segunda-feira, janeiro 07, 2008

O que acho desse trabalho (2)

Acham que o conteúdo é válido? Se sim, por quê?

Leiam o texto do professor universitário português aqui para melhor acompanharem a minha resposta. Karl Marx, num dos seus escritos, uma vez disse que às vezes o mais fácil é rejeitar a pergunta ao invés de tentar respondê-la. A tentação neste caso é forte. A pergunta é muito problemática. O que significa aqui validade de conteúdo? O conteúdo é válido em que sentido? Quando descreve uma situação que qualquer leitor minimamente inteligente pode articular com a realidade? Quando a forma como a descrição é feita é plausível? Estou a tentar resistir à tentação de perguntar se a validade a que a pergunta se refere diz respeito a critérios metodológicos de alguma natureza. Estou a resistir porque tanto quanto pude perceber, todo o tempo esse blogue procurou dar-nos a impressão de que esse tipo de critérios não conta. Agora conta? Não é esta a pergunta que nós os outros temos colocado com muita insistência, nomeadamente que precisamos de critérios para avaliarmos a plausibilidade (porque não mesmo validade?) do que nos é dito? O que mudou? Ou a pergunta é simplesmente retórica?

Suponho, porém, que se trata da validade que a nossa capacidade de reconher um argumento racional nos permite apurar. Então, para respondermos à pergunta sobre se achamos o conteúdo válido, e porquê, temos primeiro que apresentar o argumento do texto em questão. Assinalei as partes relevantes desse argumento em amarelo no texto que podem baixar aqui. Penso que o texto apresenta dois argumentos intimamente ligados. O primeiro argumento é de que o ajustamento estrutural em Moçambique é parte de um projecto descreditado de dominação global que utiliza Moçambique simplesmente como forma de mostrar que o próprio projecto pode funcionar. O autor acha, contudo, que este projecto não está a funcionar e a prova disso é a situação precária dos moçambicanos consubstanciada na crescente dependência do país do auxílio externo. Este é, portanto, o primeiro argumento. O segundo, que decorre do primeiro, é de que este projecto global criou uma elite local que controla todos os sectores da vida social, política e económica da sociedade para seu próprio benefício de tal maneira que ela não tem nenhum interesse na melhoria das condições de vida dos demais. Há um terceiro argumento periférico que não vou discutir porque o próprio autor também não o elabora. Com efeito, no último parágrafo ele coloca a pergunta de saber se países como Moçambique estão maduros para o tipo de transformação social que uma revolução marxista exigiria e sugere uma resposta negativa. Talvez fosse interessante, num outro contexto, recolocar esta pergunta não só em relação ao fracassado projecto revolucionário no país como também em relação à filosofia neo-liberal.

Eu acho que estes dois argumentos são válidos. Validade, no sentido restricto da lógica, não significa verdade ou estar correcto, embora a probabilidade de estar correcto seja maior. Assim, a conclusão do autor segundo a qual o sistema político moçambicano seria o resultado de um projecto global de dominação faz sentido e apoia-se em premissas que podem ser discutidas. Essas premissas são o próprio ajustamento estrutural e a política neo-liberal que o justificam bem como a lógica de actuação da classe política. Não obstante, aceitar a validade do argumento não me compromete com as conclusões do autor. Compromete-me com a discussão das premissas que ele apresenta. Assim, posso aceitar que num certo sentido, de facto, as políticas de ajustamento estrutural reflectem um projecto global de dominação da periferia pelo centro, mas posso, ao mesmo tempo, levantar a pergunta de saber se na realidade é necessariamente assim e o resultado precisa de ser o que é asseverado pelo autor. As políticas de liberalização em Moçambique criaram, ao lado dos excessos ideológicos do FMI e do Banco Mundial, espaços de articulação de processos de diferenciação social que dificilmente podem ser acomodados na visão homogeneizante do professor universitário português. Mesmo as observações que ele faz em relação à estrutura política podem ser discutidas. Assim, embora seja verdade que haja uma forte coincidência entre interesses políticos, sociais e económicos – que também reflectem a estrutura da nossa sociedade ou pelo menos da fase de diferenciação social em que ela se encontra – há também clivagens – que ultimamente se revelam na renitência do Tribunal Administrativo e do Concelho Constitucional – que colocam sérias interrogações à volta da tese do nosso professor universitário português.

