terça-feira, janeiro 29, 2008

A "realidade" da corrupção (II)

Pureza e impureza

A noção de corrupção é um pouco estranha. Não conheço muito bem a sua etimologia e, por enquanto, não me interessa procurar saber isso. Utilizo, por enquanto ainda, o meu senso-comum para inferir que se trata de uma referência à degeneração de algo que é puro. Portanto, há uma oposição entre o que é puro e o que é impuro. A ideia de corrupção remete-nos para um estado original puro, um pouco ao estilo do “bom selvagem” de Jean-Jacques Rousseau que viu na sociedade dos homens o momento da sua despurificação. Despurificação, existe esta palavra? É um pouco a história da queda do jardim celeste. A humanidade saiu do estado original de inocência (portanto, pureza essencial) para o estado pecaminoso (portanto, impureza histórica) de ter que se salvar (espiando os pecados e venerando o Senhor).

Vemos nesta breve exposição alguns elementos da tese que apresentei em linhas gerais na postagem anterior. Com efeito, estamos perante uma visão teleológica e escatalógica da história. A teleologia está na ideia de que o mundo (na verdade, o destino do mundo) caminha a passo rápido rumo a um objectivo claramente definido e inevitável. Alcançar esse fim é imperioso. A escatalogia está na ideia de que certas pessoas possuem o conhecimento, a autoridade e a legitimidade de conduzirem as outras na direcção desse fim. Obedecer a essas pessoas é imperioso para que a prossecução do fim seja bem sucedida. O interessante nesta concepção do mundo é a ideia de que o ponto de partida foi puro. A história, portanto, é concebida como um acidente. Em condições normais, pressupõe-se, nunca devíamos ter saído do estado de pureza. Se Adão e Eva não tivessem comido do fruto proibido, nunca teria havido necessidade de fazermos este percurso todo que incluiu o sacrifício de Jesús Cristo em nosso nome; se tivéssimos prestado atenção a esse sacrifício nunca teria havido necessidade de Maomé se deslocar à montanha para nos trazer a mensagem de Deus. Portanto, a história é simplesmente um percalço, algo não programado que precisa rapidamente de ser ultrapassada para podermos recuperar o nosso estado original de pureza.

Esta parece-me ser a morfologia da corrupção. A corrupção é, com efeito, um atentado à nossa pureza original; ela é a história que nunca devia ter sido. A corrupção retirou-nos da nossa pureza original e está bastante empenhada em nos recusar o regresso a essa condição através de todo o tipo de artimanhas que só ela conhece. A corrupção é o pesadelo dos 100% íntegros, dos que não fazem mal a nenhuma mosca, dos que mesmo tendo a oportunidade de roubar não roubam porque eles estão acima de tudo o que faz de nós Homens. Explico-me. Aquele que combate a corrupção por a considerar um câncro – interessante esta metáfora – não é ele próprio corrupto; receia, contudo, ficar contaminado, daí a virulência com que ataca a corrupção para fazer desaparecer tudo quanto o possa tentar. Há uma composição do grupo musical com mais sentido de humor em Moçambique – na minha perspectiva pessoal – os Ta Basilly, que cantam “Senhor meu Deus, não me deixe cair na tentação” enquanto vai bebendo... Ele quer resistir à despurificação, prescinde à vida e a tudo quanto a torna interessante. Reparem que não quero com isto dizer que beber, roubar, matar, etc. sejam boas coisas porque nos tornam humanos. Não. O que quero dizer é simplesmente que o puro tem uma concepção da vida dentro da qual aquilo que faz de nós pessoas e dá substância ao nosso qutodiano não cabe.

