terça-feira, janeiro 30, 2007

Desconfiar de verdades simples

Vi a notícia que se segue extraída do jornal O País Online e deu-me vontade de fazer um comentário longo sobre a objectividade nas ciências sociais. Estou a abrir um debate sobre o assunto. Seria útil que ao participarem nesse debate lessem o decálogo do sociólogo da autoria de Carlos Serra e que nos fornece elementos importantes para nos situarmos em relação à nossa actividade científica.

“Mini-bus” semi-colectivo capota e fere seis pessoas

29/01/2007

A manhã desta segunda-feira foi marcada, na cidade de Maputo, por um acidente de viação envolvendo três viaturas, das quais um “mini-bus” de transporte semi-colectivo de passageiros. Segundo testemunhas oculares, uma pessoa contraiu ferimentos graves e outras cinco sofreram ferimentos ligeiros.

O sinistro deu-se no fim da manhã de hoje, no cruzamento entre as avenidas Mao Tse Tung e Kim IL Sung, sendo que os envolvidos atiram as culpas ao motorista da viatura Toyota Corrola, uma das envolvidas no incidente, da qual ninguém saiu lesado.

De acordo com testemunhas, a viatura Toyota Corrola violou o sinal vermelho, cortando prioridade às que vinham no seu sentido perpendicular. Entretanto, o condutor do mesmo fincou “a pés juntos” que cumpriu com todas as regras que regem o trânsito.

Salienta-se que o “mini-bus” fazia o trajecto “Laulane-Museu”.

Vou insistir mais um bocado sobre o que venho defendendo nesta página. Refiro-me à análise social. Esta notícia presta-se a isso. Cada um de nós tem a sua maneira de reagir a ela. Uns abanam a cabeça e murmuram logo “esses chapas!”. Outros lançam impropérios contra o “município” que não põe os semáforos em ordem. Outros ainda podem lançar culpas aos que conduzem “toyotas corollas” na sua qualidade de representantes de uma certa camada social. Outros vão, de certeza, concentrar a sua atenção na vulnerabilidade dos que não têm carro próprio e são obrigados a andar de “chapa” expondo-se a todo o tipo de perigos. Enfim, há várias maneiras de reagir (interpretando) esta notícia. Nenhuma delas é simplesmente correcta ou errada. Cada uma delas é uma maneira de apreender o mundo social em que vivemos. Cada uma dela faz parte do conjunto de recursos que utilizamos para nos orientarmos no mundo.

Vamos, contudo, supor que alguém nos pedisse a nossa opinião sobre este acidente na nossa qualidade de cientistas sociais. Aí já não basta dizer que se trata apenas de opinião e que qualquer um de nós tem o direito de se deixar influenciar pelos seus juízos de valor. Há diferença entre o senso-comum e as ciências sociais. Uma dessas diferenças é o cuidado que devemos ter com os nossos próprios juízos de valor. Isto não significa que só possa fazer ciências sociais quem não tem esses juízos de valor. Mesmo Weber que defendeu com veemência a distinção entre ciência e política reconheceu que cada um de nós age de acordo com certos quadros normativos ao ponto até de escolher o seu objecto de estudo nessa base. O importante, porém, é tornar esses quadros transparentes. Ora, a minha sugestão é de que a transparência só é possível quando a análise procura ser objectiva mesmo sabendo que isso é difícil. E precisamos de insistir sobre isso sob pena de apagarmos as diferenças entre o senso-comum e a ciência e tornarmos a análise social num artefacto da ideologia.

Então, outra vez a notícia. Vamos supor que alguém nos pede a nossa opinião como cientistas sociais. Vamos também supor que somos movidos pela preocupação com a sorte dos mais desfavorecidos na nossa sociedade. Seria legítimo concluirmos assim mesmo que o acidente revela a vulnerabilidade dos pobres na nossa sociedade? Não vou tirar uma conclusão ainda mais grave, mas comum entre nós, que seria de dizer que o acidente é o resultado da corrupção das nossas elites corruptas que desviaram os fundos que deviam ter ido para a manutenção das estradas, dos sinais, etc. Mas seria legítima uma interpretação desta natureza? A pergunta não é boa. A pergunta é: em que condições é que podemos justificadamente emitir tal opinião? Reparem que, no fundo, nem estou a insistir na particularidade das ciências sociais. Estou a insistir nas regras mais elementares que devem ser observadas quando tiramos conclusões. Quando é que é justificado emitir tal opinião? Primeiro, quando tenho a certeza de que a notícia (portanto, o material empírico) é fiel à verdade. Por isso, é importante sempre questionar a informação antes de a comentarmos. Questionar a informação não significa negar que haja problemas de desigualidades sociais numa sociedade. Significa apenas tirar conclusões com conhecimento de causa. Não perceberemos melhor as desigualidades sociais com informação errada e distorcida. Antes pelo contrário, contribuiremos para uma confusão ainda maior. Portanto, houve mesmo acidente? Ocorreu como se diz que ocorreu? Que outras fontes posso utilizar para me certificar que a informação que tenho é correcta? Esta chamada de atenção é tanto mais importante quanto sabemos que a nossa imprensa tem muitas dificuldades em passar informação.

