terça-feira, janeiro 08, 2008

O que acho desse trabalho (3)

Não vos quero saturar, mas não vou poder postar lá para o fim da semana e depois disso vou ter acesso difícil à internet. Por essa razão, e como tenho todos os textos já escritos, vou postá-los com intervalos mais curtos do que o habitual.

Se não, por que razão não é? Não é válido por que a situação mudou de 2001 para 2007? E se a situação mudou, mudou em que sentido e em que níveis?

Na postagem anterior levantei o problema do sentido da noção de “validade”. Optei pela validade enformada pelo que a lógica nos ensina e que a pessoa que marcou este trabalho para casa não se cansa de ridicularizar apoiado por auto-intitulados seguidores que estão fartos do “rigor científico”. Agora, reparem numa coisa curiosa: um conteúdo ou é válido ou não é. Isso é sugerido pelas duas primeiras perguntas do TPC. Isto pressupõe critérios. Ou por outra, critérios são importantes. Mas que critérios? É possível discutir validade sem consenso sobre os critérios? Como é que a pessoa que nos marcou este trabalho vai saber se estamos a responder correctamente às perguntas sem critérios? Como? Como é que os seus auto-intitulados seguidores que concordam com o que ele escreve ou diz, sabem que concordam? Como é que ele próprio decide que um texto é válido ou não? Toda a nossa discussão tem sido sobre isto e não, como muitos dos seus seguidores pensam e dizem, sobre se as pessoas devem criticar ou não.

A nossa discussão tem sido sobre a responsabilidade que pesa sobre nós académicos de sermos rigorosos connosco próprios independentemente das nossas inclinações políticas – que as temos, quem pode negar isso? Já agora, alguns comentadores nos blogues descobriram que sou da Frelimo, sempre fui e estou ao seu serviço, mas que também estou numa campanha individual megalômana de auto-promoção, quero ser o melhor sociólogo de Moçambique, arrancar a Carlos Serra todos os seguidores que tem e atrelá-los a mim, que tudo quanto faço é política, mas política barata e suja, e que a sorte do povo não me interessa, só o meu grande ego. Descobriram também que não respondo às perguntas críticas, nem às das mulheres; portanto, estão avisados todos quantos me querem contrariar ou são mulheres. Declaro solenemente que tudo isto é verdade, que tenho vergonha de mim próprio e que há muito mais que não sabem, mas que só vou admitir à medida que for revelado. Na minha próxima encarnação vou tentar ser melhor pessoa (ou animal, de preferência camaleão para poder mudar de cores – partidárias – sempre que for conveniente para as minhas ambições pessoais).

A resposta mais simples à esta pergunta sobre se o conteúdo não é válido seria a referência à postagem anterior. Se eu escrevi lá que o conteúdo era plausível, não posso agora dizer que não é. Isso também faz parte da cultura académica: coerência e consequência. Indiquei, contudo, alguns elementos do argumento do professor universitário português que me pareceram problemáticos. Contudo, uma vez que esses argumentos não são centrais à sua tese, não fiz depender a minha aceitação do seu argumento global desses outros argumentos menores, tanto mais que estes serviam apenas para ilustrar o que ele queria dizer. Sendo assim, não teria como responder à questão de saber porque razão o conteúdo não é válido. Se eu estivesse simplesmente interessado na discussão da sua conclusão – que é o que alguns fazem entre nós – aí sim, poderia até dizer que não é verdade que o nosso sistema político se caracterize por uma elite local criada pelo sistema neo-liberal global para pilhar as riquezas do país em detrimento do povo. Mas esse tipo de discussão não é útil. É fútil.

O blogue “Diário de um sociólogo” propõe, então, algumas razões que tornariam o conteúdo inválido. São duas. A primeira tem a ver com a altura em que o artigo foi escrito pelo professor universitário português. Será que de 2001 para 2007 a situação mudou? Portanto, o conteúdo do texto seria inválido se as coisas tivessem mudado. Confesso que não consigo perceber muito bem o raciocínio que está por detrás desta sugestão. Se eu analiso um texto é claro que vou julgá-lo contra o pano de fundo do tempo em que foi escrito. Não posso rejeitar o texto com base no argumento segundo o qual as coisas teriam mudado. Vou procurar saber se o que o texto diz se pode aplicar às circunstâncias do tempo em que foi escrito. Agora, se a sugestão é de que a publicação deste texto hoje, como forma de descrever a situação actual, é útil ou não, sobretudo em termos da validade do conteúdo para a situação actual, aí não há problemas. O conteúdo continua válido nos termos do que escrevi na postagem anterior. Aqui não há mais nada a acrescentar, portanto. Insistir na mudança como critério de plausibilidade é, em minha opinião, discutir conclusões. E isso não é útil. É o mesmo que acontece em várias áreas das ciências sociais – sobretudo nos estudos africanos – onde cada investigador se protege da crítica com o argumento segundo o qual as coisas seriam diferentes no seu campo específico de estudo. Mary Douglas chamou a isto de fenómeno “entre os Bongo-Bongo é diferente”.

A segunda razão é ainda sobre o tempo, mas quer saber se o conteúdo não é válido porque as coisas possam ter mudado. E remata: em que níveis? Aqui também a questão é bicuda. Está claro que não podemos julgar a validade do conteúdo com base no argumento segundo o qual as coisas teriam mudado. Conforme já disse, só se a sugestão fosse de que esse texto de 2001 é válido para hoje. Aí sim, podemos ver se as coisas são como são descritas pelo texto. Se esse for o argumento, repito, então, o conteúdo ainda é válido nos termos do que escrevi na postagem anterior. Confesso que tenho dificuldades com o raciocínio que está por detrás destas sugestões. E a coisa piora quando somos convidados a dizer em que níveis é que as coisas teriam mudado. Acho que estas perguntas, mesmo para quem ache que o conteúdo não é válido, não fazem muito sentido. A ter dificuldades com a validade do conteúdo seria necessário problematizar os critérios (as premissas) do argumento em questão. Ora, tenho em mim que uma análise social digna desse nome não vai fazer depender a sua validade de condições circunstanciais.

Este último aspecto conduz-me directamente a uma questão de muita importância para a saúde do debate na esfera pública moçambicana. As ciências sociais, pelo menos no meu entendimento, não têm como objectivo revelar a verdade. Já escrevi sobre isto neste blogue. Aconselho a leitura destes textos a todos que continuam a interpelar-me a este nível. Eu também não conheço a verdade; não sei se é europeia, africana, da Frelimo, da Renamo ou minha; não sei. O que as ciências sociais fazem – ou deviam fazer, caso este seja o meu entendimento particular – é dizer em que condições uma afirmação é válida ou não. Sendo assim, não podem ser as circunstâncias do momento a ditar a sua validade, mas sim, mais uma vez, os critérios estabelecidos a priori. Esta é, na verdade, uma outra maneira de dizer que qualquer afirmação – em ciências sociais – nos obriga a prestarmos mais atenção às condições da sua própria validade. Um comentador deste blogue, Josué Muchanga, levantou a questão da relação entre a epistemologia e a sociologia reflexiva que se encaixa muito bem no argumento que estou aqui a desenvolver. Em que condições é que o que estou a dizer faz sentido?

Na verdade, existem algumas correntes filosóficas que defendem a ideia de que isto é também válido para as ciências naturais. Stephen Toulmin, um filósofo britânico, defende, com efeito, a ideia de que o avanço da ciência está intimamente ligado a esta função da teoria, a saber especificar as condições em que um determinado efeito é possível. Portanto, a pergunta colocada sobre se o conteúdo do texto do professor universitário português não seria válido porque a situação mudou de 2001 a 2007 é, ela própria, problemática e revela alguns mal-entendidos graves no que diz respeito ao que a actividade científica é e faz. Acima de tudo, ela revela, para mim, incongruência, uma incongruência que se manifesta na ridicularização dos que insistem nos critérios ao mesmo tempo que se parte do princípio de que é possível julgar. Como julgar sem critérios? Um grande pensador francês, Lucien Levy-Bruhl, em minha opinião injustamente ridicularizado pelos seus pares, ao falar sobre a mentalidade pré-lógica levantou a questão da incapacidade de reconhecer uma contradição como uma das características dessa mentalidade. A prova está patente. E gente com esta inclinação chama nomes aos outros.

Sei que reprovei esta pergunta, sobretudo agora que fui descoberto.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

O que acho desse trabalho (2)

Acham que o conteúdo é válido? Se sim, por quê?

Leiam o texto do professor universitário português aqui para melhor acompanharem a minha resposta. Karl Marx, num dos seus escritos, uma vez disse que às vezes o mais fácil é rejeitar a pergunta ao invés de tentar respondê-la. A tentação neste caso é forte. A pergunta é muito problemática. O que significa aqui validade de conteúdo? O conteúdo é válido em que sentido? Quando descreve uma situação que qualquer leitor minimamente inteligente pode articular com a realidade? Quando a forma como a descrição é feita é plausível? Estou a tentar resistir à tentação de perguntar se a validade a que a pergunta se refere diz respeito a critérios metodológicos de alguma natureza. Estou a resistir porque tanto quanto pude perceber, todo o tempo esse blogue procurou dar-nos a impressão de que esse tipo de critérios não conta. Agora conta? Não é esta a pergunta que nós os outros temos colocado com muita insistência, nomeadamente que precisamos de critérios para avaliarmos a plausibilidade (porque não mesmo validade?) do que nos é dito? O que mudou? Ou a pergunta é simplesmente retórica?

Suponho, porém, que se trata da validade que a nossa capacidade de reconher um argumento racional nos permite apurar. Então, para respondermos à pergunta sobre se achamos o conteúdo válido, e porquê, temos primeiro que apresentar o argumento do texto em questão. Assinalei as partes relevantes desse argumento em amarelo no texto que podem baixar aqui. Penso que o texto apresenta dois argumentos intimamente ligados. O primeiro argumento é de que o ajustamento estrutural em Moçambique é parte de um projecto descreditado de dominação global que utiliza Moçambique simplesmente como forma de mostrar que o próprio projecto pode funcionar. O autor acha, contudo, que este projecto não está a funcionar e a prova disso é a situação precária dos moçambicanos consubstanciada na crescente dependência do país do auxílio externo. Este é, portanto, o primeiro argumento. O segundo, que decorre do primeiro, é de que este projecto global criou uma elite local que controla todos os sectores da vida social, política e económica da sociedade para seu próprio benefício de tal maneira que ela não tem nenhum interesse na melhoria das condições de vida dos demais. Há um terceiro argumento periférico que não vou discutir porque o próprio autor também não o elabora. Com efeito, no último parágrafo ele coloca a pergunta de saber se países como Moçambique estão maduros para o tipo de transformação social que uma revolução marxista exigiria e sugere uma resposta negativa. Talvez fosse interessante, num outro contexto, recolocar esta pergunta não só em relação ao fracassado projecto revolucionário no país como também em relação à filosofia neo-liberal.

