quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Palavras nojentas

Li na página “Imensis”, mas a fonte original é o jornal Notícias. Estou sem palavras...

Recursos humanos vão a debate em Maputo

2007/02/06

Mais de 500 pessoas, entre gestores, consultores, académicos, quadros da função pública e operadores turísticos vão participar, esta semana, numa conferência sobre Como Alinhar a Estratégia dos Recursos Humanos, a ter lugar em Maputo.

Promovido pelo Fundo Nacional do Turismo (FUTUR), o encontro tem como objectivo central contribuir para a transformação dos chamados `gerentes de linha´ em `gestores de pessoas´, para lidarem com os novos desafios do desenvolvimento.

Fonte ligada à organização defendeu que os gestores de recursos humanos precisam de aprender a exercer nas suas organizações o novo perfil do profissional como gestores de talentos, no sentido de agregar, aplicar, remunerar, desenvolver e manter uma equipa de colaboradores internos proactivos e empreendedores.

Essa nova visão da gestão de pessoas tem sido a responsável pela alavancagem do capital humano e consequente aporte de capital intelectual que assegura a excelência competitiva das organizações num mundo de negócios altamente dinâmico e competitivo.

Com base no trabalho dos gerentes como gestores de pessoas, os profissionais de gestão de pessoas passam a actuar como agentes de mudança e facilitadores de negócios para as suas empresas, daí que a sua área de actuação precisa de ser ampliada para níveis tacticos ou estratégicos.

É assim que, para orientar o encontro de Maputo, foi escolhido o Prof. Idalberto Chiavenato, que além de professor é consultor, conferencista e professor honorário das principais universidades de administração do Brasil, Portugal, Espanha e América Latina.

A sua extensa bibliografia abrange mais de 30 livros de grande destaque no mercado, além de uma infinidade de artigos em revistas especializadas. Idalberto Chiavenato possui 17 livros traduzidos em espanhol, sendo o escritor brasileiro com o maior número de publicações nesta língua.

A conferência, agendada para a próxima sexta-feira, no Centro Conferências Joaquim Chissano, terá como tema principal `Como Alinhar a Estratégia de Recursos Humanos para Impulsionar a Estratégia Empresarial´. Nela serão tratadas questões relacionadas com o planeamento estratégico de recursos humanos, a intenção estratégica e a formulação estratégica dos RH, os resultados do negócio, medidas de desempenho organizacional, os impulsionadores do desempenho organizacional, entre outras” (fim)

O que querem dizer as seguintes expressões?

Alinhar a estratégia dos recursos humanos; gestores de pessoas; desafios do desenvolvimento; gestores de talentos; agregar, aplicar, remunerar, desenvolver e manter equipas; colaboradores proactivos e empreendedores; nova visão; alavancagem do capital humano; capital humano; aporte de capital intelectual; capital intelectual; excelência competitiva; mundo de negócios altamente dinâmico e competitivo; agentes de mudança; facilitadores de negócios; níveis tácticos ou estratégicos; principais universidades de administração do Brasil, Portugal, Espanha e América Latina; 30 livros de grande destaque no mercado; revistas especializadas; 17 livros traduzidos em espanhol; escritor brasileiro com o maior número de publicações nesta língua; impulsionar a estratégia empresarial; planeamento estratégico de recursos; intenção estratégica; formulação estratégica dos RH; resultados do negócio; medidas de desempenho organizacional; impulsionadores do desempenho organizacional; entre outras?

As pessoas que falam sobre isto entendem-se? Partilham o mesmo mundo? Reconhecem o mundo quando ouvem estas expressões? E esse mundo é igual ao que nós os outros habitamos? Não há maneiras mais fáceis e simples de descrever esse mundo? Continua o mesmo mundo depois de descrito desta maneira? Ainda é mesmo um mundo de pessoas de carne e osso? O impulso social ainda vive neste mundo?

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Respostas incompletas

Mais uma oportunidade para pensar por escrito. Extraí do País Online.

O Presidente da República completou recentemente dois anos de governação. Como avalia o seu desempenho?

Bom

Mau

Medíocre

Boa pergunta, muito melhor do que a que comentei há algumas postagens atrás. O risco de perceber esta pergunta de outra maneira é bastante reduzido. Muito bem. As alternativas de resposta é que são um problema. Em certa medida elas parecem influenciar o respondedor num sentido negativo. Bom e mau complementam-se bem. A adição de “medíocre”, contudo, estraga tudo, pois aumenta o espaço de avaliação para o lado negativo. Falta, talvez, a resposta “razoável” entre bom e mau para equilibrar as coisas. Tecnicamente, existe sempre o problema de as pessoas optarem pelo meio, sobretudo quando as opções no meio aumentam. Contudo, é a única maneira de representar a situação de forma equilibrada.

A caixa de ferramentas do sociólogo

Prossigo hoje com a reflexão sobre a estrutura social. Apresento mais uma abordagem neo-marxista.

Um sociólogo que contribuiu bastante para a reflexão sobre a estrutura social foi Pierre Bourdieu. O seu grande mérito, porém, não foi a originalidade. O seu mérito foi de ter reunido várias correntes e conceitos da sociologia à volta de uma visão neo-marxista da sociedade que lhe permitiu elaborar um instrumento de descrição e análise crítica da sociedade. À semelhança de todas as outras coisas apresentadas aqui, a sua melhor compreensão depende da leitura individual e cuidada das fontes originais. Aqui deixo apenas pistas e elementos susceptíveis de facilitarem a leitura. Pessoalmente, tenho muitas dificuldades em ler Bourdieu, em parte por causa do seu estilo de redacção bastante críptico, mas também porque ele tinha o mau hábito de apresentar coisas óbvias do quotidiano como se fossem grandes descobertas de alguém que tem a coragem de criticar a sociedade.

Bourdieu é relevante para uma tentativa de descrição da nossa sociedade, sobretudo porque o seu ecleticismo liberta-nos, por exemplo, da necessidade de identificarmos modos de produção. Ler Bourdieu é como ler Marx, Weber, Simmel e Parsons ao mesmo tempo. O essencial da sua reflexão consiste em três momentos principais. O primeiro diz respeito ao que ele chamaria de situações sociais. Estas situações constituem os principais pilares de uma sociedade. Ele identifica a grande burguesia, a pequena burguesia e o proletariado. A distribuição destas situações sociais é feita de forma vertical, isto é temos no topo a grande burguesia, seguida pela pequena burguesia e, em baixo, o proletariado. Há vários factores que concorrem para esta hierarquização. O mais importante para Bourdieu é o que ele chama de relações de poder. Isto é, a distribuição por classes numa sociedade baseia-se no poder que cada classe exerce dentro de uma sociedade. A distinção, neste caso, serve apenas para ilustrar e marcar as diferenças na apropriação do poder.

O segundo momento é feito pelo que se passa no interior de uma classe. Penso que este aspecto constitui uma das mais importantes contribuições do pensamento de Bourdieu. Na verdade, no interior de cada classe Bourdieu introduz uma linha horizontal que marca conflitos internos que têm lugar ao nível dos estilos de vida. Estes conflitos evoluem a um nível simbólico. No interior da nossa grande burguesia em Moçambique, por exemplo, teríamos os veteranos da Luta Armada que vivem da memória e do trâfico de influências; teríamos também os gerentes, isto é ex-directores nacionais, ministros ou altos funcionários do Estado que vivem com base no suor real do seu trabalho; teríamos também os empresários (portugueses, sul africanos, indianos e paquistaneses) que também trabalham a sério, mas dispensam uma boa parte do seu tempo a cultivar relações privilegiadas com os primeiros. O grande lubrificante das relações sociais é o capital, um conceito marxista que Bourdieu elabora no sentido de recurso para a vida. Assim, existe o capital simbólico (forte nos veteranos e líderes do partido), o capital económico (forte nos empresários), o capital cultural e social. Estas duas últimas formas não estão presentes na nossa grande burguesia. O capital social é propriedade, talvez, de certas confissões religiosas (católica, presbiteriana, anglicana, baptista, metodista e as duas versões do Islão entre nós). O capital cultural é dominado pelos filhos da grande burguesia, pelos artistas e por alguns intelectuais. É através do capital que as pessoas manipulam as suas chances de obtenção de poder ou ascensão na hierarquia social. Daí, talvez, a forte tendência de uniformização do estilo de vida em Moçambique, sobretudo na sua vertente ostentatória.

O terceiro momento da análise que Bourdieu faz à estrutura social é o que diz respeito às formas específicas de acção de cada grupo social. O termo que ele utiliza é o “habitus” o qual determina as práticas sociais dos grupos, isto é os seus gostos, preferências e a forma como eles se distinguem dos outros grupos. O “habitus” funciona como uma espécie de quadro de referência individual, mas não implica que um indivíduo aja sempre em sua conformidade. O indivíduo tem sempre margem de manobra, mas utiliza-a muitas vezes em referência ao contexto do grupo de que é membro. No nosso caso, por exemplo, uma das características da nossa grande burguesia é a apropriação das rendas provenientes do auxílio ao desenvolvimento: projectos, consultorias, participação em seminários, assessorias, negociação de tratamento especial para as elites – por exemplo, isenção de impostos na importação de bens de luxo, vencimentos e prerrogativas que não reflectem o desempenho da economia – etc. Nem todos os membros do grupo vão à caça destas rendas e mesmo os que vão não utilizam as mesmas estratégias. A prática da renda distingue-os dos outros grupos, mas como cada um deles a extrai é assunto individual. Esta perspectiva é interessante para percebermos, por exemplo, um grande mal-entendido da nossa esfera pública que consiste em imputar à uma conspiração da Frelimo tudo quanto anda mal no país. A análise estrutural proposta por Bourdieu sugere-nos que olhemos para o contexto como grande regulador da acção individual. Mais tarde vou me debruçar sobre alguns conceitos como “classe de estado” ou “grupos estratégicos” que aprofundam muito bem estas questões.

