O problema (e)
Vou encerrar esta reflexão sobre o problema com uma pequena mãozinha aos que estão a escrever uma tese. Justificação do tema: é porque gosto muito de crianças; é porque os doentes de HIV me metem pena; quero contribuir com mais um estudo para a compreensão da exclusão social no nosso país ... estas são algumas das justificações que tenho lido em projectos de tese. Nenhuma delas me parece útil do ponto de vista académico. Têm um pouco – e aqui lanço todo o tipo de impropérios às famosas consultorias – o carácter de um pequeno projecto de desenvolvimento. A coisa piora quando vejo, na proposta, coisas como “objectivos gerais” e “objectivos específicos”. De hipóteses nem rasto. Um projecto de tese ou trabalho académico não é projecto de desenvolvimento. A sua utilidade não se mede pelo impacto que vai ter na sociedade. A sua utilidade mede-se pela contribuição que vai fazer à ciência: redefinição de conceitos; redimensionamento de uma teoria; melhoria de métodos; promoção do interesse numa determinada abordagem ou tema.
Infelizmente, a dificuldade em justificar o tema resulta de vários mal-entendidos. Vou apontar apenas três. O primeiro é simples. Muita gente pensa que precisa de produzir resultados e entende esses resultados como soluções a problemas práticos. Discordo. O trabalho de tese não precisa de produzir nenhuma solução prática. O trabalho de tese é uma oportunidade que o estudante tem para demonstrar que sabe trabalhar sociologicamente e de forma autónoma. Isso significa que ele deve formular uma problemática, ler literatura relevante, avaliá-la, seleccionar métodos, aplicá-los e submeter isso por escrito à apreciação crítica dos seus pares. É só isso: o resto é conversa de gente que confunde ciência com política.
O segundo mal-entendido já é um pouco complicado. Muitos pensam que um trabalho académico só é bom quando confirma a hipótese formulada. Isto é grave. Se essa fosse a função da pesquisa a ciência, que depende do debate de ideias, não avançava. Estava todo o mundo a falsificar resultados! Um trabalho académico pode confirmar assim como infirmar uma hipótese. Se eu parto, por exemplo, da ideia de que a proibição de venda de bebidas alcoólicas nas bombas de combustível manifesta certas relações estruturais entre o poder e certos sectores económicos o meu trabalho não está apenas bem quando, de facto, comprova isso. Mesmo se chegasse à conclusão de que estava enganado, o trabalho continuaria bom. Para isso, contudo, é necessário que o estudante demonstre ter obedecido a todos os procedimentos que fazem parte do trabalho científico. Só isso conta, o resto, mais uma vez, é conversa fiada.
O terceiro é mesmo complicadíssimo. Muitos pensam que podem formular um projecto de pesquisa sentados num “chapa” com os olhos postos na carteira ou no bolso onde arrumaram o “celular”. Alguns podem, mas isso é muito complicado. Formular um projecto de pesquisa é muito trabalho. É, provavelmente, a parte mais trabalhosa de todo o empreendimento. É preciso ler estudos sobre a temática que nos interessa, livros e artigos sobre os conceitos que nos atraiem, conversar com pessoas abalizadas, formular e reformular perguntas e hipóteses. Não é raro ser abordado por pessoas com uma única frase “doutor, gostava de escrever sobre a exclusão social das crianças do bairro de Hulene”, seguida das inevitáveis perguntas “qual é o quadro teórico que posso usar?”, “onde posso encontrar literatura?” e “quais são os conceitos que devo utilizar?”. Escrever uma tese é complicado, muito mesmo, sobretudo para quem o quer fazer de ânimo leve. Escrever uma tese significa saber em primeiríssimo lugar o que a comunidade científica já disse sobre o assunto. Só nessa base é que podemos formular um projecto de pesquisa.
E é daí onde virá a relevância do trabalho. O que diz a sociologia em relação à exclusão social de crianças? Quais são as abordagens mais usadas? Porquê? Que resultados já produziram? Existe alguma coisa feita em Moçambique sobre esse assunto? O que foi apurado? Se não existem, porque não existem? Alguma razão científica? Que metodologias são empregues para analisar esse assunto? São as mais adequadas? Podem ser replicadas? Normalmente, estas perguntas todas vão desembocar em três lugares. O primeiro lugar pode ser lá onde o estudante acha que existe um silêncio total da sociologia sobre o assunto. Ele vê-se na obrigação de abordar o assunto pela primeira vez. Duvido que isto seja possível. A originalidade revela apenas pouca leitura. Muitos, por regra, escondem-se por detrás da ideia de que não há nada publicado em Moçambique. O segundo lugar pode ser lá onde o estudante acha que já se fez alguma coisa. Face a isso ele considera necessário verificar se as metodologias e abordagens empregues cumprem o que prometem. É aí onde alguém, por exemplo, poderia pegar num estudo feito por João Colaço, Carlos Serra, Teresa Cruz e Silva ou Conceição Osório, entre outros, e ver se replicando-o ele produz os mesmos resultados. A ideia não é de chegar à conclusão de que eles nos enganaram, mas sim confirmar as suas observações, melhorar os instrumentos, descobrir novos caminhos e aprofundar a discussão. Finalmente, o terceiro lugar pode ser lá onde o estudante considera que existem aspectos que a sociologia ainda não considerou na abordagem de um certo assunto. Por exemplo, os excelentes trabalhos sobre a exclusão social orientados por Carlos Serra privilegiam uma abordagem fenomenológica. Que resultados obteríamos se optássemos por uma outra abordagem teórica? Os mesmos? E se fossem diferentes, o que ganhávamos nós? O que ganhava a sociologia? O que ganhavam aqueles que utilizaram a abordagem fenomenológica?