Vem daí a tendência categórica de rejeitar a impureza a 100%. Enquanto houver pecadores, dificilmente seremos redimidos. Enquanto houver corrupção dificilmente Moçambique se vai desenvolver. Há aqui um paralelo interessante com as acusações de feitiçaria, sobretudo com aquelas que têm um cunho milenarista. O grande movimento Xhosa de matança de gado nos meados do século XIX é um exemplo interessante da lógica por detrás desta rejeição categórica. Essa história entrou para os livros de antropologia pela via do termo “cultos de cargo” em referência a crenças dos habitantes das Ilhas do Pacífico segundo as quais um dia viriam os antepassados do além mar para os libertar das dificuldades da vida para todo o sempre. No caso Xhosa, que ficou conhecido como um caso de suicídio colectivo, uma rapariga de 12 anos disse ter falado com os antepassados quando ia buscar água e que estes lhe teriam dito para dizer aos restantes membros da etnia que eles voltariam para escorraçar os brancos das suas terras; para que isso acontecesse seria necessário que eles matassem todo o gado – que sofria de uma doença trazida pelos europeus – limpassem os corrais, deixassem de trabalhar a terra e se lavassem. Na data anunciada para a vinda dos antepassados, nada aconteceu. Aí disse-se que os antepassados não tinham vindo porque nem todos tinham seguido as instrucções. A coisa ganhou uma dinâmica própria com a marcação de novas datas o que viria a custar a vida a milhares de Xhosa. A rapariga de 12 anos que provocou toda essa confusão foi desterrada para a Ilha de Robben (tanto quanto sei a primeira presa política na África do Sul!) e os restantes Xhosa tiveram que ser obrigados a trabalhar a terra.

Não me interessa discutir o significado profundo desta história, embora sempre tenha considerado uma ironia bastante interessante da história que a civilização tivesse regressado aquele país com um Xhosa, nomeadamente Nelson Mandela. Contei a história simplesmente para ilustrar o lado irracional da acção dos puros. É tudo ou nada. O problema desta atitude do tudo e do nada é de que ela rejeita toda a possibilidade de história, isto é de vida humana. Os puros, consciente ou inconscientemente, têm uma visão horrível da vida que faz de todos nós executores de uma vontade suprema que nos rejeita como humanos. Espero poder explicar isto melhor nas postagens que se vão seguir. Para já quero deixar registado o potencial que esta visão do mundo tem de totalitário. Uma vez que o mundo é essencialmente puro – mas que por culpa de alguns se despurificou – o desafio que alguns se colocam – os puros – é de fazer tudo para que voltemos ao estado de pureza. Esta atitude exige muita arrogância, intolerância e fanatismo, características que fazem do combate à corrupção um grande atentado à nossa liberdade. Vou ilustrar isso um bocadinho na postagem a seguir com a Frelimo revolucionária. Depois regresso à morfologia da corrupção.

7 comentários:

Aguiar disse...

O que são 100 por cento integros? Os que nao fazem mal a uma mosca? O que é o mal? Algo que serve para justificar a existencia dos puros? Neste caso, não sera “o mal” “um bem necessario”? O que é a pureza original? Sera a “não corrupção”? Ou sera a “corrupçao” enquanto elemento que justifica a existencia da “não corrupção”? Dificil saber quem são de facto os puros. não? Sera que os puros têm de de facto uma visão horrivel da vida ou é o Senhor, Professor Macamo, quem lhes empresta, tal visão? Neste caso, qual o “estado de pureza” que se pretende alcançar?
É interessante a metafora do cancro, entre celulas puras e celulas impuras , entre celulas de crescimento normal e celulas de crescimento anormal. Mas, entre essas células, existe, o homem, aquele que combate as celulas ditas de crescimento anormal, com o objectivo unico, preservar o crescimento. Crescimento economico. Desenvolvimento. O homem, é, pois, o meio entre o crescimento normal e o crescimento anormal. Considerando que todo o meio participa dos extremos, é natrural que o homem tenha uma e outra natureza, pura e impura. Agora, se toda a natureza está condenada para certo “fim último”. Não deveria existir para o homem um duplo fim? “Duplo fim”, justificado pela confrontação dos meios exitentes? Afinal, não é o homem, entre todos os seres, aquele que possui o “conhecimento, a autoridade e a legitimidade” de induzir suas “comunidades” ao crescimento? Isto, nao faria de todos nós, duplos executores, de uma vontade suprema que nos identificaria como, simples humanos? desculpe, Professor, é so uma duvida.

Elísio Macamo disse...

cara iolanda, só uma dúvida? são várias! e tens razão! as tuas perguntas estão a enfatizar o meu argumento como verás no prosseguimento da reflexão. o combate à corrupção não reconhece este duplo fim, não reconhece a processualidade e a história. é ainda onde está o problema dos 100% puros.

