terça-feira, janeiro 30, 2007

Perguntas inocentes

Na página "Imensis" encontrei este inquérito e achei que ele nos ajudaria a aprofundarmos algumas questões que tenho vindo a levantar nos últimos dias.

Acha que a progressão na carreira na função pública é feita com base:

Na filiação partidária

(719 votos)

61.77%

Na competência e profissionalismo

(114 votos)

9.79%

Nos dois factores acima

(64 votos)

5.50%

Na legislação

(228 votos)

19.59%

Noutra base

(39 votos)

3.35%


Total de Votos: 1164

Quando investigamos por meio de um inquérito queremos normalmente saber uma de quatro coisas: opiniões ou atitudes, convicções, comportamentos e propriedades das pessoas que inquirimos. Cada uma destas coisas dá-nos uma ideia específica sobre um aspecto do mundo social. As sondagens à opinião pública devolvem-nos um pouco da nossa sociedade justamente porque nos revelam as opiniões, convicções, comportamentos e propriedades dos membros da nossa sociedade. As sondagens à opinião pública foram, no mundo desenvolvido, um dos principais canais de constituição da opinião pública, isto é e de forma muito curiosa, a opinião pública foi inventada pelas sondagens à opinião.

Por causa disto, todo o cuidado metodológico na formulação das perguntas é pouco. Existem aquelas regras básicas que aprendemos logo nas primeiras aulas de métodos sobre a necessidade de evitarmos perguntas complexas. Não é sempre possível respeitar essas regras. Mas é importante, sobretudo porque as perguntas, elas próprias, podem limitar desnecessariamente o mundo que queremos recuperar. Quando nos interessamos por convicções ou mesmo por opiniões temos que ter o cuidado de nunca forçarmos a nossa opinião sobre os nossos entrevistados. Se isso é difícil, então temos que ser transparentes.

Isto tudo vem a propósito da sondagem acima. É um exemplo clássico de uma pergunta complexa. Para ser útil e respeitar os preceitos da nossa ciência teria que ser menos arrojada. Já que queremos saber qual é a opinião do nosso entrevistado em relação à progressão na carreira na função pública temos duas opções metodologicamente válidas. Podemos perguntar:

  1. Acha que a progressão na carreira na função pública é feita com base na filiação partidária? (no lugar de filiação partidária podemos colocar cada uma das outras opções que o quadro mostra). As opções de resposta que damos são: sim, não, não sei.

Ou:

  1. Em sua opinião o que está na base de progressão na carreira na função pública? (isto é, deixamos a resposta ao critério do entrevistado, pois as nossas opções reduzem as suas opções e distorcem a realidade. Por exemplo, o nepotismo é um factor importante, mas não é considerado nas opções; o regionalismo é, provavelmente, também importante, mas não é considerado. Isto é para não falar da diferença entre “competência e profissionalismo”, por um lado, e “legislação”, por outro)

Mais uma vez, portanto, aqui fica o alerta. O nosso compromisso com o pensamento crítico exige um estado de alerta constante em relação ao que nos é dito como a revelação da verdade. Não me surpreenderia se alguém pegasse nestes “resultados” e fosse aí dizer que um “estudo” provou que a progressão na carreira é feita com base na filiação partidária. O que sabemos do nosso país leva-nos, de facto, a supormos que assim seja, mas isso não basta. Reparem que aqui nem abordei outras questões metodológicas de grande importância como, por exemplo, o próprio meio de pesquisa. Com efeito, mesmo se a pergunta tivesse sido bem feita, ficávamos ainda com o problema de saber quem respondeu. Pessoas como eu que ficam o dia inteiro na net podem “votar” várias vezes; as pessoas que “votam” podem ter um perfil específico que as predispõe a um tipo de opinião. Estou a falar da questão da representatividade.

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