Segundo, interessemo-nos pelos acidentes em si. O acidente em questão é um caso isolado ou um entre vários em que as vítimas são sempre os mais desfavorecidos? Haverá alguma relação entre a pobreza dos utentes desses transportes colectivos, por um lado, e o estado de manutenção, conduta dos proprietários, serviço prestado pelas autoridades municipais e de viação, por outro lado? Se acham que é muita coisa só para concluir que “mais uma vez os corruptos estão a lixar o povo”, enganaram-se na profissão. Não se esqueçam do brilhante decálogo do sociólogo que Carlos Serra escreveu e que nos convida a estarmos precavidos contra as verdades simples. A precaução começa na resistência à conclusão óbvia. Ao fazerem isso não estão a trair nenhum quadro normativo, antes pelo contrário, estão a fortalecê-lo com informação sólida. Significa isto que para emitir uma opinião é preciso primeiro fazer um estudo? Não, não é isso. Significa apenas que não se emite uma opinião de ânimo leve. Significa que temos que ser mais comedidos nas conclusões que tiramos.

Terceiro, se depois deste exercício todo acharmos que podemos justificadamente tirar a conclusão que sempre quisémos tirar devemos, em debate público, dar destaque às razões que nos levam a tirar essa conclusão. Na nossa esfera pública discutimos, infelizmente, conclusões. A Renamo não presta! Presta, sim senhor! Não, não presta! Presta! Não presta! Presta, não sabes do que estás a falar... E por aí fora. É evidente que nunca nos entenderemos. E isso por uma razão muito forte: Só está interessado na discussão de conclusões quem não quer ser transparente em relação aos critérios que usa para chegar a uma conclusão. Dito de outra forma, só quem coloca juízos de valor no lugar de juízes da plausibilidade de um argumento é que se interessa mais pelas conclusões do que pelas razões.

Alguns abraçam as ciências sociais com a ideia de que querem aprender a criticar. A crítica para essas pessoas consiste em tirar conclusões arrojadas sem nenhum sustento empírico. E se o espírito da crítica vai ao encontro de uma opinião generalizada na nossa sociedade, tanto melhor. Até o sociólogo fulano de tal disse isso! Essas pessoas trazem consigo às ciências sociais a mesma atitude mágica que caracteriza uma boa parte do nosso quotidiano. Quanto mais arrojada for uma conclusão, mesmo resistindo ao teste empírico, mais sofisticado é o cientista social que a tira. Ora bem, quem visita esta página à procura de uma sofisticação mágica anda perdido. Esta página é para aqueles que se interessam pelo pensamento metódico, sistemático, empírico e isento. Isto não significa que as pessoas não se zanguem com o estado das coisas. Não significa que as pessoas não tenham os seus quadros normativos. Significa apenas que nós estamos aqui para desmitificar as ciências sociais. Fazemos isso indagando, investigando, maravilhando-nos com o mundo social. Há mais respostas do que perguntas no nosso mundo. Ajudem-me a procurar pelas perguntas!

3 comentários:

Egidio Vaz disse...

Bela aula!
Lembra-me dois cientistas moçambicanos: Um sociólogo e outro ceintista político.
O primeiro episódio aconteceu durante uma entrevista na TVM (com o cientista político, em 2004) e outro com o sociólogo na STV, no dia 04 de outubro de 2006 pelas 10 horas de manhã.
Um jornalista da TVM fez à este cientista político a seguinte pergunta:
-Dr..como analisa a recusa pela Renamo, dos resultados eleitorais?
-Cientista Político: "Nós conhecemos a Renamo, é um partido maduro, teve seus representantes em todas assembleias de voto. Ora, se ela recusa os resultados eleitorais É PORQUE HÁ QUALQUER COISA. (atentem-se na resposta à pergunta: é porque há qualquer coisa. O jornalista infeliz, queria saber exactamente ESSA COISA.

Segundo episódio: STV, 04.10.06
- Jornalista: Dr... (sociologo), a Renamo sempre recorda-nos guerra quando chega o dia 4 de outubro. Como analisa este discurso?
- (sociólogo)"Bem, eu não posso falar sobre esse assunto porque AINDA NÃO ESTUDEI. AINDA NÃO FIZ UM ESTUDO APROFUNDADO SOBRE ESSA QUESTÃO, MAS ACHO QUE É FALTA DE MATURIDADE POLÍTICA.

Voltarei ao comentário.

Egidio Vaz disse...

O decálogo está "quebrado". Agradecia que editasse o ficheiro para melhor visualização.
EV

Elísio Macamo disse...

olá egídio, eu e a tecnologia estamos de costas viradas. no meu computador aparece tudo perfeitamente. não sei que mais devo fazer.
gostei das histórias. quase que dizia "sim senhor, esse é o meu estilo de sociólogo", mas depois achei estranho que ele tivesse aceite ir à televisão para dizer que ainda não fez nenhum estudo. na verdade, ele não precisa de fazer nenhum estudo (para além de se informar melhor). precisa, isso sim, de limitar o alcance das suas afirmações sobre assuntos para os quais não dispõe de informação sólida. ele precisa de ser transparente, insistindo nas razões e não nas conclusões. o exemplo negativo disso é justamente o cientista político que diz apenas "há qualquer coisa". isso é superstição.