sexta-feira, dezembro 28, 2007

O problema da sociologia

Para os que têm medo do imperialismo da sociologia

No meio de todo o debate que tem havido pela blogosfera moçambicana em torno do activismo, competência no debate e crítica social uma inquietação que surgiu com muita frequência esteve ligada à própria sociologia. Alguns participantes queixaram-se da tendência imperialista de alguns sociólogos que nas suas participações em vários debates pareceram reclamar um papel especial para a sua disciplina bem como um conhecimento geral válido em todos os outros campos científicos. Interpreto estes receios como um convite a uma reflexão sobre a própria disciplina. Pessoalmente, não acho que tenha esse comportamento. Como escrevi numa discussão, tenho aprendido muito da leitura dos escritos de outros bloguistas, sobretudo de bloguistas que escrevem a partir de uma disciplina diferente da sociologia. Tenho-os interpelado como é normal no mundo académico, mas nunca no intuito de os obrigar a pensar “sociologicamente”.

O título que escolhi para esta postagem é propositado. Não é, na verdade, da minha autoria. É de Georg Simmel, um grande pensador alemão do século XIX, e é o primeiro capítulo do seu livro com o título “a sociologia”. Simmel apresenta ideias muito interessantes sobre a sociologia que me parecem responder um bocado às inquietações sobre o imperialismo dos sociólogos. Na verdade, são duas as ideias que ele apresenta. A primeira é muito simples. Ele constata uma mudança radical na concepção da vida humana na Europa no século XIX. Essa mudança consiste na procura de explicações sociais para o destino individual. Como ele próprio escreve, a ciência do Homem tornou-se na ciência da sociedade humana.

O “social” é concebido como algo que é produzido pelas pessoas em interacção e, consequentemente, como o que deve ser previligiado para entender as coisas da vida humana. A história, por exemplo, quando relata acontecimentos passados, fá-lo na perspectiva dos factores “sociais” que explicam o comportamento individual. Esta ideia leva Simmel a concluir que um campo tão vasto como o que esta mudança radical torna visível não pode ser o objecto de uma única disciplina. A “sociologia”, portanto, não pode ser a ciência que estuda o resultado desta mudança radical. Ela é, quando muito, diz Simmel, apenas um método, um método, portanto, comum a todos os empreendimentos científicos que se interessam pelos fenómenos da vida humana: direito, psicologia, história, economia, ciência política, etc. Simmel diz mesmo que a sociologia, como método, é comparável à indução, a qual, também, não pode ser vista como uma ciência.

A segunda ideia é menos interessante para as inquietações. Na verdade, Simmel procura, apesar de tudo, definir o campo da sociologia. Se ela não pode ter como objecto a própria condição humana – já que isto é feito por várias outras disciplinas – o que sobra? É desta reflexão que vem a proposta de Simmel de definir a sociologia como o estudo das “formas de associação”. Espero estar a traduzir a palavra original correctamente. No original em alemão a palavra que ele emprega é “Vergesellschaftung” que quer dizer algo como “o processo de se tornar sociedade”. Portanto, a sociologia deveria ser o estudo destas formas. A “associação” tem lugar em tudo o que é área da vida humana: tribunal, igreja, família, lazer, etc. Esta concepção da sociologia é muito específica e tanto quanto posso avaliar pelo que é produzido na sociologia não tem muitos seguidores. Mas é extremamente interessante e útil. Ela permite interpelar a realidade social de uma forma bastante produtiva.

Simmel interessou-se, por exemplo, sempre por coisas que outros sociólogos consideravam supérfluas: a moda, os sentidos, a rosa, a pega, e por aí fora. O seu livro sobre o “dinheiro” constitui um dos maiores escritos que existem sobre o sistema capitalista, em nada inferior ao “Capital” de Marx. E isto por causa da qualidade de perguntas que é possível colocar. Um dos textos de Simmel que eu considero magistral é o que lida com o pobre. Simmel mostra nesse texto como o “pobre” se torna numa categoria sociológica relevante. O seu argumento é de que não é necessariamente a própria condição do pobre – o facto de ele sofrer privações, etc. – que faz dele pobre. O que faz dele pobre é a assistência, isto é quando a sociedade presta ajuda a alguém. Isso dá visibilidade ao “pobre”. Tenho tentado usar esta ideia na minha própria reflexão sobre a pobreza em Moçambique. Já vi esta minha reflexão ridicularizada num blogue moçambicano onde não se “ofende ninguém” com a implicação de que estou a recusar reconhecer a existência de pobres. Na verdade, o meu argumento tem sido de que o combate à pobreza só vai começar a ser sério quando o país institucionalizar a categoria “pobre” através, por exemplo, de um sistema de segurança social. Foi esta reflexão que me levou a ter dúvidas em relação à Lei de Protecção Social que o Presidente assinou no início deste ano. As ideias de Simmel permitem-me, acho, interpelar toda a concepção do problema que nós temos e de ver os limites do que se tem feito.

Portanto, na perspectiva de Simmel as inquietações manifestadas em relação à atitude de alguns sociólogos têm muito a ver com o próprio estatuto da disciplina. Não é imperialismo, mas sim a dificuldade de definir o seu verdadeiro objecto. Neste ponto o que nos pode safar é talvez uma discussão mais metodológica. Quando eu transponho estas fronteiras disciplinares invisíveis não o faço no intuito de impor a sociologia aos outros. Faço-o porque a sociologia me impõe um objecto bastante vasto que só posso restringir com um debate metodológico. O que tenho feito com interpelações aos colegas. Aqui levantam-se várias questões interessantes, mas restrinjo-me apenas a duas.

Por um lado, há quem diga, por exemplo, que a blogosfera é um espaço de liberdade individual onde cada um de nós devia ter a liberdade de se exprimir como bem entender e sobre o que quiser. Apoio este argumento, mesmo se no fundo me parece algo contraditório. Se todos deviam ter a liberdade de se pronunciarem como bem entenderem e sobre o que quiserem porque é que nos devemos chatear se alguém nos critica pelas nossas opções? Não estará essa pessoa no seu direito de se exprimir como bem entender? Sem debate metodológico sério é difícil responder a esta questão. Por outro lado, há os que dizem que há várias maneiras de fazer ciência, uma ideia com a qual eu não estou de acordo. O que querem dizer, na verdade, é que existem abordagens diferentes de um mesmo assunto. Concordo. Só que me parece também interessante saber reconhecer a diferença quando ela existe. Como é que sei que fulano de tal está a abordar um tema de forma diferente? Como é que sei que alguém está errado e eu estou certo, ou vice-versa? Dizer que isso não interessa é conduzir-nos, parece-me, ao relativismo, uma posição que não me parece necessariamente apetecível. Aqui também não me parece fácil fugir ao debate metodológico.

O meu “imperialismo” está, portanto, justificado. Estou, por um lado, a exercer o meu direito de me exprimir livremente – mesmo se isso significa criticar os outros – ao mesmo tempo que estou, por outro lado, a fazer a ciência à minha maneira – mesmo que isso signifique dizer que os outros estão errados. Assim ou assim, voltamos sempre ao ponto de partida: o método.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

À esquerda da direita ou à direita da esquerda?

Aos que ainda não se decidiram se querem ser da esquerda/direita ou de Moçambique

Durante o período revolucionário em Moçambique aprendi nas sessões de estudo político que Pierre-Joseph Proudhon, um dos maiores socialistas franceses do século XIX, era um reaccionário. Há cerca de dois anos li “A miséria da filosofia” de Marx e Engels e dei-me conta de que era uma resposta bastante polémica – mas de uma ironia muito subtil e gostosa! – ao livro de Proudhon com o título “A filosofia da miséria”. Li uma recensão crítica escrita por Friedrich Engels a esse livro de Proudhon e, apesar da elegância da escrita de Engels e da contundência dos seus argumentos, comecei a gostar de Proudhon. Já agora, um reparo muito interessante: Proudhon, tal como muitos socialistas franceses da sua época, alinhava com as ideias de Feuerbach!

Em 1846 houve uma troca de correspondência entre Marx e Engels, de um lado, e Proudhon, de outro. Os primeiros estavam a convidar o último a se juntar a um movimento continental de consciencialização do movimento operário através de uma publicação em que esperavam contar com Proudhon lá da França. Na altura Marx encontrava-se exilado em Bruxelas. A resposta de Proudhon ao convite formulado pelos grandes gurus do comunismo europeu é bastante instructiva em relação ao problemático entendimento que se tem do posicionamento ideológico na academia moçambicana. Repito: não há nada melhor que cada um de nós ler as fontes e tirar as suas conclusões. Proudhon respondeu a Marx no dia 17 de Maio de 1846. Após dizer que estava interessado em fazer parte dessa correspondência ele comenta vários aspectos contidos na carta de Marx. Vou pegar em alguns para contextualizar o que se pede de nós quando somos exortados a sermos da esquerda ou da direita. Depois decidam se ainda querem escolher...

Proudhon começa por dizer que é obrigação de todo o socialista – portanto, pessoa da esquerda – manter por enquanto uma atitude de crítica e dúvida. E desenvolve o seu pensamento nos seguintes termos: “claro que devemos trabalhar juntos na procura das leis da sociedade, da maneira como essas leis são aplicadas e do processo através do qual as podemos descobrir; mas por amor de Deus! Quando tivermos demolido todos os dogmas a priori, não devemos nós também indoctrinar o povo!”. Proudhon refere que não quer ser como Martinho Lutero que substituiu a teologia católica por uma teologia protestante e prossegue: “vamos ter uma discussão polémica boa e honesta; vamos dar ao mundo um exemplo de sabedoria e tolerância clarividente”. Mas só pelo facto de sermos a vanguarda do movimento, continuou este grande mandarim avant la lettre, “não vamos instigar uma nova intolerância, não nos vamos impor como apóstolos de uma nova religião, mesmo se se tratar da religião da lógica, ou da razão. Vamos dar as boas vindas e encorajar todos os protestos, vamos acabar com todos os exclusivismos e todos os misticismos. Não vamos considerar nenhuma questão completamente respondida e quando tivermos usado o nosso último argumento vamos começar de novo, se for necessário, com eloquência e ironia. Nesta condição posso me juntar a vocês com prazer, caso contrário, não!”.

Mais adiante nessa carta Proudhon debruça-se sobre uma expressão recorrente na carta de Marx – “au moment de l’action” (na altura da acção ou, para dizer as coisas em bloguês activista: na mudança do mundo!) – e adverte Marx contra os perigos de uma acção revolucionária e escreve: “o nosso proletariado [o francês] está tão sequioso de conhecimento que nos receberia muito mal se tudo quanto nós tivéssimos para lhe dar fosse sangue. Em poucas palavras, em minha opinião seria má política usar a linguagem da exterminação. As medidas rigorosas virão em seu tempo; nisto o povo não precisa de nenhuma exortação”.