Vamos ver se a imprensa moçambicana na internet me proporciona bons exemplos para ilustrar a abordagem de Bourdieu nos próximos dias.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Ciência e desenvolvimento

Outra vez o combate à pobreza... pobreza absoluta!

Estive a ler esta manhã o Diário de Notícias de ontem. Numa das suas notícias informa que o Ministro da Educação é a favor da criação de mais universidades privadas. O jornal acrescenta, contudo, que “... os privados devem confinar-se à política definida pelo executivo moçambicano, que privilegia instituições que tenham cursos ligados ao desenvolvimento”. E cita o Ministro directamente: “Vamos priorizar instituições que tenham cursos mais orientados para a prática e para as ciências, bem como uma distribuição mais equilibrada pelo país. Não nos interessa ter muitas instituições centralizadas apenas em Maputo”.

Quando o mesmo ministro proferiu uma aula de sapiência em que dizia mais ou menos as mesmas coisas reagi em artigo do jornal para protestar contra a pobreza da análise por ele feita. Mas pensei também que fosse algo passageiro, talvez fruto de má assessoria. Contudo, quando volta e meia membros do executivo repetem este tipo de banalidades, começo a ficar com sérias dúvidas se temos as pessoas indicadas para nos ajudarem a resolver os verdadeiros problemas que o país tem. Nunca fui partidário da ideia de que um decisor político deva ser formado em alguma coisa. Um decisor político decide e, em princípio, todos nós, independentemente da nossa formação, temos a capacidade de tomar boas decisões. O que acho, contudo, que devemos esperar dos nossos políticos é que tomem decisões com base num conhecimento profundo do que está em questão.

As declarações do Ministro revelam, infelizmente, que ele não parece ter esse conhecimento profundo. O espírito defensivo leva-me a supor que “cursos mais orientados para a prática e para as ciências” não incluam as ciências sociais. “Ciência” é uma maneira de dizer “tudo menos ciências sociais”. Nem mesmo Popper, adepto do neo-positivismo, recusou às ciências sociais o estatuto de ciência. Os imperativos da luta contra a pobreza absoluta estão, porém, a conduzir-nos a uma revisão profunda da epistemologia. Por acaso até estou preparado a aceitar que as ciências sociais não sejam nem ciências, nem práticas. O que me recuso a aceitar, todavia, é a ligação que se estabelece entre desenvolvimento e cursos práticos/científicos. Recuso-me a aceitar essa ligação porque no actual estágio de discussão em Moçambique – que eu saiba – se trata apenas de uma suposição. Não conheço nenhum estudo ou reflexão elaborada sobre o assunto que explique com o rigor necessário (prático e científico) a ligação entre desenvolvimento e cursos práticos/científicos.

O que é que está a acontecer com as pessoas que se formaram em engenharias, medicina, arquitectura, economia, pedagogia e psicologia? Estão todos na frente de combate contra a pobreza absoluta? Viraram empreendedores e patrões? Quais são as reais necessidades da nossa economia neste momento? Um exercício muito simples revela alguns problemas desta suposição. Acumulem jornais durante um mês. Façam uma relação dos anúncios de emprego neles contidos. Asseguro-vos que para qualquer altura do ano vão encontrar mais de 70 por cento de anúncios de empregos para pessoas formadas em ciências sociais! Não quero com este exemplo dizer que o país precisa de formar ainda mais cientistas sociais. Quero apenas dizer que o problema da formação universitária é muito mais complexo do que o Ministro por ele responsável imagina. Se o problema é a falta de conhecimentos técnicos para fazer coisas que nos obriguem a sujar as mãos, a solução não me parece residir na priorização de cursos “práticos e de ciências”, mas sim na reestruturação do ensino primário, secundário e básico e vocacional. A solução pode consistir em prestar atenção às pequenas coisas que podem fazer diferença na vida quotidiana das pessoas longe da avenida Julius Nyerere, onde o Ministério está situado.

Os problemas do ensino no país são sérios. Não se aborda esses problemas com slógans. É preciso conhecimento sólido e fundado. Nenhum dos pronunciamentos feitos pelo Ministro da Educação ou por qualquer outro membro do actual executivo dá a entender que eles tenham consciência disso. Mas o que era de esperar de gente com uma visão tão limitada da ciência? Se é que mais alguma confirmação era necessária do estado geral de desorientação é só prestar atenção à última parte da citação. O Ministro diz que não lhe interessa a concentração de instituições do ensino superior em Maputo. Muito bem, concordo. Mas qual é o privado, fora da Igreja Católica, que vai abrir universidades em Chiconela em Gaza? O importante não é o que os privados vão fazer, mas o que o Ministro pensa fazer para que os privados abram essas universidades fora de Maputo. No fundo, este discurso todo de desenvolvimento e cursos práticos e científicos acaba camuflando sérios problemas da parte dos combatentes contra a pobreza absoluta que ao invés de se debruçarem sobre o que é essencial vão se ocupando com bodes expiatórios.

Convite à sociologia

O texto extraído do País Online suscitou-me a reflexão que se segue.

"Sul do país sob calor intenso enquanto Centro e Norte registam chuvas anormais
2007/02/05

Temperaturas altas continuam a caracterizar o dia-a-dia das províncias do Sul do país, enquanto o Centro e o Norte enfrentam precipitações acima do normal.

Os meteorologistas prevêem que a situação prevaleça nos próximos dias, devido essencialmente ao que chamam de variação de pressões.

A vaga de calor, na zona Sul, fustiga particularmente Maputo, que de cidade fresca passou à muito quente, com temperaturas que atingem os 37 graus.

Isto acontece num momento em que o Centro e o Norte são sacudidos por chuvas intensas. Até Tete, conhecida como a província mais quente do país, ultimamente apresenta temperaturas amenas.

Os metereologistas dizem que a situação deve-se a ocorrência de uma zona de baixas pressões. Entenda-se por `zona de baixas pressões´ as regiões em que o ar exerce menor pressão sobre a superfície terrestre, e o contrário para as `zonas de altas pressões´.

Tais variações de pressões são associadas a vários factores, incluindo a actividade humana contra o ambiente.
Já se reporta o aumento da temperatura média da terra, em cerca de um grau, na zona sul de Moçambique, nestes últimos anos" (fim).

Fazer ciências sociais e, em particular, fazer sociologia consiste essencialmente em manifestar curiosidade. Esse é que é o princípio de tudo. Quem não é capaz de se interessar em saber mais, não pode fazer ciências sociais. Igualmente, quem já tem as respostas para tudo também não precisa de se meter pelas ciências sociais. É tão simples como isso. Tenho vindo a tentar mostrar as várias maneiras através das quais nos podemos interessar pelo mundo e manter esse interesse vivo. A notícia que reproduzo mais acima proporciona-me uma oportunidade de prosseguir com esse trabalho. Para não complicar as coisas demasiado vou me concentrar apenas num aspecto. Para dizer a verdade, não é uma notícia bem redigida. Para além dos normais problemas de domínio da língua portuguesa (que, infelizmente, todos temos), a notícia não cumpre o seu principal papel que é de nos informar sobre um assunto. Levanta apenas interrogações. O aspecto sobre o qual vou me concentrar é o que diz respeito aos critérios.

Trata-se de uma palavra pesada e não tenho a certeza se consigo apresentá-la aqui com a simplicidade necessária. Essencialmente, o que me interessa é mostrar como a curiosidade sociológica se manifesta a partir da interpelação de critérios. Os critérios a que me refiro aqui dizem respeito aos elementos que uma pessoa utiliza para estabelecer a correspondência entre as palavras que utiliza para descrever o mundo, por um lado, e o mundo, por outro. Dito de outro modo, quando estou perante uma descrição da realidade – e isso é quase sempre quando comunico com outras pessoas – estou perante a enunciação de critérios através dos quais o descrito deve ganhar contornos reais na minha cabeça. Em pesquisa social empírica falaríamos de “operacionalização”. Acho que ajuda a treinar a nossa mentalidade sociológica procurarmos trazer estes critérios à superfície.

Tenho ouvido, por exemplo, muita gente a dizer que o melhor ministro do actual executivo moçambicano é o da saúde. O semanário Savana até o colocou em primeiro lugar numa classificação feita há algumas semanas. Até um grande crítico do Governo da Frelimo, Edwin Hounou, um indivíduo que articula a sua crítica de forma muito metódica e coerente, não tem poupado elogios a este ministro. Contudo, pessoalmente, tenho muitas dificuldades em perceber porque o ministro da saúde é o melhor porque os critérios na base dessa avaliação são um mistério. Só se diz que é bom, trabalha muito, é empenhado e ponto final. Nestas circunstâncias, no nosso seio, a tendência é forte de repetir isso – e por essa via dar estatuto de verdade incontestável à classificação – sem que esteja claro que critérios estamos a usar para nos pronunciarmos. É possível que ele de facto seja o melhor ministro, longe de mim querer contestar isso. Contudo, como não conheço os critérios que outros usam para o classificar não tenho matéria para saber realmente o que eles querem dizer com isso. De resto, um critério importante para mim e que, praticamente, não é observado por nenhum ministro – que eu saiba – é o da perspectivação de áreas de intervenção com base numa reflexão profunda sobre como financiar as actividades a partir de dentro. Ainda estou à espera de ler um programa de saúde financiado a partir de Moçambique. Bom, isso já é política...

