quinta-feira, julho 19, 2007

A caixa de ferramentas do sociólogo

Por falta de tempo vou continuar a publicar alguns textos que já havia publicado no início do blogue. Acho que são de interesse geral, sobretudo tendo em vista o interesse que a metodologia das ciências sociais tem para todos nós. Nos artigos que se seguem vou me debruçar sobre a questão das consultorias, começando com alguns reparos em relação à figura do assessor.

O assessor-sociólogo

Suponho que no nosso país o cúmulo da realização profissional para um sociólogo seja o convite para ser assessor de um decisor político. Refiro-me, como é óbvio, aos sociólogos que preferiram enveredar pelo caminho profissional não-académico. Pessoalmente, sempre me fascinou a ideia de estar em posição de contribuir com o meu conhecimento para uma melhor tomada de decisões por parte daqueles que têm a responsabilidade política para esse efeito. Não sei quantos sociólogos se encontram nesta situação neste momento; conheço apenas dois, cuja solidez na formação me sugere que estejam a fazer bom trabalho. Oxalá façam mesmo bom trabalho para o bem da inserção profissional da sociologia no mundo decisor.

Não tenho a certeza se existe algum manual do assessor, quer seja para o sociólogo, quer seja mesmo para qualquer outro incumbido com essa tarefa. O que faz um assessor? Ou melhor, o que, idealmente, pode fazer um assessor com formação em sociologia? O primeiro aspecto a ter em conta ao responder a esta pergunta é que o sociólogo, ao contrário do economista e do jurista – as duas opções óbvias para este cargo – não tem necessariamente um conhecimento técnico susceptível de ser aproveitado directamente por quem de direito. Isto, repito, não é nenhuma desvantagem. Antes pelo contrário. Vivemos num mundo em que o conhecimento técnico especializado só é necessário em situações também especializadas. A maior parte do conhecimento que o mundo precisa para continuar a andar é do domínio público. Qualquer pessoa inteligente com formação superior é capaz de aprender o conhecimento básico que economistas ou juristas usam para fazer valer a sua formação. Não me refiro aqui, é claro, às situações mais especializadas de parecer técnico sobre matéria económica ou jurídica que precisa de outros recursos científicos. Insisto, contudo, que esses pareceres são raros.

O sociólogo, portanto, traz consigo ao mundo profissional uma formação que, em princípio, lhe dá uma visão global das coisas e a capacidade de estabelecer relações estratégicas entre os assuntos. No fundo, o sociólogo é aquilo que toda a gente com formação superior devia ser. Perspicaz, estratégico, racional, crítico e consequente na sua abordagem do mundo. Neste sentido, um sociólogo pode, em minha opinião, trabalhar em qualquer sector. Pode assessorar o ministro da educação, do comércio, da saúde, da energia, das obras públicas, etc. Se eles quiserem ser assessorados, é claro. Em que consistiria uma assessoria da parte de um sociólogo? Basicamente, o ponto de partida do sociólogo deve ser a formulação de problemas. Repito: em Moçambique há mais soluções do que problemas! Ao formular os problemas, o sociólogo está a proporcionar ao decisor político uma base sólida para ele escolher uma solução. Escrevi propositadamente “escolher”, pois o sociólogo-assessor nunca deve apenas dar uma proposta de solução. Depois de formulado um problema, o sociólogo-assessor deve indicar várias soluções possíveis com os argumentos a favor e contra cada uma delas. Compete ao decisor político fazer a sua opção com conhecimento de causa.

O mais importante para mim, porém, é a organização do trabalho do assessor-sociólogo. O nosso trunfo é a nossa capacidade de lidar com o conhecimento. Devemos usar este trunfo com ousadia. Suponhamos que a Ministra do Trabalho me nomeasse sua assessora. De certeza que ela indicaria uma área específica sobre a qual ela gostaria de obter subsídios da minha parte. Ela podia indicar a “segurança social”, por exemplo. Se quero realmente fazer bem o trabalho, a primeira coisa que iria fazer era formar uma equipa de trabalho. Não acredito na seriedade do trabalho de um assessor-sociólogo que trabalhe sozinho. É verdade que as condições do país não permitem muito, mas é preciso reconhecer aí uma grande limitação. A equipa podia ser de duas pessoas: eu próprio e um pesquisador, também sociólogo (ou antropólogo). A segunda coisa que iria fazer seria dar ao pesquisador a tarefa de reunir toda a informação (leis, relatórios, estudos, livros) que existe sobre a segurança social moçambicana. Isto é o que chamamos de revisão da literatura. Essa revisão iria permitir identificar lacunas no nosso conhecimento sobre os actores, instituições, interesses e estruturas envolvidos na produção e reprodução da segurança social. A terceira coisa que faria seria reflectir sobre como suprir essas lacunas. Podia, por exemplo, entrar em parceria com universidades (economia, sociologia, direito) para encorajar a realização de trabalhos de fim de curso sobre essas temáticas ainda pouco conhecidas. É a forma mais barata de obter conhecimento. Não vou entrar aqui nas modalidades de financiamento que são coisas que pouco percebo. O importante é vincar a ideia de que o assessor-sociólogo não é uma biblioteca móvel, mas sim um arquivista. Ele gere o conhecimento. Quarta coisa que iria fazer seria identificar políticas em curso e elaborar critérios para a sua avaliação. Será que a nossa política de aposentação – nem sei se existe uma coisa assim – está a corresponder aos objectivos traçados? Será que o Instituto Nacional de Segurança Social é a melhor forma institucional de organizar esse assunto? Aqui também não vou ser eu a fazer esse trabalho; vou encomendar estudos a empresas de consultoria, a estudantes (licenciatura, mestrado e doutoramento).

É com base neste fundo de conhecimento que serei capaz de reagir às solicitações da minha patroa em termos de subsídios técnicos. Ela tem que ir ao parlamento falar sobre a segurança social? Não há problema! O que precisa de saber sobre o assunto? Que informação tenho? Quais são as várias maneiras de ver o assunto? Quais são as implicações de cada uma? Que opções de acção se apresentam? Ela tem que ir ao Conselho de Ministros? Não há problemas. Idem mesma coisa, como se diz em xangane. O assessor-sociólogo fornece argumentos. Tudo isto tem que ser feito, escusado será dizer, de forma concisa e clara. Ministros, por mais inteligentes que sejam, têm limitações de espaço no seu disco duro. O que não pode ser dito no espaço de uma página não interessa.

É assim que vejo o trabalho de um assessor-sociólogo: fazer o ponto de situação sobre um assunto; recolher a informação existente; identificar lacunas em termos de informação e de pesquisa; encomendar estudos; avaliar políticas. Não falei da perspectivação do futuro para não entrar muito nos detalhes daquilo que compete ao próprio decisor político. Acima de tudo, o assessor-sociólogo deve ter a coragem de dizer ao seu chefe a verdade, isto é aquilo que os seus instrumentos de trabalho lhe revelaram como sendo conhecimento válido. Um dia teremos chefes em Moçambique que vão ter a coragem de dizer aos seus assessores: digam-me a verdade, mesmo que corram o risco de perder o vosso emprego!


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