Antes de emitirmos opinião
No jornal „Canal de Moçambique“ de hoje li uma notícia com o título “Município de Maputo vai reajustar taxa de lixo” com extractos de uma entrevista concedida pelo médico João Schwalbach, vereador para a área de salubridade. Eis duas passagens curiosas:
“[D]e acordo com os dados estatísticos feitos pelo CMCM, actualmente o pobre paga mais caro que o rico, chegando em alguns casos a pagar as despesas do mesmo”
Era mesmo isso que ele queria dizer? O CMCM faz dados estatísticos? Não os apura? Não os recolhe? Faz dados estatísticos?
“A produção média de lixo por dia de um munícipe das cidade do cimento (Sommerschield por exemplo), é de 1,6 kg, e na zona suburbana não se chega a 0,5 kg por dia. Entretanto estão todos a pagar a mesma taxa”.
Extraí esta passagem para voltar a chamar a vossa atenção para uma coisa muito importante: nunca comentem coisas sobre as quais receberam informação incompleta. Comentem as lacunas na informação. Deixem os comentários sobre coisas incompletas aos que não precisam de pensar para emitir opiniões. Aprendam a problematizar a própria informação. É importante. Importantíssimo. A segunda citação fornece bom material para exercitarmos essa faculdade.
Primeiro, podíamos reflectir sobre a palavra “produção” em “produção média de lixo”. É provável que seja apenas um uso metafórico. Mas é? De que outra maneira se pode dizer o mesmo? Porque não se diz assim? Que mundo é evocado pela opção por esta palavra? Segundo, podíamos reflectir sobre a função da ilustração na comparação que se faz. Compara-se a zona suburbana e a zona da cidade cimento e acontece uma coisa muito interessante: o exemplo da cidade cimento é a Sommerschield. O exemplo da zona suburbana é nenhum. Curioso. Está a falar de uma medida média e compara dois casos extremos, nomeadamente a Sommerschield e, digamos, Xiquelene. Aqui falta informação. Por exemplo, em que condições é “produzido” o lixo, que tipo de lixo, que atitudes têm as pessoas que “produzem” o tal lixo em relação à higiene e salubridade, etc. Sem ver os dados estatísticos que o vereador “fez” ou a forma como eles foram “feitos” recuso-me a comentar o que ele diz. Terceiro, devemos pensar duas vezes antes de aceitarmos a frase “entretanto estão todos a pagar a mesma taxa” como a conclusão de um argumento. Bom, na realidade a conclusão é de que não podem todos pagar a mesma taxa de lixo. A informação na base desta conclusão é pouca; ela não permite nenhuma conclusão.
Uma boa parte do que fazemos em ciências sociais de uma forma geral e em sociologia de forma particular é problematizar o que nos é dado como revelação da realidade. Quem não é capaz de fazer isto ainda não reúne as condições para reclamar o título de cientista social. Tenho visto em vários debates, fóruns e, claro, na nossa imprensa intervenções de jovens cientistas sociais alheios à necessidade de se informarem sobre as coisas que comentam. Alguém menciona um estudo sobre não sei quantos, todos põem-se a comentar sem a mínima preocupação de dar uma vista de olhos ao estudo em questão ou então de contextualizarem o seu comentário com a informação de que não leram o estudo. Apoiam-se simplesmente no senso-comum. Para que lhes servem os anos de estudo em ciências sociais? Apenas para “autorizarem” as suas opiniões?
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