Portanto, o conteúdo é válido porque pode e deve ser discutido. O autor não se põe apenas a tirar conclusões sem nenhum fundamento. Ele apresenta uma conclusão que se apoia em premissas claras e que são a base para aceitarmos ou rejeitarmos o que ele diz. No prosseguimento da série veremos que nada disto acontece em Azagaia e Gprofam – e não precisa de acontecer! – muito menos em Custódio Duma. Noé Nhantumbo é diferente e muito mais próximo do professor universitário português – na qualidade da sua argumentação. Agora, há elementos no texto “o bom aluno” que são extremamente problemáticos e que assinalei em verde. O primeiro diz respeito à comparação que ele faz com os tempos de Samora Machel. Essa comparação é encabeçada por um argumento tendencioso que caracteriza de decente só aquele que “convoca” o tempo de Samora Machel e sugere que todos os que “diabolizam” esse tempo são “arautos do pensamento único neo-liberal”. É óbvio que isto é problemático e bastante barato.

Eu não me considero arauto do pensamento único neo-liberal (nem tenho a certeza se esse pensamento de facto existe) e nem diabolizo o tempo de Samora Machel. Uma grande parte dos problemas que temos hoje tem muito a ver com o estilo de governação de Samora Machel, sobretudo muito do que diz respeito ao (des)respeito pela legalidade. Dizer isto não é diabolizar ninguém. Dizer que ele é responsável por muitos dos nossos problemas não é diminuir a sua importância na história do país. Também vivi em Moçambique naqueles tempos e a sugestão de que “o pouco que havia era partilhado com razoável equidade” é simplesmente grosseira para quem se lembra dos privilégios que a nomenclatura sempre teve e, sobretudo, se lembra de como funcionava a GOAM em Maputo. E mesmo se ignorarmos esses privilégios podemos, e devemos, colocar a pergunta de saber porque se chegou ao ponto de termos essas carências. Só o apartheid e o imperialismo não bastam como explicação. Mas isso abre uma caixa de pandora que não interessa aqui. Portanto, o que quero dizer é que devemos também prestar atenção à ilustração do argumento do autor que se apoia numa oposição simplista entre o agora e o tempo de Samora Machel que, curiosamente, coincide com a glorificação acrítica de Samora Machel no blogue “Diário de um sociólogo”.

O outro argumento problemático é a sugestão não fundamentada segundo a qual a elite nacional estaria a participar na pilhagem do país em troco de um punhado de dólares. Este argumento revela um certo descuido analítico do professor universitário português que o coloca perigosamente perto dos hábitos analíticos dos nossos “críticos” sociais hostis ao “rigor científico”. O útil e plausível argumento que ele apresenta sobre as condições de emergência desta elite nacional – projecto global de dominação – não significa, em minha opinião, que todos quantos fazem parte desta elite estejam envolvidos na pilhagem do país em troco de um punhado de dólares. O argumento peca por ser demasiado geral. Há gente decente e que é membro desta elite; há gente que resiste à interferência da mão externa e que é membro desta elite; há condições estruturais que limitam o espaço de acção dessa gente. Ou por outra, ao ser tão grosseiramente geral o argumento bloqueia todos os ganhos analíticos que a sua abordagem apresenta.

Enquanto fico à espera de saber que nota tenho para esta resposta, passo para a segunda pergunta do TPC.

11 comentários:

Patricio Langa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Patricio Langa disse...

Esperemos que o professor seja “justo” na atribuição da nota. Os que visitam este blog deviam ver neste texto o exemplo do que é interpelar, do que é criticar. Está aqui exposta, claramente, a função do debate crítico. Apurar os nossos argumentos, pondo em causa as premissas que apresentamos para as conclusões que tiramos. Fazer isso não significa desqualificar, por exemplo, o “bom” professor Português. Significa sim apreciar a plausibilidade de seus argumentos e convidá-lo a reflectir mais, a investigar mais, a duvidar e a criticar.
Custa perceber isto? Se depois desta série continuarem os “beefs” ( Bayano) então, é o fim da picada! Parabéns Elísio pelo excelente trabalho de esmiuçar as coisas.

Elísio Macamo disse...

obrigado, patrício. custa perceber isto porque poucos de nós estamos ainda a investir no debate de ideias. é mais interessante saber porque alguém disse determinada coisa do que saber se o que disse faz sentido ou não. mas acho que é apenas uma minoria que nunca vai querer perceber a diferença.

Anónimo disse...