Eu acho que estes dois argumentos são válidos. Validade, no sentido restricto da lógica, não significa verdade ou estar correcto, embora a probabilidade de estar correcto seja maior. Assim, a conclusão do autor segundo a qual o sistema político moçambicano seria o resultado de um projecto global de dominação faz sentido e apoia-se em premissas que podem ser discutidas. Essas premissas são o próprio ajustamento estrutural e a política neo-liberal que o justificam bem como a lógica de actuação da classe política. Não obstante, aceitar a validade do argumento não me compromete com as conclusões do autor. Compromete-me com a discussão das premissas que ele apresenta. Assim, posso aceitar que num certo sentido, de facto, as políticas de ajustamento estrutural reflectem um projecto global de dominação da periferia pelo centro, mas posso, ao mesmo tempo, levantar a pergunta de saber se na realidade é necessariamente assim e o resultado precisa de ser o que é asseverado pelo autor. As políticas de liberalização em Moçambique criaram, ao lado dos excessos ideológicos do FMI e do Banco Mundial, espaços de articulação de processos de diferenciação social que dificilmente podem ser acomodados na visão homogeneizante do professor universitário português. Mesmo as observações que ele faz em relação à estrutura política podem ser discutidas. Assim, embora seja verdade que haja uma forte coincidência entre interesses políticos, sociais e económicos – que também reflectem a estrutura da nossa sociedade ou pelo menos da fase de diferenciação social em que ela se encontra – há também clivagens – que ultimamente se revelam na renitência do Tribunal Administrativo e do Concelho Constitucional – que colocam sérias interrogações à volta da tese do nosso professor universitário português.

Portanto, o conteúdo é válido porque pode e deve ser discutido. O autor não se põe apenas a tirar conclusões sem nenhum fundamento. Ele apresenta uma conclusão que se apoia em premissas claras e que são a base para aceitarmos ou rejeitarmos o que ele diz. No prosseguimento da série veremos que nada disto acontece em Azagaia e Gprofam – e não precisa de acontecer! – muito menos em Custódio Duma. Noé Nhantumbo é diferente e muito mais próximo do professor universitário português – na qualidade da sua argumentação. Agora, há elementos no texto “o bom aluno” que são extremamente problemáticos e que assinalei em verde. O primeiro diz respeito à comparação que ele faz com os tempos de Samora Machel. Essa comparação é encabeçada por um argumento tendencioso que caracteriza de decente só aquele que “convoca” o tempo de Samora Machel e sugere que todos os que “diabolizam” esse tempo são “arautos do pensamento único neo-liberal”. É óbvio que isto é problemático e bastante barato.

Eu não me considero arauto do pensamento único neo-liberal (nem tenho a certeza se esse pensamento de facto existe) e nem diabolizo o tempo de Samora Machel. Uma grande parte dos problemas que temos hoje tem muito a ver com o estilo de governação de Samora Machel, sobretudo muito do que diz respeito ao (des)respeito pela legalidade. Dizer isto não é diabolizar ninguém. Dizer que ele é responsável por muitos dos nossos problemas não é diminuir a sua importância na história do país. Também vivi em Moçambique naqueles tempos e a sugestão de que “o pouco que havia era partilhado com razoável equidade” é simplesmente grosseira para quem se lembra dos privilégios que a nomenclatura sempre teve e, sobretudo, se lembra de como funcionava a GOAM em Maputo. E mesmo se ignorarmos esses privilégios podemos, e devemos, colocar a pergunta de saber porque se chegou ao ponto de termos essas carências. Só o apartheid e o imperialismo não bastam como explicação. Mas isso abre uma caixa de pandora que não interessa aqui. Portanto, o que quero dizer é que devemos também prestar atenção à ilustração do argumento do autor que se apoia numa oposição simplista entre o agora e o tempo de Samora Machel que, curiosamente, coincide com a glorificação acrítica de Samora Machel no blogue “Diário de um sociólogo”.

O outro argumento problemático é a sugestão não fundamentada segundo a qual a elite nacional estaria a participar na pilhagem do país em troco de um punhado de dólares. Este argumento revela um certo descuido analítico do professor universitário português que o coloca perigosamente perto dos hábitos analíticos dos nossos “críticos” sociais hostis ao “rigor científico”. O útil e plausível argumento que ele apresenta sobre as condições de emergência desta elite nacional – projecto global de dominação – não significa, em minha opinião, que todos quantos fazem parte desta elite estejam envolvidos na pilhagem do país em troco de um punhado de dólares. O argumento peca por ser demasiado geral. Há gente decente e que é membro desta elite; há gente que resiste à interferência da mão externa e que é membro desta elite; há condições estruturais que limitam o espaço de acção dessa gente. Ou por outra, ao ser tão grosseiramente geral o argumento bloqueia todos os ganhos analíticos que a sua abordagem apresenta.

Enquanto fico à espera de saber que nota tenho para esta resposta, passo para a segunda pergunta do TPC.

O direito à razão X – Pedido de desculpas

A postagem com o título “o direito à razão X” contém um erro grave. Atribuí a autoria do texto que lá critico ao Centro de Integridade Pública. Um comentador anónimo e, há bocado, o próprio Director desse Centro, Marcelo Mosse, informaram-me que esse texto não é da autoria do Centro de Integridade Pública. Por esta atribuição errada de autoria peço desculpas ao Centro. Devo, contudo, dizer que recebi o email de alguém do próprio Centro. Esse email traz o endereço do Centro, não tem a indicação do autor do texto e não diz que o Centro não é autor do mesmo. Acrescento também que a minha postagem é uma crítica ao texto, não ao Centro de Integridade Pública. Deixo, porém, registadas as minhas sinceras desculpas na esperança de que os transtornos não tenham sido grandes.

O que acho desse trabalho (1)

Um comentário ao "Diário de um sociólogo"

No dia 30 de Dezembro do ano passado o blogue “Diário de um sociólogo” publicou uma postagem (que pode ser lida aqui) com o título “O que acham deste trabalho?”. Li essa postagem no sábado passado. Como é normal naquele blogue, não se diz claramente a quem é dirigida a pergunta, mas pela prosa, tema e perguntas com as quais termina é fácil depreender que se trata de mais uma “contribuição” para o debate de surdos que está a decorrer na blogosfera moçambicana sobre crítica social, intervenção social e cultura académica. A postagem cita longamente um texto da autoria de um autor português, Fernando Bessa Ribeiro, com o título “o bom aluno” e que é de 2001. O texto fala de Moçambique e a sugestão que o blogue em questão faz é de que esse texto não é diferente das letras da canção de Azagaia e do grupo Gprofam, nem do texto de Custódio Duma e de Noé Nhantumbo publicados no Canal de Moçambique.

De forma muito picante, o blogue faz questão de referir que o autor do texto “o bom aluno” é um professor universitário português. Suponho que esta referência queira dizer que se mesmo um professor universitário português diz a mesma coisa (se for mesmo verdade que não há diferença entre esses textos, algo que ainda vou discutir aqui) que moçambicanos simples como os músicos, o jornalista e o jurista, então estes últimos não podem estar enganados e, acima de tudo, o blogue, ao citá-los com aprovação, não fez mais do que aplaudir o que é bom. Faço referência a este pequeno detalhe para chamar a atenção dos que andam pelos blogues com boas intenções e dizer-lhes que são estes pequenos pormenores subtis e nada constructivos que minam o debate académico. É claro que um professor universitário – independentemente da sua nacionalidade, já agora – pode se enganar. A questão não é, e nunca foi, que há uma verdade que deve ser anunciada a todo o custo. A questão é a forma como se apresenta uma conclusão e se é possível debatê-la. A questão é a responsabilidade do académico perante conclusões problemáticas. Aplaudi-las porque dizem o que é politicamente correcto ou insistir na sua melhor formulação?

Felizmente, o blogue marcou um TPC com cinco perguntas. Repito-as logo a seguir para também anunciar o que vou fazer ao longo das próximas postagens. Recolhi alguns dos textos referidos pelo blogue (à excepção da letra da canção O País da marrabenta) e coloquei-os aqui para quem quiser consultá-los e acompanhar melhor a discussão. Não vou analisar todos os textos porque como bom aluno que gostaria de ser, só posso fazer o trabalho para casa que nos foi marcado. E esse trabalho consiste em analisar o texto da autoria do professor universitário português. Referir-me-ei aos outros textos apenas onde for necessário estabelecer comparações segundo as perguntas marcadas:

1. Acham que o conteúdo é válido? Se sim, por quê?

2. Se não, por que razão não é? Não é válido por que a situação mudou de 2001 para 2007? E se a situação mudou, mudou em que sentido e em que níveis?

3. O que distingue Bessa [o professor universitário português] de Azagaia, Gprofam, Duma e Nhantumbo?

4. Que perguntas não fiz e deveria ter feito?

5. Seria possível um outro tipo de abordagem? Se sim, qual?

É muito trabalho como podem ver, mas vamos a isso no interesse de uma cultura académica mais responsável. Vou precisar de espaço para cada pergunta pelo que sugiro postagens individuais para cada uma delas. Posso, desde já, dizer que ao contrário do que pensa o blogue “Diário de um sociólogo” há diferenças grandes entre Bessa e os outros, mas também entre os outros entre si. Essas diferenças têm muito a ver não só com a qualidade da argumentação, mas também com o contexto em que esses argumentos são esgrimidos. Assim, não faz muito sentido (que me perdoe a insolência o professor que marcou o trabalho) comparar Bessa com Azagaia e Gprofam, nem mesmo, já agora, comparar Azagaia e Gprofam com Duma e Nhantumbo. Azagaia e Gprofam cantam o que vêm e sentem e não há, em princípio, nenhuma obrigação a pesar sobre eles de submeterem o que dizem ao rigor analítico académico. Há a obrigação do lado académico de não promover o que eles dizem como a revelação da verdade. Seria, naturalmente, desejável, que a qualidade da nossa esfera pública fosse suficientemente elevada para não permitir que cantores se permitam tanta liberdade nas conclusões que tiram. Em suma, Azagaia e Gprofam desabafam e estão no seu direito de o fazer. Bessa, Duma e Nhantumbo não deviam desabafar, pois o que eles propõem é análise e análise é julgada pela sua plausibilidade, não pela congruência que possa existir entre as conclusões que tiram e o que cada um de nós sente politicamente. Esta é uma diferença muito grande e tem consequências para o que fazemos quando criticamos.

O parágrafo anterior é mais uma demonstração do que está mal na nossa cultura académica e do que torna difícil o debate sobre estas questões. Não quero acreditar que o autor deste TPC não veja os limites da comparação que ele propõe. Mas, se calhar, se eu insistir sobre isso vou estar a obrigar o leitor a aceitar apenas as minhas conclusões e não, como tenho dito, a discussão das minhas premissas. Por isso, prefiro passar agora a responder às questões colocadas.

sexta-feira, janeiro 04, 2008

O direito à razão X

O último ano terminou com uma discussão mais ou menos inconclusiva sobre a crítica social. Este texto (leia-o aqui) circula na internet já há algum tempo. Eu próprio recebi-o há já vários meses de alguém que trabalha com o Centro de Integridade Pública.


