O problema (a)
Tenho dito e escrito que a maior contribuição que a sociologia pode fazer à sociedade, política e economia consiste em formular problemas. Tenho consciência de que nunca consegui convencer ninguém a este respeito. Mesmo os estudantes aceitam esta máxima por conveniência académica – notas! Reconheço, é claro, que esta ideia não é incontroversa. Na verdade, ela entra em dissonância com uma ideia mais ou menos positivista, segundo a qual a função da actividade científica devia ser de ajudar na resolução de problemas. A ideia de uma ciência positiva vem justamente daí: através do conhecimento positivo seremos capazes de tornar o mundo num lugar mais agradável.
Podia insistir sobre este ponto para procurar descrever uma linha genealógica entre o positivismo e o totalitarismo. Não o vou fazer para não misturar assuntos. Fico apenas pela minha própria convicção. O que significa, então, dizer que a sociologia formula problemas? Bom, isso significa que não damos as coisas por adquirido, somos críticos e exercemos o nosso dever cívico brilhantemente resumido por Carlos Serra como a recusa de aceitar verdades simples. Na realidade, um dos nossos maiores problemas (!) em Moçambique – já escrevi sobre isto – é de procurar sempre por soluções – quase que como reflexo – para problemas mal definidos ou que ainda nem foram formulados: vamos combater a corrupção! Vamos eliminar a pobreza! Vamos acabar com a criminalidade! Vamos reduzir os índices de infecção do HIV! Vamos acabar com a intolerância! Vamos promover a Unidade Nacional!
É aqui onde residem, talvez, algumas dificuldades dos sociólogos ainda em formação ou que se encontram já a trabalhar. Dos estudantes tenho recebido pedidos de apoio na formulação da tese; dos que estão a trabalhar recebo solicitações para ajudar a “abordar o problema sociologicamente”. Trata-se de duas faces da mesma moeda. Tanto num como no outro caso, o desafio central é de formular um problema. Ou por outra, onde está o problema? Qual é o problema? Porque o problema é um problema? Que razões temos nós para supor que estejamos perante um problema? É problema para quem exactamente? Como é que o problema se articula com outros problemas ou mesmo soluções?
Vamos ser mais práticos. No ano passado, o Ministério do Comércio convocou os proprietários de bombas de combustível para discutir a questão da venda de bebidas alcóolicas. A ideia do Ministério até era de proibir a venda. Apoiava-se nos elevados índices de acidentes de viação no país para dizer que a proibição poderia contribuir para a redução desses acidentes. Suponhamos que o Ministro tivesse pedido ao seu assessor sociólogo para propor soluções ao problema, o que diria ele? Iria o sociólogo (ou socióloga, subentenda-se) fazer o mesmo que o Ministro fez e mandar proibir a venda? Iria ele propor campanhas de sensibilização dos automobilistas? Iria ele sugerir a compra pela polícia de trânsito de aparelhos de detecção de álcool? Como é que o nosso sociólogo iria “abordar o problema sociologicamente”? Já agora, de que maneira é que esta questão poderia ser transformada num trabalho de tese?
O sociólogo iria, em primeiro lugar, desconfiar. Ele iria procurar saber se entendeu o problema. Qual é o problema? O Ministério do Comércio pareceu estar a sugerir uma relação entre a venda de bebidas alcólicas nas bombas de combustível e o número de acidentes de viação no país. É uma hipótese clássica: quanto mais álcool for vendido nas bombas de combustível, maior será o número ou a frequência de acidentes de viação. Temos duas variáveis em relação causal: venda de álcool e número de acidentes. Está claro este problema? É evidente que não! Há várias inferências que são feitas: (1) As pessoas que compram álcool nas bombas de combustível, consomem-no logo ali, entram no carro e pufff! (2) as pessoas que compram álcool nas bombas de combustível compram-no em quantidades suficientemente grandes para ficarem de tal maneira “grossas” que perdem o controlo do carro; (3) os acidentes que se verificam em Maputo resultam da condução em estado de embriaguês; (4) essa embriaguês vem de álcool comprado em bombas de combustível; (5) todos os acidentes que ocorrem em resultado de condução em estado de embriaguês precisam necessariamente de ser reduzidos; e por aí fora. Deixo como trabalho de casa à imaginação de cada um de nós prosseguir com as inferências. São muitas, vão ficar espantados!
O sociólogo iria, em segundo lugar, interrogar esta formulação do problema. Existem provas que fundamentam esta hipótese? Aproveito este ponto da discussão para chamar atenção para um aspecto muitíssimo importante, frequentemente discurado por muitos de nós: a formulação de um problema (no Ministério ou na faculdade) não é coisa que se faça à sombra de uma acácia na base de cogitação. Não se faz na praia, no cabelereiro ou na barraca. Muito menos se faz perguntado simplesmente ao supervisor. É um trabalho de investigação! É preciso informar-se, obter dados, ler relatórios sobre problemáticas idênticas, entrevistar pessoas, observar o comportamento das pessoas, etc. O que dizem as estatísticas dos serviços de viação do Ministério do Interior? Quais são as quantidades de álcool vendidas pelas bombas de combustível? Chegam mesmo para justificar a inferência? Quando é que se compra mais álcool nas bombas? Os acidentes verificam-se nesses dias? Quem compra álcool? Homens? Mulheres? Jovens do sexo masculino? Feminino? Nacionais? Estrangeiros? Gente de Maputo? De fora? Onde se verificam os acidentes? Perto das bombas? Em que tipo de estradas? A que horas do dia ou da noite? Que tipo de viaturas estão envolvidas? Que tipo de acidentes são? Atropelamentos? Choques? Derrapagens? Aqui também deixo como trabalho de casa à imaginação de cada um de nós formular mais perguntas necessárias à compreensão da dimensão do problema. Há mais, não duvidem!
O sociólogo iria, em terceiro lugar, partir da resposta a estas perguntas todas para as soluções. É bem provável que a proibição se afigure, realmente, como a melhor solução para o problema – se, de facto, o problema se apresentar dessa maneira. Mas é também possível chegar à conclusão de que o problema não é do álcool vendido nas bombas de combustível, mas sim do tipo de pessoas que vão lá comprar o álcool. Se não for nas bombas de combustível vai ser noutro sítio. O Ministro vai também proibir? A solução, nesse caso, seria, talvez, de fazer uma daquelas famosas campanhas de sensibilização dos automobilistas, tipo cartazes publicitários com dizeres “conduzir sóbrio é maningue naice” ou “conduzir sóbrio é que está a dar” ou ainda “pode ser a nossa cerveja, à nossa maneira, mas a morte é a mesma”. Isto é que é fazer sociologia. FORMULAR PROBLEMAS! Mais uma vez, dêem largas à imaginação e verão que há várias formulações possíveis do problema. Não é o álcool, mas sim as estradas, os sinais de trânsito, o estado mecânico das viaturas,...
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