeito às consultorias como tal. Moçambique precisa delas, os sociólogos precisam delas, enfim, elas são provavelmente a única maneira segura de produzir conhecimento sólido para a tomada de decisões. Já houve colegas que entenderam as minhas reservas como uma rejeição total das consultorias. Acho isso infeliz, pois eu próprio já fiz consultorias e se me aparecessem pela frente não hesitaria, desde o momento que dispusesse de tempo e o tema me interessasse. Portanto, devemos diferenciar entre o que as consultorias fazem às ciências sociais e o que elas representam para cada um de nós como profissionais do conhecimento.
Vou abrir agora uma série de reflexões sobre esta actividade para ajudar o sociólogo em formação, mas também àquele que já se encontra a trabalhar, a saber identificar oportunidades de consultorias, negociá-las, planificá-las, executá-las e ganhar dinheiro com elas. Já que normalmente quem ganha dinheiro com manuais sobre como ganhar dinheiro é o próprio autor devia, se calhar, vender estes textos no mercado. Já não vou a tempo. Peço, contudo, a todos que ganharem dinheiro com base nestas “dicas” para me darem um dízimo das suas receitas. A minha intenção é de reflectir sobre esta actividade. Portanto, não vão necessariamente encontrar fórmulas do estilo “como fazer...”. Espero, todavia, que encontrem elementos que vos permitam fazer uso do vosso conhecimento sociológico para participar na indústria das consultorias. O negócio não é mau, ainda que superlotado.
O que é uma consultoria? No nosso país é quase tudo que não seja feito no âmbito de uma instituição empregadora. É a recolha, análise e exposição de informação sobre um determinado assunto, problema, estratégia, iniciativa que uma determinada instituição não está em condições de realizar com os seus próprios meios, mas de cujos resultados necessita para tomar determinadas decisões. É um campo muito vasto. As instituições – empresas, ministérios, organizações – não dispõem de todo o pessoal de que necessitam para recolher e analisar certas informações que precisam para o seu trabalho. Muitas vezes sai-lhes mais barato encomendar esse trabalho a instituições que têm essa vocação ou a indivíduos que têm a formação técnica que lhes permita fazer o trabalho. Para esse efeito, lança-se um concurso público – pelo menos as instituições públicas têm essa obrigação – aberto a todos. As possibilidades de um Zé-Ninguém vir a ganhar um concurso são, para sermos realísticos, mínimas, mas nunca se sabe. Nem sempre os esquemas funcionam e, no fundo, a qualidade vence, nem que leve muito tempo.
Um aspecto importante a ter em conta aqui é que as instituições encomendam consultorias; esta é a prática normal. Partimos, nesse contexto, do pressuposto segundo o qual as instituições têm a capacidade de identificar as suas necessidades em termos de assessoria. É um pressuposto arriscado e que custa oportunidades aos sociólogos. Nem todas as instituições sabem o que necessitam. Um sociólogo esperto – e inteligente – tem que ser capaz de ajudar as instituições a identificar as suas necessidades nesse contexto. É verdade que a ignorância das instituições está ligada ao facto de muitas delas dependerem de auxílios externos para encomendar um trabalho. Sem esse auxílio, nada feito. Mas um olhar de realce pelas nossas instituições mostraria verdadeiras minas de ouro para sociólogos com imaginação, iniciativa e espírito empreendedor. Peguemos, a título de exemplo, na área da saúde. Que impacto têm as diferentes políticas de saúde seguidas? Quem usa os serviços de saúde em diferentes contextos? Como é que esses serviços são usados? Em combinação com outros recursos? Que importância tem o posto de saúde para os residentes de não-sei-aonde? Porque é difícil observar regras de higiene em certos hospitais? Haverá factores culturais envolvidos? Ah, os factores culturais! Que impacto teria a introdução de taxas disto e mais aquilo na disponibilização de certos serviços? Que providências individuais são feitas pelas pessoas para a eventualidade de doença? Como articular com a polícia de trânsito para diminuir a incidência de certo tipo de acidentes? Como articular com o Ministério do Trabalho e Sindicatos para controlar certos riscos laborais? E por aí fora. As questões são intermináveis.
Não é por falta de temas que não há mais consultorias. É por falta de dinheiro – lá está – mas também é por incapacidade dos sociólogos de formular um problema. Mais uma vez a formulação de problemas! Uma vez identificada uma questão, um sociólogo com imaginação poderia tentar formular o problema. Quando as pessoas reconhecem um problema, normalmente querem agir sobre ele. O desafio que se coloca ao sociólogo muitas vezes é de trazer à atenção de quem de direito um problema que precisa de acção urgente. Para esse efeito, não precisa de revelar muito, pois a ideia é de ser encarregue de realizar o tal estudo que vai identificar o problema! Suponhamos que identifico o problema do uso exagerado dos postos de saúde. As pessoas vão aos postos de saúde mesmo quando não há nenhuma necessidade para tal; dessa maneira, sobrecarregam o sistema nacional de saúde desnecessariamente. Posso levar este assunto à atenção do Ministro da Saúde se tiver a sorte de o apanhar em descanso de mais uma rusga nocturna no tenaz combate ao espírito do deixa-andar. Vou propor a realização de um estudo que vai identificar as razões que conduzem a essa situação bem como formas de a sanar. A promessa que vou fazer ao Ministério é de o ajudar a reduzir despesas e usar as suas infraestruturas de forma mais eficiente. Quem resistirá a isso?
Há temas à nossa espera. Devemos identificá-los, trabalhá-los e vendê-los aos que têm dinheiro para os comprar. Não é sofismo. Um problema formulado sociologicamente não é um falso problema. É um problema. Alguém mais inteligente do que eu já disse que o problema não é haver problemas; o problema é esperar que não haja problemas e pensar que ter problemas é um problema. Einstein rematou assim: os problemas que o mundo tem hoje não podem ser resolvidos com o nível de reflexão que os criou. Aquilo que escrevi numa contribuição anterior sobre a importância de cada um de nós se especializar numa área revela-se de extrema importância aqui. Para ser bom consultor, é necessário que a pessoa domine um assunto, seja saúde, educação, energia, comércio, etc. Sem esse domínio do tema, nada feito. Vou ainda falar dos tipos de consultorias, da negociação dos termos de referência, da realização e da elaboração do relatório final.
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