terça-feira, janeiro 08, 2008

O que acho desse trabalho (3)

Não vos quero saturar, mas não vou poder postar lá para o fim da semana e depois disso vou ter acesso difícil à internet. Por essa razão, e como tenho todos os textos já escritos, vou postá-los com intervalos mais curtos do que o habitual.

Se não, por que razão não é? Não é válido por que a situação mudou de 2001 para 2007? E se a situação mudou, mudou em que sentido e em que níveis?

Na postagem anterior levantei o problema do sentido da noção de “validade”. Optei pela validade enformada pelo que a lógica nos ensina e que a pessoa que marcou este trabalho para casa não se cansa de ridicularizar apoiado por auto-intitulados seguidores que estão fartos do “rigor científico”. Agora, reparem numa coisa curiosa: um conteúdo ou é válido ou não é. Isso é sugerido pelas duas primeiras perguntas do TPC. Isto pressupõe critérios. Ou por outra, critérios são importantes. Mas que critérios? É possível discutir validade sem consenso sobre os critérios? Como é que a pessoa que nos marcou este trabalho vai saber se estamos a responder correctamente às perguntas sem critérios? Como? Como é que os seus auto-intitulados seguidores que concordam com o que ele escreve ou diz, sabem que concordam? Como é que ele próprio decide que um texto é válido ou não? Toda a nossa discussão tem sido sobre isto e não, como muitos dos seus seguidores pensam e dizem, sobre se as pessoas devem criticar ou não.

A nossa discussão tem sido sobre a responsabilidade que pesa sobre nós académicos de sermos rigorosos connosco próprios independentemente das nossas inclinações políticas – que as temos, quem pode negar isso? Já agora, alguns comentadores nos blogues descobriram que sou da Frelimo, sempre fui e estou ao seu serviço, mas que também estou numa campanha individual megalômana de auto-promoção, quero ser o melhor sociólogo de Moçambique, arrancar a Carlos Serra todos os seguidores que tem e atrelá-los a mim, que tudo quanto faço é política, mas política barata e suja, e que a sorte do povo não me interessa, só o meu grande ego. Descobriram também que não respondo às perguntas críticas, nem às das mulheres; portanto, estão avisados todos quantos me querem contrariar ou são mulheres. Declaro solenemente que tudo isto é verdade, que tenho vergonha de mim próprio e que há muito mais que não sabem, mas que só vou admitir à medida que for revelado. Na minha próxima encarnação vou tentar ser melhor pessoa (ou animal, de preferência camaleão para poder mudar de cores – partidárias – sempre que for conveniente para as minhas ambições pessoais).

A resposta mais simples à esta pergunta sobre se o conteúdo não é válido seria a referência à postagem anterior. Se eu escrevi lá que o conteúdo era plausível, não posso agora dizer que não é. Isso também faz parte da cultura académica: coerência e consequência. Indiquei, contudo, alguns elementos do argumento do professor universitário português que me pareceram problemáticos. Contudo, uma vez que esses argumentos não são centrais à sua tese, não fiz depender a minha aceitação do seu argumento global desses outros argumentos menores, tanto mais que estes serviam apenas para ilustrar o que ele queria dizer. Sendo assim, não teria como responder à questão de saber porque razão o conteúdo não é válido. Se eu estivesse simplesmente interessado na discussão da sua conclusão – que é o que alguns fazem entre nós – aí sim, poderia até dizer que não é verdade que o nosso sistema político se caracterize por uma elite local criada pelo sistema neo-liberal global para pilhar as riquezas do país em detrimento do povo. Mas esse tipo de discussão não é útil. É fútil.

O blogue “Diário de um sociólogo” propõe, então, algumas razões que tornariam o conteúdo inválido. São duas. A primeira tem a ver com a altura em que o artigo foi escrito pelo professor universitário português. Será que de 2001 para 2007 a situação mudou? Portanto, o conteúdo do texto seria inválido se as coisas tivessem mudado. Confesso que não consigo perceber muito bem o raciocínio que está por detrás desta sugestão. Se eu analiso um texto é claro que vou julgá-lo contra o pano de fundo do tempo em que foi escrito. Não posso rejeitar o texto com base no argumento segundo o qual as coisas teriam mudado. Vou procurar saber se o que o texto diz se pode aplicar às circunstâncias do tempo em que foi escrito. Agora, se a sugestão é de que a publicação deste texto hoje, como forma de descrever a situação actual, é útil ou não, sobretudo em termos da validade do conteúdo para a situação actual, aí não há problemas. O conteúdo continua válido nos termos do que escrevi na postagem anterior. Aqui não há mais nada a acrescentar, portanto. Insistir na mudança como critério de plausibilidade é, em minha opinião, discutir conclusões. E isso não é útil. É o mesmo que acontece em várias áreas das ciências sociais – sobretudo nos estudos africanos – onde cada investigador se protege da crítica com o argumento segundo o qual as coisas seriam diferentes no seu campo específico de estudo. Mary Douglas chamou a isto de fenómeno “entre os Bongo-Bongo é diferente”.