Vamos, então, à nossa notícia. Como veremos, vou apenas interrogar de forma muito simples o que nos é dito. O título fala de “chuvas anormais”. Como se define a norma? Como é que ela se tem manifestado no nosso país? A partir daqui já podemos aprofundar a interpelação perguntando, por exemplo, se com base nos critérios de definição de norma ao nosso dispôr temos razões suficientes para dizer que as chuvas são anormais. Maputo passou de cidade fresca para cidade quente. Como se define a frescura? E o calor? Quem o faz? Como se manifesta no quotidiano das pessoas? Tete é conhecida por toda a gente como a cidade mais quente do país. Quem é essa gente toda? Que critérios é que eles usam para definir Tete como a cidade mais quente? Como é que essa definição se manifesta nas atitudes das pessoas em relação à cidade? Os metereologistas. Um, dois, três? De que instituição? Em que contexto é que falaram? Quem os ouviu? Já se reporta. Quem? Com que frequência?

Como viram, é simples. Simples demais para constituir o trabalho de um sociólogo, dirão alguns. Com razão. O trabalho do sociólogo não se pode reduzir a interpelar as descrições que os outros fazem do mundo. Mas é essencial. É o ponto de partida para aprendermos a refinar o nosso sentido crítico. O sentido crítico parte daí mesmo. O resto é técnica, e técnica aprende-se nos manuais e nas aulas. A curiosidade, contudo, precisa de ser cultivada. Sugiro que cada um de vocês tome a decisão de pelo menos duas vezes por dia interpelar as descrições que ouve, vê ou sente. Que mundo está a ser descrito? Quais são os elementos que fazem esse mundo? Aceito-os? Porque os aceito? Que mundo é recuperado com esses elementos? Cada palavra, cada suspiro, cada frase, cada interrogação, cada momento pensativo, cada conclusão, cada sugestão da identidade do mundo é um desafio ao sociólogo para redescobrir o mundo em que vive. Todos os dias redescobrimos o mundo. É um convite, aceitemo-lo.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Perguntas complexas

O actual inquérito do jornal O País Online é sobre o alargamento de municípios ou sobre o estudo que o Governo está a fazer? Chamou a minha atenção. Aí vai ele:

Governo estuda possibilidade de alargar os municípios. Como avalia esta iniciativa?

  • Muito boa
  • Boa
  • Péssima

É muito melhor dos que tenho vindo a comentar na página, mas contém ainda alguns problemas. O principal problema deste é de conter, na realidade, duas perguntas, a saber:

  • Como avalia o facto de o Governo estar a estudar a possibilidade de alargar os municípios?
  • Como avalia o alargamento dos municípios?

São perguntas diferentes. Suponho que a maioria das pessoas que vão responder ao inquérito respondam à segunda pergunta que me parece conter a intenção de quem elaborou o inquérito. Mas a pergunta não é clara e isto pode interferir nos resultados. Todo o cuidado é pouco.

Um pormenor estético muito importante está nas respostas. Se a opção é entre muito boa e boa, devia ser também entre má e muito má. Ou então excelente, boa, má e péssima. É uma questão de consistência para não irritar os entrevistados.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Nosso espaço

Queria apenas recordar que criei este espaço para a troca de ideias sobre a nossa disciplina científica. No início a página beneficiou muito das vossas contribuições, sobretudo da vossa coragem em se exporem à interpelação crítica por pares. Este espaço tem um fim pedagógico que consiste em partilhar ideias, receios, esperanças sobre a contribuição que a sociologia pode dar para uma cada vez melhor compreensão da nossa sociedade. No período imediatamente a seguir à independência deixámos que os nossos sonhos, anseios e preocupações fossem formulados por outros que se consideravam detentores da verdade científica. Hoje, com a forte influência do auxílio ao desenvolvimento, continuamos a deixar que sejam outros a falar por nós. Num e noutro caso abdicámos da nossa faculdade crítica, submetemo-nos quase que voluntariamente ao poder totalitário das boas intenções dos outros.
O conhecimento científico de um modo geral, e as ciências sociais em particular, dão-nos subsídios muito importantes para começarmos a ensaiar a nossa emancipação. Não deixemos que sejam outros a nos dizer o que é bom para nós. Façamos uso dos instrumentos metodológicos, analíticos e teóricos das ciências sociais para nos libertarmos da tutela. Pensar ajuda. Usemos este espaço para explorar novas formas de pensar o nosso país. Aceitemos o desafio que os seus problemas nos colocam. Procuremos pelas perguntas para as quais a nossa sociedade parece já ter encontrado as respostas.
Ninguém se expõe ao ridículo por dizer o que pensa ou por procurar saber mais. Quem pensa que só pode ser sociólogo se tiver respostas para tudo equivoca-se. A sociologia é uma boa desculpa para sermos curiosos e passearmos a nossa ignorância. Ela dá-nos olhos inocentes para descobrirmos o mundo longe de preconceitos e ideias já formadas. Ela convida-nos a apreciarmos o social como algo com profundo valor estético, mesmo se ele se revela injusto, desigual, totalitário e opressor. Só pode transformar o mundo quem o percebe. Ao mesmo tempo, porém, o mundo não vai deixar de se transformar só porque está à espera do cientista social militante. A nossa sociedade transformou-se apesar do colonialismo português; transformou-se apesar do projecto revolucionário da Frelimo; transforma-se apesar do auxílio ao desenvolvimento. E essa transformação é completamente alheia às intenções dos outros, o que pode sugerir problemas na compreensão do social por parte desses transformadores todos.
Este espaço é nosso!

A caixa de ferramentas do sociólogo

Vou aprofundar hoje a abordagem marxista com uma ilustração prática e com uma tentativa de defesa do pensamento sistemático nas ciências sociais. A notícia comentada foi extraída da página "Imensis".

"Com introdução de novo modelo - Cinco mil professores serão formados por ano

2007/01/30

Cinco mil novos professores serão formados anualmente no país, com a introdução, este ano, do novo modelo de formação de docentes (10ª+1 e 12ª+1), segundou anunciou ontem, em Inhamissa, cidade de Xai-Xai, Gaza, o Ministro da Educação e Cultura, Aires Ali, durante a cerimónia central de abertura do ano lectivo 2007.

(...)
Entretanto, o representante do governador de Sofala, Abílio Sigaúque, desafiou ontem os estudantes de todos os subsistema de ensino na província e no país a adquirirem conhecimentos para se tornarem patrões.

Falando na cerimónia de inauguração do ano escolar na província, Sigaúque lançou um apelo aos professores no sentido de incutirem nos estudantes o espírito do empreendedorismo, porque só assim é que se pode reverter a actual situação de desemprego que afecta muitos jovens moçambicanos.

(...)" (fim)

Não queria que a nossa reflexão sobre a estrutura social ficasse muito abstracta. À semelhança da discussão da sociologia do crime, gostava de ir ilustrando as coisas. Apresentei de forma rápida e curta alguns elementos da abordagem marxista da questão da estrutura social. Mencionei de passagem dois conceitos, nomeadamente hegemonia e aparelho ideológico estatal, sem, contudo, entrar em detalhes sobre a sua utilidade. Na verdade, uma das principais funções destes dois conceitos é de ajudar a abordagem marxista a esclarecer porque a história não obedece à teoria marxista. Esta teoria pode levar as pessoas a imaginarem que tudo acontece automaticamente, isto é, que a transição do capitalismo para o socialismo é automática dentro do processo dialéctico que caracteriza a história. Não é. Por vezes até o que atrasa o processo histórico é o facto de as pessoas que deviam fazer a revolução não estarem, aparentemente, interessadas nela. É aí onde a noção de “consciência falsa” desempenha um papel muito grande. O membro da classe explorada que não quer acabar com o modo de produção que o explora está sob a influência dessa falsa consciência. Diriam os marxistas.

Antonio Gramsci, com o conceito de hegemonia, e Louis Althusser, com o conceito de aparelhos ideológicos estatais, tentam resolver esta dificuldade interrogando-se sobre o que faz com que a ordem capitalista seja aceite como natural e desejável. Gramsci recorre à ideia de um pensamento dominante no interior de uma sociedade e procura saber como é que ele surge, quem o veicula e como pode ser ultrapassado. Althusser, por sua vez, é mais concreto incidindo a sua atenção em instituições como a educação, o direito, a saúde, etc., que, em sua opinião, têm como função socializar as pessoas na aceitação da naturalidade da ordem capitalista que os oprime.