Podia continuar a citar Proudhon, mas acho que estas passagens são suficientes para repetir o alerta: cuidado com as exortações à acção! São para vocês deixarem de pensar. É verdade que Proudhon ficou um dos piores inimigos do Marxismo, mas a história parece ter mostrado que a sua prudência não foi de todo má. Numa altura em que jovens cientistas sociais são chamados a se posicionarem à esquerda ou à direita (de quê?), talvez fosse bom fazerem um recuo histórico e inteirarem-se do que outras pessoas discutiram sobre os mesmos assuntos. É mais do que certo que a exortação ao posicionamento é política e tem como função sugerir a ideia de que agora é tempo de acção. Quando o nosso povo espera de nós reflexão séria e profunda o que nós – ou alguns de nós – lhe prometemos é sangue. As questões já foram exaustivamente respondidas. Agora é tempo de acção. Já foram? É mesmo tempo de acção?

No interesse da acção eu gostaria de formular o desejo de que o ano de 2008 nos traga académicos que antes de serem da esquerda ou da direita sejam directos no debate!

quarta-feira, dezembro 26, 2007

O Leviatão "crítico"

Aos que têm a ousadia do conhecimento

Quem não quiser ser chamado de mandarim tem que evitar algumas coisas: fazer uso dos recursos que a sua própria língua materna lhe oferece, usar expressões em latim e citar clássicos. Isso é demagogia e para aqueles que sabem como a Frelimo revolucionária utilizou essa expressão na prática, fica clara a gravidade da situação. Essas coisas só podem ser feitas por poucos na nossa esfera pública. Esses podem usar uma expressão vernácula para baptizar a sua crónica semanal no jornal e podem citar profusamente Bourdieu, Schoppenhauer, Marx , Foucault, Simone de Beauvoir, etc. Eles sabem do que estão a falar. Não são mandarins.

Vou quebrar estas regras da não-competência no debate para trazer à vossa memória um dos percursores do tipo de cultura académica que está a tomar posse da nossa esfera pública. Peço desculpas por isso, prometo que é capaz de ser a última vez que faço isso. O grande percursor a que me refiro é Thomas Hobbes, o grande pensador inglês do século XVI. Ficou famoso, como todos que admitem tê-lo lido sabem, com a sua obra “O Leviatão” em que tentava fundamentar o Estado. Num dos seus mais famosos aforismos escrevia ele que a vida do Homem era “solitária, pobre, feia, brutal e curta”, uma descrição que não deve estar muito longe do que é a experiência de muitos moçambicanos hoje em pleno século XXI. O que deverá ter recebido menos atenção dos que leram Hobbes é a sua opinião sobre os que não viam o mundo como ele próprio o via.

Ele escreveu o seguinte: “a sua lógica, que devia ser a teoria da inferência, não consiste de mais nada senão de mesquinhices com palavras e truques com o intuito de confundir as pessoas que se atreverem a interpelá-los... não há nada absurdo que não tenha sido já dito por alguns filósofos antigos...”. Quando leio estas coisas não consigo resistir à tentação de concluir que os grandes “críticos” da nossa esfera pública não querem que mais ninguém leia os clássicos para ninguém saber de onde vêm as suas ideias brilhantes. O alvo da crítica de Hobbes era o Idealismo na filosofia e sua preocupação com a “ideia do bem”. Hobbes tinha uma resposta simples para o problema da humanidade: Nenhum desses filósofos tem autoridade para falar sobre essas coisas porque todas elas são criações dos homens. A humanidade encontra-se num estado natural todo ele dominado pela necessidade. É a necessidade que estrutura tudo o resto.

Segundo Hobbes, a necessidade rege-se pelo princípio do poder. Toda a gente quer o poder. Daí que haja três fontes principais de conflitos nas sociedades humanas: a concorrência, a desconfiança e a fama. Estas três fontes são interessantes para percebermos a qualidade do debate na nossa esfera pública. Os que são motivados pela concorrência querem dominar os outros para seu próprio proveito. Em moçambiquês: o governo. Os que desconfiam querem se defender dos primeiros. Em moçambiquês: os “críticos” sociais. Os que querem a fama são uns pavões. Em moçambiquês: mandarins, fogosos, soluções-aspirina, etc. Toda a semelhança com os hábitos de argumentação de alguns blogues moçambicanos é pura coincidência. A solução para tudo isto – é preciso passar à acção! – é o Leviatão, esta serpente mítica que vai trazer a ordem ao mundo, isto é o Estado da igualidade social.

E é aqui onde se notam as credenciais democráticas duvidosas dos “críticos”. O problema de Moçambique não é de que o governo não seja autoritário e arbitrário. O problema é de o ser para causas erradas. Tinha que ser em nome das ideias que os “críticos” defendem. Aí não haveria problemas. Tal e qual Hobbes. Os “críticos” querem um Leviatão muito especial que vai submeter toda a gente à sua disciplina e à sua ordem. Daí os assomos de intolerância e a impaciência para com aqueles que preferem pensar por si próprios. Daí também o frenesim com que é festejada mais uma crítica e mais uma redundância. E daí também que se procure sempre projectar a imagem de que dizer algo que se supõe não ser do agrado do governo é um acto de suprema coragem que põe em perigo a pessoa que teve a ousadia. Este pessoal não procura a verdade no sentido em que outros académicos a procuram (e não a encontram). Este pessoal produz a verdade através da repetição de conclusões previsíveis - é culpa do sistema - e da convicção com que fala ou escreve. Nós os mandarins somos do partido da verdade; os “críticos” são a verdade. Já ouvi Marcelino dos Santos a falar assim num outro contexto.

Eis, então, uma chamada de atenção: a vida do moçambicano pode ser solitária, pobre, feia, brutal e curta, mas tudo isso é por causa dos que, segundo Hobbes, querem ficar senhores dos homens, suas mulheres, filhos e gado? E a única solução é a resistência partindo do princípio de que é cada qual por si e Deus só para os que não são nem da direita, nem da esquerda? Não nos interessa saber como os que nos exortam a ver o nosso mundo dessa maneira chegaram eles próprios a essas conclusões? Basta confiar nas suas boas intenções?

Se não tivesse prometido não voltar a citar mais um pensador clássico havia de fazer recurso a Kant e sua famosa exortação para termos a ousadia do conhecimento. Essa ousadia é que faz de nós verdadeiros cidadãos, cidadãos com maturidade. No tempo colonial introduziu-se a distinção entre indígena e assimilado justamente para distinguir, de entre outras coisas, o cidadão do não-cidadão. Espero que os que dão ouvidos à visão hobbesiana do mundo pensem nisso também, se se atreverem, é claro.

Mudar o mundo

Aos que não têm medo de pensar por si próprios!

É de Karl Marx a seguinte constatação: o que muitos filósofos até aqui fizeram foi interpretar o mundo de formas diferentes; o importante, contudo, é transformar o mundo. Esta é uma das suas críticas a Ludwig Feuerbach, mais especificamente a décima primeira tese. Muitos cientistas sociais que atravessam as fronteiras do conhecimento meramente científico para a acção ou activismo socorrem-se desta máxima marxiana: não só filosofar, mas mudar o mundo. E, de facto, quando olhamos à nossa volta e vemos os vários problemas que o mundo apresenta, sobretudo o nosso mundo de Moçambique, não há como não nos deixarmos seduzir por uma máxima tão actual e relevante. De que nos vale todo o conhecimento do mundo se com ele não somos capazes de tornar o mundo melhor?

A crítica de Karl Marx à filosofia é enformada por uma desconfiança enorme em relação à ética. Com essa desconfiança Marx juntava-se a muitos outros ilustres pensadores, por exemplo, Thomas Hobbes, que achavam que a discussão de questões morais só fazia perder tempo aos filósofos. Marx, em particular, via toda a discussão ética fora do seu quadro de raciocínio como um efeito ideológico que tinha como função servir os interesses das classes dominantes. As ideias dominantes são as ideias dos dominantes, costumava ele dizer. Nessa ordem de ideias, ao invés de perder tempo com discussões estéreis era importante passar à acção, isto é identificar os aspectos sociais, económicos e políticos cuja mudança – se necessário à força – iriam alterar a ordem das coisas e colocar as classes oprimidas no seu devido lugar histórico.

Portanto, em certa medida, com a sua própria exortação à mudança Marx contradizia-se no que dizia respeito à sua própria base filosófica. A questão não era, na realidade, que a moral ou ética não mais contavam. A questão era que ele já tinha encontrado a mãe de todas as soluções para os problemas éticos: o materialismo histórico. Só identificando a lógica da história é que poderíamos ter uma base para resolvermos todos os problemas éticos e morais. E a lógica da história era a luta de classes que nos iria conduzir a uma sociedade sem dominação e exploração do homem pelo homem. Parecendo que não, Francis Fukuyama inspirou-se muito em Marx para desenvolver a sua ideia do fim da história. O fim da história, para Marx, significava o fim de toda a discussão ética. Cada um de nós podia ser tudo: de manhã iríamos fazer filosofia, à tarde ir à pesca, etc. Era preciso respeitarmos o curso da história para podermos gozar a atitude do intelectual mandarim que pensa pelo prazer de pensar. A questão, mais uma vez, não era que a discussão filosófica sobre a ética não fosse importante; a questão era que Marx já tinha a solução que tornava supérflua toda a discussão. Espero que os que se deixam facilmente levar por este tipo de exortações estejam a prestar atenção. Quando alguém vos diz para deixarem de pensar e passarem à acção, essa pessoa não está necessariamente a agir no interesse dos desgraçados do mundo; essa pessoa está simplesmente a impor o seu pensamento sobre os outros. Está a proibir-vos de pensarem por vocês próprios. Cuidado!

Felizmente, a história ainda não acabou. Tivemos a União Soviética e tivemos também o Moçambique do período imediatamente a seguir à independência que nos mostraram que se pode, de facto, passar à acção, mas os problemas éticos não acabam. A ditadura do proletariado e a justiça revolucionária serviram em todos estes casos para tornar isso evidente. E o que eles mostraram foi que Marx estava profundamente enganado ao considerar estéril a discussão moral. os filósofos gregos que dispensaram muita atenção a essa discussão estavam, também, preocupados com a justiça. Marx não foi o primeiro pensador a colocar a questão da justiça na agenda intelectual. Ele foi talvez o primeiro a querer acabar com essa discussão na base do argumento segundo o qual o seu próprio conceito de justiça seria o melhor. Gerações de intelectuais seguiram-no na plena convicção de que questionar esse conceito de justiça constituía uma traição à tradição académica e intelectual.

