terça-feira, fevereiro 06, 2007

Convite à sociologia

O texto extraído do País Online suscitou-me a reflexão que se segue.

"Sul do país sob calor intenso enquanto Centro e Norte registam chuvas anormais
2007/02/05

Temperaturas altas continuam a caracterizar o dia-a-dia das províncias do Sul do país, enquanto o Centro e o Norte enfrentam precipitações acima do normal.

Os meteorologistas prevêem que a situação prevaleça nos próximos dias, devido essencialmente ao que chamam de variação de pressões.

A vaga de calor, na zona Sul, fustiga particularmente Maputo, que de cidade fresca passou à muito quente, com temperaturas que atingem os 37 graus.

Isto acontece num momento em que o Centro e o Norte são sacudidos por chuvas intensas. Até Tete, conhecida como a província mais quente do país, ultimamente apresenta temperaturas amenas.

Os metereologistas dizem que a situação deve-se a ocorrência de uma zona de baixas pressões. Entenda-se por `zona de baixas pressões´ as regiões em que o ar exerce menor pressão sobre a superfície terrestre, e o contrário para as `zonas de altas pressões´.

Tais variações de pressões são associadas a vários factores, incluindo a actividade humana contra o ambiente.
Já se reporta o aumento da temperatura média da terra, em cerca de um grau, na zona sul de Moçambique, nestes últimos anos" (fim).

Fazer ciências sociais e, em particular, fazer sociologia consiste essencialmente em manifestar curiosidade. Esse é que é o princípio de tudo. Quem não é capaz de se interessar em saber mais, não pode fazer ciências sociais. Igualmente, quem já tem as respostas para tudo também não precisa de se meter pelas ciências sociais. É tão simples como isso. Tenho vindo a tentar mostrar as várias maneiras através das quais nos podemos interessar pelo mundo e manter esse interesse vivo. A notícia que reproduzo mais acima proporciona-me uma oportunidade de prosseguir com esse trabalho. Para não complicar as coisas demasiado vou me concentrar apenas num aspecto. Para dizer a verdade, não é uma notícia bem redigida. Para além dos normais problemas de domínio da língua portuguesa (que, infelizmente, todos temos), a notícia não cumpre o seu principal papel que é de nos informar sobre um assunto. Levanta apenas interrogações. O aspecto sobre o qual vou me concentrar é o que diz respeito aos critérios.

Trata-se de uma palavra pesada e não tenho a certeza se consigo apresentá-la aqui com a simplicidade necessária. Essencialmente, o que me interessa é mostrar como a curiosidade sociológica se manifesta a partir da interpelação de critérios. Os critérios a que me refiro aqui dizem respeito aos elementos que uma pessoa utiliza para estabelecer a correspondência entre as palavras que utiliza para descrever o mundo, por um lado, e o mundo, por outro. Dito de outro modo, quando estou perante uma descrição da realidade – e isso é quase sempre quando comunico com outras pessoas – estou perante a enunciação de critérios através dos quais o descrito deve ganhar contornos reais na minha cabeça. Em pesquisa social empírica falaríamos de “operacionalização”. Acho que ajuda a treinar a nossa mentalidade sociológica procurarmos trazer estes critérios à superfície.

Tenho ouvido, por exemplo, muita gente a dizer que o melhor ministro do actual executivo moçambicano é o da saúde. O semanário Savana até o colocou em primeiro lugar numa classificação feita há algumas semanas. Até um grande crítico do Governo da Frelimo, Edwin Hounou, um indivíduo que articula a sua crítica de forma muito metódica e coerente, não tem poupado elogios a este ministro. Contudo, pessoalmente, tenho muitas dificuldades em perceber porque o ministro da saúde é o melhor porque os critérios na base dessa avaliação são um mistério. Só se diz que é bom, trabalha muito, é empenhado e ponto final. Nestas circunstâncias, no nosso seio, a tendência é forte de repetir isso – e por essa via dar estatuto de verdade incontestável à classificação – sem que esteja claro que critérios estamos a usar para nos pronunciarmos. É possível que ele de facto seja o melhor ministro, longe de mim querer contestar isso. Contudo, como não conheço os critérios que outros usam para o classificar não tenho matéria para saber realmente o que eles querem dizer com isso. De resto, um critério importante para mim e que, praticamente, não é observado por nenhum ministro – que eu saiba – é o da perspectivação de áreas de intervenção com base numa reflexão profunda sobre como financiar as actividades a partir de dentro. Ainda estou à espera de ler um programa de saúde financiado a partir de Moçambique. Bom, isso já é política...