Não o comentei na altura por o ter considerado tão problemático quanto os vários relatórios que aquela instituição já publicou sobre a corrupção em Moçambique. Lembro-me de ter comentado a qualidade de alguns destes relatórios no blogue de Carlos Serra e de ler, mais tarde, indirectas sobre “os que se preocupam mais com os conceitos do que com a realidade”. Hoje pego neste texto porque caiu de novo na minha caixa de correio e quero usá-lo para ilustrar o que eu entendo por responsabilidade na crítica, apesar de tudo quanto está mal no país. Integro a minha análise na rubrica com o nome de “direito à razão” porque considero o texto uma afronta a esse direito que todos nós temos. Como devem estar recordados, esta rubrica divulga e comenta atentados ao direito que a nossa esfera pública tem de discutir coisas apresentadas de forma responsável, racional e, porque não, útil.

Apesar de eu insistir demasiado na clarificação do conceito de “corrupção” e, por vezes em resposta aos que insistem em usar o conceito de forma descuidada, dizer que ela não existe, ela é um problema muito sério em Moçambique. O meu primeiro texto no jornal Notícias foi sobre a corrupção e o título que eu próprio havia dado a esse texto era “porque a corrupção não é o problema que dizem ser, mas mesmo assim devemos ficar preocupados”. Como este título longo indica, não recusava a existência da corrupção. Lembro-me de nesse texto argumentar contra a ideia geral de que a grande corrupção era o maior mal, opinião que continuo a manter. O maior mal é a pequena corrupção e isto por várias razões, a mais importante das quais é o facto de ela documentar de forma extrema o nosso problema político central, nomeadamente a vulnerabilidade do cidadão. Em textos subsequentes já não me debrucei com muita profundidade sobre a questão. Entretive-me a questionar a ideia que os auto-intitulados críticos da corrupção tinham desse mal e fui ganhando a convicção de que muito poucos de entre eles sabiam realmente do que estavam a falar.

Portanto, a corrupção é um grande problema em Moçambique. Quão grande não sei, nem mesmo se ela explica o não-desenvolvimento. Só sei dizer, por enquanto, que é um grande problema. Sei também dizer que a sua abordagem é extremamente problemática baseando-se, ao que tudo indica, numa suspeita geral que constitui a sua própria prova dos nove. Vamos reler o texto acima juntos e eu vou comentando o que acho problemático. Vão reparar que os meus comentários não são sociológicos no sentido restricto do termo; são comentários que têm a ver com regras simples do debate de ideas na esfera pública.

O artigo começa com uma afirmação geral que vou deixar passar para não ser mesquinho. Caso contrário, iria interpelar a afirmação segundo a qual a corrupção em Moçambique e na maioria dos países em desenvolvimento seria um problema sério da sociedade. Isto é, iria procurar saber o que esta afirmação quer dizer. Que é característica dos países em desenvolvimento padecerem deste mal? Que a existência desse mal é um facto que deve ser tomado em consideração para perceber a condição desses países? Que qualquer descrição desses países deve passar pela menção desse mal? Como podem facilmente ver, há nesta afirmação algo subentendido, mas que é central à construção do “problema da corrupção” em Moçambique e nos países em desenvolvimento. Porém, conforme disse, vou passar por cima disso.

Onde me quero deter por alguns instantes é na afirmação “é de temer que a situação possa piorar”. Isto é no segundo parágrafo após a informação factual segundo a qual Moçambique ocuparia o 111° lugar numa classificação internacional que envolve 179 países. É uma afirmação grave. Na próxima classificação o nosso país pode estar no 112° ou mesmo no 120° senão mesmo no 179° lugar. Abaixo de 111° ou até no mesmo lugar é que não vai ficar. Já que a corrupção é um dos problemas mais preocupantes da nossa sociedade é legítimo esperar que o mensageiro que nos anuncia esta triste notícia – que vai preocupar a nossa sociedade ainda mais – elabore um pouco o assunto. O que lhe leva a supor que a situação possa piorar? Teve acesso aos relatórios preliminares? Foi convidado a elaborar o próximo relatório? O próprio problema piorou? Como sabe? Que critérios usa para fazer a avaliação? O que eu acho grave nesta afirmação é o simples facto de ser lançada e não parecer carecer – pelo menos na opinião de quem escreveu o texto – de mais explicação.

E é este tipo de afirmações que depois a imprensa ou certos blogues moçambicanos pegam e citam para depois concluirem que o problema da corrupção em Moçambique é mesmo grave; segundo a instituição não-sei-quantos a previsão é que a situação venha a piorar. Enfim,... Também passo por cima de uma frase bastante críptica que diz “O ênfase é normalmente dado aos pobres e mal pagos funcionários públicos com decisões sobre contratos e quantias que envolvem muitas vezes o seu salário”. O que quer dizer esta frase? Que quando se fala de corrupção dá-se mais atenção aos funcionários públicos do que a uma outra coisa mais importante? E que coisa é essa? Que a situação é capaz de piorar para o ano? E porque se presta mais atenção aos funcionários públicos? Estará a referência à pobreza e mau salário dos funcionários a tentar explicar alguma coisa? Que coisa? Mas, prontos, passo por cima. Só que sem nos darmos conta já está aqui de novo mais uma verdade que vai ser repetida ad nauseum na imprensa e blogues “críticos”.

Depois passamos para a história propriamente dita. E a ponte é curiosa. Anuncia-se que se vai falar do corruptor activo (há corruptores passivos?) “... que provoca situações pouco éticas por vezes ilegais”. Se o corruptor é activo significa que ele está a conjugar o verbo “corromper”. Logo, ele provoca situações pouco éticas; e em princípio devia também estar a agir fora da legalidade. Para quê tanta redundância? É a reclamação do espaço normativo de enunciação? Acho a linguagem aqui extremamente curiosa. O que se segue é mais do que curioso. Digo, desde logo, que não estou interessado na veracidade do que o artigo contém. Estou, isso sim, interessado na forma como acusações tão graves como as que o texto faz podem ser feitas sem a mínima preocupação de as fundamentar. Suponho que só tribunais é que possam clarificar algumas das questões levantadas, mas o meu interesse está na facilidade com que acusações tão graves podem ser feitas na nossa esfera pública. Muito estranho.

O texto insinua que a KPMG iniciou uma campanha para denegrir a imagem de outra empresa perante os doadores e as entidades públicas. Ao que parece, estes últimos deixaram-se manipular – não foram tão perspicazes como o Centro de Integridade Pública. Em seguida insinua-se que o primeiro chefe da KPMG deixou de o ser por se sentir impotente para enfrentar a concorrência de forma – está subentendido – leal e juridicamente limpa. Uma afirmação grave sem fundamentação. Não se diz se a notícia é resultado de uma entrevista ao fulano em questão ou a gente próxima. Nem o principal recurso da imprensa moçambicana – “fontes dignas de crédito que pediram o anonimato” – é usado. O tipo abandonou a empresa por se sentir incapaz de bater a concorrência de forma leal e juridicamente correcta. São contratadas duas pessoas para a “gestão do topo” – um ex-funcionário da União Europeia e um ex-membro da Comissão Nacional de Eleições. Não se diz nada sobre as qualificações dessas pessoas a não ser que foram contratadas pelo simples facto de o novo timoneiro da KPMG “saber” que dinheiro é só com doadores e Estado. Onde vão parar políticos reformados na Europa e na América do Norte? Em organizações da sociedade civil ou em grandes empresas como consultores? E porquê? Porque como políticos são íntegros ou porque têm contactos? Que grande nova esta! Mas uma nova que funciona à custa de ataques a pessoas.

Assim, o que vem da União Europeia – cujas qualificações para o cargo não são tematizadas – é conhecido pelas suas “festas” – que são regadas com álcool e drogas. Reli esta passagem inúmeras vezes. É possível que o tal fulano de facto seja conhecido pelas suas “festas regadas com álcool e drogas”. Mas não seria de bom tom para uma instituição como o Centro de Integridade Pública que procura fazer trabalho sério proporcionar aos seus leitores – a este pelo menos – mais informação sobre esta acusação tão grave? Sente-se bem dizendo uma coisa assim tão grave sem nenhuma elaboração? Tipo, “eu estive numa dessas festas” ou “conheço alguém que lá esteve” ou coisa parecida? E o pior ainda vem aí: estes dois trunfos da empresa parecem muito poderosos nos respectivos meios de onde vêm. Enquanto um usa as suas influências na comunidade doadora, o outro manipula o jogo partidário para ganhar concursos para a KPMG. É possível. Mas a questão que se coloca para mim é de saber se estes dois fulanos são mesmo assim tão influentes até esse ponto? E se são, será que o problema da corrupção ainda é mesmo um simples problema de imoralidade da parte do Estado moçambicano, ou será que há mesmo condições estruturais que ainda não estamos a perceber bem? Não valerá à pena tentar perceber isso melhor? A pressa de denunciar não está a conduzir o Centro a passar por cima de questões mais centrais? Na verdade, estas não são questões que este artigo possa responder, pois em princípio trata-se apenas de uma informação (denúncia). Pergunto-me, contudo, se os “críticos” que forem ler isto terão a preocupação de as colocar. Duvido. Mas seria tão bom para o nosso país.

Segue-se depois uma série de acusações que não são substanciadas no texto pelo que podemos partir do princípio de que se trata de especulação: contas no exterior, comissões fixas, etc. Em princípio, reparem, não há nada estranho que uma companhia estrangeira tenha contas bancárias fora do país. E em princípio também não há nada anormal no facto de ela canalizar os lucros para lá, nem de pagar pelos serviços através dessas contas. Tudo isso depende do que a nossa legislação permite, ou não. Todavia, é típico da denúncia usar indícios que servem para muita coisa para sugerir o que ela própria quer dizer. Assim, se alguém fosse verificar e ficasse a saber que a KPMG tem de facto contas no exterior – independentemente do que a legislação moçambicana diz a esse respeito – o palpite ficava confirmado. É grave.

Segue-se a acusação segundo a qual a KPMG seria tão poderosa ao ponto de passar por cima das regras de aprovisionamento e mesmo de ganhar concursos nos quais ficou em segundo ou terceiro lugar. A ideia chave aqui é a sugestão de que a firma é poderosa. Conspiração, portanto. O resto é apenas insinuação, mas muito bem colocada. Mas o que significa “passar por cima das regras de aprovisionamento”? O diabo aqui está no detalhe. Sem nenhuma informação sobre um caso concreto que ilustre a violação dessas regras é impossível dar crredibilidade a um texto destes. E teria sido tão fácil! Era só uma questão de dar um exemplo. Igualmente, pergunto-me o que significa “ganhar um concurso em que se ficou em segundo lugar”. É bem possível que a firma tenha ficado com um concurso no qual ocupou o segundo ou terceiro lugar. Essas coisas acontecem, sobretudo quando se apura que o vencedor não satisfazia todas as condições de eligibilidade. Isso acontece. Portanto, teria sido importante aqui também indicar um caso específico em que o primeiro classificado satisfazia todos os critérios e mesmo assim perdeu para a KPMG; caso contrário, é especulação da mais barata, pois é à custa da credulidade do leitor incauto.