Eu gostaria de poder fazer ciências sociais de forma fácil com fórmulas simples e com quadros de classificação dos que se dão à maçada de pensar também de fácil aplicação. Gostaria de poder usar as ciências sociais como simples caixas de ferramentas de onde vou buscar conceitos e abordagens feitos à medida dos problemas do mundo. Num país como o nosso, onde os problemas são muitos e gritantes, que melhor saída senão essa do pensamento rápido, pronto-a-usar e sempre contundente? Gostaria de fazer isso, mas não posso porque o mundo sobre o qual quero aplicar os meus conceitos e abordagens resiste às minhas simplificações. Quem me dera que Marx tivesse tido uma vida bíblica até aos duzentos e não-sei-quantos anos. Aí sim, ele teria visto o equívoco em que meteu muita gente e, honesto e íntegro que ele era, teria, de certeza, pedido desculpas.

Na preparação de uma palestra que vou proferir em Janeiro na cidade natal de Marx, em Trier na Alemanha, li algumas coisas da sua autoria e deparei com uma carta que ele escreveu a Friedrich Engels após terminar “O capital”. Marx aconselha Engels a ir ler uma obra do escritor francês Honoré de Balzac que conta a história de um pintor que passou dez anos – Marx também precisou de muito tempo para escrever “O capital” – a pintar o quadro que ia fazer a representação mais fiel do mundo. Só que no fim desse longo e penoso trabalho, dois amigos do pintor constataram que o grande quadro era uma autêntica confusão! Marx aconselhou a leitura de Balzac a Friedrich Engels como forma de lhe dizer que ele próprio estava com dúvidas em relação ao resultado da sua obra.

Marx tinha grande sentido de humor. E era humilde, muito mais humilde do que os seus seguidores de hoje. Ele próprio tinha grandes dúvidas em relação à sua própria obra mais suprema. Quando a terminou, ficou sem saber se o mundo que ele procurava representar naquelas centenas de páginas era o mesmo mundo que ele habitava. Ele entregou a obra apenas por pressão dos editores que já lhe tinham ameaçado várias vezes. Não quero com isto dizer que ele achava que estava enganado. Não. Ele tinha simplesmente dúvidas. E a dúvida é o melhor recurso que os intelectuais têm. Espero sinceramente que os jovens que gostariam de seguir Marx na sua exortação para também transformarem o mundo pensem muito bem antes de o fazerem. Sei que estou a pedir demasiado, pois pensar já toda a gente o faz e este não é o tempo de pensar. É preciso passar à acção como lhes é dito constantemente na nossa esfera pública. Boa sorte às vítimas da vossa acção!

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Por uma cultura mais crítica

Por razões estéticas decidi retirar o debate para aqui.

O Egídio Vaz Raposo publicou um comentário no seu próprio blogue com o título “A arte de criar fracas instituições” no dia 8 de Junho de 2007. Nesse artigo ele vaticinava que não haveria eleições este ano, algo que se revelou correcto. Em discussão numa das minhas postagens mais recentes ele escreveu o seguinte:

Eu também hei-de voltar Prof. Sim, fico satisfeito porque poucas foram as vezes em que o Professor respondeu aos que visaram ao seu discurso; seu pensamento. Quando eu blogava, poucas foram as vezes. lembro-me que da última vez foi quando reagi muito violentamente a eleiçãos dos actuais tractores da CNE. O Professor quis questionar tanto a minha reacção violenta como a previsão que fazia. Eu expliquei bastantes vezes mas não o convenci. Hoje estou numa boa, a assistir rindo, e feliz. Porque tudo o que antevia está a realizar-se. Não foi por acaso que Chapa100 chamou-me de curandeiro+qualquer coisa. Professor,estamos juntos. Abraços.

A ênfase e os sublinhados são meus. Como a blogosfera tem boa memória fui de novo ao seu blogue para recuperar o sentido da nossa discussão e descobri algumas coisas interessantes. Descobri, primeiro, que a minha posição nessa discussão é a mesma que hoje me opõe ao desabafo e à denúncia. Ao longo de todo o debate procurei convidar o Egídio a reflectir mais sobre o seu próprio método. A segunda coisa que descobri foi que ele aceitou reformular a sua conclusão à luz dessa discussão. A terceira coisa foi que à luz dessa discussão também aceitei as suas conclusões. A quarta foi que o Egídio pareceu reconhecer a importância do método e agradeceu por isso. O que terá ocorrido no espaço de seis meses para o mesmo Egídio se tornar tão agressivo em relação à “arrogância do Prof. Macamo”, o mesmo a quem ele dirigiu as seguintes palavras, “Muito obrigado Prof. Finalmente irei sair do "beco". Concordo plenamente consigo. E já agora rectifico: Tenho muito medo de as próximas eleições serem as mais sujas que há memória na história democrática do país. Por razões aqui já referidas. PS: Ainda vou a tempo de lhe agradecer por isso. Uma das grandes vantagens de debater com o Prf e Chapa 100 é a oportunidade de poder aprender a por o que penso mais claro. E na verdade, tenho tido muito sucesso. Continue. Abraços. Dentro de 2 horas irei postar mais uma grave provocação.?

Reparem que a minha questão aqui não é de exigir do Egídio, nem de outros, que não estejam contra as minhas ideias só porque no passado me agradeceram, ainda que seja pelo mesmo tipo de conselhos que ele hoje critica. A minha questão é de tornar claro que não me interessa calar a boca de seja quem for. Interessa-me, isso sim, contribuir para que aqueles que acham que têm alguma coisa a dizer e acham que podem se socorrer de subsídios académicos tenham em mim e noutros colegas membros da comunidade académica moçambicana interlocutores úteis e interessados. Acabei concordando com o Egídio pela força dos argumentos que ele desenvolveu ao longo dessa discussão, mas para verem como estas coisas da ciência são complicadas, embora de facto a conclusão do Egídio tenha sido correcta não foi pelas razões que ele desenvolveu! Moral da história: todos podemos vaticinar, mas o mais importante é como o fazemos. Eu posso dizer que depois de amanhã vai chover porque é sempre assim sempre que me cruzo com um indivíduo careca. E, dito e feito, depois de amanhã chove! Tinha razão?

Reproduzo, portanto, aqui essa discussão como uma contribuição para o que acho ser o nosso dever quando fazemos intervenções na esfera pública. Quem quiser ver a postagem original terá que consultar o inactivo blogue “Ideias de Moçambique” do Egídio seguindo o elo aqui ao lado.


quinta-feira, dezembro 20, 2007

A mentalidade analítica (6) Fim

É melhor ser curioso do que intolerante

Esta “carta aberta” não é simplesmente fala. É também, e sobretudo, acção. Portanto, estamos aqui perante uma acção social. Nós que somos discípulos de Max Weber devemos, então, colocar a pergunta de saber o que torna esta acção numa acção social. Que sentido atribuem os próprios actores a esta acção? Ou por outra, que razões estão por detrás desta acção? O que fez com que estas pessoas agissem desta maneira? O que isso quer dizer? Quer dizer alguma coisa? Em que circunstâncias é que uma pergunta destas ou mesmo perguntas desta natureza fazem sentido? Para quem? De que maneira? Isto, como podem ver, é curiosidade. A mesma que, pelo que se diz por aí, matou o gato.

Vamos ver as coisas a partir de um outro ângulo. Vamos partir do princípio de que há pessoas em Moçambique que não estão satisfeitas com a nomeação desse fulano para o cargo de Vice Ministro da Mulher e Acção Social. Quais são as opções que as pessoas têm para manifestar o seu desacordo? Várias, como é evidente. Podem ir ter com o Presidente da República; podem levantar a questão na célula do partido no seu local de trabalho; podem levantar a questão no Comité Central; podem comentar isso com um Ministro conhecido ou com um veterano dos mais importantes para ele levantar a questão com os seus camaradas; podem pagar a um jornalista para escrever um comentário; enfim, há uma série de coisas que elas podem fazer para manifestar o seu desacordo e exigir a demissão do fulano. Reparem que todas estas maneiras são formas discretas, daquelas que parece serem privilegiadas pelo pessoal da Frelimo. Roupa suja não se lava em público. E o texto usa uma dicção que é própria de gente forjada e temperada no palavreado da Frelimo: “divisionismo”, “ensinamentos”, “espírito de tolerância”, “líder clarividente que de certeza não sabia”, etc.

Devo abrir aqui um parêntesis para chamar a vossa atenção para o problema de sociedades fechadas, isto é, de sociedades onde o debate de ideias não é visto com bons olhos. Qualquer pessoa esperta pode fazer uso de linguagem da Frelimo – e este texto tem todo o estilo da Frelimo – para falar como se fosse alguém da Frelimo. O tipo de esfera pública que temos dá muito campo de manobra a oportunistas. A “carta aberta” pode muito bem ser da autoria de alguém da oposição que quer embaraçar o Presidente da República. Porque não? E o embaraço é mesmo grande, pois a bola está agora do seu lado. Se demite, aliás “exonera”, pode estar a “ceder” a pressões públicas; se não “exonera”, pode estar a confirmar a sua imagem de homem duro que não ouve a opinião dos tagarelas da imprensa. É uma situação chata, posso imaginar. Igualmente, a própria Ministra ou mesmo o próprio Presidente ou ainda alguém influente dentro daquele partido pode ter encomendado a “carta aberta” para forçar ou facilitar a decisão ou, simplesmente, para dar ao Presidente a oportunidade de mostrar que ele decide sozinho. Um país com um sistema político que dá muito campo à especulação é um país problemático. Fecho o parêntesis.

Os subscritores optaram por escrever uma “carta aberta” publicada num semanário independente. Será que o jornal Domingo ou o jornal Notícias recusaram publicar a carta? Que gente da Frelimo é esta que não tem bons contactos com esses jornais? Savana? Qual é o pessoal da Frelimo que tem bons contactos com o Savana e fica chocado quando se ofende Machado da Graça – por acaso também fiquei chocado com os artigos indecentes contra a sua pessoa – a memória de Carlos Cardoso e levanta o espectro do divisionismo? Que gente usa “taberna” ou “taverna” e não “barraca”, “esquina”, “botequim”? Mais importante ainda é a forma como manifestam o seu desacordo. Podiam ter escrito uma “carta aberta” assim: Exma camarada Ministra, pela presente vimos manifestar a nossa preocupação pela nomeação do camarada fulano de tal como seu vice ministro. Esse camarada tem assumido posições contrárias à linha ideológica do nosso partido. Gostaríamos de solicitar à camarada Ministra que levantasse esta questão nos órgãos competentes. Se a decisão for tomada, tem que ser cumprida. A luta continua!. Mais ou menos assim. Mas nada, preferiram florear, e bem, o seu protesto. Daí a questão: porquê? O que é que isto significa? Cisões na Frelimo? Mais uma manifestação da qualidade da nossa esfera pública?

