Tentativas de explicação
As manifestações ainda estão frescas. Só foram há duas semanas. A discussão sobre o que as tornou possíveis e sobre o seu significado está ainda na sua infância. Mas promete. As posições são as mesmas de sempre. Para uns está claro onde depositar a responsabilidade e, por via disso, explicar o evento. Para outros isso não está bem claro, por isso é difícil encontrar uma explicação. Na verdade, o problema é metodológico e tem muito a ver com a própria noção de explicação. É uma noção notoriamente difícil de precisar e tem estado na base de todo o tipo de discussão metodológica. É tão controversa que alguns sociólogos privilegiam uma linha de pensamento – com a qual me identifico – que vira as costas a essa noção. O argumento é de que a natureza do nosso objecto se furta à explicação.
Esta parece uma maneira elegante de fugir ao debate. Não é. Com efeito, se entendermos a explicação como uma tentativa de responder à pergunta “porquê?” veremos que é prudente a atitude dos sociólogos que dizem que não querem nada a ver com essa noção. Quero tentar mostrar nesta postagem os problemas que estão associados à noção de explicação para ver se temperamos um bocado a nossa tendência de “explicar” coisas. Vou fazer isso com uma problematização da própria pergunta para mostrar que ela pode querer dizer muito mais do que pensamos e, portanto, pode exigir coisas de nós que não estamos a satisfazer quando damos uma “explicação”.
No dia 5 de Fevereiro houve manifestações na cidade de Maputo. Não vou começar pelo mais óbvio que seria problematizar esta frase, pois assim nunca mais arrancávamos. Importa, contudo, dizer que não é uma afirmação inocente, pois uma parte da confusão começa aí mesmo. O que é que houve no dia 5 de Fevereiro? Temos várias opções de resposta: manifestações, distúrbios, desordem, actos de vandalismo, etc. Parece pedântico e intelectualismo barato, mas é crucial para o sucesso da explicação, sobretudo de certos tipos de explicação como veremos mais adiante. Mas para não complicarmos as coisas vamos simplesmente aceitar a ideia de que o que aconteceu no dia 5 de Fevereiro foram coisas que podemos com toda a legitimidade que nos é conferida pelo facto de participarmos da mesma comunidade política chamar de manifestações. Então, no dia 5 de Fevereiro houve manifestações.
A questão é porquê? Ou melhor, a questão é o que nós queremos dizer com “porquê?”. Porque é que houve manifestações no dia 5 de Fevereiro? Podemos entender esta questão como um convite à reflexão sobre o que dizia no parágrafo anterior, nomeadamente se o ocorrido naquele dia corresponde ao que nós chamamos de manifestação. Se disséssimos “desordem” ou “distúrbios” nada mudaria na qualidade da pergunta. O que temos que fazer aqui é identificar no ocorrido elementos daquilo que consideramos serem as propriedades do fenómeno postulado. Assim, se a nossa definição de manifestação destaca o protesto político, a acção colectiva, a reacção a uma medida pública, etc., podemos procurar identificar esses elementos no ocorrido nesse dia e concluírmos que se tratou de uma manifestação. Para o caso de Maputo e de Xai-Xai nesse dia penso que é pacífico tirar esta conclusão. Já não poderíamos fazer o mesmo em relação ao que aconteceu noutros lugares em dias subsequentes. E isto é importante para a coerência das explicações que andam por aí.
Porque é que houve manifestações no dia 5 de Fevereiro? Podemos entender esta questão também como um convite para explicarmos esta ocorrência singular no contexto geral da nossa esfera pública. Porque é que ao invés de as pessoas irem trabalhar normalmente como o fazem todos os dias, algumas delas foram à rua fazer o tipo de coisas que fizeram? Aqui seremos obrigados a fazer deduções que nos apontam para vários caminhos. O que está em questão nesta pergunta já não é a identificação de características que associamos à noção de “manifestação”, mas sim a própria ocorrência. Assim, podíamos simplesmente descrever o contexto dentro do qual a manifestação ocorreu (ou teve mesmo que ocorrer). A pergunta é: que condições foram necessárias para que a ocorrência tivesse lugar? O aumento do preço do “chapa” foi uma condição importante, mas a pergunta – uma pergunta que é raramente colocada – é de saber em que medida. Aqui as coisas complicam-se e os que gostam de fórmulas simples continuam a ler a seu próprio risco. Talvez seja oportuno introduzir uma distinção muito importante entre condições necessárias e condições suficientes para que algo ocorra. Uma condição é suficiente quando ela é catalizadora imediata de um determinado evento. Por exemplo, se alguém é baleado mortalmente podemos dizer que a causa (a condição suficiente) da sua morte foi o projéctil que se hospedou nos seus pulmões. Uma condição necessária é um pouco mais complicada, pois envolve tudo quanto deve ocorrer para que a condição suficiente tenha o efeito que imputamos. Assim, no caso da pessoa baleada mortalmente há uma série de condições necessárias, nomeadamente que alguém tenha disparado, que a arma não fosse nenhum brinquedo, que o alvejado não tivesse colete anti-balas, etc.