Embora seja difícil identificar com certeza o modo de produção dominante em Moçambique, podemos dizer que é uma coisa híbrida que opõe os que têm acesso aos meios de vida fácil caracterizada por um consumo conspícuo – como diria Thorsten Veblein – aos que não têm esse acesso. A pergunta que devíamos, então, colocar é de saber porque os que não têm esse acesso não se sublevam. Com Gramsci e Althusser diríamos que eles não se levantam porque estão sob os efeitos de uma ideologia ou ordem normativa que lhes diz que esta é que é a ordem natural das coisas. Dito de outro modo, há forças que agem sobre nós e nos dizem que as coisas são assim mesmo e que não devem ser alteradas. O que devemos fazer é esforçarmo-nos no sentido de sermos como os outros com acesso aos meios de vida fácil. Esta perspectiva neo-marxista sugere-nos, portanto, elementos muito importantes para começarmos a entender alguns pronunciamentos públicos.

Por exemplo, os excertos que tenho mais acima podem ser interpretados desta maneira. Quando o representante do Governador de Sofala desafia os estudantes a se empenharem para serem “patrões” pode, na perspectiva analítica aqui em discussão, estar a contribuir para dar a entender que quem não é patrão é ele próprio culpado. No nosso país todos podemos ser patrões e, na verdade, esse é que é o objectivo: País de patrões. Na perspectiva marxista todo esse discurso de empreendedorismo não seria outra coisa senão uma maneira de levar as pessoas a pensarem que o mal reside dentro de si e que têm que se empenhar. Mesmo o PARPA, na sua primeira versão, podia ser lido nesta perspectiva ao definir a pobreza como a incapacidade individual de garantir os meios de sobrevivência. Essa definição não responsabilizava nem o Estado, muito menos o próprio sistema económico. O Relatório Anual da Pobreza, elaborado por organizações da sociedade civil moçambicana, corrigiu isso com a inclusão da responsabilidade do Estado na condição individual. Curiosamente, a indústria do desenvolvimento também assenta mais ou menos sobre os mesmos pressupostos: ela mitiga apenas os efeitos colaterais do modo de produção. Ou melhor, podemos analisar esta indústria como uma intervenção hegemónica que visa manter o status-quo.

Embora com forte dose fenomenológica em alguns dos seus trabalhos, por exemplo o recurso às noções de mundo problemático e não-problemático, Carlos Serra e alguns dos seus colaboradores (por exemplo, Rogério Batine, Carlos Chefo, João Colaço) privilegiam uma abordagem neo-marxista do nosso quotidiano nos termos aqui analisados. Essa abordagem alerta justamente contra os efeitos enebriantes da religião pentecostal, da lixeira e do desenrasque nas ruas. Dito de outra maneira, estes trabalhos investigam a despoliticização do quotidiano, isto é o abandono consequente de uma visão conflituosa das relações sociais. Segundo eles este abandono insula o Estado da crítica e pode resultar na manutenção do status-quo. Penso, mas não tenho a certeza, que é esta maneira de abordar o social que torna Carlos Serra sensível a uma ciência social que diz insistir na objectividade e se distancia de juízos de valor. Essa insistência pode, na verdade, servir apenas para legitimar ordens sociais opressoras.

Contudo, uma perspectiva analítica de conflito como a neo-marxista não dispensa o rigor empírico e não pode prescindir de uma atitude analítica enformada por perguntas sólidas. A plausibilidade do argumento segundo o qual uma suposta objectividade das ciências sociais funcionaria como sedativo – ópio do povo – com o fim de retirar o conflito das relações sociais não depende do que cada um de nós pensa em relação às elites, aos pobres ou a seja que quadro normativo for. Depende da pergunta que foi formulada, dos métodos que foram empregues para a responder e dos critérios empregues na análise dos dados. De resto, é muito arriscado falar em nome de seja quem for. Ocorre-me, a este respeito, a excelente crítica feita por feministas indianas às feministas ocidentais. Estas últimas analisaram a prática de sati, a incineração de viúvas juntamente com os seus defuntos maridos, como uma manifestação da opressão patriacal na cultura indiana. As feministas indianas perguntaram: que tal se essas mulheres querem mesmo “acompanhar” os maridos? Na perspectiva neo-marxista ou mesmo na perspectiva do cientista social que fala em nome de... a resposta é simples: falsa consciência.

Custa-me imaginar que alguém opte voluntariamente pela imolação, pela vida na lixeira, pela indoctrinação pentecostal ou, de uma forma geral, por uma vida precária. Custa-me imaginar isso. Mas o que me custa imaginar não é necessariamente o que acontece na sociedade. São os meus juízos de valor. E eles merecem ser analisados, tanto mais que a sua compreensão nos pode ajudar a identificar o estado de espírito que é necessário para combater os males que queremos combater. Todos os caminhos nas ciências sociais vão dar a perguntas. São elas que nos permitem uma abertura de espírito suficiente para apreendermos o social em toda a sua complexidade. E essa complexidade inclui também os nossos próprios juízos de valor. Nenhum de nós é inocente neste empreendimento e cada um de nós tem o dever de ser implacável para com os seus juízos de valor. Justamente agora que o nosso país enfrenta sérios problemas sociais ele precisa de gente comprometida com o pensamento sistemático. Este pensamento não é um estado final, pois esse estado só pode ser estabelecido para todo o sempre por quem acha que já é pensador sistemático. É um procedimento que se alicerça na sugestão feita por Peter Berger no seu convinte à sociologia para que o cientista social transforme problemas sociais em problemas sociológicos: porque é que é que a falta de vontade de ser patrão é um problema? Porque é que o desemprego é um problema? Porque é que a corrupção é um problema? É a partir destas interrogações que havemos de começar a apreciar a importância da clarificação dos nossos conceitos, da relação que estabelecemos entre eles, do mundo que descrevemos a partir deles, das conclusões que tiramos a partir das nossas descrições e, acima de tudo, é com base neste procedimento que nos havemos de expôr à interpelação crítica dos outros. Só tem certezas quem abdicou do pensamento sistemático.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Interpretação de dados

Encontrei esta notícia longa na página "Imensis". Achei-a curiosa. O meu comentário está no fundo da notícia. Divirtam-se!

"Diplomatas nacionais arrasam `auto-estima´ moçambicana
2007/01/31

A auto-estima moçambicana está a ser ofendida em Nova York pelos diplomatas nacionais que para lá são mandados representar o país na ONU.

Estacionam em lugares proibidos, são multados e depois não pagam.
Moçambique é o 6.º país representado nas Nações Unidas com maior proporção de infracções praticadas. E os pesquisadores, como refere a revista brasileira VEJA, até sugerem que a quantidade de multas de estacionamento em lugar proibido recebidas por diplomatas estrangeiros que servem na ONU, em Nova York, é um reflexo directo do grau de permissividade ética do país representado.

`Quanto mais multas mais corrupto o país (em infracções de transito por diplomata que não tenham sido pagas)´, escreve a publicação do Brasil. À frente de Moçambique nessa lista de abusos só há cinco países: o Kuwait – o pior de todos – seguido do Egipto, Chade, Sudão e Bulgária.

A revista Veja, num artigo de Diogo Schelp titulado «O teste do estacionamento», escreve que “os abusos cometidos por diplomatas em Nova York mostram bem como a corrupção faz parte da cultura de certos países”. O Brasil está em 29º lugar de uma lista de 146 países.

O autor da peça, publicada num espaço dedicado à Ética, informa que `há uma antiga discussão muito presente no Brasil de hoje, sobre as raízes da enorme corrupção existente em determinados países. Basicamente trata-se de escolher entre duas possibilidades para explicar a desonestidade dos homens públicos e de seus apaniguados´.

`Na primeira hipótese, a tendência para um comportamento pouco ético decorria de factores culturais dominantes em determinada sociedade´ e `na segunda, seria a decorrência natural de falta de instrumentos legais adequados para punir a corrupção e o desrespeito pela lei´.

No entanto, `um estudo feito por dois economistas americanos – Raymond Fisman, da Universidade de Colúmbia, em Nova York, e Edward Miguel, da universidade da Califórnia – indica que a questão cultural tem um peso primordial sobre a conduta ética de uma sociedade´, prossegue Diogo Schelp e acrescenta que `os dados estatísticos para sustentar essa opinião são inesperados mas convincentes: as cento e cinquenta mil multas de estacionamento proibido não pagas por diplomatas estrangeiros na cidade de Nova York entre 1997 e 2002´ somam a módica quantia de `18 milhões de dólares amaricanos´.

`Bastou tabular a nacionalidade dos infractore´, observa a Veja, `para perceber que a maior proporção de multas não pagas era justamente de diplomatas vindos de países notórios pela corrupção e abuso do poder´.

Diz mais adiante o autor da peça que estamos a citar, que `o comportamento abusado no exterior revelou-se um excelente medidor de maus hábitos da elite governante do país´ de origem.

Ao se valer da certeza de impunidade para estacionar em local proibido, o diplomata está cometendo um abuso de poder em proveito próprio, observa a VEJA.

`Na outra ponta da lista´, a dos cumpridores da Lei, a `dos que não tiram proveito da imunidade (diplomática) para estacionar livremente em local proibido ou que pagaram as multas estão sobretudo os países do Primeiro Mundo, como Suécia, Noruega, Inglaterra´, escreve Diogo Schelp.

Mais adiante o mesmo refere que `os pesquisadores concluíram que a diferença de comportamento só pode ter uma explicação cultural, já que todos os diplomatas, independentemente da nacionalidade, desfrutam do mesmo privilégio de não poderem ser processados ou presos´.

