quarta-feira, fevereiro 07, 2007

A caixa de ferramentas do sociólogo

Prossigo hoje com a reflexão sobre a estrutura social. Apresento mais uma abordagem neo-marxista.

Um sociólogo que contribuiu bastante para a reflexão sobre a estrutura social foi Pierre Bourdieu. O seu grande mérito, porém, não foi a originalidade. O seu mérito foi de ter reunido várias correntes e conceitos da sociologia à volta de uma visão neo-marxista da sociedade que lhe permitiu elaborar um instrumento de descrição e análise crítica da sociedade. À semelhança de todas as outras coisas apresentadas aqui, a sua melhor compreensão depende da leitura individual e cuidada das fontes originais. Aqui deixo apenas pistas e elementos susceptíveis de facilitarem a leitura. Pessoalmente, tenho muitas dificuldades em ler Bourdieu, em parte por causa do seu estilo de redacção bastante críptico, mas também porque ele tinha o mau hábito de apresentar coisas óbvias do quotidiano como se fossem grandes descobertas de alguém que tem a coragem de criticar a sociedade.

Bourdieu é relevante para uma tentativa de descrição da nossa sociedade, sobretudo porque o seu ecleticismo liberta-nos, por exemplo, da necessidade de identificarmos modos de produção. Ler Bourdieu é como ler Marx, Weber, Simmel e Parsons ao mesmo tempo. O essencial da sua reflexão consiste em três momentos principais. O primeiro diz respeito ao que ele chamaria de situações sociais. Estas situações constituem os principais pilares de uma sociedade. Ele identifica a grande burguesia, a pequena burguesia e o proletariado. A distribuição destas situações sociais é feita de forma vertical, isto é temos no topo a grande burguesia, seguida pela pequena burguesia e, em baixo, o proletariado. Há vários factores que concorrem para esta hierarquização. O mais importante para Bourdieu é o que ele chama de relações de poder. Isto é, a distribuição por classes numa sociedade baseia-se no poder que cada classe exerce dentro de uma sociedade. A distinção, neste caso, serve apenas para ilustrar e marcar as diferenças na apropriação do poder.

O segundo momento é feito pelo que se passa no interior de uma classe. Penso que este aspecto constitui uma das mais importantes contribuições do pensamento de Bourdieu. Na verdade, no interior de cada classe Bourdieu introduz uma linha horizontal que marca conflitos internos que têm lugar ao nível dos estilos de vida. Estes conflitos evoluem a um nível simbólico. No interior da nossa grande burguesia em Moçambique, por exemplo, teríamos os veteranos da Luta Armada que vivem da memória e do trâfico de influências; teríamos também os gerentes, isto é ex-directores nacionais, ministros ou altos funcionários do Estado que vivem com base no suor real do seu trabalho; teríamos também os empresários (portugueses, sul africanos, indianos e paquistaneses) que também trabalham a sério, mas dispensam uma boa parte do seu tempo a cultivar relações privilegiadas com os primeiros. O grande lubrificante das relações sociais é o capital, um conceito marxista que Bourdieu elabora no sentido de recurso para a vida. Assim, existe o capital simbólico (forte nos veteranos e líderes do partido), o capital económico (forte nos empresários), o capital cultural e social. Estas duas últimas formas não estão presentes na nossa grande burguesia. O capital social é propriedade, talvez, de certas confissões religiosas (católica, presbiteriana, anglicana, baptista, metodista e as duas versões do Islão entre nós). O capital cultural é dominado pelos filhos da grande burguesia, pelos artistas e por alguns intelectuais. É através do capital que as pessoas manipulam as suas chances de obtenção de poder ou ascensão na hierarquia social. Daí, talvez, a forte tendência de uniformização do estilo de vida em Moçambique, sobretudo na sua vertente ostentatória.

O terceiro momento da análise que Bourdieu faz à estrutura social é o que diz respeito às formas específicas de acção de cada grupo social. O termo que ele utiliza é o “habitus” o qual determina as práticas sociais dos grupos, isto é os seus gostos, preferências e a forma como eles se distinguem dos outros grupos. O “habitus” funciona como uma espécie de quadro de referência individual, mas não implica que um indivíduo aja sempre em sua conformidade. O indivíduo tem sempre margem de manobra, mas utiliza-a muitas vezes em referência ao contexto do grupo de que é membro. No nosso caso, por exemplo, uma das características da nossa grande burguesia é a apropriação das rendas provenientes do auxílio ao desenvolvimento: projectos, consultorias, participação em seminários, assessorias, negociação de tratamento especial para as elites – por exemplo, isenção de impostos na importação de bens de luxo, vencimentos e prerrogativas que não reflectem o desempenho da economia – etc. Nem todos os membros do grupo vão à caça destas rendas e mesmo os que vão não utilizam as mesmas estratégias. A prática da renda distingue-os dos outros grupos, mas como cada um deles a extrai é assunto individual. Esta perspectiva é interessante para percebermos, por exemplo, um grande mal-entendido da nossa esfera pública que consiste em imputar à uma conspiração da Frelimo tudo quanto anda mal no país. A análise estrutural proposta por Bourdieu sugere-nos que olhemos para o contexto como grande regulador da acção individual. Mais tarde vou me debruçar sobre alguns conceitos como “classe de estado” ou “grupos estratégicos” que aprofundam muito bem estas questões.

Vamos ver se a imprensa moçambicana na internet me proporciona bons exemplos para ilustrar a abordagem de Bourdieu nos próximos dias.

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