Estas considerações levantam questões em volta do que significa dizer que as manifestações foram causadas pelo aumento do preço do chapa. Em que medida? Qual é a relação exacta entre o aumento do chapa e a manifestação? Aí alguns socorrem-se legitimamente das condições necessárias que incluem a indiferença do governo, a precariedade geral da vida nos centros urbanos do país, o desespero dos jovens e uma série de outros factores que aduzimos para proporcionar contexto para a ocorrência. Reparem que não estou a levantar a bicuda questão de saber como se faz este salto explicativo de certas ocorrências como sendo a causa de uma outra. Porque é que o aumento da tarifa do chapa, por exemplo, leva as pessoas a manifestarem-se? E a manifestarem-se contra o governo? Porque não o fazem contra os chapas eles próprios? E porque a manifestação é naqueles moldes? Porque é que as pessoas não marcharam para o parlamento e baixaram as calças? E saias, já agora? Estas perguntas todas convidam-nos a aduzir mais ocorrências que vamos integrando numa cadeia causal que, no fundo, não estabelece nenhuma relação directa entre o que julgamos ser a causa e o efeito.
Sei que a coisa agora ficou demasiado complicada. A pergunta é: porque houve manifestações no dia 5 de Fevereiro? Se calhar a pergunta está a convidar-nos a enunciarmos uma espécie de lei do estilo “sempre que se toma uma medida impopular, as pessoas manifestam-se”, se calhar, quem sabe? O caso é mais complicado do que isto, pois eu nem estou a levantar o problema de que estas manifestações não só ocorreram como também foram violentas. Vão reparar que os que nos dão explicações não fazem distinção entre “manifestação” e “manifestação violenta”. Acho que as perguntas que temos vindo a levantar são suficientes para demonstrar que essa distinção é crucial para que as explicações sejam credíveis. Não se esqueçam que isto é sociologia do sexo dos anjos. Então, será que é assim que devemos entender as manifestações? Será que elas foram a demonstração de uma lei? Algumas explicações sugerem isto mesmo. Sempre que um governo é indiferente em relação ao seu próprio povo, corre o risco de enfrentar manifestações desse mesmo povo. Valem as perguntas sobre a magnitude, tipo e natureza da manifestação neste caso também. Os explicadores podem ser mais comedidos e dizerem de forma menos categórica que existe uma grande probabilidade de que em determinadas circunstâncias (que eles enunciam) haja determinados efeitos. Alguns fazem assim, outros são peremptórios e categóricos.
Há várias outras maneiras de interpretar a pergunta (fiz uma lista de 10 que a preguiça não me deixa enumerar e discutir aqui), mas penso que a ideia já deve ter entrado. Talvez referir mais uma que tem sido importante no debate público. A pergunta: porque é que houve manifestações no dia 5 de Fevereiro pode ser também um convite para falarmos da função da manifestação. Isto também tem sido feito. Os manifestantes queriam dar uma lição ao governo; os manifestantes queriam obrigar o governo a mudar de política, etc. Isto pressupõe sabermos um bocado mais sobre as pessoas que participaram nessas manifestações, suas motivações e sua disposição para certos actos. É muito trabalho que não se faz horas depois da coisa acontecer ou, pior ainda, ainda durante a ocorrência como alguns colegas fizeram. Estas coisas são complicadas e espanta-me a tendência que alguns de nós têm de fingirem que elas não sejam complicadas.
O último reparo conduz-me directamente ao que, na verdade, era minha intenção nesta postagem, nomeadamente lançar um apelo (uma vez mais) para que preservemos a especificidade da nossa actividade científica. Distinguir entre o senso-comum e a actividade científica não precisa de ser algo negativo em relação ao senso-comum. Até porque o senso-comum costuma acertar nas suas explicações como, aliás, muitas explicações que andam por aí revelam. O problema do senso-comum, porém, é que não sabe porque acertou. Só sabe que acertou. E se não acerta, não se dá conta de que tinha vaticinado coisas. A distinção entre senso-comum e actividade científica reside aqui mesmo. A explicação que se quer científica (se explicar é o que queremos fazer...) precisa de considerar muito mais coisas do que o senso-comum tem a paciência de fazer. Isso implica trabalho empírico sério, muito sério mesmo. E comedimento.
Não quero realmente pôr em causa as explicações que andam aí. Quero, isso sim, chamar a vossa atenção para a dificuldade de proporcionar explicações. Estou a dar-vos alguns subsídios metodológicos para interpelarem as “explicações” com a pergunta: o que foi explicado? A que porquê se referia a explicação? E atenção: o que escrevi aqui vale também para aqueles que, do lado do governo, também tentam explicar o ocorrido.