Espero que isto já esteja claro. A próxima vez que ler uma tese e ver uma frase como esta “com este estudo espero contribuir com mais um trabalho para a melhoria das condições das mulheres vendedoras de mercado em Maputo...” desconfie da sua utilidade científica. Foi de certeza elaborada por alguém que se não preparou devidamente. Não leu literatura relevante, não abriu os seus horizontes metodológicos e está refém da razão sofista que domina a nossa esfera intelectual: conhecimento é para se vender. Se queremos realmente avançar com a nossa ciência temos que intervir ao nível de conceitos, metodologias e teorias, e não ao nível de resultados práticos. De resto, práticos para quem?
O pior, contudo, é o que costuma vir na conclusão: Recomendações. Recomendações? Dirigidas a quem? Ao Ministro da Educação? Ele é que vai avaliar a tese? Se a conclusão tem alguma utilidade para além de resumir o que foi dito, essa utilidade consiste em dizer o que a sociologia ganha com este trabalho. Um trabalho que não é capaz de se pronunciar sobre isto é um trabalho problemático do ponto de vista académico. Revela que a pessoa que o elaborou devia ainda continuar nos bancos da faculdade até perceber o que é fazer sociologia. Ou abandonar a coisa e deixar-nos a sós.
4 comentários:
Na semana passada orientei um curso avançado sobre elaboração de proposta de pesquisa para docentes (licenciados e mestres) de uma das nossas universidades públicas. Uma das perguntas recorrentes relacionava-se, justamente, com a justificação do estudo. A resposta e sugestão que lhes dava resume se no texto que apresentas aqui. O meu espanto - que na verdade não foi espanto algum - foi confirmar e reforçar uma percepção. A percepção segundo a qual os que supostamente deviam orientar os estudantes para uma visão menos utilitarista de ciência são que a perpectuam.
sim, é isso. creio que se trata também de um processo normal de desenvolvimento da actividade científica no país. até que a academia tenha carácter próprio e se defina mesmo como um campo à parte (para ti que és bourdiano...) haverá necessariamente fricções com o lado prático. no fundo é a mesma discussão da relevância da ciência na base do combate à pobreza.
Caro Dr. El�sio,
Esta finalidade teor�tica atribu�da � ci�ncia, � uma exclusividade da sociologia (e de outros campos das ci�ncias sociais) ou � transversal para a ci�ncia como um todo? A quem cabe importar e adaptar para o quotidiano, os resultados da actividade cient�fica? O cientista? O t�cnico? At� que ponto podemos separar estas duas figuras? Hipoteticamente, o Dr. El�sio � convidado a fazer uma consultoria. Continuar� a ter a mesma vis�o sobre a ci�ncia? O que acontece frequentemente � que, aqueles que solicitam a consultoria, esperam no final um aconselhamento por parte do consultor. E a� qual � a posi�o que vai assumir? Por outro lado, � sabido que nem todos os candidatos ao curso de sociologia (e de outros campos das ci�ncias sociais), querem ser investigadores, ent�o como assegurar a sua inser�o no mercado do trabalho? Na minha singela opini�o, acho que o contexto � que vai determinar (ou condicionar) o sentido que atribuo � ci�ncia, independemente das minhas valora�es ou convic�es cient�ficas, j� que o mesmo individuo, em dependendo do papel que estiver a desempenhar, pode conferir � ci�ncia um sentido teor�tico ou utilitarista.
Contudo, considero o artigo do Dr. El�sio pertinente e actual, na medida em que ajuda a interpelar o sentido que atribu�mos as universidades em Mo�ambique; vamos construir mais institutos polit�cnicos ou universidades (se bem que em Mo�ambique, parece n�o haver diferen�a entre os dois)? Que tipo de formandos queremos ? Vamos responder as necessidades do mercado ou da ci�ncia? Ou vamos comportar-nos como prostitutos intelectuais?
Sauda�es
JJM
caro jjm, obrigado pelas suas observações. são muito pertinentes. por essa razão decidi voltar a publicar alguns textos antigos sobre a aplicação prática do conhecimento sociológico. espero podermos continuar a discussão depois de os ter lido. verá que a minha posição não é dogmática, embora gostasse de insistir na especificidade do conhecimento científico (sobretudo nas ciências sociais). repare que comento que o problema também é de ainda não termos definido claramente o campo científico entre nós, acrescido do facto de que nos nossos cursos de ciências sociais não encorajamos a distinção entre a investigação e o trabalho prático imediato.
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