Edward Miguel , um dos pesquisadores a que a Veja recorreu, diz que `os diplomatas´ levam `para Nova York o comportamento ético adquirido com as experiências de vida que tiveram em seus respectivos países de origem´.

Para reduzir os abusos dos diplomatas em Nova York já é permitido guinchar os carros com placas diplomáticas para tirá-los de lugares em que o estacionamento é proibido. E ainda deliberou-se que 110% do valor das multas não pagas passaria a ser descontado na ajuda que o país dos diplomatas infractores recebe de ajuda dos Estados Unidos da América..." (fim)

E cá estamos nós de novo. Não são só as perguntas que contam. A interpretação das respostas também. Ao ler esta notícia lembrei-me de uma convicção muito forte que a minha filha de 9 anos tem. Não sei com quem ouviu isto. A verdade é que ela acredita com paixão que há dois tipos de pessoas e que esses tipos são determinados pelo comportamento na retrete. Existem os que amarrotam o papel higiénico (que ela chama de “amarrotadores”) e existem os que dobram o papel higiénico (a estes ela chama de “dobradores”). Para não desestabilizar o mundo limpinho dela não lhe disse que há os que usam água, os que escorregam no chão de areia, os que usam troncos, folhas de árvores e os que não usam absolutamente nada. Mas isso só complicava a história. Segundo ela, o mundo subdivide-se em gente desorganizada e impaciente (os amarrotadores) e organizada e paciente (os dobradores). E isto com base no comportamento no momento das necessidades maiores.

Portanto, Moçambique, Kuwait, Chad, Sudão, Egipto e Bulgária são dos mais corruptos do mundo. A medida disso é o número de multas não pagas em Nova Iorque. Suponho que tenham sido pessoas sérias a fazer estes “estudos”, pessoas que por estarem em universidades de renome já trazem consigo uma carga enorme de autoridade que dispensa qualquer pio da nossa parte. Mesmo supondo que o argumento cultural fosse válido: não interessa saber quem são esses diplomatas, isto é as suas idades, a sua formação, o seu género, a sua posição na embaixada, a sua proximidade ao poder, a sua socialização, etc.? Será que quebrando o estudo por aí não chegaríamos a outros ordenamentos dos dados? Quem sabe, podíamos ter que as multas não pagas foram provocadas por católicos do sexo masculino com formação em direito e que, por regra, cresceram em famílias numerosas. Pode ser, porque não? Se calhar, vistas as coisas a partir desse ângulo tudo mudaria de feição. Já não seria a corrupção ou seja o que fosse, mas sim a religião ou outra coisa qualquer.

Daí que eu insista: previnam-se contra as conclusões dos outros antes de perceberem as razões! Há muitos lobos maus no mundo. E não dormem!

quarta-feira, janeiro 31, 2007

A caixa de ferramentas do sociólogo

Continuo com a reflexão sobre a estrutura social.

A estrutura social segundo o Marxismo

A fechar a última postagem sobre a diferenciação social perguntei como era possível regular as relações sociais com base em subsídios extraídos da solidariedade mecânica num contexto social tão orgânico como o Moçambique de hoje. O Marxismo tem uma resposta, digamos, histórica, para este problema. O Marxismo baseia-se, como todos sabemos, no materialismo dialéctico, isto é na evolução da capacidade produtiva das sociedades em resultado de contradições internas que produzem continuamente teses, antíteses e sínteses. O principal motor destas contradições é o que se passa ao redor do modo de produção, nomeadamente a luta de classes. Com efeito, o Marxismo pressupõe que modos de produção opõem pessoas com interesses divergentes que ajem, contudo e talvez até de forma inconsciente, no interesse da prossecução da história até ao seu destino final: o comunismo.

A análise do capitalismo feita pelo Marxismo opõe, portanto, uma classe detentora dos meios de produção, os capitalistas, e uma classe que apenas vende a sua força de trabalho, o proletariado. Os capitalistas vivem da mais-valia, isto é do lucro que o operário produz para além da satisfação das suas necessidades básicas. Essas necessidades seriam calculadas de acordo com o que um operário precisa para reproduzir a sua força de trabalho. Ou por outra, o operário trabalha para trabalhar para o capitalista. É daí que vem a noção de “exploração do homem pelo homem”, cuja eliminação (muito antes da pobreza absoluta) constituiu o principal objectivo da Frelimo. Os marxistas estão divididos quanto à melhor forma de interpretar a exploração. Uns dizem que é justamente aí onde reside a injustiça do sistema capitalista; outros, porém, dizem que a exploração não é injusta, antes pelo contrário, ela é necessária para que a história prossiga a sua marcha inexorável.

Não quero resolver essas diferenças aqui. O que importa reter é a ideia de que a luta de classes, portanto a oposição entre os interesses dos capitalistas e dos operários, é o motor da história, o que estrutura uma sociedade. Surgem daqui vários conceitos interessantes desenvolvidos por marxistas mais recentes como Gramsci que fala da hegemonia, Althusser que fala dos aparelhos ideológicos estatais ou mesmo Negri e Hardt, muito recentemente mesmo, que falam do império. Todos estes conceitos procuram nos dar subsídios que nos permitam descrever as contradições bem como as condições de reprodução do modo de produção na base da sociedade capitalista. O problema que para nós se coloca é se o modo de produção capitalista nos ajuda a descrever a nossa sociedade. Ou por outra, existe capitalismo em Moçambique? Existiu na altura em que a Frelimo ensaiou uma transformação socialista? Aí teremos que recuar à pergunta que abre a reflexão.

Na verdade, este problema colocou-se também na União Soviética e foi respondido por Lénine com a ideia de que tudo quanto é necessário é um grupo de pessoas que interpreta correctamente a história e apressa a resolução dos conflitos de classe introduzindo formas socialistas de organização social. Daí a ideia de partido de vanguarda. Daí também a ideia de que uns sabem melhor o que é bom para o resto. Daí mesmo a profunda aversão da Frelimo revolucionária pelo pluralismo político, uma aversão que se fundava na ideia de que um moçambicano que não é a favor do projecto socialista tem simplesmente falsa consciência. Isto é crítica política e leva-nos para fora do assunto. O assunto é saber de que maneira caracterizar Moçambique em termos marxistas. A Frelimo decidiu que existia um sistema colonial-capitalista baseado na exploração dos habitantes das colónias. Essa exploração implicava a negação de direitos fundamentais, um dos quais Eduardo Mondlane brilhantemente analisou no seu livro “Lutar por Moçambique”, a saber a política de assimilação que consistia em aceitar o africano como pessoa apenas se ele abandonasse a sua identidade como africano.

O sistema colonial-capitalista era feito de várias componentes, dentre as quais destaco, por exemplo, o trabalho migratório para os países vizinhos, cujas consequências sociológicas foram muito bem descritas no melhor livro de ciências sociais produzido em Moçambique: O mineiro moçambicano. Tudo isto criou uma estrutura própria da sociedade moçambicana que podíamos, em termos marxistas, reduzir à oposição entre os que beneficiavam do sistema colonial-capitalista e os que eram vítimas desse sistema. Dito de outra maneira, o sistema criou desequilíbrios estruturais entre regiões, entre raças, talvez, entre praticantes de religiões, entre falantes de uma ou outra língua, entre assimilados e indígenas, e por aí fora. Não tenho a certeza se o discurso revolucionário e marxista da Frelimo teve a consciência exacta da estrutura social dentro da qual estava a intervir. O livro “O mineiro moçambicano” tinha, mas a política da Frelimo desses anos revelou pouco conhecimento dos resultados do trabalho feito pela equipa. O discurso insistiu numa simples oposição entre as massas operário-camponesas, por um lado e coadjuvadas por um partido de vanguarda esclarecido, e a pequena burguesia que precisava ainda da estrutura colonial-capitalista para se reproduzir socialmente.

Penso que alguns problemas que temos agora em perceber as transformações resultantes da implementação de políticas neo-liberais estão ligados a uma compreensão ainda deficiente das consequências estruturais do tal sistema colonial-capitalista e, naturalmente também, do uso bastante descuidado de terminologia científica como “burguesia”, “classe” e mesmo “capitalismo”. Na perspectiva marxista, não estamos hoje perante a incompatibilidade de sistemas sociais mecânicos num contexto orgânico, mas sim perante a sobrevivência de elementos “retrógrados” que é preciso ultrapassar para o bem da progressão histórica. É quase a mesma coisa, mas há nuances importantes que até nos ajudam a perceber a confusão que paira ao nível da análise das nossas opções económicas e políticas. O que significa “formar uma burguesia nacional”? O que significa “valorizar a autoridade tradicional”? O Marxismo ainda não perdeu a sua relevância analítica, mas como todo instrumento analítico precisa de ser manuseado com cuidado e conhecimento de causa. Infelizmente, nem muitos dos que o adoptaram nos gloriosos tempos chegaram a percebê-lo. De que maneira é que ele nos pode ajudar a perceber a estrutura social actual do nosso país?

terça-feira, janeiro 30, 2007

Perguntas inocentes

Na página "Imensis" encontrei este inquérito e achei que ele nos ajudaria a aprofundarmos algumas questões que tenho vindo a levantar nos últimos dias.