A mentalidade analítica consiste num exercício paciente da reflexão crítica. Não crítica no sentido de dizer que está tudo mal ou mesmo que uma coisa está mal. Crítica no sentido de procurar saber se há mais alguma coisa que eu devia saber antes de poder formar uma opinião sobre uma determinada coisa. É um exercício sempre inacabado porque cada pergunta suscita sempre mais perguntas. Pensar, repito, dói, pois nunca acaba. Quando alguém tira conclusões não é porque já lá chegou. É porque decidiu parar de pensar. E o que isto significa é que nós os cientistas sociais não podemos fazer o nosso trabalho na forte convicção de que estamos a revelar a verdade das coisas. Isso é arrogante e, lá está, “pretensioso”. É, para usar mais um rótulo que me foi atribuído por um dos maiores intelectuais da nossa praça, “déficit epistemológico”.

Então, a intervenção pública que nós fazemos consiste em alimentar o debate com ideias a serem discutidas, melhoradas e rejeitadas, se for caso disso. Vocês não imaginam quão emancipatória essa atitude é. Se eu não tenho nenhum investimento emocional numa ideia, não tenho nenhum problema se ela for rejeitada. Estar enganado é o mal menor. Tenho problemas se ela não for discutida segundo os seus próprios méritos. Tenho problemas se as pessoas se concentrarem em mim, embora as minhas motivações pessoais sejam por vezes relevantes para entender o que quero dizer. Recentemente, li no blogue de Carlos Serra uma postagem que citava uma jurista, Benvida Levy, que dizia que há muita corrupção no sistema de justiça. Carlos Serra chamou a atenção dos seus leitores para o facto de que há gente que diz que o conceito de corrupção não está claro e que, logo, a corrupção não existe. Pareceu-me estar a zombar dessa gente e eu senti-me naturalmente visado, pois tenho insistido muito na necessidade de clarificação desse e de outros conceitos. Não sei o que leva colegas que eu julgava bem abalizados metodológica e teoricamente a pensarem que a plausibilidade de uma coisa reside no número de pessoas que a repetem. Duas ou três rãs num riacho fazem um barulho infernal e se quiséssimos avaliar o número de rãs pelo nível de décibeis que elas emitem ficaríamos com a impressão de dezenas delas. Igualmente, o número de relatórios e pessoas que falam de corrupção em Moçambique não diz nada sobre a utilidade do conceito, nem, acima de tudo, sobre a sua plausibilidade. Muito mais importante do que dizer “mais alguém diz que há corrupção” seria aceitar o convite de debater as questões metodológicas que são levantadas pelos que criticam o uso inflacionário dessa palavra. Para além da insistência na ideia de que “só não vê quem não quer ver” nunca li nada dos “críticos da corrupção” a este respeito. Eu repito: tenho muito mais medo dos que pensam que falam em nome do povo e da razão, pois esses é que são os mais intolerantes; fazem mal à nossa esfera pública e se mandassem estava mal toda a gente que não pensa como eles.

A minha formação e o meu entendimento da sociologia obrigam-me a só aceitar uma coisa se ela fizer sentido, independentemente do número de pessoas que acreditam e propalam o contrário. Nos lugares onde faço pesquisa em Gaza há gente que é morta ou tem os seus haveres destruídos por causa desta mentalidade da multidão: toda a gente pensa assim, menos tu; é porque és mesmo feiticeira! É por isso que insisto que esta mentalidade analítica é fundamental. E está ao alcance de todos nós, independentemente de termos feito sociologia ou não. A sociologia entra em acção apenas para definir os critérios através dos quais podemos seleccionar os aspectos que devem ser o objecto da nossa análise. E para complicar as coisas, uma vez definidos esses critérios eles não ficam sagrados e impermeáveis à crítica. A discussão sobre a sua relevância e utilidade ajuda a ciência a crescer. Mas se os sociólogos estão ocupados a demonstrar que “nem tudo está bem”, aliás, que “tudo está mal” quem vai se ocupar disto? É grave.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

A mentalidade analítica (5)

O vocabulário

Esta parte da análise é extremamente interessante. Não vou diminuir o seu interesse com tentativas de estruturação do vosso próprio pensamento. Já basta chamar a vossa atenção ao interesse que a organização do próprio discurso tem. Vejam o texto aqui e reparem que agora vou discutir o que está em relevo verde. Aqui tinha matéria para várias semanas de trabalho e rimas de papel. “Esse Vice Ministro não...”. Não sei se este título é da autoria das subscritoras ou do editor do jornal que publicou a “carta aberta”. Mas não deixa de ser interessante. “Esse Vice Ministro não!”. É um desabafo, um grito de impotência. Podemos aceitar tudo, menos isso. Esse não! Mesmo que esse título seja da autoria do jornal há uma passagem na “carta aberta” que recupera este sentimento. “O assunto é o seguinte: nós não podemos aceitar a nomeação do Sr. João Candido Candiane para o lugar de Vice-Ministro da Mulher e Assuntos Sociais”. Ponto final. Acho a palavra “aceitar” interessante. Não dizem que não concordam com a sua nomeação; não dizem que não acham a nomeação correcta. Nada disso. Não “aceitam”. Só que aceitar pressupõe a ideia de que estas pessoas podem ser consultadas e a sua opinião conta. Conta? A “carta aberta” sugere que não. Então, porquê “aceitar”?

A “carta aberta” não é manifestação de “má-vontade” ou “preconceito”, está escrito na página 1. O quê? Porque é que a indignação perante actos e atitudes que atentam contra a moral pública e a nossa cultura é susceptível de ser vista como “má-vontade” e “preconceito”? Porque é que a Ministra precisa de ser alertada para não ver as coisas desta maneira? Quando é que se levanta esse tipo de acusação entre nós? Eu que já fui chamado de “pretencioso” por algumas pessoas em Maputo estou interessado nisso. Quando é que a honestidade – julgo que as subscritoras estão a ser honestas – pode ser tida como honestidade? Será mesmo que o nosso país, como cantam os Ghorwane, está virado de pernas para o ar?

O indivíduo em questão é mencionado de forma muito interessante. Uma vez é simplesmente “o Candido”, outras vezes é o “Sr. João Candido Candiane”, outras é “este senhor”, outras é “Sr. Candido Candiane”, “Sr. Candido”, “João Candido” e ainda “Kandiyane”. Curiosamente, nunca é “o Sr. Vice Ministro”. A Ministra é a “Exma Ministra”, “a senhora”, “Ministra”. O indivíduo em questão – ah, o indivíduo em questão – esse merece todo o tipo de epítetos que não são exactamente em abono do respeito que por ele se nutre. Tudo isto é coroado na seguinte frase “Felizmente, quem manda não são os Kandiyanes” na página 3. “Os Kandiyanes”. São muitos ou a ideia é de dizer “gente dessa índole”? Felizmente que não é gente dessa índole que manda neste país! Reparem, já agora, na palavra “mandar”. Assim mesmo. Em Moçambique, nesta democracia tolerante e aberta, há os que mandam e os que são mandados. Nesta democracia que precisa de ser protegida dos “Kandiyanes” deste mundo alguns mandam, outros obedecem. Obedecem? Quem manda não é o povo, razão pela qual só se pode recorrer a uma carta anónima e aberta para dizer aos governantes aquilo que eles deviam realmente saber, isto é, que gente que atenta contra a moral pública e contra a cultura moçambicana não tem lugar entre nós. Estranho!

O ataque ao sujeito é forte. “Um homem destes” (página 4), que não sabe escrever “está assim, com dois erres, no original” (página 2) – carregou no “r” ao escrever “erosão” – “ex-seminarista” (página 2) – para vincar porque ele teve de sair do seminário (está claro, não reunia qualidades; ou, se calhar, é a velha hostilidade de certos sectores da Frelimo à religião: de gente dessa índole que se pode esperar?) – e o facto de ele usar “linguagem escatalógica” (página 3). Escatalogia é próprio do Cristianismo, a ideia da solução final e da teleologia. Será que este representante dos “Kandiyanes” está a trazer o ideal de sociedade que almejamos? Será isso? Será por isso que ninguém se mexe? Será por isso que devemos nos precaver? Mas o mais forte no ataque à pessoa que a “carta aberta” faz é a acusação de que ele usa “violência verbal extrema” (página 2). Ele não usa linguagem forte. Não, nada disso, ele usa “violência verbal”. E essa “violência verbal” é “extrema”. Isto é um caso sério. E não é para menos. Aqui e ali vemos referências a esta “violência verbal extrema”: o indivíduo “ataca”, “ofende”, “interfere abusivamente no respeito devido aos mortos”, dá “respostas beligerantes” e anda a “raspar” em feridas. É mesmo coisa de “um homem destes”.

Preferi apresentar a linguagem usada na “carta aberta” desta forma directa para chamar a vossa atenção para o facto de que a fala não é inocente. A escolha das palavras documenta alguma coisa. E essa alguma coisa deve preocupar um cientista social. É verdade que o cientista social corre o risco de inventar coisas que não existem, atribuir coisas que as pessoas não tinham pensado e por aí fora. Não obstante, não é possível desenvolver uma mentalidade analítica e, consequentemente, cultivar a mentalidade sociológica sem desconfiar das palavras que as pessoas usam. Até prova em contrário as palavras querem dizer mais do que dizem. A questão é, então, de saber que coisa é essa exactamente. Ainda vou tentar fundamentar melhor isto na próxima e última postagem.

Mas repitio: deter-se sobre estas coisas não é atrasar a luta contra a pobreza absoluta, nem é pactuar com os corruptos. É fazer aquilo que melhor podemos fazer na nossa tentativa de perceber o mundo em que vivemos. Só pode prescindir deste exercício aquele que pensa que já sabe tudo quanto devia saber e que o único que falta é apenas tirar conclusões. Portanto, portanto, portanto... tal e qual como no período imediatamente a seguir à independência quando também havia muitas certezas. Ocorre-me, para ser maldoso, que algumas das pessoas que hoje criticam a falta de integridade pública com muita veemência – e razão, diga-se de passagem – são as mesmas que defenderam e emularam o discurso intolerante desse período. A mesma impaciência que têm hoje com os que preferem duvidar é a mesma que os levou a limitar o debate naquele período no interesse da “defesa dos interesses do povo”. Eu tenho mais medo dessa gente do que dos “corruptos” porque se essa gente também “mandasse” estávamos mal nós que somos tidos como os que dizem que “está tudo bem”. Como se realmente disséssimos mesmo isso.

terça-feira, dezembro 18, 2007

A mentalidade analítica (4)

A sequência argumentativa

O texto em análise pode ser lido (e baixado) aqui. Vão reparar que está um pouco colorido. O que está em relevo vermelho são as passagens do texto que marcam a sequência argumentativa. Isso vai me ocupar nesta postagem. Na postagem seguinte vai me ocupar o que está em relevo verde, isto é as passagens do texto que marcam a selecção do vocabulário. A sequência argumentativa é uma ideia que me ocorreu para contextualizar o momento dentro do qual a fala reproduz as estruturas de contraste. É isto que interessa explorar no desenvolvimento da mentalidade analítica. Que tipo de estruturas de contraste se produzem à medida que se vai falando? Espero ser capaz de mostrar quão interessante esta abordagem pode ser.