Elísio, creio que interpela com honestidade o Professor Universitário Português. Estás a aplicar aqui as tuas próprias "lições" de como debater, como argumentar.

Na verdade, só pode falar de equidade no período entre 1975 e 1986 quem não vivia em Moçambique. Ou quem via o país através do aquário que era a Interfranca e outras "diplotiendas"

Obed L. Khan

Elísio Macamo disse...

é isso, caro obed. mas se ainda lhe restavam dúvidas sobre o que está em questão nesta discussão leia o último comentário anónimo na postagem "o direito à razão". uns pensam que debater é ter sempre razão e fazer tudo bem; rigozijam-se dos erros dos outros e ainda assim pensam que eles é que estão a servir o povo. atribuí erradamente a autoria do texto sobre a kpmg ao centro de integridade pública; se tivesse tido mais cuidado teria consultado o centro, mas não tive esse cuidado. contudo, a situação está esclarecida e tudo isso na base do reconhecimento do que é correcto numa discussão. se marcelo mosse e eu não partilhássemos esses critérios do que é correcto como é que ele me teria interpelado? de certeza com as mesmas armas que os "críticos" usam: é porque quero fazer mal ao centro ou defender os corruptos! sem se aperceber, o comentador anónimo está a reforçar a posição que defendo. só espero que a pessoa que estas pessoas pensam estar a apoiar saiba se distanciar a tempo. os seguidores estão a ficar cada vez mais coloridos!

Aguiar disse...

Prof. Macamo Prof. Macamo, esta de facto preocupado com as cores dos seguidores ou dos hipoteticos seguidores? Quem nos garante que todos esses coloridos como o senhor diz, sejam de facto seguidores? seguidores de quê ou de quem? à partida existem dois blocos, mas penso ser pertinente contar sempre com os efeitos perversos, no caso, pessoas que estão em, campo algum, e que apenas querem semear a discordia.Talvez se sintam felizes assim. Tem o Prof a certeza que os coloridos todos querem seguir ideias, se me permite, Prof Macamo, o importante seria, que o Senhor, Prof, assim como os outros Professores que nos servem de referência, não perdessem de vista suas cores, isto é que sejam coerentes com as suas ideias, responsaveis pelas suas tomads de posição, é tudo. Qto ao resto, para o bem da cultura do debate, o melhor seria ignorar. penso.senão ficaremos a marcar passo, o que de facto não interessa. penso.

Elísio Macamo disse...

olá iolanda, tens toda a razão nessa interpelação. a forma que as coisas estão a assumir leva-me a duvidar que, de facto, algumas dessas pessoas sejam seguidoras genuinas de quem quer que seja. hás-de ter reparado que tento, sempre que possível, escrever "auto-intitulados" justamente para os distinguir. o meu comentário era apenas uma tentativa de pedir aos seguidores genuinos para se distanciarem de posições ou atitudes que lhes representam mal. estamos todos a aprender a debater, iolanda, e isso não é fácil

Aguiar disse...

Aprender a debater? quem o senhor,Prof macamo? :) o prof que se passeia pelos corredores das universidades alemas! não me faça rir. Qdo mto estamos, todos, de uma maneira ou de outra a tentar a adaptar as nossas concepçoes de debate (resultado da confrontaçao entre a nossa concepçao pessoal, e aquilo que aprendemos nas diferentes escolas por onde passamos - Portugal, EUA, França, Angola, Romenia, Russia, alemanha, moçambique, RSA, Brasil e por ai fora) à realidade social moçambicana. talvez seja isso que não seja facil, talvez...

Elísio Macamo disse...

olá iolanda, quando digo que estamos todos a aprender a debater não me refiro apenas aos aspectos meramente técnicos da argumentação. refiro-me também a tudo quanto há de interpessoal e subjectivo num debate bem como os aspectos políticos e culturais que podem condicionar o que estamos dispostos a aceitar. e mesmo se me referisse aos aspectos técnicos, não vejo porque eu próprio não teria necessidade de aprender. estar nos corredores das universidades alemãs não é garantia de domínio de nada. aqui também é preciso aprender continuamente.

Aguiar disse...

Bom, quis ser engraçada e tbem nao contei com os efeitos perversos, anda tudo mto crispado por aqui, saiu-me o tiro pela colatra...
:)

Elísio Macamo disse...

olá iolanda, sim, anda tudo muito crispado por aqui. tenho que me descontrair. um pouco de humor faz mesmo bem.