Acha que a progressão na carreira na função pública é feita com base:

Na filiação partidária

(719 votos)

61.77%

Na competência e profissionalismo

(114 votos)

9.79%

Nos dois factores acima

(64 votos)

5.50%

Na legislação

(228 votos)

19.59%

Noutra base

(39 votos)

3.35%


Total de Votos: 1164

Quando investigamos por meio de um inquérito queremos normalmente saber uma de quatro coisas: opiniões ou atitudes, convicções, comportamentos e propriedades das pessoas que inquirimos. Cada uma destas coisas dá-nos uma ideia específica sobre um aspecto do mundo social. As sondagens à opinião pública devolvem-nos um pouco da nossa sociedade justamente porque nos revelam as opiniões, convicções, comportamentos e propriedades dos membros da nossa sociedade. As sondagens à opinião pública foram, no mundo desenvolvido, um dos principais canais de constituição da opinião pública, isto é e de forma muito curiosa, a opinião pública foi inventada pelas sondagens à opinião.

Por causa disto, todo o cuidado metodológico na formulação das perguntas é pouco. Existem aquelas regras básicas que aprendemos logo nas primeiras aulas de métodos sobre a necessidade de evitarmos perguntas complexas. Não é sempre possível respeitar essas regras. Mas é importante, sobretudo porque as perguntas, elas próprias, podem limitar desnecessariamente o mundo que queremos recuperar. Quando nos interessamos por convicções ou mesmo por opiniões temos que ter o cuidado de nunca forçarmos a nossa opinião sobre os nossos entrevistados. Se isso é difícil, então temos que ser transparentes.

Isto tudo vem a propósito da sondagem acima. É um exemplo clássico de uma pergunta complexa. Para ser útil e respeitar os preceitos da nossa ciência teria que ser menos arrojada. Já que queremos saber qual é a opinião do nosso entrevistado em relação à progressão na carreira na função pública temos duas opções metodologicamente válidas. Podemos perguntar:

  1. Acha que a progressão na carreira na função pública é feita com base na filiação partidária? (no lugar de filiação partidária podemos colocar cada uma das outras opções que o quadro mostra). As opções de resposta que damos são: sim, não, não sei.

Ou:

  1. Em sua opinião o que está na base de progressão na carreira na função pública? (isto é, deixamos a resposta ao critério do entrevistado, pois as nossas opções reduzem as suas opções e distorcem a realidade. Por exemplo, o nepotismo é um factor importante, mas não é considerado nas opções; o regionalismo é, provavelmente, também importante, mas não é considerado. Isto é para não falar da diferença entre “competência e profissionalismo”, por um lado, e “legislação”, por outro)

Mais uma vez, portanto, aqui fica o alerta. O nosso compromisso com o pensamento crítico exige um estado de alerta constante em relação ao que nos é dito como a revelação da verdade. Não me surpreenderia se alguém pegasse nestes “resultados” e fosse aí dizer que um “estudo” provou que a progressão na carreira é feita com base na filiação partidária. O que sabemos do nosso país leva-nos, de facto, a supormos que assim seja, mas isso não basta. Reparem que aqui nem abordei outras questões metodológicas de grande importância como, por exemplo, o próprio meio de pesquisa. Com efeito, mesmo se a pergunta tivesse sido bem feita, ficávamos ainda com o problema de saber quem respondeu. Pessoas como eu que ficam o dia inteiro na net podem “votar” várias vezes; as pessoas que “votam” podem ter um perfil específico que as predispõe a um tipo de opinião. Estou a falar da questão da representatividade.

Desconfiar de verdades simples

Vi a notícia que se segue extraída do jornal O País Online e deu-me vontade de fazer um comentário longo sobre a objectividade nas ciências sociais. Estou a abrir um debate sobre o assunto. Seria útil que ao participarem nesse debate lessem o decálogo do sociólogo da autoria de Carlos Serra e que nos fornece elementos importantes para nos situarmos em relação à nossa actividade científica.

Mini-bus” semi-colectivo capota e fere seis pessoas

29/01/2007

A manhã desta segunda-feira foi marcada, na cidade de Maputo, por um acidente de viação envolvendo três viaturas, das quais um “mini-bus” de transporte semi-colectivo de passageiros. Segundo testemunhas oculares, uma pessoa contraiu ferimentos graves e outras cinco sofreram ferimentos ligeiros.

O sinistro deu-se no fim da manhã de hoje, no cruzamento entre as avenidas Mao Tse Tung e Kim IL Sung, sendo que os envolvidos atiram as culpas ao motorista da viatura Toyota Corrola, uma das envolvidas no incidente, da qual ninguém saiu lesado.

De acordo com testemunhas, a viatura Toyota Corrola violou o sinal vermelho, cortando prioridade às que vinham no seu sentido perpendicular. Entretanto, o condutor do mesmo fincou “a pés juntos” que cumpriu com todas as regras que regem o trânsito.

Salienta-se que o “mini-bus” fazia o trajecto “Laulane-Museu”.

Vou insistir mais um bocado sobre o que venho defendendo nesta página. Refiro-me à análise social. Esta notícia presta-se a isso. Cada um de nós tem a sua maneira de reagir a ela. Uns abanam a cabeça e murmuram logo “esses chapas!”. Outros lançam impropérios contra o “município” que não põe os semáforos em ordem. Outros ainda podem lançar culpas aos que conduzem “toyotas corollas” na sua qualidade de representantes de uma certa camada social. Outros vão, de certeza, concentrar a sua atenção na vulnerabilidade dos que não têm carro próprio e são obrigados a andar de “chapa” expondo-se a todo o tipo de perigos. Enfim, há várias maneiras de reagir (interpretando) esta notícia. Nenhuma delas é simplesmente correcta ou errada. Cada uma delas é uma maneira de apreender o mundo social em que vivemos. Cada uma dela faz parte do conjunto de recursos que utilizamos para nos orientarmos no mundo.

Vamos, contudo, supor que alguém nos pedisse a nossa opinião sobre este acidente na nossa qualidade de cientistas sociais. Aí já não basta dizer que se trata apenas de opinião e que qualquer um de nós tem o direito de se deixar influenciar pelos seus juízos de valor. Há diferença entre o senso-comum e as ciências sociais. Uma dessas diferenças é o cuidado que devemos ter com os nossos próprios juízos de valor. Isto não significa que só possa fazer ciências sociais quem não tem esses juízos de valor. Mesmo Weber que defendeu com veemência a distinção entre ciência e política reconheceu que cada um de nós age de acordo com certos quadros normativos ao ponto até de escolher o seu objecto de estudo nessa base. O importante, porém, é tornar esses quadros transparentes. Ora, a minha sugestão é de que a transparência só é possível quando a análise procura ser objectiva mesmo sabendo que isso é difícil. E precisamos de insistir sobre isso sob pena de apagarmos as diferenças entre o senso-comum e a ciência e tornarmos a análise social num artefacto da ideologia.

Então, outra vez a notícia. Vamos supor que alguém nos pede a nossa opinião como cientistas sociais. Vamos também supor que somos movidos pela preocupação com a sorte dos mais desfavorecidos na nossa sociedade. Seria legítimo concluirmos assim mesmo que o acidente revela a vulnerabilidade dos pobres na nossa sociedade? Não vou tirar uma conclusão ainda mais grave, mas comum entre nós, que seria de dizer que o acidente é o resultado da corrupção das nossas elites corruptas que desviaram os fundos que deviam ter ido para a manutenção das estradas, dos sinais, etc. Mas seria legítima uma interpretação desta natureza? A pergunta não é boa. A pergunta é: em que condições é que podemos justificadamente emitir tal opinião? Reparem que, no fundo, nem estou a insistir na particularidade das ciências sociais. Estou a insistir nas regras mais elementares que devem ser observadas quando tiramos conclusões. Quando é que é justificado emitir tal opinião? Primeiro, quando tenho a certeza de que a notícia (portanto, o material empírico) é fiel à verdade. Por isso, é importante sempre questionar a informação antes de a comentarmos. Questionar a informação não significa negar que haja problemas de desigualidades sociais numa sociedade. Significa apenas tirar conclusões com conhecimento de causa. Não perceberemos melhor as desigualidades sociais com informação errada e distorcida. Antes pelo contrário, contribuiremos para uma confusão ainda maior. Portanto, houve mesmo acidente? Ocorreu como se diz que ocorreu? Que outras fontes posso utilizar para me certificar que a informação que tenho é correcta? Esta chamada de atenção é tanto mais importante quanto sabemos que a nossa imprensa tem muitas dificuldades em passar informação.

Segundo, interessemo-nos pelos acidentes em si. O acidente em questão é um caso isolado ou um entre vários em que as vítimas são sempre os mais desfavorecidos? Haverá alguma relação entre a pobreza dos utentes desses transportes colectivos, por um lado, e o estado de manutenção, conduta dos proprietários, serviço prestado pelas autoridades municipais e de viação, por outro lado? Se acham que é muita coisa só para concluir que “mais uma vez os corruptos estão a lixar o povo”, enganaram-se na profissão. Não se esqueçam do brilhante decálogo do sociólogo que Carlos Serra escreveu e que nos convida a estarmos precavidos contra as verdades simples. A precaução começa na resistência à conclusão óbvia. Ao fazerem isso não estão a trair nenhum quadro normativo, antes pelo contrário, estão a fortalecê-lo com informação sólida. Significa isto que para emitir uma opinião é preciso primeiro fazer um estudo? Não, não é isso. Significa apenas que não se emite uma opinião de ânimo leve. Significa que temos que ser mais comedidos nas conclusões que tiramos.