A sequência argumentativa desta “carta aberta” tem cinco fases, em minha opinião. Juntas, essas fases reproduzem aspectos importantes da nossa sociedade. A primeira fase é de auto-identificação dos autores (ou autoras) da “carta aberta”. “Nós somos mulheres, dirigimo-nos a si, que é mulher, que partilha da nossa sensibilidade e porque tem assumido de forma corajosa a defesa dos nossos interesses”. Isto está na página 1. Isto sugere conversa de mulher para mulher. A sugestão aqui, evidentemente, é de que a possibilidade de compreensão é muito maior e que, por isso, vale à pena encetar este diálogo. Podíamos perguntar, por exemplo, porque dadas estas condições, essas mulheres não se encontram num café qualquer ou mesmo no gabinete da sua companheira no género para este bate-papo. Podíamos. Mas não é fundamental. O importante é esta sugestão de que esta conversa é restricta, ainda que outros a possam acompanhar. Interessante. Mas ligado a este momento há um segundo. Este consiste na autorização da fala destas “mulheres”. “Estamos cansadas de sermos consideradas únicas e exclusivas culpadas pelos males que assolam a moral do mundo”. Isto é forte e obriga a Ministra a decidir de que lado vai querer ficar. Se és mulher como nós não vais aceitar que um homem aí te responsabilize pelos males do mundo. Se és mulher como nós. És? Isto é forte, sobretudo quando atendermos ao facto de que no final desta fase faz-se referência ao espírito “tolerante” da Frelimo. As coisas aqui já são mesmo sérias. Quem lança culpas às mulheres está a violar este espírito da Frelimo.

O terceiro momento é o caso propriamente dito, ou para ser fiel ao texto, as “ofensas”. Vejo cinco padrões. O primeiro padrão chama a atenção do leitor (ou da Ministra ou do Presidente) para o facto de que o indivíduo em questão não vê o mundo como todos nós o vemos. Está sozinho nessa visão. E pior, este é o segundo padrão, não se trata de erro de percepção, lapso ou descuido. Ele é assim mesmo, asseveram as “mulheres”. “Parece um lapso. Não é. Essa é a forma discriminadora e ofensiva com (sic) que ele pensa”. Isto está na página 2. Se fosse um lapso ainda se desculpava, mas não é. O tipo é assim mesmo. O lapso todos nós entendemos. Agora, ser assim tão descriminador e ofensivo, isso não! E continuam com o terceiro padrão que coloca o indivíduo fora da nossa comunidade cultural e moral. É divisionista “sugerindo a categorização dos moçambicanos em função de critérios de “genuinidade” fundamentados na raça, origem e cor da pele” e falta respeito aos defuntos “interferiu abusivamente no respeito devido aos mortos, estranhamente aflito pelo carinho dispensado a um dos mais nobres cidadãos da nossa pátria”. Está visto que este indivíduo não pode ser um moçambicano “genuino”. Moçambicano genuino não é nem divisionista, nem falta respeito aos mortos. Que sacrilégio! Quarto padrão: não sabe escolher as suas palavras, usa linguagem imprópria em mais um atentado à cultura moçambicana: “Faz uso frequente de linguagem menos própria, muito pouco de acordo com os padrões culturais moçambicanos”. Finalmente, o quinto padrão é do pelouro da qualidade de participação no debate público. Este indivíduo não apresenta ideias como todos nós; ele insulta, simplesmente: “Em lugar de ideias, ele esgrime insultos”. Reparem também que a questão não é apenas de tentar argumentar com insultos; ele utiliza insultos como armas. Ele “esgrime” insultos como alguém que esgrime uma espada. É grave. O que estes cinco padrões fazem é isolar o indivíduo da comunidade moral a que o grupo de mulheres subscritoras do texto pertence, juntamente com a Ministra, e, sobretudo, juntamente com o resto do povo moçambicano leitor. Assim, somos também incluidos quando se escreve “Assim mesmo, caros leitores, assim mesmo, sem tirar nem pôr, como se ele estivesse na taverna ou na taberna” em referência ao memorável adágio do indivíduo em questão “peido com peido se paga”. Que avô! Esse tipo não é dos nossos.

Continuo com as fases da sequência argumentativa. A quarta fase é a da exclusão. Muito subtil. Aqui utiliza-se a Ministra para falar ao Presidente da República sem lhe dirigir a palavra. E a situação é colocada de forma drástica. Ou as mulheres subscritoras não estão a ver bem as coisas – melhor ainda: não estão bem de cabeça – ou, então, é o próprio Presidente. Pelo menos será ele se não reconhecer que não devia estar em posse de todos os elementos quando tomou a decisão que tomou. Qualquer que seja a explicação, a fala aqui impõe um posicionamento claro. Quem está de fora? Ele, o indivíduo, ou nós, as mulheres, a Ministra, o Presidente, e os leitores? Está visto que só pode ser o indivíduo, e seu avô, é claro. Finalmente, a quinta fase é a modéstia nobre. “Somos um pequeno grupo de mulheres moçambicanas e representamos apenas um ponto de vista. Mas esse ponto de vista, estamos certos, traduz a mágoa de centenas de milhares de mulheres”. Um pequeno grupo, ainda por cima de mulheres, mas que representa a maioria moral. Isso é imbatível. Podemos ser poucas, mas estamos do lado da razão. E a Ministra? E o Presidente? E o leitor? Vão nos deixar ocupar este espaço moral sozinhas?

E é apreciando este tipo de fala que fico curioso. Que país é este o nosso onde gente que faz questão de se identificar profundamente com o partido no governo – fala, por exemplo, dos “ensinamentos” da Frelimo – opta por publicar uma “carta aberta” e não utiliza os canais privilegiados que todos nós pensamos que o pessoal da Frelimo tem? É sinal de quê esta atitude? Essa Frelimo existe mesmo? A ideia de que é possível falar livremente nesse partido é correcta? Que país é este o nosso onde no seio dos governantes ainda não há consenso sobre valores? Como é possível que um governante desça tão baixo com atentados à moral pública, à nossa cultura e ao desiderato de uma sociedade democrática sem que isso tire o sono a quem de direito? Em que circunstâncias é que um indivíduo se pode permitir este tipo de comportamento? Que país é este o nosso? Como são possíveis essas coisas? Somos mesmo uma sociedade? O que é que esta “carta aberta” está a documentar?

Na próxima postagem, conforme anunciado, debruço-me sobre a organização da fala. Por agora deixo para vossa reflexão o seguinte reparo: tentar perceber significa resistir à tentação de sentenciar, “pois é, que esperar desses corruptos!” ou “pois é, lá estão de novo os inimigos do povo!”. O mundo é muito mais complexo do que as nossas fórmulas simples. Quem não se quer submeter a este exercício doloroso de pensar para além das suas categorias simples não escolheu bem a sua vocação nesta área. Está perdida(o).

segunda-feira, dezembro 17, 2007

A mentalidade analítica (3)

Analisar a fala

Agora vou entrar no assunto. Conforme referi na postagem anterior a fala não é inocente. Seja o que for que nós dizemos e independentemente de estarmos ou não conscientes da sua estrutura, há um certo sentido em que tentamos reproduzir ou descrever o mundo. Fazemos isso a partir de uma juxtaposição do que é normal e do que é anormal. O que é normal é positivo e tentamos reclamar para nós próprios. O que é anormal é negativo e atribuímos aos que não queremos incluir no nosso mundo. Quase toda a descrição e quase todo o argumento assentam, digamos, nestas estruturas de constraste e nas práticas de normalização que lhes são afins.

Vou tentar explicar isto com algum detalhe, reservando a parte da ilustração à análise da “carta aberta”. O que dá coerência e plausibilidade ao que nós dizemos é o que nós pensamos ser óbvio para o resto da sociedade. Todas as sociedades, bem ou mal, dão certas coisas por adquirido. Essas coisas que são dadas por adquirido são as que nós consideramos normais, isto é as que sabemos que não precisam de mais fundamentação ou elaboração para serem percebidas e, mesmo, aceites por uma grande maioria das pessoas que partilham connosco o mundo social. Este entendimento tácito economiza o nosso tempo. Ajuda-nos a não desperdiçarmos tempo explicando tudo de novo. Imaginem o comunicado de imprensa sobre a exoneração do Ministro da Agricultura a explicar cada palavra em detalhe. Por exemplo, explicar o que é um comunicado de imprensa, o que é a Presidência da República, o que significa exonerar, o que é um Ministro da Agricultura, etc. O comunicado nunca mais terminava. E o pessoal lá do Gabinete de Imprensa sabe disso. É por isso que eles simplesmente partem do princípio de que nós sabemos do que se trata e passam imediatamente para o essencial.

É arriscado, mas é o que se faz frequentemente. Alguns de nós gostariam de saber porquê tão já se ainda há pouco se tirou um outro. Outros, com certeza, ou isto não era Moçambique, vão querer saber que espíritos andam à solta naquele edifício da Praça dos Heróis. Seja como for, qualquer acto de fala serve-se de um conhecimento já existente na sociedade e explora-o. Esse conhecimento é até normativo. Todos nós sabemos que exoneração é má notícia. Ou melhor, todos nós sabemos como contextualizar a coisa. Se sempre fomos de opinião que o indivíduo não dava para aquele cargo, então, a sua exoneração é boa coisa. No caso contrário, é má coisa. Qualquer que seja a nossa opinião, porém, exoneração é mais negativo que nomeação, a não ser que seja para Ministro do Interior...