A segunda razão é ainda sobre o tempo, mas quer saber se o conteúdo não é válido porque as coisas possam ter mudado. E remata: em que níveis? Aqui também a questão é bicuda. Está claro que não podemos julgar a validade do conteúdo com base no argumento segundo o qual as coisas teriam mudado. Conforme já disse, só se a sugestão fosse de que esse texto de 2001 é válido para hoje. Aí sim, podemos ver se as coisas são como são descritas pelo texto. Se esse for o argumento, repito, então, o conteúdo ainda é válido nos termos do que escrevi na postagem anterior. Confesso que tenho dificuldades com o raciocínio que está por detrás destas sugestões. E a coisa piora quando somos convidados a dizer em que níveis é que as coisas teriam mudado. Acho que estas perguntas, mesmo para quem ache que o conteúdo não é válido, não fazem muito sentido. A ter dificuldades com a validade do conteúdo seria necessário problematizar os critérios (as premissas) do argumento em questão. Ora, tenho em mim que uma análise social digna desse nome não vai fazer depender a sua validade de condições circunstanciais.

Este último aspecto conduz-me directamente a uma questão de muita importância para a saúde do debate na esfera pública moçambicana. As ciências sociais, pelo menos no meu entendimento, não têm como objectivo revelar a verdade. Já escrevi sobre isto neste blogue. Aconselho a leitura destes textos a todos que continuam a interpelar-me a este nível. Eu também não conheço a verdade; não sei se é europeia, africana, da Frelimo, da Renamo ou minha; não sei. O que as ciências sociais fazem – ou deviam fazer, caso este seja o meu entendimento particular – é dizer em que condições uma afirmação é válida ou não. Sendo assim, não podem ser as circunstâncias do momento a ditar a sua validade, mas sim, mais uma vez, os critérios estabelecidos a priori. Esta é, na verdade, uma outra maneira de dizer que qualquer afirmação – em ciências sociais – nos obriga a prestarmos mais atenção às condições da sua própria validade. Um comentador deste blogue, Josué Muchanga, levantou a questão da relação entre a epistemologia e a sociologia reflexiva que se encaixa muito bem no argumento que estou aqui a desenvolver. Em que condições é que o que estou a dizer faz sentido?

Na verdade, existem algumas correntes filosóficas que defendem a ideia de que isto é também válido para as ciências naturais. Stephen Toulmin, um filósofo britânico, defende, com efeito, a ideia de que o avanço da ciência está intimamente ligado a esta função da teoria, a saber especificar as condições em que um determinado efeito é possível. Portanto, a pergunta colocada sobre se o conteúdo do texto do professor universitário português não seria válido porque a situação mudou de 2001 a 2007 é, ela própria, problemática e revela alguns mal-entendidos graves no que diz respeito ao que a actividade científica é e faz. Acima de tudo, ela revela, para mim, incongruência, uma incongruência que se manifesta na ridicularização dos que insistem nos critérios ao mesmo tempo que se parte do princípio de que é possível julgar. Como julgar sem critérios? Um grande pensador francês, Lucien Levy-Bruhl, em minha opinião injustamente ridicularizado pelos seus pares, ao falar sobre a mentalidade pré-lógica levantou a questão da incapacidade de reconhecer uma contradição como uma das características dessa mentalidade. A prova está patente. E gente com esta inclinação chama nomes aos outros.

Sei que reprovei esta pergunta, sobretudo agora que fui descoberto.

1 comentário:

Patricio Langa disse...

Onde andam os “críticos”? Poderiam ajudar o prof. na correcção do TPC. O ideal é que produzissem textos sistemáticos que justificassem a nota atribuída. Não é pedagogicamente correcto atribuir uma nota aleatoriamente, sem explicar o seu sentido. É que estamos habituados a ler recadinhos por via de aforismos irónicos ou TPC como o que o Elísio, afincadamente, se pôs a responder. Porque não interpelar os argumentos, assim, sistematicamente em nome de um debate aberto? Se para ler levamos o tempo que levamos, imaginem o tempo gasto pelo E.M a pensar e escrever este texto respondendo o TPC. No mínimo poderiam dizer qual o julgamento que fazem das respostas dadas as questões.