Terceiro, se depois deste exercício todo acharmos que podemos justificadamente tirar a conclusão que sempre quisémos tirar devemos, em debate público, dar destaque às razões que nos levam a tirar essa conclusão. Na nossa esfera pública discutimos, infelizmente, conclusões. A Renamo não presta! Presta, sim senhor! Não, não presta! Presta! Não presta! Presta, não sabes do que estás a falar... E por aí fora. É evidente que nunca nos entenderemos. E isso por uma razão muito forte: Só está interessado na discussão de conclusões quem não quer ser transparente em relação aos critérios que usa para chegar a uma conclusão. Dito de outra forma, só quem coloca juízos de valor no lugar de juízes da plausibilidade de um argumento é que se interessa mais pelas conclusões do que pelas razões.

Alguns abraçam as ciências sociais com a ideia de que querem aprender a criticar. A crítica para essas pessoas consiste em tirar conclusões arrojadas sem nenhum sustento empírico. E se o espírito da crítica vai ao encontro de uma opinião generalizada na nossa sociedade, tanto melhor. Até o sociólogo fulano de tal disse isso! Essas pessoas trazem consigo às ciências sociais a mesma atitude mágica que caracteriza uma boa parte do nosso quotidiano. Quanto mais arrojada for uma conclusão, mesmo resistindo ao teste empírico, mais sofisticado é o cientista social que a tira. Ora bem, quem visita esta página à procura de uma sofisticação mágica anda perdido. Esta página é para aqueles que se interessam pelo pensamento metódico, sistemático, empírico e isento. Isto não significa que as pessoas não se zanguem com o estado das coisas. Não significa que as pessoas não tenham os seus quadros normativos. Significa apenas que nós estamos aqui para desmitificar as ciências sociais. Fazemos isso indagando, investigando, maravilhando-nos com o mundo social. Há mais respostas do que perguntas no nosso mundo. Ajudem-me a procurar pelas perguntas!

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Secretismo e democracia supérflua

Retirei o que se segue da página "Imensis". Dá para tema de trabalho de fim de curso.

"Vilas poderão ascender à categoria de municípios

2007/01/29

O Ministro de Administração Estatal, Lucas Chomera, garantiu que o processo de levantamento de possíveis vilas que poderão ascender à categoria de municípios já se encontra na sua fase final.

Este governante explicou que neste momento estão a decorrer sondagens para o efeito, incluindo consultas aos Governos provinciais, a entidades locais e outros sectores da sociedade relevantes, para garantir que o processo de identificação destes locais decorra com rigor e de forma mais consensual possível.

Segundo explicou, logo que o processo terminar, as propostas serão submetidas à Assembleia da República, órgão de competência para deliberar sobre a matéria. `O levantamento já foi feito, incluindo os locais propostos já existem´, garantiu.

Solicitado a indicar os nomes de possíveis locais a ascender à categoria de municípios, Lucas Chomera disse que não era oportuno e que ao fazer tal revelação, estaria a usurpar as funções dos outros órgãos.

`A Assembleia da República vai divulgar esta informação´. Recorrendo ao Plano Económico e Social (PES 7), Lucas Chomera explicou estar claro que uma das tarefas do MAE é fazer o alargamento do número das autarquias e, por essa razão, o gradualismo terá que se materializar.

Quanto à avaliação do desempenho dos 33 municípios do país, o entrevistado afirmou que: `penso que de uma forma geral a autarcização só trouxe ganhos ao país, porque estando sob pressão, o presidente de um município esforça-se para provar o seu desempenho e, esta competição obriga que estes apresentem resultados palpáveis´.

Salientou que os municípios, de um modo geral, ainda enfrentam constrangimentos, como sejam a onerosidade da manutenção das suas infra-estruturas, numa altura em que os recursos financeiros disponíveis estão ainda longe de satisfazer a magnitude dos problemas que as autarquias atravessam.

Precisou que o Governo tendo consciência disso tem vindo a ajudar os municípios a mobilizar recursos adicionais, tanto do orçamento do Estado como da comunidade internacional.

Como exemplo desse esforço, o ministro da Administração Estatal, indicou que a melhoria de abastecimento de água que está acontecer nas grandes cidades do país, resulta da intervenção do Governo central. `Temos grandes projectos para o melhoramento de sistemas de drenagem, que contam com o apoio da União Europeia. Também o Banco Mundial está a financiar projectos de reabilitação de infra-estruturas em oito municípios e esperamos que esta parceria venha a ser facilitada com a presença do representantes do Estado, a serem indicados pelo Governo´, disse.

Quanto ao processo de preparação dos processos eleitorais que se avizinham, nomeadamente as eleições para as assembleias provinciais do corrente ano, as autárquicas de 2008 e as gerais do ano seguinte, a fonte explicou que segundo a nova legislação eleitoral, desde 1999 o Secretariado Técnico de Administração Eleitoral deixou de ser um órgão tutelado pelo MAE, dai que o órgão executivo para preparação das eleições é o STAE em primeiro lugar, no que se refere a aspectos logísticos.

`Nós, como Governo submetemos a proposta de Lei das Assembleias Provinciais que foi aprovado, já submetemos a proposta da Lei Eleitoral para as assembleias provinciais e esperamos que na próxima sessão de Março seja aprovada´, informou.

Explicou que também estão sendo criadas outras condições de mobilização de recursos internos e externos, facilitação, mobilização de governos locais e provinciais para que todas as operações ligadas às eleições decorram da melhor maneira.

Segundo Lucas Chomera depois das eleições provinciais, caberá ao seu ministério proceder à sua instalação e meios para o seu pleno funcionamento..."

Este é um desabafo geral. Como investigador, um dos maiores problemas que tenho tido na realização do meu trabalho é o do secretismo. Com a excepção da “população” é difícil encontrar alguém disposto a ser entrevistado para um trabalho científico. Muitos dizem que têm que pedir autorização aos seus superiores hierárquicos. E a autorização, escusado será dizer, poucas vezes vem porque os chefes, presumivelmente, também estão a pedir autorização. Existe uma cultura séria de secretismo que me parece difícil de explicar. É incompetência? Insegurança profissional? Falta de conhecimento sobre a evolução política do país? Leio notícias sobre casos sérios – por exemplo, o director do parque transfonteiriço do Limpopo demitiu-se – e o artigo está escrito com base em depoimentos de um director do Ministério do Turismo que quer ficar no anonimato. Precisamos de uma sociologia do rumor?

O meu desabafo vem a propósito da notícia acima. O Ministro da Administração Estatal recusou-se a divulgar os nomes das vilas que estão a ser consideradas para ascenderem ao estatuto de municípios. Porquê, meu Deus, porquê? O que custa dizer "estamos a considerar a vila X e Y; os critérios que estamos a usar são estes; os órgãos de direito estão neste momento a ver se essas vilas satisfazem os critérios ou não". Lembrei-me de um alemão que dá aulas numa academia militar que me disse que a verdadeira função do segredo não é de privar os serviços secretos de outros países de informação, mas sim de manter a própria esfera pública desinformada. Os outros serviços secretos sempre vão saber! O Ministro explica que não é oportuno divulgar os nomes das vilas e não quer usurpar as funções dos outros órgãos. Faz sentido isto? Suponho que uma função do secretismo seja de privar a esfera pública dos critérios – se é que existem – por detrás da decisão sobre o assunto. E isso só pode empobrecer a própria decisão.

E, de facto, quando continuamos a ler a notícia notamos que há problemas sérios do âmbito da sociologia política. A mentalidade com a qual se está a romper em Xipamanine (e que comentei ainda hoje) mantém-se viva no Ministério da Administração Estatal. Não são as províncias que querem ter assembleias provinciais e que, portanto, devem reunir as condições para esse efeito. O Governo vai disponibilizar tudo. Não faz sentido. Ou melhor, é do pelouro do patrimonialismo. Mas lá está, em ambiente de secretismo que caracteriza as nossas coisas as vozes críticas só são ouvidas quando já é tarde demais. Isso torna a democracia supérflua.

Ciências sociais e autoridade

Antes de emitirmos opinião

No jornal „Canal de Moçambique“ de hoje li uma notícia com o título “Município de Maputo vai reajustar taxa de lixo” com extractos de uma entrevista concedida pelo médico João Schwalbach, vereador para a área de salubridade. Eis duas passagens curiosas:

[D]e acordo com os dados estatísticos feitos pelo CMCM, actualmente o pobre paga mais caro que o rico, chegando em alguns casos a pagar as despesas do mesmo

Era mesmo isso que ele queria dizer? O CMCM faz dados estatísticos? Não os apura? Não os recolhe? Faz dados estatísticos?

A produção média de lixo por dia de um munícipe das cidade do cimento (Sommerschield por exemplo), é de 1,6 kg, e na zona suburbana não se chega a 0,5 kg por dia. Entretanto estão todos a pagar a mesma taxa”.

Extraí esta passagem para voltar a chamar a vossa atenção para uma coisa muito importante: nunca comentem coisas sobre as quais receberam informação incompleta. Comentem as lacunas na informação. Deixem os comentários sobre coisas incompletas aos que não precisam de pensar para emitir opiniões. Aprendam a problematizar a própria informação. É importante. Importantíssimo. A segunda citação fornece bom material para exercitarmos essa faculdade.