O parágrafo mais intragável de todo o texto é o seguinte: “Esta situação é ainda mais grave quando grande parte dos trabalhos efectuados por esta empresa passam por analisar e denunciar situações de corrupção. Obviamente a empresa passa a estar limitada nas opiniões que emite sobre os seus clientes. Analisem-se os jornais dos últimos anos e veja-se que é normal (quase mensalmente) virem a público situações de corrupção evidenciadas pelos relatórios dos auditores. Quantas destas notícias tinham por base relatórios da KPMG? Nenhuma”. A grave situação a que o texto se refere é o conluio entre a empresa, doadores e Estado. As coisas começam mal logo na sugestão de que “parte” do trabalho da empresa consiste em “analisar e denunciar situações de corrupção”. O meu problema com esta sugestão é de que “analisar e denunciar situações de corrupção” não devia ser parte do trabalho de uma empresa de auditoria. Uma empresa deste género devia simplesmente verificar se as contas foram bem feitas ou não. O resto é trabalho da justiça. Mas lá está a lógica da denúncia. Denúncia e circularidade. Uma vez que o trabalho consiste em “analisar e denunciar corrupção” se não se apurar nada os “críticos” vão dizer que é porque os “corruptos” são espertos ou então a empresa de auditoria está feita com eles. Porquê? Porque em Moçambique há corrupção, nós é que não estamos a ver. Estão a ver o problema da denúncia? Estão a ver a afinidade com a epistemologia dos “críticos”? É grave. E continua. “Analisem-se os jornais dos últimos anos” – quantos, já agora? Dois últimos anos? Cinco últimos anos? – “... e veja-se que é normal (quase mensalmente) virem a público situações de corrupção evidenciadas pelos relatórios dos auditores”. Verdade? Eu não estou em Moçambique e não posso dizer com certeza se isto é verdade ou não. Mas quando estou em Moçambique e abro os jornais vejo poucas “situações de corrupção evidenciadas pelos relatórios dos auditores”, mas muito poucas mesmo. E essas poucas “situações” são na sua maioria casos de especulação pelos jornalistas. Dos grandes casos de “corrupção” conhecidos – por exemplo, no Ministério da Educação e na UEM e que foram motivo da retirada de alguns doadores nórdicos – não está claro se houve mesmo “corrupção” ou se, simplesmente, as contas foram mal feitas devido à confusão que os mecanismos de contabilidade dos doadores criam para o nosso sistema de contas. Há o caso famoso de um ex-Director de Faculdade na UEM que foi acusado – ao que tudo indica injustamente – de corrupção por não ter sido capaz de justificar um certo montante em falta num projecto sob a sua direcção. Como o que desapareceu não está justificado a conclusão que se tira é de que foi roubado. Na caça às bruxas que caracteriza o discurso anti-corrupção a pessoa é culpada até prova em contrário.

Mas a frase mais grave de todo o texto é a seguinte: “Quantas destas notícias tinham por base relatórios da KPMG? Nenhuma”. Portanto, uma vez que nenhum dos relatórios da KPMG serviu de base para os jornais noticiarem “situações de corrupção”, logo a própria KPMG está envolvida nesses esquemas. Quem não participa na denúncia está feito com o inimigo. São várias coisas que me incomodam neste argumento. Primeiro, em todo o texto sugere-se a ideia de que a KPMG controla o negócio das auditorias, mas depois diz-se que “quase mensalmente” são noticiadas “situações de corrupção” baseadas em relatórios de outras empresas. Ainda sobra, portanto, muito negócio para os outros – e nem vou levantar a questão de que do outro lado da moralidade haja também um interesse especial em exagerar os casos de corrupção – sobretudo se admitirmos que nem todas as auditorias revelam “situações de corrupção”. Segundo, a informação geral segundo a qual certas auditorias revelam “situações de corrupção” e outras – da KPMG – exige, em minha opinião, que os autores do texto nos facultem mais dados. Por exemplo, quais são as áreas sobre as quais as outras empresas fazem consultorias e quais são as da KPMG? Se calhar a diferença está aqui. Terceiro, e mais grave do ponto de vista da lógica, será que toda a auditoria tem que desembocar em “situações de corrupção”?

Não vou comentar o último parágrafo sobre a “hipocrisia das multinacionais”, pois ele revela esta visão bastante redutora e problemática dos nossos países. Apesar de o texto se debruçar sobre uma multinacional, a ideia que os autores do texto têm do nosso país é que estrutura a sua estupefação. Parte-se sempre do princípio de que nós é que somos o problema e quando de repente somos confrontados com um caso que revela o contrário, ficamos estupefactos. Vou me permitir uma generalização grosseira ao grande estilo dos “críticos”: não há empresa no mundo que insistiria na legalidade se soubesse que se safava impune. Nenhuma! Nem mesmo uma empresa do Vaticano.

Escrevi este texto demasiado longo – e saltei por cima de várias falácias contidas no artigo em questão – para vos alertar contra os atentados de que é vítima a nossa razão. Se alguém pensa que com isto estou a tentar proteger os “corruptos”, muito bem. Cada louco com a sua mania. Cá por mim sou de opinião que as coisas que não andam bem no país exigem mais ainda de todos quantos gostariam que elas andassem bem. Assim, a nossa crítica tem que ser melhor do que as coisas que queremos criticar. Temos que ser mais exigentes em relação a nós próprios e às conclusões que tiramos. Temos que ser o exemplo de integridade que reclamamos para as coisas públicas. Não nos devemos contentar com o argumento parasita segundo o qual “toda a gente sabe”. Isso até nem é argumento. É um atentado ao nosso direito à razão. Pior do que corrupção é termos uma crítica anti-corrupção que se permite tudo e, pior ainda, termos colegas na academia que pensam que a gravidade da situação do país exige de nós ligeireza metodológica e conceptual no tratamento dos seus problemas. Repito: é grave.

sábado, dezembro 29, 2007

Os desafios da crítica

Aos que reservam um papel positivo à ciência

Vou fechar aqui a reflexão que tenho vindo a fazer na esteira da discussão sobre crítica social. Uma das interpelações que foram feitas com muita insistência ao meu posicionamento foi de que eu considero apenas válida a crítica que eu faço. Há variações deste tema, incluindo, por exemplo, a constatação feita por alguns de que eu também critico. Esta constatação revela, em minha opinião, os equívocos que estão na base desta discussão. É claro que eu também critico e é também claro que eu critico na plena convicção de que a crítica que faço é a mais adequada. Mas não é mais adequada do que a de sincrano ou beltrano; é mais adequada em relação à minha própria reflexão e ao que me considero em posição de trazer à atenção do público.

Em Moçambique presto especial atenção ao que duas pessoas dizem: Xidiminguana e Mia Couto. São pessoas com uma capacidade extraordinária de observação do nosso quotidiano, ou pelo menos, do quotidiano urbano do sul de Moçambique. Quando oiço a música de Xidiminguana ou quando leio as crónicas e contos de Mia Couto não estou à procura da revelação da essência do nosso quotidiano. Estou, isso sim, à procura de um ponto previlegiado de observação das coisas da nossa vida a partir do qual posso aplicar os instrumentos conceituais e teóricos que a sociologia e a antropologia me oferecem para perceber Moçambique. Muitas vezes faço como eles, isto é, dou largas à minha imaginação. Faço isso, porém, sempre no respeito do – ou pelo menos na tentativa de respeitar – o que a minha formação exige de mim. Xidiminguana e Mia Couto são, portanto, interessantes para mim por duas razões principais. Primeiro, quando eles fazem o que fazem melhor, isto é cantar ou contar, eles mostram até que ponto as coisas insignificantes do quotidiano fazem parte de um todo muito mais vasto e complexo do que a sua própria intenção – ao cantarem e contarem – pode capturar. Segundo, eles mostram que a perfeição no que fazemos não está na intenção, mas sim no respeito pelo que é necessário fazer para podermos fazer as coisas que fazemos.

Estas duas razões sugerem-me, assim, dois desafios que se colocam à crítica social no nosso país. O primeiro desafio, que decorre do que acabei de escrever sobre a residência da perfeição, é a integridade. O segundo, ligado à complexidade do todo, é a distribuição do poder no país. Em relação à integridade diria que o que o nosso país precisa neste momento não é de gente corajosa, isto é de gente que não tem medo de criticar o poder como parece ser a definição que se dá de coragem na nossa esfera pública. O que o nosso país realmente precisa, em minha opinião, é de gente profissionalmente íntegra, isto é de gente que participa no debate de ideias e na reflexão sobre o país com base em pronunciamentos alicerçados naquilo que é possível dizer racionalmente no quadro da sua própria formação.

Para ser ainda mais directo, o nosso país precisa de mais juristas como Ilídio Macia, Júlio Muthisse, Stayleir Marroquim – que reflectem o país a partir do entendimento que têm do direito e independentemente de outro tipo de considerações – de economistas como o Eugénio Chimbutane – que fazem o mesmo, mas partindo da economia – de sociólogos como o Patrício Langa – idem, partindo da sociologia – de peritos da comunicação como o Bayano Valy – estou a pensar no seu texto sobre porque Nyimpine Chissano era assunto público – enfim, de vários outros em vários quadrantes que não se pronunciam pelo simples prazer de dizer que algo está mal, mas sim porque reflectem a partir do cânone das suas disciplinas e querem perceber porque certas coisas não encaixam bem. Seria bom que esta atitude fosse também emulada pelas pessoas que trabalham no aparelho de estado – como assessores, especialistas, directores, etc. – nas organizações da sociedade civil e na imprensa. Integridade em relação à própria formação. Só isso, quer me parecer, iria contribuir bastante para libertar algumas pessoas da força sedutora que as convicções e dogmas têm e ajudaria a recuperar o verdadeiro sentido da crítica e o seu potencial emancipatório. Coragem é isso ou, melhor ainda, devia ser isso.

O segundo desafio diz respeito à distribuição do poder no país. Em minha opinião – e gostaria tanto de iniciar uma discussão a este propósito – a imprecisão de muitos conceitos utilizados na nossa esfera pública, por exemplo, combate à pobreza, corrupção e criminalidade vem do facto de ainda não termos conseguido articulá-los bem com a natureza do poder e sua distribuição no nosso país. Dito de outro modo, esses fenómenos que se furtam à nossa conceitualização, ao mesmo tempo que nos dão o conforto de pensarmos que os entendemos bem, documentam, talvez, a maior fraqueza que o nosso sistema político revela: a vulnerabilidade do cidadão perante o Estado. Parece haver uma relação orgânica entre a vulnerabilidade do cidadão e a concentração do poder em poucas mãos e instituições. Em todas as críticas que tenho feito procuro sempre colocar esta questão, pois é a partir dela que consigo evitar o fatalismo e a resignação. A ousadia do Conselho Constitucional bem como do Tribunal Administrativo confirmaram, para mim, a utilidade deste tipo de abordagem. A decisão do novo governo de dar maior autonomia aos distritos através do fundo de 7 milhões mostrou-me que as coisas não permanecem iguais e que mesmo se o poder em Moçambique quissesse ser absoluto, ele próprio faz coisas que abalam as fundações do seu próprio edifício.