Elísio Macamo disse...

rectificação: "é aí onde está o problema dos 100% puros".

Aguiar disse...

Desculpe, mas não percebo. Porque é que é aí que està o problema dos 100% puros? Porque não esta ai, o problema dos 100% impuros? O seu texto, prof Macamo, esta excelente, como sempre. Mas, se me permite, com todo o respeito, peca pelo recurso a uma caracterização problemática de puro e impuro. Peca, por recurso à indução problemática de posições em torno de puro e impuro. Penso. Admitindo que existe para o homem um “duplo fim” justificado pela confrontação dos meios exitentes. Porque tera o homem que ser puro vs impuro? O que opõe de facto o homem puro ao homem impuro? A percepçao de corrupção? É a corrupção uma questão apenas moral?

Elísio Macamo disse...

olá iolanda, acho que algumas das tuas inquietações ficarão mais claras - ou não - no prosseguimento da reflexão. a minha posição é de que essa oposição é feita pelos que combatem a corrupção, o que não lhes permite ver a processualidade e a história. de facto, o homem não é ou puro ou impuro, é simplesmente susceptível à impuridade. é este problema que estou a tentar identificar e que, em minha opinião, faz da luta contra a corrupção um empreendimento moral. acho que não devia ser assim. é verdade que estou a induzir esta oposição a partir do discurso anti-corrupção. essa indução está a permitir-me ver os problemas deste discurso de uma forma que não conseguia ver antes. parece-me um bom instrumento heurístico. agora estou a tentar perceber as implicações desta perspectiva. e parecem-me graves como espero ainda mostrar no prosseguimento da reflexão.

Aguiar disse...

Professor Macamo, depois de ter lido Susini, começo a percebe-lo melhor. Alias este livro faz-me lembrar um autor mto famoso que denuncia a “corrupçao” e os “corruptores” em Sao Tomé e Principe ha cerca de 8 anos. Nao me parece que a "corrupçao" tenha diminuido. bem ao contraio ela foi cuidadosamente introduzida, no dia a dia dos politicos saotomenses. exemplo numa reuniao de doadores, um dos ministros saotomenses num discurso, onde era suposto convencer os doadores a injectarem dinheiro par ao orçamento de estado, admitia e justificava a existencia de pequena “corrupçao”! Entretanto é caso para perguntar, durante estes 8 anos o que mudou na vida de STP? É caso para perguntar durante estes 8 anos o que mudou na vida desse autor? A quem benefecia a corrupção? Onde estão os puros e os impuros? Outra coisa que acho horrivel é a caça que se abriu aos nomes sonantes, às familias ditas das elites politicas ou as elites empresariais. A associaçoa que se faz dos nomes aos negocioas. Associação perigosa e prejudicial. Penso. Enfim em nome da pureza, à força de criticarem tudo e todos, muitos, esquecem-se que sua luta é susceptível de tornar-se simplesmente impura. Efeitos perversos da pureza. Enfim. Para mim foi um prazer ler o livro de uma politicamente incorreta, como eu. Ha tanta coisa para fazer nesta africa e perdemos tempo, a atirarmos, uns aos outros, pedras, embrulhadas em pétalas de rosas.
Palavras como dialogo, partilha de conhecimento, troca de ideias, mudança, questionamento, sao quase tao impuras como a corrupçao, é pena! Enfim termino aqui minha jérémiade.

Elísio Macamo disse...

não, iolanda, não é nenhuma jeremíada que estás a fazer. deus nos livre! o profeta jeremias era desses que acreditavam ser pecador original. tu não, tu acreditas na susceptibilidade humana ao "pecado". obrigado por teres lido o livro de susini e confirmares a impressão com que fiquei. sei que são palavras fortes, mas algo me diz que o discurso anti-corrupção se tornou ele próprio um grande perigo. isso não faz da corrupção boa coisa, mas a luta está completamente mal direccionada. susini oferece-nos excelentes subsídios para começarmos a pensar em alternativas. em moçambique não passa dia sem mais um relatório sobre a corrupção e listas dos mais ricos. está muita coisa mal, iolanda, mas como a susini ela própria diz, o único que nos resta é uma reflexão a sério!