Portanto, penso ser útil reter a ideia de que quando falamos reproduzimos estruturas de contraste que nos ajudam a recuperar o que é tido como positivo na nossa sociedade e, por extensão, o que é tido como negativo. O interessante aqui, naturalmente, é que quem fala procura sempre colocar-se do lado do que é positivo, por mais abominável que tenha sido o seu próprio comportamento. Um ladrão em Gaza, por exemplo, não diz que roubou. Nunca diz isso, mesmo que tenha sido apanhado em flagrante. Ele diz que dizem que ele roubou. Ou seja, ele sugere a ideia de pessoas anónimas que estão na origem da acusação que sobre ele pesa. Ele próprio, através dessa sugestão, coloca-se firmemente no seio do grupo mais alargado que é contra o boato. Essas estruturas de contraste remetem-nos para a sociedade. Ou melhor, deviam remeter todo o indivíduo curioso à sociedade. Que tipo de sociedade é esta que vê as coisas desta maneira? Quem são as pessoas que defendem esse tipo de visão de mundo? Como é que essas coisas se impõem? Que carácter é que isso dá à sociedade?

Mas há mais. A nossa fala é fruto de uma organização bem intencional. As palavras que escolhemos para darmos substância ao que dizemos não são inocentes. Isto não nos devia deixar indiferentes. Porquê “exoneração” e não “demissão”, “mandar embora”, “sanear”, “lixar”, “cessar funções”, etc.? E porque é que nós, quando comentamos a notícia, dizemos “o Presidente exonerou...” e não dizemos “o Presidente mandou passear”, “o Presidente fez de novo das suas”, e por aí fora? Que tipo de coisas determinam a nossa escolha de vocabulário? As nossas convicções políticas? O nosso posicionamento em relação a uma determinada pessoa? A nossa posição na estrutura social? A nossa formação? A nossa origem étnica ou regional? O quê, exactamente, o quê?

É este tipo de perguntas que interessam ao sociólogo. Como podem ver, a tentativa de responder a essas perguntas não nos vai conduzir à verdade. Vai simplesmente suscitar a nossa curiosidade e proporcionar-nos a possibilidade de nos maravilharmos com as coisas da vida. Quem é o mau da fita? Porquê? Que normas violou? Quem dita essas normas? Como é caracterizada essa violação de normas? Porquê desta e não daquela maneira? O que isto tudo significa para a ideia que eu próprio tenho da natureza da minha própria sociedade? A minha ideia é correcta? É plausível? É coerente? É útil? Vale à pena mantê-la? O que é que ela me ajuda a ver? E o que me impede de ver? O resultado de todo o esforço de responder a estas perguntas é o que leva muita gente a perguntar “mas como é que tu percebes tanto sem estares por aqui?”. É evidente que não se trata de perceber seja o que for. Trata-se de interpelar o que damos por adquirido. No processo algumas pessoas vão confirmando os seus preconceitos, mas esse problema é seu, não é meu.

Vou, então, passar para a ilustração do procedimento analítico na próxima postagem.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Crítica social, desabafo e denúncia

Intercalo aqui um texto longo fora da série sobre a mentalidade analítica para partilhar convosco uma preocupação. Espero que haja discussão, seria bom, pois o assunto parece-me sério.

Li recentemente no blogue de Carlos Serra comentários (leiam-nos aqui) sobre um texto de um jurista de nome Custódio Duma (publicado aqui). Um dos comentários deixou-me preocupado com a ideia que a abertura do espaço público de intervenção está a criar sobre a sociologia. O comentário dizia: “É de lamentar que indivíduos que creio serem jovens vejam mérito no ruído. Mais de lamentar ainda é que fiquem nervosos sempre que alguém sugere que, mais do que barulho, o que se requer de pessoas como Duma são denúncias metodologicamente fundamentadas. Eu compreenderia se o texto atribuído a Duma tivesse sido escrito pelo senhor Dlhakama. Afinal ele é um político, já não é jovem e parece não possuir graduação universitária. Mas Duma! Escrever um texto que poderia ser subscrito por Dlhkama ou Kamati? É realmente triste. Triste porque Duma é jovem, tem formação académica adequada (ainda por cima é jurista), é uma figura pública que deve servir de exemplo. Ficar-se por ali e, ainda por cima ser efusivamente aplaudido por jovens sociólogos ou seja lá o que forem! É triste” (minha ênfase). O seu autor é um indivíduo que assina pelo nome de Gabriel Matsinhe. Profundas palavras as suas.

Mas preocupantes. Penso ser necessária uma reacção para tornar claro que a sociologia é uma grande religião com várias seitas. O tipo de sociologia que encoraja a forma de intervenção pública privilegiada pelo autor desse texto, e que quer fazer isso passar por crítica social, representa uma de várias maneiras de pensar e fazer a sociologia no país e no mundo. Não é, felizmente, representante de toda a sociologia. É apenas uma de várias maneiras de fazer sociologia.

Eu, pessoalmente, e todos os que fazem parte da seita à qual pertenço, temos um entendimento da sociologia que considera importante fazer a distinção entre crítica social e desabafo. Não é fácil manter este entendimento, muito menos ser consequente nas posições que esse entendimento exige. Há muita coisa que não vai bem no país; há muita coisa que podia ser melhor; há muita maldade e falta de patriotismo por parte daqueles que deviam ser bondosos e mais patrióticos, isto é ter o interesse da maioria no coração. O mais fácil nestas circunstâncias seria privilegiar outras formas de fazer sociologia que consistiriam em reclamar a verdade das coisas para as nossas análises, mandar passear a fundamentação do que dizemos, repetir os lugares-comuns da indústria do desenvolvimento e, de uma forma geral, perder todo o interesse pelo debate metodológico e privilegiar a suspeita como critério de avaliação do que outros dizem. De que lado estão? Do nosso ou dos maus?

Não quero com isto dizer que essas outras formas de fazer sociologia sejam ilegítimas. Quando muito, equivocam-se, mas isso é privilégio de quem intervém públicamente. Penso, até, que é salutar que haja um entendimento controverso e polémico do papel e função da sociologia na nossa esfera pública. Só assim é que podemos cultivar este espírito crítico tão necessário ao fomento do nosso país. Seria melhor ainda, naturalmente, que tivéssemos a coragem de debater estas divergências de forma aberta e honesta para que a sociedade aprecie a utilidade e fecundidade do debate de ideias. Por vezes, contudo, a metáfora da sociologia como uma grande religião pode nos levar a pensar que o mais importante é irmos reunindo seguidores. Ao fazermos isso estaremos, infelizmente, a contribuir para esta ideia preocupante que alguns começam a ter da nossa disciplina.

Por essa razão gostava de lançar mais petróleo ao fogo já iniciado com um texto antigo que publiquei no jornal Notícias sobre uma das composições do músico Azagaia. O Patrício Langa já tinha reacendido as chamas desse fogo aqui e aqui. Nesse artigo publicado no jornal Notícias eu explicava porque achava que a composição de Azagaia não devia ser tratada de crítica social, mas na segunda parte desse artigo passava para uma proposta de análise do que, em minha opinião, tornava esse tipo de desabafos possível. Como tenho a impressão de que muita gente que leu esse texto não prestou muita atenção a essa segunda parte, reproduzo-a aqui quase que por inteiro para tornar as coisas ainda mais claras:

Os músicos que desabafam não têm culpa. Eles estão a reagir a uma cultura política profundamente enraizada entre nós e que começou já logo depois da independência a hipotecar o futuro do País. Esta cultura política ficou mais virulenta nos últimos dois anos e tem a sua manifestação mais clara nos pronunciamentos públicos de alguns veteranos – Marcelino dos Santos e Mariano Matsinhe – contra o espírito democrático e, pior do que isso, na ausência de um distanciamento público por parte do Presidente da República e da liderança do partido em relação a esses pronunciamentos. Num momento em que a democracia precisa tanto de socorro, ninguém com o dever directo de a proteger aparece em sua defesa (...)

(...) Estamos aqui perante um problema moral, isto é temos que decidir quando é que as nossas acções são nocivas aos outros e o que devemos fazer em relação a isso. A filosofia política responde a estas questões de forma diversa, mas penso ser possível reduzir as respostas a duas. Para simplificar as coisas vou atribuir os nomes de “final” e “gradual” a cada uma dessas possíveis respostas. Aproveito sugerir que o problema da nossa cultura política está no facto de termos sempre privilegiado uma resposta final à questão moral. Esta resposta consiste na crença de que os fins justificam os meios. Dito de outra maneira, todo aquele que acredita que, no fundo, quer o bem de todos acha-se no direito – mesmo até na obrigação – de praticar actos injustificáveis hoje, mas úteis à crença na ideia de que eles contribuem para o sucesso dos propósitos finais.

Esta é uma cultura política com linha de descendência nos nossos hábitos tradicionais de pensar, mas que ganhou ímpeto na nossa experiência histórica. A colonização fez da nossa liberdade e do bem-estar de todos nós um fim supremo que justificava todo o tipo de acções. Isto é, o único que precisávamos para nos certificarmos da moralidade da nossa conduta e acção era que nos convencéssemos a nós próprios que era tudo em prol do grande objectivo. A história sangrenta da luta armada de libertação nacional é prova disso. Não é que os que foram mortos não estivessem convencidos de estarem a agir no interesse do fim supremo. O problema deles foi de não se terem imposto aos outros que também agiam no interesse do fim supremo, ainda que com ideias diferentes de como lá chegar. O namoro e subsequente relação apaixonada com o marxismo contribuíram também para aprofundar esta cultura política radicada no fim supremo. O discurso teleológico – dos fins – e profundamente emancipatório do marxismo deu aos fazedores da nossa independência um vocabulário e uma filosofia política que lhes permitiram articular de forma coerente a sua crença na ideia de que os fins justificam os meios. Tudo o que aconteceu subsequentemente foi apenas a tentativa de levar esta crença até às últimas consequências.

Reparem que esta crença não é má por os seus objectivos finais serem maus. Pessoalmente, continuo a acreditar que os veteranos da luta armada de libertação nacional bem como os marxistas eram movidos por um desejo sincero de nos devolver a dignidade. Eles puniram, mataram e mobilizaram as pessoas movidos por ideais nobres. Mesmo hoje, ainda que custe a acreditar, muitos dos que estão na política, sobretudo os que já têm um percurso mais longo, mantêm este desejo sincero. Eles querem o nosso bem e, para isso, estão dispostos a tudo. O problema deste desejo sincero, contudo, é que ele é necessariamente intolerante, totalitário e propenso à produção de instabilidade. É intolerante porque não consegue conceber a ideia de que alguém que pense de forma diferente esteja mesmo comprometido com o bem-estar de todos. Daí a profunda aversão à crítica que caracteriza a nossa esfera política. Ou estás connosco, ou então calas-te. Não é concebível querer o bem de Moçambique sem estar com aqueles que decidiram de forma independente que eles é que são os guardiões do conhecimento para o bem de Moçambique.