Não creio que se todos tentarmos ser íntegros e articular os fenómenos do quotidiano com a distribuição do poder vamos ficar a falar a mesma coisa na melhor das hipóteses, e a dizer que está tudo bem na pior das hipóteses. Não creio. Acho que vamos estar a fazer crítica no verdadeiro sentido da palavra, o único que, como académicos, podemos melhor fazer como contribuição ao fomento do nosso país. Como sociólogo interessa-me perceber o que é necessário para que as pessoas optem pela integridade, o que ela precisa para ser acarinhada e encorajada e como é que esse tipo de cultura pode se consolidar entre nós. Como sociólogo interessa-me perceber como o sistema político pode se tornar cada vez mais responsável e sensível à opinião do cidadão. Entender isto e trazer à discussão pública parece-me muito mais acção do que andar a repetir pela centésima vez a maldade do poder, mais um índice de corrupção e por aí fora. Se alguém achasse que isto é dogmático e arrogante, não saberia o que dizer. Nas rubricas “fenómeno da bicha” e “fala sem consequências” e mesmo em “direito à razão” é justamente isto que tenho tentado fazer. Nunca fiz crítica barata e espero que cresça o número de pessoas na blogosfera moçambicana que vira as costas a esse tipo de crítica na falsa convicção de que só assim é que poderão aliar a ciência à política.

Integridade e atenção à distribuição do poder. É a única maneira que vejo de fazermos ciência – e política! – de forma responsável.

sexta-feira, dezembro 28, 2007

O problema da sociologia

Para os que têm medo do imperialismo da sociologia

No meio de todo o debate que tem havido pela blogosfera moçambicana em torno do activismo, competência no debate e crítica social uma inquietação que surgiu com muita frequência esteve ligada à própria sociologia. Alguns participantes queixaram-se da tendência imperialista de alguns sociólogos que nas suas participações em vários debates pareceram reclamar um papel especial para a sua disciplina bem como um conhecimento geral válido em todos os outros campos científicos. Interpreto estes receios como um convite a uma reflexão sobre a própria disciplina. Pessoalmente, não acho que tenha esse comportamento. Como escrevi numa discussão, tenho aprendido muito da leitura dos escritos de outros bloguistas, sobretudo de bloguistas que escrevem a partir de uma disciplina diferente da sociologia. Tenho-os interpelado como é normal no mundo académico, mas nunca no intuito de os obrigar a pensar “sociologicamente”.

O título que escolhi para esta postagem é propositado. Não é, na verdade, da minha autoria. É de Georg Simmel, um grande pensador alemão do século XIX, e é o primeiro capítulo do seu livro com o título “a sociologia”. Simmel apresenta ideias muito interessantes sobre a sociologia que me parecem responder um bocado às inquietações sobre o imperialismo dos sociólogos. Na verdade, são duas as ideias que ele apresenta. A primeira é muito simples. Ele constata uma mudança radical na concepção da vida humana na Europa no século XIX. Essa mudança consiste na procura de explicações sociais para o destino individual. Como ele próprio escreve, a ciência do Homem tornou-se na ciência da sociedade humana.

O “social” é concebido como algo que é produzido pelas pessoas em interacção e, consequentemente, como o que deve ser previligiado para entender as coisas da vida humana. A história, por exemplo, quando relata acontecimentos passados, fá-lo na perspectiva dos factores “sociais” que explicam o comportamento individual. Esta ideia leva Simmel a concluir que um campo tão vasto como o que esta mudança radical torna visível não pode ser o objecto de uma única disciplina. A “sociologia”, portanto, não pode ser a ciência que estuda o resultado desta mudança radical. Ela é, quando muito, diz Simmel, apenas um método, um método, portanto, comum a todos os empreendimentos científicos que se interessam pelos fenómenos da vida humana: direito, psicologia, história, economia, ciência política, etc. Simmel diz mesmo que a sociologia, como método, é comparável à indução, a qual, também, não pode ser vista como uma ciência.

A segunda ideia é menos interessante para as inquietações. Na verdade, Simmel procura, apesar de tudo, definir o campo da sociologia. Se ela não pode ter como objecto a própria condição humana – já que isto é feito por várias outras disciplinas – o que sobra? É desta reflexão que vem a proposta de Simmel de definir a sociologia como o estudo das “formas de associação”. Espero estar a traduzir a palavra original correctamente. No original em alemão a palavra que ele emprega é “Vergesellschaftung” que quer dizer algo como “o processo de se tornar sociedade”. Portanto, a sociologia deveria ser o estudo destas formas. A “associação” tem lugar em tudo o que é área da vida humana: tribunal, igreja, família, lazer, etc. Esta concepção da sociologia é muito específica e tanto quanto posso avaliar pelo que é produzido na sociologia não tem muitos seguidores. Mas é extremamente interessante e útil. Ela permite interpelar a realidade social de uma forma bastante produtiva.

Simmel interessou-se, por exemplo, sempre por coisas que outros sociólogos consideravam supérfluas: a moda, os sentidos, a rosa, a pega, e por aí fora. O seu livro sobre o “dinheiro” constitui um dos maiores escritos que existem sobre o sistema capitalista, em nada inferior ao “Capital” de Marx. E isto por causa da qualidade de perguntas que é possível colocar. Um dos textos de Simmel que eu considero magistral é o que lida com o pobre. Simmel mostra nesse texto como o “pobre” se torna numa categoria sociológica relevante. O seu argumento é de que não é necessariamente a própria condição do pobre – o facto de ele sofrer privações, etc. – que faz dele pobre. O que faz dele pobre é a assistência, isto é quando a sociedade presta ajuda a alguém. Isso dá visibilidade ao “pobre”. Tenho tentado usar esta ideia na minha própria reflexão sobre a pobreza em Moçambique. Já vi esta minha reflexão ridicularizada num blogue moçambicano onde não se “ofende ninguém” com a implicação de que estou a recusar reconhecer a existência de pobres. Na verdade, o meu argumento tem sido de que o combate à pobreza só vai começar a ser sério quando o país institucionalizar a categoria “pobre” através, por exemplo, de um sistema de segurança social. Foi esta reflexão que me levou a ter dúvidas em relação à Lei de Protecção Social que o Presidente assinou no início deste ano. As ideias de Simmel permitem-me, acho, interpelar toda a concepção do problema que nós temos e de ver os limites do que se tem feito.

Portanto, na perspectiva de Simmel as inquietações manifestadas em relação à atitude de alguns sociólogos têm muito a ver com o próprio estatuto da disciplina. Não é imperialismo, mas sim a dificuldade de definir o seu verdadeiro objecto. Neste ponto o que nos pode safar é talvez uma discussão mais metodológica. Quando eu transponho estas fronteiras disciplinares invisíveis não o faço no intuito de impor a sociologia aos outros. Faço-o porque a sociologia me impõe um objecto bastante vasto que só posso restringir com um debate metodológico. O que tenho feito com interpelações aos colegas. Aqui levantam-se várias questões interessantes, mas restrinjo-me apenas a duas.

Por um lado, há quem diga, por exemplo, que a blogosfera é um espaço de liberdade individual onde cada um de nós devia ter a liberdade de se exprimir como bem entender e sobre o que quiser. Apoio este argumento, mesmo se no fundo me parece algo contraditório. Se todos deviam ter a liberdade de se pronunciarem como bem entenderem e sobre o que quiserem porque é que nos devemos chatear se alguém nos critica pelas nossas opções? Não estará essa pessoa no seu direito de se exprimir como bem entender? Sem debate metodológico sério é difícil responder a esta questão. Por outro lado, há os que dizem que há várias maneiras de fazer ciência, uma ideia com a qual eu não estou de acordo. O que querem dizer, na verdade, é que existem abordagens diferentes de um mesmo assunto. Concordo. Só que me parece também interessante saber reconhecer a diferença quando ela existe. Como é que sei que fulano de tal está a abordar um tema de forma diferente? Como é que sei que alguém está errado e eu estou certo, ou vice-versa? Dizer que isso não interessa é conduzir-nos, parece-me, ao relativismo, uma posição que não me parece necessariamente apetecível. Aqui também não me parece fácil fugir ao debate metodológico.

O meu “imperialismo” está, portanto, justificado. Estou, por um lado, a exercer o meu direito de me exprimir livremente – mesmo se isso significa criticar os outros – ao mesmo tempo que estou, por outro lado, a fazer a ciência à minha maneira – mesmo que isso signifique dizer que os outros estão errados. Assim ou assim, voltamos sempre ao ponto de partida: o método.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

À esquerda da direita ou à direita da esquerda?

Aos que ainda não se decidiram se querem ser da esquerda/direita ou de Moçambique

Durante o período revolucionário em Moçambique aprendi nas sessões de estudo político que Pierre-Joseph Proudhon, um dos maiores socialistas franceses do século XIX, era um reaccionário. Há cerca de dois anos li “A miséria da filosofia” de Marx e Engels e dei-me conta de que era uma resposta bastante polémica – mas de uma ironia muito subtil e gostosa! – ao livro de Proudhon com o título “A filosofia da miséria”. Li uma recensão crítica escrita por Friedrich Engels a esse livro de Proudhon e, apesar da elegância da escrita de Engels e da contundência dos seus argumentos, comecei a gostar de Proudhon. Já agora, um reparo muito interessante: Proudhon, tal como muitos socialistas franceses da sua época, alinhava com as ideias de Feuerbach!

Em 1846 houve uma troca de correspondência entre Marx e Engels, de um lado, e Proudhon, de outro. Os primeiros estavam a convidar o último a se juntar a um movimento continental de consciencialização do movimento operário através de uma publicação em que esperavam contar com Proudhon lá da França. Na altura Marx encontrava-se exilado em Bruxelas. A resposta de Proudhon ao convite formulado pelos grandes gurus do comunismo europeu é bastante instructiva em relação ao problemático entendimento que se tem do posicionamento ideológico na academia moçambicana. Repito: não há nada melhor que cada um de nós ler as fontes e tirar as suas conclusões. Proudhon respondeu a Marx no dia 17 de Maio de 1846. Após dizer que estava interessado em fazer parte dessa correspondência ele comenta vários aspectos contidos na carta de Marx. Vou pegar em alguns para contextualizar o que se pede de nós quando somos exortados a sermos da esquerda ou da direita. Depois decidam se ainda querem escolher...

