Vou aprofundar hoje a abordagem marxista com uma ilustração prática e com uma tentativa de defesa do pensamento sistemático nas ciências sociais. A notícia comentada foi extraída da página "Imensis".
"Com introdução de novo modelo - Cinco mil professores serão formados por ano
2007/01/30
Cinco mil novos professores serão formados anualmente no país, com a introdução, este ano, do novo modelo de formação de docentes (10ª+1 e 12ª+1), segundou anunciou ontem, em Inhamissa, cidade de Xai-Xai, Gaza, o Ministro da Educação e Cultura, Aires Ali, durante a cerimónia central de abertura do ano lectivo 2007.
(...)
Entretanto, o representante do governador de Sofala, Abílio Sigaúque, desafiou ontem os estudantes de todos os subsistema de ensino na província e no país a adquirirem conhecimentos para se tornarem patrões.
Falando na cerimónia de inauguração do ano escolar na província, Sigaúque lançou um apelo aos professores no sentido de incutirem nos estudantes o espírito do empreendedorismo, porque só assim é que se pode reverter a actual situação de desemprego que afecta muitos jovens moçambicanos.
(...)" (fim)
Não queria que a nossa reflexão sobre a estrutura social ficasse muito abstracta. À semelhança da discussão da sociologia do crime, gostava de ir ilustrando as coisas. Apresentei de forma rápida e curta alguns elementos da abordagem marxista da questão da estrutura social. Mencionei de passagem dois conceitos, nomeadamente hegemonia e aparelho ideológico estatal, sem, contudo, entrar em detalhes sobre a sua utilidade. Na verdade, uma das principais funções destes dois conceitos é de ajudar a abordagem marxista a esclarecer porque a história não obedece à teoria marxista. Esta teoria pode levar as pessoas a imaginarem que tudo acontece automaticamente, isto é, que a transição do capitalismo para o socialismo é automática dentro do processo dialéctico que caracteriza a história. Não é. Por vezes até o que atrasa o processo histórico é o facto de as pessoas que deviam fazer a revolução não estarem, aparentemente, interessadas nela. É aí onde a noção de “consciência falsa” desempenha um papel muito grande. O membro da classe explorada que não quer acabar com o modo de produção que o explora está sob a influência dessa falsa consciência. Diriam os marxistas.
Antonio Gramsci, com o conceito de hegemonia, e Louis Althusser, com o conceito de aparelhos ideológicos estatais, tentam resolver esta dificuldade interrogando-se sobre o que faz com que a ordem capitalista seja aceite como natural e desejável. Gramsci recorre à ideia de um pensamento dominante no interior de uma sociedade e procura saber como é que ele surge, quem o veicula e como pode ser ultrapassado. Althusser, por sua vez, é mais concreto incidindo a sua atenção em instituições como a educação, o direito, a saúde, etc., que, em sua opinião, têm como função socializar as pessoas na aceitação da naturalidade da ordem capitalista que os oprime.
Embora seja difícil identificar com certeza o modo de produção dominante em Moçambique, podemos dizer que é uma coisa híbrida que opõe os que têm acesso aos meios de vida fácil caracterizada por um consumo conspícuo – como diria Thorsten Veblein – aos que não têm esse acesso. A pergunta que devíamos, então, colocar é de saber porque os que não têm esse acesso não se sublevam. Com Gramsci e Althusser diríamos que eles não se levantam porque estão sob os efeitos de uma ideologia ou ordem normativa que lhes diz que esta é que é a ordem natural das coisas. Dito de outro modo, há forças que agem sobre nós e nos dizem que as coisas são assim mesmo e que não devem ser alteradas. O que devemos fazer é esforçarmo-nos no sentido de sermos como os outros com acesso aos meios de vida fácil. Esta perspectiva neo-marxista sugere-nos, portanto, elementos muito importantes para começarmos a entender alguns pronunciamentos públicos.
Por exemplo, os excertos que tenho mais acima podem ser interpretados desta maneira. Quando o representante do Governador de Sofala desafia os estudantes a se empenharem para serem “patrões” pode, na perspectiva analítica aqui em discussão, estar a contribuir para dar a entender que quem não é patrão é ele próprio culpado. No nosso país todos podemos ser patrões e, na verdade, esse é que é o objectivo: País de patrões. Na perspectiva marxista todo esse discurso de empreendedorismo não seria outra coisa senão uma maneira de levar as pessoas a pensarem que o mal reside dentro de si e que têm que se empenhar. Mesmo o PARPA, na sua primeira versão, podia ser lido nesta perspectiva ao definir a pobreza como a incapacidade individual de garantir os meios de sobrevivência. Essa definição não responsabilizava nem o Estado, muito menos o próprio sistema económico. O Relatório Anual da Pobreza, elaborado por organizações da sociedade civil moçambicana, corrigiu isso com a inclusão da responsabilidade do Estado na condição individual. Curiosamente, a indústria do desenvolvimento também assenta mais ou menos sobre os mesmos pressupostos: ela mitiga apenas os efeitos colaterais do modo de produção. Ou melhor, podemos analisar esta indústria como uma intervenção hegemónica que visa manter o status-quo.