Vamos, então, à nossa notícia. Como veremos, vou apenas interrogar de forma muito simples o que nos é dito. O título fala de “chuvas anormais”. Como se define a norma? Como é que ela se tem manifestado no nosso país? A partir daqui já podemos aprofundar a interpelação perguntando, por exemplo, se com base nos critérios de definição de norma ao nosso dispôr temos razões suficientes para dizer que as chuvas são anormais. Maputo passou de cidade fresca para cidade quente. Como se define a frescura? E o calor? Quem o faz? Como se manifesta no quotidiano das pessoas? Tete é conhecida por toda a gente como a cidade mais quente do país. Quem é essa gente toda? Que critérios é que eles usam para definir Tete como a cidade mais quente? Como é que essa definição se manifesta nas atitudes das pessoas em relação à cidade? Os metereologistas. Um, dois, três? De que instituição? Em que contexto é que falaram? Quem os ouviu? Já se reporta. Quem? Com que frequência?

Como viram, é simples. Simples demais para constituir o trabalho de um sociólogo, dirão alguns. Com razão. O trabalho do sociólogo não se pode reduzir a interpelar as descrições que os outros fazem do mundo. Mas é essencial. É o ponto de partida para aprendermos a refinar o nosso sentido crítico. O sentido crítico parte daí mesmo. O resto é técnica, e técnica aprende-se nos manuais e nas aulas. A curiosidade, contudo, precisa de ser cultivada. Sugiro que cada um de vocês tome a decisão de pelo menos duas vezes por dia interpelar as descrições que ouve, vê ou sente. Que mundo está a ser descrito? Quais são os elementos que fazem esse mundo? Aceito-os? Porque os aceito? Que mundo é recuperado com esses elementos? Cada palavra, cada suspiro, cada frase, cada interrogação, cada momento pensativo, cada conclusão, cada sugestão da identidade do mundo é um desafio ao sociólogo para redescobrir o mundo em que vive. Todos os dias redescobrimos o mundo. É um convite, aceitemo-lo.

2 comentários:

Egidio Vaz disse...

Quando, no comentário do anterior post disse que muitos dos jornalistas e nós mesmos falamos as nossas línguas maternas em português, na verdade, não tinha terminado o meu pensamento. Parei pelo caminho. E agora acrescento:
Muitos de nós pensamos nas nossas línguas maternas e transmitimos o que pensamos em Português:
Portanto, para o caso das chuvas "anormais", trata-se de uma concepção "tradicional": as chivas são normais quando satisfazem as nossas necessidades, nomeadamente fazer crescer as plantas, irrigar os campos, pastagens, fazer correr os rios. mas quando já nos estragam as casas, transbordam os rios, matam pessoas; por mais normais que sejam ou por outra, por mais evitáveis que fossem, essa chivas deixam de ser normais. Se for pela notícia, verá que no fundo, está-se a lamentar a destruição de bens e pessoas.
Claro que barragens, as represas e outras formas de aproveitamento das águas de rios e chuvas poderiam mitigar as consequências nefastas dessas chuvas. Mais, a pobreza que caracteria a maioria das pessoas deixam-nos na condição de vulnerabilidade extrema, capaz de sofrer ante a qualquer intempérie.
Concluindo: a normalidade ou a anormalidade das chuvas e outros fenómenos naturais depende das suas respectivas consequências. É o mesmo que Carlos Serra chamou de pensamento circular:
-Deus está zangado connosco
-Porquê
-Veja a mandioca que secou e a chuva não cai
-Mas porque isto está acontecer?
-Não te disse que Deus está zangado connosco? Que quer mais?

O mesmo acontece com a notícias:
"chuvas anormais"
Porquê?
Destroem bens e pessoas.
Apenas tentei compreender.
Abraços.

Elísio Macamo disse...

está a ver? tenho a certeza que outros entenderam a notícia de outra maneira. é daí onde vem a necessidade de esclarecer os critérios! obrigado.