Proudhon começa por dizer que é obrigação de todo o socialista – portanto, pessoa da esquerda – manter por enquanto uma atitude de crítica e dúvida. E desenvolve o seu pensamento nos seguintes termos: “claro que devemos trabalhar juntos na procura das leis da sociedade, da maneira como essas leis são aplicadas e do processo através do qual as podemos descobrir; mas por amor de Deus! Quando tivermos demolido todos os dogmas a priori, não devemos nós também indoctrinar o povo!”. Proudhon refere que não quer ser como Martinho Lutero que substituiu a teologia católica por uma teologia protestante e prossegue: “vamos ter uma discussão polémica boa e honesta; vamos dar ao mundo um exemplo de sabedoria e tolerância clarividente”. Mas só pelo facto de sermos a vanguarda do movimento, continuou este grande mandarim avant la lettre, “não vamos instigar uma nova intolerância, não nos vamos impor como apóstolos de uma nova religião, mesmo se se tratar da religião da lógica, ou da razão. Vamos dar as boas vindas e encorajar todos os protestos, vamos acabar com todos os exclusivismos e todos os misticismos. Não vamos considerar nenhuma questão completamente respondida e quando tivermos usado o nosso último argumento vamos começar de novo, se for necessário, com eloquência e ironia. Nesta condição posso me juntar a vocês com prazer, caso contrário, não!”.

Mais adiante nessa carta Proudhon debruça-se sobre uma expressão recorrente na carta de Marx – “au moment de l’action” (na altura da acção ou, para dizer as coisas em bloguês activista: na mudança do mundo!) – e adverte Marx contra os perigos de uma acção revolucionária e escreve: “o nosso proletariado [o francês] está tão sequioso de conhecimento que nos receberia muito mal se tudo quanto nós tivéssimos para lhe dar fosse sangue. Em poucas palavras, em minha opinião seria má política usar a linguagem da exterminação. As medidas rigorosas virão em seu tempo; nisto o povo não precisa de nenhuma exortação”.

Podia continuar a citar Proudhon, mas acho que estas passagens são suficientes para repetir o alerta: cuidado com as exortações à acção! São para vocês deixarem de pensar. É verdade que Proudhon ficou um dos piores inimigos do Marxismo, mas a história parece ter mostrado que a sua prudência não foi de todo má. Numa altura em que jovens cientistas sociais são chamados a se posicionarem à esquerda ou à direita (de quê?), talvez fosse bom fazerem um recuo histórico e inteirarem-se do que outras pessoas discutiram sobre os mesmos assuntos. É mais do que certo que a exortação ao posicionamento é política e tem como função sugerir a ideia de que agora é tempo de acção. Quando o nosso povo espera de nós reflexão séria e profunda o que nós – ou alguns de nós – lhe prometemos é sangue. As questões já foram exaustivamente respondidas. Agora é tempo de acção. Já foram? É mesmo tempo de acção?

No interesse da acção eu gostaria de formular o desejo de que o ano de 2008 nos traga académicos que antes de serem da esquerda ou da direita sejam directos no debate!

quarta-feira, dezembro 26, 2007

O Leviatão "crítico"

Aos que têm a ousadia do conhecimento

Quem não quiser ser chamado de mandarim tem que evitar algumas coisas: fazer uso dos recursos que a sua própria língua materna lhe oferece, usar expressões em latim e citar clássicos. Isso é demagogia e para aqueles que sabem como a Frelimo revolucionária utilizou essa expressão na prática, fica clara a gravidade da situação. Essas coisas só podem ser feitas por poucos na nossa esfera pública. Esses podem usar uma expressão vernácula para baptizar a sua crónica semanal no jornal e podem citar profusamente Bourdieu, Schoppenhauer, Marx , Foucault, Simone de Beauvoir, etc. Eles sabem do que estão a falar. Não são mandarins.

Vou quebrar estas regras da não-competência no debate para trazer à vossa memória um dos percursores do tipo de cultura académica que está a tomar posse da nossa esfera pública. Peço desculpas por isso, prometo que é capaz de ser a última vez que faço isso. O grande percursor a que me refiro é Thomas Hobbes, o grande pensador inglês do século XVI. Ficou famoso, como todos que admitem tê-lo lido sabem, com a sua obra “O Leviatão” em que tentava fundamentar o Estado. Num dos seus mais famosos aforismos escrevia ele que a vida do Homem era “solitária, pobre, feia, brutal e curta”, uma descrição que não deve estar muito longe do que é a experiência de muitos moçambicanos hoje em pleno século XXI. O que deverá ter recebido menos atenção dos que leram Hobbes é a sua opinião sobre os que não viam o mundo como ele próprio o via.

Ele escreveu o seguinte: “a sua lógica, que devia ser a teoria da inferência, não consiste de mais nada senão de mesquinhices com palavras e truques com o intuito de confundir as pessoas que se atreverem a interpelá-los... não há nada absurdo que não tenha sido já dito por alguns filósofos antigos...”. Quando leio estas coisas não consigo resistir à tentação de concluir que os grandes “críticos” da nossa esfera pública não querem que mais ninguém leia os clássicos para ninguém saber de onde vêm as suas ideias brilhantes. O alvo da crítica de Hobbes era o Idealismo na filosofia e sua preocupação com a “ideia do bem”. Hobbes tinha uma resposta simples para o problema da humanidade: Nenhum desses filósofos tem autoridade para falar sobre essas coisas porque todas elas são criações dos homens. A humanidade encontra-se num estado natural todo ele dominado pela necessidade. É a necessidade que estrutura tudo o resto.

Segundo Hobbes, a necessidade rege-se pelo princípio do poder. Toda a gente quer o poder. Daí que haja três fontes principais de conflitos nas sociedades humanas: a concorrência, a desconfiança e a fama. Estas três fontes são interessantes para percebermos a qualidade do debate na nossa esfera pública. Os que são motivados pela concorrência querem dominar os outros para seu próprio proveito. Em moçambiquês: o governo. Os que desconfiam querem se defender dos primeiros. Em moçambiquês: os “críticos” sociais. Os que querem a fama são uns pavões. Em moçambiquês: mandarins, fogosos, soluções-aspirina, etc. Toda a semelhança com os hábitos de argumentação de alguns blogues moçambicanos é pura coincidência. A solução para tudo isto – é preciso passar à acção! – é o Leviatão, esta serpente mítica que vai trazer a ordem ao mundo, isto é o Estado da igualidade social.

E é aqui onde se notam as credenciais democráticas duvidosas dos “críticos”. O problema de Moçambique não é de que o governo não seja autoritário e arbitrário. O problema é de o ser para causas erradas. Tinha que ser em nome das ideias que os “críticos” defendem. Aí não haveria problemas. Tal e qual Hobbes. Os “críticos” querem um Leviatão muito especial que vai submeter toda a gente à sua disciplina e à sua ordem. Daí os assomos de intolerância e a impaciência para com aqueles que preferem pensar por si próprios. Daí também o frenesim com que é festejada mais uma crítica e mais uma redundância. E daí também que se procure sempre projectar a imagem de que dizer algo que se supõe não ser do agrado do governo é um acto de suprema coragem que põe em perigo a pessoa que teve a ousadia. Este pessoal não procura a verdade no sentido em que outros académicos a procuram (e não a encontram). Este pessoal produz a verdade através da repetição de conclusões previsíveis - é culpa do sistema - e da convicção com que fala ou escreve. Nós os mandarins somos do partido da verdade; os “críticos” são a verdade. Já ouvi Marcelino dos Santos a falar assim num outro contexto.

Eis, então, uma chamada de atenção: a vida do moçambicano pode ser solitária, pobre, feia, brutal e curta, mas tudo isso é por causa dos que, segundo Hobbes, querem ficar senhores dos homens, suas mulheres, filhos e gado? E a única solução é a resistência partindo do princípio de que é cada qual por si e Deus só para os que não são nem da direita, nem da esquerda? Não nos interessa saber como os que nos exortam a ver o nosso mundo dessa maneira chegaram eles próprios a essas conclusões? Basta confiar nas suas boas intenções?

Se não tivesse prometido não voltar a citar mais um pensador clássico havia de fazer recurso a Kant e sua famosa exortação para termos a ousadia do conhecimento. Essa ousadia é que faz de nós verdadeiros cidadãos, cidadãos com maturidade. No tempo colonial introduziu-se a distinção entre indígena e assimilado justamente para distinguir, de entre outras coisas, o cidadão do não-cidadão. Espero que os que dão ouvidos à visão hobbesiana do mundo pensem nisso também, se se atreverem, é claro.

Mudar o mundo

Aos que não têm medo de pensar por si próprios!

É de Karl Marx a seguinte constatação: o que muitos filósofos até aqui fizeram foi interpretar o mundo de formas diferentes; o importante, contudo, é transformar o mundo. Esta é uma das suas críticas a Ludwig Feuerbach, mais especificamente a décima primeira tese. Muitos cientistas sociais que atravessam as fronteiras do conhecimento meramente científico para a acção ou activismo socorrem-se desta máxima marxiana: não só filosofar, mas mudar o mundo. E, de facto, quando olhamos à nossa volta e vemos os vários problemas que o mundo apresenta, sobretudo o nosso mundo de Moçambique, não há como não nos deixarmos seduzir por uma máxima tão actual e relevante. De que nos vale todo o conhecimento do mundo se com ele não somos capazes de tornar o mundo melhor?

A crítica de Karl Marx à filosofia é enformada por uma desconfiança enorme em relação à ética. Com essa desconfiança Marx juntava-se a muitos outros ilustres pensadores, por exemplo, Thomas Hobbes, que achavam que a discussão de questões morais só fazia perder tempo aos filósofos. Marx, em particular, via toda a discussão ética fora do seu quadro de raciocínio como um efeito ideológico que tinha como função servir os interesses das classes dominantes. As ideias dominantes são as ideias dos dominantes, costumava ele dizer. Nessa ordem de ideias, ao invés de perder tempo com discussões estéreis era importante passar à acção, isto é identificar os aspectos sociais, económicos e políticos cuja mudança – se necessário à força – iriam alterar a ordem das coisas e colocar as classes oprimidas no seu devido lugar histórico.

Portanto, em certa medida, com a sua própria exortação à mudança Marx contradizia-se no que dizia respeito à sua própria base filosófica. A questão não era, na realidade, que a moral ou ética não mais contavam. A questão era que ele já tinha encontrado a mãe de todas as soluções para os problemas éticos: o materialismo histórico. Só identificando a lógica da história é que poderíamos ter uma base para resolvermos todos os problemas éticos e morais. E a lógica da história era a luta de classes que nos iria conduzir a uma sociedade sem dominação e exploração do homem pelo homem. Parecendo que não, Francis Fukuyama inspirou-se muito em Marx para desenvolver a sua ideia do fim da história. O fim da história, para Marx, significava o fim de toda a discussão ética. Cada um de nós podia ser tudo: de manhã iríamos fazer filosofia, à tarde ir à pesca, etc. Era preciso respeitarmos o curso da história para podermos gozar a atitude do intelectual mandarim que pensa pelo prazer de pensar. A questão, mais uma vez, não era que a discussão filosófica sobre a ética não fosse importante; a questão era que Marx já tinha a solução que tornava supérflua toda a discussão. Espero que os que se deixam facilmente levar por este tipo de exortações estejam a prestar atenção. Quando alguém vos diz para deixarem de pensar e passarem à acção, essa pessoa não está necessariamente a agir no interesse dos desgraçados do mundo; essa pessoa está simplesmente a impor o seu pensamento sobre os outros. Está a proibir-vos de pensarem por vocês próprios. Cuidado!