O desejo sincero é totalitário porque tem uma necessidade irresistível de controlar as pessoas. Tem que saber quem está connosco e quem é capaz de comprometer o fim supremo. É daí que nasce a auto-censura característica da nossa esfera pública e a tendência burocrática de orientar a acção para o que se supõe ser do interesse da “Frelimo”, mesmo que os resultados sejam ruins para Moçambique. A sensação que muitos têm no País de que não podem falar, criticar e apontar alternativas é resultado directo do totalitarismo do desejo sincero. As ideias de Marcelino dos Santos e de Mariano Matsinhe sobre a democracia fazem parte deste desejo sincero e profundo de proteger o fim supremo de possível contaminação por aqueles que estão fora da alçada disciplinar da Frelimo. Finalmente, o desejo sincero é propenso à produção de instabilidade na medida em que fomenta o cinismo e hipocrisia em relação ao País (...). É aqui onde a cultura política se cruza com a indiferença popular para produzir desabafos no lugar de crítica social.

Mas existe uma outra resposta à questão moral. Essa resposta é gradual. Ela não está interessada nos fins invisíveis. Ela está interessada nos meios que nos levam aos fins que nos propomos. O sucesso da democracia liberal reside aqui. Embora os políticos nesse sistema também estejam interessados no bem-estar de todos e queiram que essa situação venha o mais cedo possível, eles reconhecem que o percurso é longo. Eles dão espaço à troca de ideias sobre os passos que são necessários. Ou por outra, eles não impõem limitações ao debate exigindo a identificação com não-sei-quantos como condição de participação no desenvolvimento do País (...). Enquanto que os dos fins supremos acreditam sinceramente na ideia de que as diferenças de opinião um dia vão desaparecer – razão pela qual eles apressam as coisas sufocando a crítica – os graduais abandonaram há muito essa ideia. O combate à pobreza absoluta não vale pela nirvana que ele promete, mas sim pela plausibilidade do que tem que ser feito hoje em prol desse objectivo. É hoje que isso tem que ser discutido, não quando finalmente se alcançar o fim da pobreza.

A responsabilidade política

Portanto, nós temos uma cultura política muito problemática. Enquanto não fizermos nada para alterar essa cultura política, dificilmente lograremos os objectivos que nos propusemos. Enquanto mantivermos uma cultura política radicada na ditadura do fim supremo, dificilmente seremos capazes de incluir todos os moçambicanos na nossa luta pela emancipação material. Enquanto os fins justificarem os meios, dificilmente teremos crítica social, mas sim desabafo, sinal claro de que o povo está alienado (...).

Precisamos de uma cultura política radicada no gradualismo, isto é na ideia de que as propostas políticas não valem pelo que prometem, mas sim pela sua própria plausibilidade interna e susceptibilidade de serem defendidas agora. O gradualismo significa, ou devia significar, que os políticos prestem mais atenção às consequências negativas dos seus actos hoje e não os remetam a uma contabilidade futura determinada por desejos sinceros. A crença na ideia de que o objectivo final é nobre impediu a Frelimo de ver que a legalidade é importante, a transparência imprescindível e o compromisso com o povo não é prerrogativa de ninguém em particular. Neste sentido, o gradualismo implica um maior compromisso com a separação de poderes e a valorização do político que tem ideias próprias, é capaz de as defender de forma coerente em debate público, não se socorre de nenhuma ideia de “Frelimo” para se furtar ao debate, vê no compromisso político um instrumento valioso da política – e não uma rendição ou abandono de convicções – e, acima de tudo, confia mais no juízo da esfera pública do que no dos seus colegas partidários.

Poucos foram os leitores deste artigo que se detiveram para reflectir sobre o que vem contido nesta segunda parte. A maior parte parece ter preferido ligar mais importância ao facto de eu ter recusado o rótulo de “crítica social” ao que o jovem músico fez quando na verdade, o entendimento que tenho da sociologia me obriga a ir mais longe e tentar perceber o que está realmente em questão. Sendo assim, quando alguém aparece numa discussão a pôr em questão a sociologia por alguns dos seus mais importantes representantes estarem aparentemente a promover uma maneira que eu pessoalmente acho problemática de fazer sociologia, e por essa via, comprometer todos os seus praticantes, fico preocupado. Carlos Serra, a quem a sociologia moçambicana deve muito e é uma das mentes mais brilhantes que o nosso país tem, presta um mau serviço à sociologia e à cultura académica no geral quando promove um texto tão problemático como o do jovem Custódio Duma e, sobretudo, quando não parece preocupado em ajudar esses jovens a canalizarem a frustração legítima que eles sentem para caminhos analíticos mais úteis ao fomento do nosso país.

É evidente que o jovem está irado e que o seu texto, mesmo que algumas das coisas que aponta não correspondam sempre à verdade, reproduz uma imagem do país que nos devia preocupar a todos. Mas aqui, em minha opinião, o desafio já não é de repetir com o jovem o que ele considera errado. O desafio, sobretudo para nós os cientistas sociais, é de encontrar maneiras de formular esses problemas que são apontados de uma forma que seja útil ao debate saudável de ideias na esfera pública. Isso passa pela interpelação dos termos que o jovem usa. Não vou, por enquanto, submeter o seu texto a nenhuma análise aprofundada nesta postagem – embora o possa fazer caso a discussão assim o exigir – mas é profundamente confrangedor constatar que um conceito central de toda a sua argumentação – a verdade – permanece ao longo de todo o texto na penumbra, refém, quer me parecer, de uma tese conspiratória – os governantes não querem que o povo estude porque se o fizesse havia de descobrir o que eles andam a fazer – que é evidentemente falsa, implausível e pouco útil. Os enormes problemas estruturais que temos no país bem como o jogo político normal em qualquer sociedade podem realmente ser reduzidos a uma conspiração do poder para manter o povo ignorante? No nosso país? Em qualquer país? Em qualquer momento histórico? Podem? Que um governo não reconheça a importância da educação ou que tenha prioridades erradas a esse respeito é uma coisa; que esse não-reconhecimento ou prioridades erradas sejam o resultado de um desígnio bem pensado de manter o povo na ignorância para que este não veja as coisas tal e qual elas são é outra, e bem outra. Considerar isto de crítica social é subtrair-se do convívio académico sério. Mas pior ainda é não estar aparentemente interessado em perceber porque pessoas chegam a este tipo de conclusões e o que isso significa para o nosso país.

Um texto que escreve “[V]ivemos em um país em que maioritariamente as pessoas são hipócritas”, “... na ganância pessoal dos titulares do poder furtam-se ao seu dever de negociar em benefício de todo o povo e principalmente da nação”, “... o povo ainda não é livre, porque mais de 60% não entende o que está a acontecer” e “[S]ó uma pessoa educada pode perceber a informação que lhe é trransmitida. E mesmo que não lhe seja transmitida alguma informação, por causa da educação, a pessoa sente a necessidade e uma profunda sede de receber informações” e ainda “[A] inquietação é uma característica de pessoas educadas. A educação pode ser formal, secular ou uma outra forma da que recebemos nas escolas. O que importa é que seja educação porque só assim a pessoa pode ser iluminada” assenta sobre fundamentos pouco sólidos e, por isso, e para o bem dos problemas que está a levantar, precisa de ser interpelado seriamente para além da celebração da coragem do seu autor.

Mas lá está. O verdadeiro desafio não é exactamente o texto em si, nem o seu autor. É o país que produz uma esfera pública desta qualidade. Não sei onde encontrar a explicação para este fenómeno. Um palpite é uma ideia uma vez apresentada por José P. Teixeira num debate aí pela blogosfera, durante o qual ele sugeriu a ideia de “denúncia” como um factor importante na intervenção pública moçambicana. Esta ideia parece-me interessante. Somos condescendentes em relação à fraca qualidade de uma intervenção e apressamo-nos a considerá-la crítica social só porque ela denuncia. Denunciar é o mais importante, sobretudo os males que nos assolam. Esquecemo-nos, porém, que a denúncia é apenas isso. A denúncia não é a prova. A denúncia não é o argumento. É denúncia apenas. Então, o nosso problema não é só de confundirmos desabafo com crítica social. É também de pensarmos que tudo que denuncia é plausível e auto-suficiente e não precisa de ser posto em questão. É como na superstição: A dúvida é sinal de cumplicidade.

Reparem, para terminar, que não estou a querer interferir no direito que o jovem tem de se pronunciar, nem estou a dizer que só pode intervir na esfera pública quem passou por um curso de ciências sociais. De resto, e isto prova-se todos os dias, não é por ter feito ciências sociais que alguém vai saber intervir de forma responsável no debate de ideias. Quando muito as ciências sociais, pelo menos no meu entendimento, ajudam a pessoa a ser menos arrojada nas conclusões que tira e a ter um interesse especial em submetê-las à interpelação. Mas onde quero mesmo interferir é no direito que alguns de nós que, por acidente ou mérito próprio, somos reconhecidos como referência para os que se iniciam, de deixar passar tudo só porque denuncia. Aí estamos mesmo a prestar um mau serviço à mentalidade sociológica e, consequentemente, a adiar a melhoria da qualidade da nossa esfera pública. Estamos a destruir aquilo que nós próprios semeámos. Isso é preocupante.

A mentalidade analítica (2)

A fala

A ideia que temos da sociologia remete-nos para duas vertentes. Uma é de que a sociologia se ocupa da sociedade; a outra é de que ela se ocupa do que as pessoas fazem. Ambas as ideias são um tanto ao quanto vagas. O que significa realmente ocupar-se da sociedade ou do que as pessoas fazem? Ocupar-se da sociedade é entendido como o estudo da estrutura e das funções dos elementos de uma sociedade. Esta é a visão macro da sociologia e tem o seu grande percursor em Emile Durkheim que insistia na importância do que ele chamava de factos sociais, isto é do que nos obriga a agirmos da forma como agimos. Ocupar-se do que as pessoas fazem é entendido como o estudo do significado que as pessoas atribuem à sua acção quotidiana e corresponde a uma visão micro da sociologia. O seu grande percursor foi Max Weber que, ao contrário de Durkheim, insistia na primazia de motivações sobre o que as pessoas fazem.

Esta tensão entre a estrutura e a acção tem estado no centro de todo o debate metodológico da sociologia. Curiosamente, embora nunca resolvido, mesmo com a tentativa corajosa de Anthony Giddens de propôr a ideia de “estruturação” (estrutura + acção), o debate tem sido o motor do desenvolvimento da reflexão sociológica. A tentativa de demonstrar a relevância de uma abordagem tem içado a actividade sociológica para patamares cada vez mais altos. O estudo sobre o suicídio que Durkheim fez não só fez publicidade à sua metodologia como também trouxe à superfície coisas muito interessantes sobre o que faz uma sociedade moderna. O mesmo se passou com o estudo sobre a ética protestante feito por Max Weber. É bem possível que até seja necessário que estas questões não se resolvam para podermos continuar a discutir e podermos continuar a descobrir novas coisas sobre a realidade que nos envolve. Quem sabe?

