Um comentário ao "Diário de um sociólogo"
No dia 30 de Dezembro do ano passado o blogue “Diário de um sociólogo” publicou uma postagem (que pode ser lida aqui) com o título “O que acham deste trabalho?”. Li essa postagem no sábado passado. Como é normal naquele blogue, não se diz claramente a quem é dirigida a pergunta, mas pela prosa, tema e perguntas com as quais termina é fácil depreender que se trata de mais uma “contribuição” para o debate de surdos que está a decorrer na blogosfera moçambicana sobre crítica social, intervenção social e cultura académica. A postagem cita longamente um texto da autoria de um autor português, Fernando Bessa Ribeiro, com o título “o bom aluno” e que é de 2001. O texto fala de Moçambique e a sugestão que o blogue em questão faz é de que esse texto não é diferente das letras da canção de Azagaia e do grupo Gprofam, nem do texto de Custódio Duma e de Noé Nhantumbo publicados no Canal de Moçambique.
De forma muito picante, o blogue faz questão de referir que o autor do texto “o bom aluno” é um professor universitário português. Suponho que esta referência queira dizer que se mesmo um professor universitário português diz a mesma coisa (se for mesmo verdade que não há diferença entre esses textos, algo que ainda vou discutir aqui) que moçambicanos simples como os músicos, o jornalista e o jurista, então estes últimos não podem estar enganados e, acima de tudo, o blogue, ao citá-los com aprovação, não fez mais do que aplaudir o que é bom. Faço referência a este pequeno detalhe para chamar a atenção dos que andam pelos blogues com boas intenções e dizer-lhes que são estes pequenos pormenores subtis e nada constructivos que minam o debate académico. É claro que um professor universitário – independentemente da sua nacionalidade, já agora – pode se enganar. A questão não é, e nunca foi, que há uma verdade que deve ser anunciada a todo o custo. A questão é a forma como se apresenta uma conclusão e se é possível debatê-la. A questão é a responsabilidade do académico perante conclusões problemáticas. Aplaudi-las porque dizem o que é politicamente correcto ou insistir na sua melhor formulação?
Felizmente, o blogue marcou um TPC com cinco perguntas. Repito-as logo a seguir para também anunciar o que vou fazer ao longo das próximas postagens. Recolhi alguns dos textos referidos pelo blogue (à excepção da letra da canção O País da marrabenta) e coloquei-os aqui para quem quiser consultá-los e acompanhar melhor a discussão. Não vou analisar todos os textos porque como bom aluno que gostaria de ser, só posso fazer o trabalho para casa que nos foi marcado. E esse trabalho consiste em analisar o texto da autoria do professor universitário português. Referir-me-ei aos outros textos apenas onde for necessário estabelecer comparações segundo as perguntas marcadas:
1. Acham que o conteúdo é válido? Se sim, por quê?
2. Se não, por que razão não é? Não é válido por que a situação mudou de 2001 para 2007? E se a situação mudou, mudou em que sentido e em que níveis?
3. O que distingue Bessa [o professor universitário português] de Azagaia, Gprofam, Duma e Nhantumbo?
4. Que perguntas não fiz e deveria ter feito?
5. Seria possível um outro tipo de abordagem? Se sim, qual?
É muito trabalho como podem ver, mas vamos a isso no interesse de uma cultura académica mais responsável. Vou precisar de espaço para cada pergunta pelo que sugiro postagens individuais para cada uma delas. Posso, desde já, dizer que ao contrário do que pensa o blogue “Diário de um sociólogo” há diferenças grandes entre Bessa e os outros, mas também entre os outros entre si. Essas diferenças têm muito a ver não só com a qualidade da argumentação, mas também com o contexto em que esses argumentos são esgrimidos. Assim, não faz muito sentido (que me perdoe a insolência o professor que marcou o trabalho) comparar Bessa com Azagaia e Gprofam, nem mesmo, já agora, comparar Azagaia e Gprofam com Duma e Nhantumbo. Azagaia e Gprofam cantam o que vêm e sentem e não há, em princípio, nenhuma obrigação a pesar sobre eles de submeterem o que dizem ao rigor analítico académico. Há a obrigação do lado académico de não promover o que eles dizem como a revelação da verdade. Seria, naturalmente, desejável, que a qualidade da nossa esfera pública fosse suficientemente elevada para não permitir que cantores se permitam tanta liberdade nas conclusões que tiram. Em suma, Azagaia e Gprofam desabafam e estão no seu direito de o fazer. Bessa, Duma e Nhantumbo não deviam desabafar, pois o que eles propõem é análise e análise é julgada pela sua plausibilidade, não pela congruência que possa existir entre as conclusões que tiram e o que cada um de nós sente politicamente. Esta é uma diferença muito grande e tem consequências para o que fazemos quando criticamos.
O parágrafo anterior é mais uma demonstração do que está mal na nossa cultura académica e do que torna difícil o debate sobre estas questões. Não quero acreditar que o autor deste TPC não veja os limites da comparação que ele propõe. Mas, se calhar, se eu insistir sobre isso vou estar a obrigar o leitor a aceitar apenas as minhas conclusões e não, como tenho dito, a discussão das minhas premissas. Por isso, prefiro passar agora a responder às questões colocadas.
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