Felizmente, a história ainda não acabou. Tivemos a União Soviética e tivemos também o Moçambique do período imediatamente a seguir à independência que nos mostraram que se pode, de facto, passar à acção, mas os problemas éticos não acabam. A ditadura do proletariado e a justiça revolucionária serviram em todos estes casos para tornar isso evidente. E o que eles mostraram foi que Marx estava profundamente enganado ao considerar estéril a discussão moral. os filósofos gregos que dispensaram muita atenção a essa discussão estavam, também, preocupados com a justiça. Marx não foi o primeiro pensador a colocar a questão da justiça na agenda intelectual. Ele foi talvez o primeiro a querer acabar com essa discussão na base do argumento segundo o qual o seu próprio conceito de justiça seria o melhor. Gerações de intelectuais seguiram-no na plena convicção de que questionar esse conceito de justiça constituía uma traição à tradição académica e intelectual.

Eu gostaria de poder fazer ciências sociais de forma fácil com fórmulas simples e com quadros de classificação dos que se dão à maçada de pensar também de fácil aplicação. Gostaria de poder usar as ciências sociais como simples caixas de ferramentas de onde vou buscar conceitos e abordagens feitos à medida dos problemas do mundo. Num país como o nosso, onde os problemas são muitos e gritantes, que melhor saída senão essa do pensamento rápido, pronto-a-usar e sempre contundente? Gostaria de fazer isso, mas não posso porque o mundo sobre o qual quero aplicar os meus conceitos e abordagens resiste às minhas simplificações. Quem me dera que Marx tivesse tido uma vida bíblica até aos duzentos e não-sei-quantos anos. Aí sim, ele teria visto o equívoco em que meteu muita gente e, honesto e íntegro que ele era, teria, de certeza, pedido desculpas.

Na preparação de uma palestra que vou proferir em Janeiro na cidade natal de Marx, em Trier na Alemanha, li algumas coisas da sua autoria e deparei com uma carta que ele escreveu a Friedrich Engels após terminar “O capital”. Marx aconselha Engels a ir ler uma obra do escritor francês Honoré de Balzac que conta a história de um pintor que passou dez anos – Marx também precisou de muito tempo para escrever “O capital” – a pintar o quadro que ia fazer a representação mais fiel do mundo. Só que no fim desse longo e penoso trabalho, dois amigos do pintor constataram que o grande quadro era uma autêntica confusão! Marx aconselhou a leitura de Balzac a Friedrich Engels como forma de lhe dizer que ele próprio estava com dúvidas em relação ao resultado da sua obra.

Marx tinha grande sentido de humor. E era humilde, muito mais humilde do que os seus seguidores de hoje. Ele próprio tinha grandes dúvidas em relação à sua própria obra mais suprema. Quando a terminou, ficou sem saber se o mundo que ele procurava representar naquelas centenas de páginas era o mesmo mundo que ele habitava. Ele entregou a obra apenas por pressão dos editores que já lhe tinham ameaçado várias vezes. Não quero com isto dizer que ele achava que estava enganado. Não. Ele tinha simplesmente dúvidas. E a dúvida é o melhor recurso que os intelectuais têm. Espero sinceramente que os jovens que gostariam de seguir Marx na sua exortação para também transformarem o mundo pensem muito bem antes de o fazerem. Sei que estou a pedir demasiado, pois pensar já toda a gente o faz e este não é o tempo de pensar. É preciso passar à acção como lhes é dito constantemente na nossa esfera pública. Boa sorte às vítimas da vossa acção!

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Por uma cultura mais crítica

Por razões estéticas decidi retirar o debate para aqui.

O Egídio Vaz Raposo publicou um comentário no seu próprio blogue com o título “A arte de criar fracas instituições” no dia 8 de Junho de 2007. Nesse artigo ele vaticinava que não haveria eleições este ano, algo que se revelou correcto. Em discussão numa das minhas postagens mais recentes ele escreveu o seguinte:

“Eu também hei-de voltar Prof. Sim, fico satisfeito porque poucas foram as vezes em que o Professor respondeu aos que visaram ao seu discurso; seu pensamento. Quando eu blogava, poucas foram as vezes. lembro-me que da última vez foi quando reagi muito violentamente a eleiçãos dos actuais tractores da CNE. O Professor quis questionar tanto a minha reacção violenta como a previsão que fazia. Eu expliquei bastantes vezes mas não o convenci. Hoje estou numa boa, a assistir rindo, e feliz. Porque tudo o que antevia está a realizar-se. Não foi por acaso que Chapa100 chamou-me de curandeiro+qualquer coisa. Professor,estamos juntos. Abraços.”

A ênfase e os sublinhados são meus. Como a blogosfera tem boa memória fui de novo ao seu blogue para recuperar o sentido da nossa discussão e descobri algumas coisas interessantes. Descobri, primeiro, que a minha posição nessa discussão é a mesma que hoje me opõe ao desabafo e à denúncia. Ao longo de todo o debate procurei convidar o Egídio a reflectir mais sobre o seu próprio método. A segunda coisa que descobri foi que ele aceitou reformular a sua conclusão à luz dessa discussão. A terceira coisa foi que à luz dessa discussão também aceitei as suas conclusões. A quarta foi que o Egídio pareceu reconhecer a importância do método e agradeceu por isso. O que terá ocorrido no espaço de seis meses para o mesmo Egídio se tornar tão agressivo em relação à “arrogância do Prof. Macamo”, o mesmo a quem ele dirigiu as seguintes palavras, “Muito obrigado Prof. Finalmente irei sair do "beco". Concordo plenamente consigo. E já agora rectifico: Tenho muito medo de as próximas eleições serem as mais sujas que há memória na história democrática do país. Por razões aqui já referidas. PS: Ainda vou a tempo de lhe agradecer por isso. Uma das grandes vantagens de debater com o Prf e Chapa 100 é a oportunidade de poder aprender a por o que penso mais claro. E na verdade, tenho tido muito sucesso. Continue. Abraços. Dentro de 2 horas irei postar mais uma grave provocação.?

Reparem que a minha questão aqui não é de exigir do Egídio, nem de outros, que não estejam contra as minhas ideias só porque no passado me agradeceram, ainda que seja pelo mesmo tipo de conselhos que ele hoje critica. A minha questão é de tornar claro que não me interessa calar a boca de seja quem for. Interessa-me, isso sim, contribuir para que aqueles que acham que têm alguma coisa a dizer e acham que podem se socorrer de subsídios académicos tenham em mim e noutros colegas membros da comunidade académica moçambicana interlocutores úteis e interessados. Acabei concordando com o Egídio pela força dos argumentos que ele desenvolveu ao longo dessa discussão, mas só para verem como estas coisas da ciência são complicadas, embora de facto a conclusão do Egídio tenha sido correcta não foi pelas razões que ele desenvolveu! Moral da história: todos podemos vaticinar, mas o mais importante é como o fazemos. Eu posso dizer que depois de amanhã vai chover porque é sempre assim sempre que me cruzo com um indivíduo careca. E, dito e feito, depois de amanhã chove! Tinha razão?

Reproduzo, portanto, aqui essa discussão como uma contribuição para o que acho ser o nosso dever quando fazemos intervenções na esfera pública. Quem quiser ver a postagem original terá que consultar o inactivo blogue “Ideias de Moçambique” do Egídio seguindo o elo aqui ao lado.


quinta-feira, dezembro 20, 2007

A mentalidade analítica (6) Fim

É melhor ser curioso do que intolerante

Esta “carta aberta” não é simplesmente fala. É também, e sobretudo, acção. Portanto, estamos aqui perante uma acção social. Nós que somos discípulos de Max Weber devemos, então, colocar a pergunta de saber o que torna esta acção numa acção social. Que sentido atribuem os próprios actores a esta acção? Ou por outra, que razões estão por detrás desta acção? O que fez com que estas pessoas agissem desta maneira? O que isso quer dizer? Quer dizer alguma coisa? Em que circunstâncias é que uma pergunta destas ou mesmo perguntas desta natureza fazem sentido? Para quem? De que maneira? Isto, como podem ver, é curiosidade. A mesma que, pelo que se diz por aí, matou o gato.

Vamos ver as coisas a partir de um outro ângulo. Vamos partir do princípio de que há pessoas em Moçambique que não estão satisfeitas com a nomeação desse fulano para o cargo de Vice Ministro da Mulher e Acção Social. Quais são as opções que as pessoas têm para manifestar o seu desacordo? Várias, como é evidente. Podem ir ter com o Presidente da República; podem levantar a questão na célula do partido no seu local de trabalho; podem levantar a questão no Comité Central; podem comentar isso com um Ministro conhecido ou com um veterano dos mais importantes para ele levantar a questão com os seus camaradas; podem pagar a um jornalista para escrever um comentário; enfim, há uma série de coisas que elas podem fazer para manifestar o seu desacordo e exigir a demissão do fulano. Reparem que todas estas maneiras são formas discretas, daquelas que parece serem privilegiadas pelo pessoal da Frelimo. Roupa suja não se lava em público. E o texto usa uma dicção que é própria de gente forjada e temperada no palavreado da Frelimo: “divisionismo”, “ensinamentos”, “espírito de tolerância”, “líder clarividente que de certeza não sabia”, etc.

Devo abrir aqui um parêntesis para chamar a vossa atenção para o problema de sociedades fechadas, isto é, de sociedades onde o debate de ideias não é visto com bons olhos. Qualquer pessoa esperta pode fazer uso de linguagem da Frelimo – e este texto tem todo o estilo da Frelimo – para falar como se fosse alguém da Frelimo. O tipo de esfera pública que temos dá muito campo de manobra a oportunistas. A “carta aberta” pode muito bem ser da autoria de alguém da oposição que quer embaraçar o Presidente da República. Porque não? E o embaraço é mesmo grande, pois a bola está agora do seu lado. Se demite, aliás “exonera”, pode estar a “ceder” a pressões públicas; se não “exonera”, pode estar a confirmar a sua imagem de homem duro que não ouve a opinião dos tagarelas da imprensa. É uma situação chata, posso imaginar. Igualmente, a própria Ministra ou mesmo o próprio Presidente ou ainda alguém influente dentro daquele partido pode ter encomendado a “carta aberta” para forçar ou facilitar a decisão ou, simplesmente, para dar ao Presidente a oportunidade de mostrar que ele decide sozinho. Um país com um sistema político que dá muito campo à especulação é um país problemático. Fecho o parêntesis.

Os subscritores optaram por escrever uma “carta aberta” publicada num semanário independente. Será que o jornal Domingo ou o jornal Notícias recusaram publicar a carta? Que gente da Frelimo é esta que não tem bons contactos com esses jornais? Savana? Qual é o pessoal da Frelimo que tem bons contactos com o Savana e fica chocado quando se ofende Machado da Graça – por acaso também fiquei chocado com os artigos indecentes contra a sua pessoa – a memória de Carlos Cardoso e levanta o espectro do divisionismo? Que gente usa “taberna” ou “taverna” e não “barraca”, “esquina”, “botequim”? Mais importante ainda é a forma como manifestam o seu desacordo. Podiam ter escrito uma “carta aberta” assim: Exma camarada Ministra, pela presente vimos manifestar a nossa preocupação pela nomeação do camarada fulano de tal como seu vice ministro. Esse camarada tem assumido posições contrárias à linha ideológica do nosso partido. Gostaríamos de solicitar à camarada Ministra que levantasse esta questão nos órgãos competentes. Se a decisão for tomada, tem que ser cumprida. A luta continua!. Mais ou menos assim. Mas nada, preferiram florear, e bem, o seu protesto. Daí a questão: porquê? O que é que isto significa? Cisões na Frelimo? Mais uma manifestação da qualidade da nossa esfera pública?