Embora com forte dose fenomenológica em alguns dos seus trabalhos, por exemplo o recurso às noções de mundo problemático e não-problemático, Carlos Serra e alguns dos seus colaboradores (por exemplo, Rogério Batine, Carlos Chefo, João Colaço) privilegiam uma abordagem neo-marxista do nosso quotidiano nos termos aqui analisados. Essa abordagem alerta justamente contra os efeitos enebriantes da religião pentecostal, da lixeira e do desenrasque nas ruas. Dito de outra maneira, estes trabalhos investigam a despoliticização do quotidiano, isto é o abandono consequente de uma visão conflituosa das relações sociais. Segundo eles este abandono insula o Estado da crítica e pode resultar na manutenção do status-quo. Penso, mas não tenho a certeza, que é esta maneira de abordar o social que torna Carlos Serra sensível a uma ciência social que diz insistir na objectividade e se distancia de juízos de valor. Essa insistência pode, na verdade, servir apenas para legitimar ordens sociais opressoras.
Contudo, uma perspectiva analítica de conflito como a neo-marxista não dispensa o rigor empírico e não pode prescindir de uma atitude analítica enformada por perguntas sólidas. A plausibilidade do argumento segundo o qual uma suposta objectividade das ciências sociais funcionaria como sedativo – ópio do povo – com o fim de retirar o conflito das relações sociais não depende do que cada um de nós pensa em relação às elites, aos pobres ou a seja que quadro normativo for. Depende da pergunta que foi formulada, dos métodos que foram empregues para a responder e dos critérios empregues na análise dos dados. De resto, é muito arriscado falar em nome de seja quem for. Ocorre-me, a este respeito, a excelente crítica feita por feministas indianas às feministas ocidentais. Estas últimas analisaram a prática de sati, a incineração de viúvas juntamente com os seus defuntos maridos, como uma manifestação da opressão patriacal na cultura indiana. As feministas indianas perguntaram: que tal se essas mulheres querem mesmo “acompanhar” os maridos? Na perspectiva neo-marxista ou mesmo na perspectiva do cientista social que fala em nome de... a resposta é simples: falsa consciência.
Custa-me imaginar que alguém opte voluntariamente pela imolação, pela vida na lixeira, pela indoctrinação pentecostal ou, de uma forma geral, por uma vida precária. Custa-me imaginar isso. Mas o que me custa imaginar não é necessariamente o que acontece na sociedade. São os meus juízos de valor. E eles merecem ser analisados, tanto mais que a sua compreensão nos pode ajudar a identificar o estado de espírito que é necessário para combater os males que queremos combater. Todos os caminhos nas ciências sociais vão dar a perguntas. São elas que nos permitem uma abertura de espírito suficiente para apreendermos o social em toda a sua complexidade. E essa complexidade inclui também os nossos próprios juízos de valor. Nenhum de nós é inocente neste empreendimento e cada um de nós tem o dever de ser implacável para com os seus juízos de valor. Justamente agora que o nosso país enfrenta sérios problemas sociais ele precisa de gente comprometida com o pensamento sistemático. Este pensamento não é um estado final, pois esse estado só pode ser estabelecido para todo o sempre por quem acha que já é pensador sistemático. É um procedimento que se alicerça na sugestão feita por Peter Berger no seu convinte à sociologia para que o cientista social transforme problemas sociais em problemas sociológicos: porque é que é que a falta de vontade de ser patrão é um problema? Porque é que o desemprego é um problema? Porque é que a corrupção é um problema? É a partir destas interrogações que havemos de começar a apreciar a importância da clarificação dos nossos conceitos, da relação que estabelecemos entre eles, do mundo que descrevemos a partir deles, das conclusões que tiramos a partir das nossas descrições e, acima de tudo, é com base neste procedimento que nos havemos de expôr à interpelação crítica dos outros. Só tem certezas quem abdicou do pensamento sistemático.