Primeiro, podíamos reflectir sobre a palavra “produção” em “produção média de lixo”. É provável que seja apenas um uso metafórico. Mas é? De que outra maneira se pode dizer o mesmo? Porque não se diz assim? Que mundo é evocado pela opção por esta palavra? Segundo, podíamos reflectir sobre a função da ilustração na comparação que se faz. Compara-se a zona suburbana e a zona da cidade cimento e acontece uma coisa muito interessante: o exemplo da cidade cimento é a Sommerschield. O exemplo da zona suburbana é nenhum. Curioso. Está a falar de uma medida média e compara dois casos extremos, nomeadamente a Sommerschield e, digamos, Xiquelene. Aqui falta informação. Por exemplo, em que condições é “produzido” o lixo, que tipo de lixo, que atitudes têm as pessoas que “produzem” o tal lixo em relação à higiene e salubridade, etc. Sem ver os dados estatísticos que o vereador “fez” ou a forma como eles foram “feitos” recuso-me a comentar o que ele diz. Terceiro, devemos pensar duas vezes antes de aceitarmos a frase “entretanto estão todos a pagar a mesma taxa” como a conclusão de um argumento. Bom, na realidade a conclusão é de que não podem todos pagar a mesma taxa de lixo. A informação na base desta conclusão é pouca; ela não permite nenhuma conclusão.

Uma boa parte do que fazemos em ciências sociais de uma forma geral e em sociologia de forma particular é problematizar o que nos é dado como revelação da realidade. Quem não é capaz de fazer isto ainda não reúne as condições para reclamar o título de cientista social. Tenho visto em vários debates, fóruns e, claro, na nossa imprensa intervenções de jovens cientistas sociais alheios à necessidade de se informarem sobre as coisas que comentam. Alguém menciona um estudo sobre não sei quantos, todos põem-se a comentar sem a mínima preocupação de dar uma vista de olhos ao estudo em questão ou então de contextualizarem o seu comentário com a informação de que não leram o estudo. Apoiam-se simplesmente no senso-comum. Para que lhes servem os anos de estudo em ciências sociais? Apenas para “autorizarem” as suas opiniões?

Do lixo à revolução

Eis uma notícia extraída do jornal O País Online:

Cidadãos agem para transformar Xipamanine

28/01/2007

Moradores e vendedores do mercado Xipamanine, na cidade de Maputo, iniciaram este sábado uma campanha de limpeza naquele bairro para acabar com o lixo que abunda na área.

“O mercado e o bairro de Xipamanine vão ter nova cara” asseguram os vendedores e moradores que com ímpeto abraçaram o projecto que visa limpar todos os dias o bairro e o mercado.

Mais de 150 mulheres aderiram à iniciativas e dizem que já não adianta esperar pelo Conselho Municipal para a recolha de lixo, por isso, arranjaram uma camioneta de quatro toneladas que todos os dias a partir das 18 horas para fazer este trabalho:

Estas jornadas de limpeza vieram para ficar, segundo os mentores das mesmas. Mas por seu lado, o conselho Municipal também comparticipou na iniciativa ao disponibilizar uma escavadora que ajudava a recolher o lixo para os camiões.

A limpeza começou este sábado por volta das 06:00 horas e foi acompanhada por cânticos.

Este é capaz de ser um dia muito importante na história de Moçambique: o dia em que a mentalidade mudou. Parcialmente. A mudança mais espectacular é a que diz respeito ao segundo sublinhado. Com efeito, nunca adiantou esperar por seja quem for. A nossa vida e o nosso bem-estar são nossos assuntos. Xipamanine percebeu isto e oxalá que infecte o resto de Moçambique até ao ponto em que o próprio sistema político abandone a ideia de que ele é o responsável pelo bem-estar das pessoas, asfixiando-as na sua iniciativa e subtraíndo-se do seu controlo. Espero que esta notícia seja verdadeira. Os que se interessam pela sociologia política deviam prestar muita atenção ao que está a acontecer em Xipamanine. Cheira à revolução (melhor do que a lixo...).

A notícia é capaz de ser verdadeira, pois o primeiro sublinhado é mesmo característico. Lá está a maneira moçambicana de resolver as coisas: de uma vez por todas! Isto deve ser do interesse dos que gostam da metodologia das ciências sociais: a forte presença da teleologia na abordagem das coisas da nossa vida. Acabar com... a vida social presta-se a esse tipo de abordagem? Quais são as consequências práticas e teóricas das “soluções finais”? de onde vem a teleologia na nossa vida? do espírito missionário e civilisatório do colonialismo? do lado messiânico da nossa história que colocou alguns indivíduos na posição de obreiros do nosso bem-estar? da indústria do desenvolvimento? dos pastores da IURD? da psicologia ensinada nas nossas universidades privadas?

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Novo visual!

Não se assutem. Estou a responder tardiamente aos avanços da tecnologia. Um dia também vou colocar fotos... e "links" mágicos para textos armazenados não sei aonde. Um dia.

A caixa de ferramentas do sociólogo

Voltando ao nosso novo tema...

A diferenciação social

Uma sociedade não é algo uniforme. Ou melhor, a ideia de uma sociedade uniforme é problemática. Uma sociedade pode ser igualitária no sentido de distribuir oportunidades de forma equitativa e ignorar, talvez, hierarquias. Isso, contudo, não lhe confere o estatuto de algo uniforme. Em qualquer grupo humano existem sempre diferenças. Os efeitos dessas diferenças podem ser diferentes de grupo para grupo, mas elas existem. Não quero, obviamente, com isso dizer que as diferenças fazem parte da ordem natural das coisas. Não sei o que faz parte da ordem natural das coisas. Só sei que existem diferenças e, acima de tudo, que essas diferenças são fundamentais para a compreensão de uma sociedade.

O conceito que utilizamos em sociologia para cuidar das implicações descritivas e analíticas das diferenças é o conceito de diferenciação social. Trata-se de um conceito extremamente importante, independentemente da opinião que cada um de nós possa ter em relação à distinção entre sociologia macro e sociologia micro. Na verdade, o conceito parece fazer parte da sociologia macro, isto é, a parte da sociologia que se interessa pela totalidade bem como pelas relações que as totalidades estabelecem entre si. No fundo, o interesse pela estrutura social vem daí. Já estou a divagar. Voltando ao nosso assunto: a diferenciação social é importante porque ela chama a nossa atenção para a relevância das diferenças no interior de uma sociedade.

O grande problema tem sido de explicar de onde vem a diferenciação social. Existem basicamente duas posições, ambas com implicações para a forma como olhamos para as suas implicações na sociedade. Uma é materialista e defende que os processos sociais são determinados pela nossa capacidade de intervenção no mundo. As abordagens marxistas, por exemplo, com a sua insistência na importância do modo de produção na estruturação da sociedade, são um excelente exemplo disso. Delas herdámos conceitos valiosos como o de classes, luta de classes, estrutura e super-estrutura bem como, naturalmente, relações de produção e factores de produção. Refiro-me apenas a alguns conceitos imediatamente úteis ao nosso tema de estrutura social. A outra posição é idealista – era de esperar – e defende que a nossa capacidade de apreensão do mundo é que determina os processos sociais. É a ideia que nós temos do mundo que transforma o mundo. As abordagens weberianas têm sido colocadas neste grupo, sobretudo por causa do famoso livro sobre a ética protestante. De Weber herdámos conceitos importantes como camada, extracto, estatuto, conduta e autoridade. Aqui também refiro-me apenas aos conceitos úteis à estrutura social.

A opção entre uma e outra posição é coisa individual e depende muito das preferências do professor de sociologia que consideramos mais simpático. Para mim, e para os efeitos imediatos da reflexão sociológica, a questão virou assunto que se pode discutir com a mesma utilidade com que se pode discutir o problema do ovo e da galinha. Quem nos ajuda a ignorar este assunto para o bem da recuperação do interesse descritivo e analítico é Durkheim. O sociólogo francês fala da divisão social do trabalho e faz, efectivamente, a estrutura de uma sociedade depender dessa divisão. Os conceitos provenientes das posições materialistas e idealistas não perdem a sua utilidade. Antes pelo contrário, é justamente aqui onde já podemos começar a usá-los com proveito. Durkheim tem sido utilizado para legitimar classificações de sociedades na escala evolucionária ao bom estilo da macro-sociologia. Em minha opinião, contudo, isso é desperdiçar o que ele nos oferece de bandeja.

A relevância de Durkheim está no facto de ele identificar o mecanismo que produz as diferenças de que falávamos alguns parágrafos mais acima. Com efeito, a distinção que ele faz entre solidariedade mecânica e solidariedade orgânica não quer dizer que no primeiro tipo de solidariedade não haja diferenças. Ele está apenas a dizer que efeito é que as diferenças têm na sociedade. Assim, o tipo de divisão social de trabalho que existe numa sociedade, digamos, simples, faz com que as relações sociais sejam reguladas pela reciprocidade imediata e pela cooperação em contextos que dão destaque aos quadros de referência imediatos e fechados, nomeadamente os laços de parentesco, as crenças religiosas, a afinidade étnica.

No fundo, podemos entender Durkheim como estando a marcar TPC para todo o sociólogo que se preze em Moçambique: como é possível regular as relações sociais com base em subsídios extraídos da solidariedade mecânica num contexto social tão orgânico como o Moçambique de hoje? Estou a supor que a minha leitura do contexto e das relações sociais sejam correctos. Esta é a pergunta que nos vai ocupar.