A mentalidade analítica consiste num exercício paciente da reflexão crítica. Não crítica no sentido de dizer que está tudo mal ou mesmo que uma coisa está mal. Crítica no sentido de procurar saber se há mais alguma coisa que eu devia saber antes de poder formar uma opinião sobre uma determinada coisa. É um exercício sempre inacabado porque cada pergunta suscita sempre mais perguntas. Pensar, repito, dói, pois nunca acaba. Quando alguém tira conclusões não é porque já lá chegou. É porque decidiu parar de pensar. E o que isto significa é que nós os cientistas sociais não podemos fazer o nosso trabalho na forte convicção de que estamos a revelar a verdade das coisas. Isso é arrogante e, lá está, “pretensioso”. É, para usar mais um rótulo que me foi atribuído por um dos maiores intelectuais da nossa praça, “déficit epistemológico”.

Então, a intervenção pública que nós fazemos consiste em alimentar o debate com ideias a serem discutidas, melhoradas e rejeitadas, se for caso disso. Vocês não imaginam quão emancipatória essa atitude é. Se eu não tenho nenhum investimento emocional numa ideia, não tenho nenhum problema se ela for rejeitada. Estar enganado é o mal menor. Tenho problemas se ela não for discutida segundo os seus próprios méritos. Tenho problemas se as pessoas se concentrarem em mim, embora as minhas motivações pessoais sejam por vezes relevantes para entender o que quero dizer. Recentemente, li no blogue de Carlos Serra uma postagem que citava uma jurista, Benvida Levy, que dizia que há muita corrupção no sistema de justiça. Carlos Serra chamou a atenção dos seus leitores para o facto de que há gente que diz que o conceito de corrupção não está claro e que, logo, a corrupção não existe. Pareceu-me estar a zombar dessa gente e eu senti-me naturalmente visado, pois tenho insistido muito na necessidade de clarificação desse e de outros conceitos. Não sei o que leva colegas que eu julgava bem abalizados metodológica e teoricamente a pensarem que a plausibilidade de uma coisa reside no número de pessoas que a repetem. Duas ou três rãs num riacho fazem um barulho infernal e se quiséssimos avaliar o número de rãs pelo nível de décibeis que elas emitem ficaríamos com a impressão de dezenas delas. Igualmente, o número de relatórios e pessoas que falam de corrupção em Moçambique não diz nada sobre a utilidade do conceito, nem, acima de tudo, sobre a sua plausibilidade. Muito mais importante do que dizer “mais alguém diz que há corrupção” seria aceitar o convite de debater as questões metodológicas que são levantadas pelos que criticam o uso inflacionário dessa palavra. Para além da insistência na ideia de que “só não vê quem não quer ver” nunca li nada dos “críticos da corrupção” a este respeito. Eu repito: tenho muito mais medo dos que pensam que falam em nome do povo e da razão, pois esses é que são os mais intolerantes; fazem mal à nossa esfera pública e se mandassem estava mal toda a gente que não pensa como eles.

A minha formação e o meu entendimento da sociologia obrigam-me a só aceitar uma coisa se ela fizer sentido, independentemente do número de pessoas que acreditam e propalam o contrário. Nos lugares onde faço pesquisa em Gaza há gente que é morta ou tem os seus haveres destruídos por causa desta mentalidade da multidão: toda a gente pensa assim, menos tu; é porque és mesmo feiticeira! É por isso que insisto que esta mentalidade analítica é fundamental. E está ao alcance de todos nós, independentemente de termos feito sociologia ou não. A sociologia entra em acção apenas para definir os critérios através dos quais podemos seleccionar os aspectos que devem ser o objecto da nossa análise. E para complicar as coisas, uma vez definidos esses critérios eles não ficam sagrados e impermeáveis à crítica. A discussão sobre a sua relevância e utilidade ajuda a ciência a crescer. Mas se os sociólogos estão ocupados a demonstrar que “nem tudo está bem”, aliás, que “tudo está mal” quem vai se ocupar disto? É grave.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

A mentalidade analítica (5)

O vocabulário

Esta parte da análise é extremamente interessante. Não vou diminuir o seu interesse com tentativas de estruturação do vosso próprio pensamento. Já basta chamar a vossa atenção ao interesse que a organização do próprio discurso tem. Vejam o texto aqui e reparem que agora vou discutir o que está em relevo verde. Aqui tinha matéria para várias semanas de trabalho e rimas de papel. “Esse Vice Ministro não...”. Não sei se este título é da autoria das subscritoras ou do editor do jornal que publicou a “carta aberta”. Mas não deixa de ser interessante. “Esse Vice Ministro não!”. É um desabafo, um grito de impotência. Podemos aceitar tudo, menos isso. Esse não! Mesmo que esse título seja da autoria do jornal há uma passagem na “carta aberta” que recupera este sentimento. “O assunto é o seguinte: nós não podemos aceitar a nomeação do Sr. João Candido Candiane para o lugar de Vice-Ministro da Mulher e Assuntos Sociais”. Ponto final. Acho a palavra “aceitar” interessante. Não dizem que não concordam com a sua nomeação; não dizem que não acham a nomeação correcta. Nada disso. Não “aceitam”. Só que aceitar pressupõe a ideia de que estas pessoas podem ser consultadas e a sua opinião conta. Conta? A “carta aberta” sugere que não. Então, porquê “aceitar”?

A “carta aberta” não é manifestação de “má-vontade” ou “preconceito”, está escrito na página 1. O quê? Porque é que a indignação perante actos e atitudes que atentam contra a moral pública e a nossa cultura é susceptível de ser vista como “má-vontade” e “preconceito”? Porque é que a Ministra precisa de ser alertada para não ver as coisas desta maneira? Quando é que se levanta esse tipo de acusação entre nós? Eu que já fui chamado de “pretencioso” por algumas pessoas em Maputo estou interessado nisso. Quando é que a honestidade – julgo que as subscritoras estão a ser honestas – pode ser tida como honestidade? Será mesmo que o nosso país, como cantam os Ghorwane, está virado de pernas para o ar?

O indivíduo em questão é mencionado de forma muito interessante. Uma vez é simplesmente “o Candido”, outras vezes é o “Sr. João Candido Candiane”, outras é “este senhor”, outras é “Sr. Candido Candiane”, “Sr. Candido”, “João Candido” e ainda “Kandiyane”. Curiosamente, nunca é “o Sr. Vice Ministro”. A Ministra é a “Exma Ministra”, “a senhora”, “Ministra”. O indivíduo em questão – ah, o indivíduo em questão – esse merece todo o tipo de epítetos que não são exactamente em abono do respeito que por ele se nutre. Tudo isto é coroado na seguinte frase “Felizmente, quem manda não são os Kandiyanes” na página 3. “Os Kandiyanes”. São muitos ou a ideia é de dizer “gente dessa índole”? Felizmente que não é gente dessa índole que manda neste país! Reparem, já agora, na palavra “mandar”. Assim mesmo. Em Moçambique, nesta democracia tolerante e aberta, há os que mandam e os que são mandados. Nesta democracia que precisa de ser protegida dos “Kandiyanes” deste mundo alguns mandam, outros obedecem. Obedecem? Quem manda não é o povo, razão pela qual só se pode recorrer a uma carta anónima e aberta para dizer aos governantes aquilo que eles deviam realmente saber, isto é, que gente que atenta contra a moral pública e contra a cultura moçambicana não tem lugar entre nós. Estranho!

O ataque ao sujeito é forte. “Um homem destes” (página 4), que não sabe escrever “está assim, com dois erres, no original” (página 2) – carregou no “r” ao escrever “erosão” – “ex-seminarista” (página 2) – para vincar porque ele teve de sair do seminário (está claro, não reunia qualidades; ou, se calhar, é a velha hostilidade de certos sectores da Frelimo à religião: de gente dessa índole que se pode esperar?) – e o facto de ele usar “linguagem escatalógica” (página 3). Escatalogia é próprio do Cristianismo, a ideia da solução final e da teleologia. Será que este representante dos “Kandiyanes” está a trazer o ideal de sociedade que almejamos? Será isso? Será por isso que ninguém se mexe? Será por isso que devemos nos precaver? Mas o mais forte no ataque à pessoa que a “carta aberta” faz é a acusação de que ele usa “violência verbal extrema” (página 2). Ele não usa linguagem forte. Não, nada disso, ele usa “violência verbal”. E essa “violência verbal” é “extrema”. Isto é um caso sério. E não é para menos. Aqui e ali vemos referências a esta “violência verbal extrema”: o indivíduo “ataca”, “ofende”, “interfere abusivamente no respeito devido aos mortos”, dá “respostas beligerantes” e anda a “raspar” em feridas. É mesmo coisa de “um homem destes”.

Preferi apresentar a linguagem usada na “carta aberta” desta forma directa para chamar a vossa atenção para o facto de que a fala não é inocente. A escolha das palavras documenta alguma coisa. E essa alguma coisa deve preocupar um cientista social. É verdade que o cientista social corre o risco de inventar coisas que não existem, atribuir coisas que as pessoas não tinham pensado e por aí fora. Não obstante, não é possível desenvolver uma mentalidade analítica e, consequentemente, cultivar a mentalidade sociológica sem desconfiar das palavras que as pessoas usam. Até prova em contrário as palavras querem dizer mais do que dizem. A questão é, então, de saber que coisa é essa exactamente. Ainda vou tentar fundamentar melhor isto na próxima e última postagem.

Mas repitio: deter-se sobre estas coisas não é atrasar a luta contra a pobreza absoluta, nem é pactuar com os corruptos. É fazer aquilo que melhor podemos fazer na nossa tentativa de perceber o mundo em que vivemos. Só pode prescindir deste exercício aquele que pensa que já sabe tudo quanto devia saber e que o único que falta é apenas tirar conclusões. Portanto, portanto, portanto... tal e qual como no período imediatamente a seguir à independência quando também havia muitas certezas. Ocorre-me, para ser maldoso, que algumas das pessoas que hoje criticam a falta de integridade pública com muita veemência – e razão, diga-se de passagem – são as mesmas que defenderam e emularam o discurso intolerante desse período. A mesma impaciência que têm hoje com os que preferem duvidar é a mesma que os levou a limitar o debate naquele período no interesse da “defesa dos interesses do povo”. Eu tenho mais medo dessa gente do que dos “corruptos” porque se essa gente também “mandasse” estávamos mal nós que somos tidos como os que dizem que “está tudo bem”. Como se realmente disséssimos mesmo isso.