O que tem caído fora do âmbito destas discussões é o papel da língua, ou melhor ainda, da fala no trabalho sociológico. E isto é estranho. Muitos de nós quando fazemos pesquisa utilizamos como material o que as pessoas nos dizem ou o que se escreveu. Isto é, o nosso ponto de contacto com a realidade que nós chamamos de social é a reportagem que dela se faz. Mesmo assim, damos pouca importância a esses protocolos como objecto central da pesquisa sociológica. É verdade que existem correntes sociológicas que procuram desde há muito corrigir isso. A etnometodologia, por exemplo, tomou há muito a decisão de considerar a fala como objecto sociológico por excelência. Isto está particularmente desenvolvido naquilo que se convencionou chamar de “análise conversacional”. Parte-se aqui do pressuposto segundo o qual a capacidade de manter uma conversa revelaria a competência social dos interlocutores e documentaria a forma como a sociedade se constitui. Ou por outra, a fala seria uma forma de acção. Penso que é. Tentei em tempos seguir este raciocínio com um conjunto de artigos publicados no jornal Notícias e posteriormente reunidos em livro pela editora Ndjira com o título “O abecedário da nossa dependência”. Na esteira de algumas ideias de alguns filósofos da linguagem tentei pensar o vocabulário da indústria do desenvolvimento como uma forma de fazer coisas. Cheguei à conclusão de que esse vocabulário fazia a nossa dependência.

Acho que vale à pena prestar atenção ao que estas pessoas andam por aí a escrever. A fala, de facto, é mais do que isso. É uma forma de fazer coisas. A gente age quando a gente fala. E o mais interessante nisto tudo é que uma preocupação estudada com a fala ajuda-nos a desenvolvermos o que eu gostaria de chamar de mentalidade analítica, isto é a capacidade de perceber o que se passa à nossa volta e, sobretudo, de saber porque percebemos o que pensamos ter percebido. Explico-me. Prestar atenção à fala é desenvolver a nossa curiosidade, pois isso consiste em interpelar tudo quanto ouvimos. Quando lemos um comunicado de imprensa da Presidência a dizer que o Presidente da República “exonerou” o Ministro da Agricultura podemos nos interessar por essa escolha de palavras. Porquê “exonerar” e não “mandar passear” o Ministro da Agricultura? Porque não o “saneou”? Alguns vão dizer que a linguagem jurídica e a formalidade assim o exigem. Em resposta eu diria, sim, isso mesmo, mas porque existem essas diferenças linguísticas? Quando é que elas são observadas? Por quem? Com que consequências? E reparem que o comunicado emitido pelo gabinete de imprensa da Presidência não escreveu “o Presidente da República voltou a demitir o Ministro da Agricultura”. Nem escreveu “o Presidente da República exonerou mais este Ministro da Agricultura” muito menos escreveu “o Presidente da República exonerou o novo Ministro da Agricultura”. Não escreveu “o Presidente da República exonerou o Ministro que nomeou recentemente” e por aí fora. Porquê?

Reparem que com estas perguntas não estamos necessariamente à procura da verdade. Alguns estão, é seu direito, cada louco com a sua mania. Quando colocamos estas perguntas estamos no fundo a tentar perceber em que consiste a realidade social que nos envolve. Dito de outra maneira, estamos interessados em saber o que nos está a ser dito ou comunicado ou revelado como sendo a realidade. A fala, portanto, não é inocente. Isto não quer dizer que haja sempre má intenção por detrás da fala (o que é que o Elísio está a tentar dizer?). A sociologia não é a ciência que estuda as más intenções. Nada disso. A fala documenta a realidade social de várias maneiras. Primeiro, documenta o entendimento que cada um de nós tem sobre o que faz a realidade; segundo, a fala documenta os elementos que cada um de nós utiliza para recuperar a realidade; terceiro, a fala convida ao debate sobre o que é relevante na recuperação da realidade.

Isto tudo levanta a questão da validade das constatações que podemos fazer a partir do uso dessa mentalidade analítica de que falava mais acima. A resposta é simples. A questão da validade é importante, mas no caso concreto do seu uso quotidiano não se coloca. Na verdade, usamos a nossa mentalidade analítica, interpelando a fala, como uma espécie de convite ao debate. A mentalidade analítica não produz certezas, apenas cultiva o que o sociólogo Carlos Serra chama de mentalidade sociológica. A mentalidade analítica não é peremptória. Ela sugere, aventa hipóteses e, acima de tudo, admira-se. Vamos ver isto mais de perto nas próximas postagens. Bom fim de semana!

quinta-feira, dezembro 13, 2007

A mentalidade analítica (1)

Curiosidade

Estes últimos meses têm sido horríveis. Falta-me tempo para dedicar mais atenção ao blogue. E isso é uma pena, pois há tanto assunto por aí, tanta coisa por comentar, tanta coisa para perceber melhor. Quando arranjo um tempinho, dou uma vista de olhos ao que os outros escrevem, comento quando posso comentar, e vou procurando pelo país nos jornais e debates na internet. O convívio directo com a blogosfera, contudo, faz-me falta. É por isso que arranjei um espaçozinho para abordar uma questão de cariz metodológico para preencher os espaços de silêncio.

Muitas vezes algumas pessoas querem saber como é que uma pessoa se pode manter informada sobre o país. Alguns perguntam-me como é possível perceber o país tão bem sem lá se estar. Esses são os que exageram. São os que pensam que quando alguém diz o que eles também pensam essa pessoa está a dizer a verdade. A verdade, por assim dizer, seria função do nosso próprio posicionamento. Não é que me incomodem esses tipos de elogio. Antes pelo contrário. Mas são problemáticos por razões que têm a ver com o que eu entendo ser o papel da sociologia ou das ciências sociais no geral. Na verdade, na minha maneira de ver as coisas, o papel das ciências sociais não é de andar a dizer às pessoas como as coisas são na realidade. Partir desse princípio seria o mesmo que nunca iniciar a reflexão. Seria, por exemplo, necessário explicar o que é a realidade e o que significa dizer que as coisas são como deviam ser ou como realmente são. Seria, dito de outro modo, envolver-se em debates filosóficos que nunca mais acabam.

Para mim o papel das ciências sociais consiste em investigar e recuperar para a discussão pública os critérios que todos nós usamos para dar visibilidade à sociedade. A sociologia do conhecimento tem um pressuposto básico que vale para todo o empreendimento científico na nossa área. Essa sociologia define o conhecimento como sendo a certeza que temos de que a realidade existe. Pois bem, as ciências sociais debruçam-se sobre essa certeza, interrogam-se sobre a sua constituição, traçam a sua história e procuram entender que efeitos é que ela tem na estruturação das relações sociais. O empreendimento sociológico ou das ciências sociais traz os seus praticantes para muito perto do gato proverbial que foi morto pela sua curiosidade. Não sei que gato foi esse, nem conheço a história que precedeu a sua eliminação pela curiosidade. Mas algo me diz que esse gato é nosso camarada. Foi morto por fazer aquilo que todo o cientista social que se preze faz e tem de fazer: satisfazer a sua curiosidade.

Agora, reparem numa coisa muito interessante. O gato não foi morto pelo que sabia. Foi morto por querer satisfazer a sua curiosidade, isto é, foi vítima do que não sabia. As ciências sociais fazem isto mesmo. Nós devemos todo o nosso conhecimento à nossa ignorância. Os cientistas sociais não sabem, por isso os seus praticantes não podem ser mortos por causa do que sabem; as ciências sociais procuram saber.

Daí a questão que me vai ocupar ao longo das próximas postagens: como é que satisfazemos a nossa curiosidade? Melhor ainda: como é que procuramos satisfazer a nossa curiosidade? É evidente que isto nos remete a questões ligadas à metodologia das ciências sociais com toda a sua discussão não só sobre o estatuto epistemológico das ciências sociais como também sobre o tipo de instrumentos que devemos utilizar para produzirmos conhecimento. Está claro que isso não pode ser o objecto da minha reflexão aqui. Isso é coisa de um curso sério de ciências sociais. Os princípios por detrás dessas discussões, porém, são acessíveis a todos nós independentemente do nosso nível de formação em ciências sociais. São princípios profundamente enraizados na nossa experiência do quotidiano que fazem de cada um de nós gente altamente competente do ponto de vista social. Não há maneira de não sermos capazes de apreender esses princípios. Vou tentar partilha-los aqui convosco num esforço de dismistificar um pouco o trabalho de cientistas sociais, mas também de mostrar que a maior contribuição que nós fazemos não está na recuperação da verdade, mas sim na promoção da competência no debate.

É assim que vou começar, na próxima postagem, por reflectir um bocado sobre a importância da fala para o cientista social. Com essa reflexão vou querer dizer uma coisa muito importante, nomeadamente que a curiosidade nasce da recusa do cientista social em dar as coisas do mundo social por adquiridas. As ciências sociais obrigam um indivíduo a fazer-se de parvo, o que é interessante, pois o parvo é parvo – estou a parafrasear Michel Foucault – justamente porque não apreende a realidade como a esmagadora maioria pensa que o faz. O parvo subtrai-se à força normativa do olhar colectivo e isso faz dele um observador privilegiado do que os outros fazem. O sociólogo é parvo por defeito profissional, digamos. Depois desta reflexão sobre a fala vou propor uma maneira muito simplificada de estruturar a nossa curiosidade de forma sistemática. Isso vai me levar a falar de algumas coisas que se fazem no âmbito da sociologia que faz a análise discursiva. Vou ilustrar isso tudo com uma tentativa de análise de uma carta aberta muito interessante que veio cair na minha caixa de correio electrônico exigindo a exoneração do vice-ministro da mulher e acção social.

Não me interessa, naturalmente, discutir os méritos desse indivíduo, embora desde que li as coisas profundamente nojentas que ele escreveu sobre Machado da Graça tenha desenvolvido uma certa antipatia pelo seu pensamento e uma certa perplexidade em relação ao facto de o jornal Domingo lhe proporcionar esse espaço e de ele gozar da confiança do Presidente da República ao ponto de ser indicado como comissário na Alta Autoridade para a Função Pública e, agora, como Vice Ministro da Mulher e Acção Social. O que se escreve na “carta aberta” que vou tentar analisar confirma ainda mais os pontos de interrogação a volta desse indivíduo, mas levanta outro tipo de interrogações sobre o tipo de sociedade que o nosso país é ou tem. E isto não é do pelouro das certezas. É do pelouro da curiosidade.