Anomia (9)
A palavra “linchar” vem da América. Viveu em Virgínia, no século XVIII, um indivíduo chamado William Lynch que se declarou juiz e organizou processos sumários contra indivíduos considerados criminosos. Isso foi durante a guerra da independência e, naturalmente, a maior parte dos criminosos provinha da parte daqueles que eram pela manutenção do estatuto de colónia britânica. Os processos não eram realmente processos. Eram apenas formas expeditas de confirmar a “vontade” das massas. Não deve ser difícil perceber isto porque nós também tivemos um caso com este tipo de justiça nos gloriosos anos revolucionários. “Hikuvayini?” – que fazemos com eles? – perguntavam “responsáveis” ao povo reunido em comício apontando para desgraçados quaisquer capturados como bandidos armados. “Oh, lesvi navona vahidhlayaka” – oh, se eles também nos matam...! – dizia o povo devolvendo a decisão aos responsáveis.
A discussão deste assunto em Maputo concentra-se em aspectos que me parecem menos relevantes para o combate à criminalidade. Uns dizem que os linchamentos acontecem porque as pessoas já estão fartas da ineficiência da polícia. Os que dizem isto estão a responder à pergunta de saber porque há linchamentos. É uma pergunta retórica que tem como objectivo obrigar as pessoas a concluir que o povo não tem outra alternativa senão se proteger com os próprios meios dos criminosos e da polícia. Outros dizem que os linchamentos acontecem porque as pessoas não respeitam a lei. Os que dizem isto estão a responder à pergunta de saber porque as pessoas se colocam à margem da lei. É também pergunta retórica que tem como objectivo levar as pessoas a concluir que sem o respeito pela lei é impossível combater a criminalidade. É uma discussão de surdos e mudos que passa por cima do que está em questão.
O que está em questão é saber, julgo, porque pessoas normais como eu e o leitor deitam fogo a uma outra pessoa. Nem todos que se sentem desprotegidos pela polícia deitam fogo a toda a gente de que suspeitam. Então, porque umas pessoas fazem isto? O que eu estou a sugerir com estas interrogações é que os problemas que enfrentamos no nosso País sugerem várias questões e que nós temos a tendência de escolher as questões de fácil resposta. Mais uma vez, porque um indivíduo faz justiça com as próprias mãos? O problema, apresso-me a dizer, não é apenas moçambicano. Na África do Sul, Quénia, Nigéria, Gana, Botswana, etc. o problema da justiça das multidões é real. Porque acontece isso? Satisfaz-nos a resposta de que é porque a polícia não funciona? Que ficamos a saber depois dessa resposta? Que a polícia não funciona? Mas não sabíamos isso? Porque fizémos a pergunta?
A minha resposta carece de elaboração empírica. Os linchamentos acontecem pelas mesmas razões que o crime acontece. Ou melhor, linchamos, damos “cabeçada”, montamos “esquema”, fazemos uma “batida” ou “jogada” porque existe oportunidade para tal. A ocasião é que faz o ladrão. A ocasião do linchamento é o ambiente de multidões informes que fazem as nossas áreas suburbanas – mercados, praças – centenas de pessoas consumidas pelo ócio e que não têm outra maneira de atribuir importância ao seu quotidiano senão juntando-se a todo o movimento espontâneo que lhes dê conforto na ideia de que a sua integridade individual está em perigo e é imperioso salvá-la. O linchamento é o produto egocêntrico da atomização da nossa existência. É o tipo de comportamento que a convivência forçada em espaços sociais sem sentido torna possível. Não há música na existência daqueles lugares; apenas notas soltas, desafinadas feitas de cadências individuais, desmembradas e sem referência a nenhuma pauta comum. Não há padrão. O que passa por padrão é efémero e consolida-se no cancelamento da razão, propiciado pelos nossos hábitos quotidianos de pensar que atribuem pouca importância à prova e ao processo de apuramento da verdade. Com efeito, a verdade está no comportamento da multidão, naquilo que “toda a gente sabe”. É uma “orgia dos loucos” para parafrasear Ungulani Ba ka Khosa.
O Ministro do Interior prometeu punir os que fazem isso. Prometeu. Se os apanhar. Disse que apanhou alguns. A questão não é punir. A questão é convencer as pessoas que os que fazem linchamentos e foram apanhados são punidos. Vai ser difícil fazer isso porque a punição de desgraçados não conta como punição. Portanto, o mais provável é que as pessoas concluam que a polícia está contra os desgraçados, indefesos e desprotegidos. O Estado precisa de manter a legalidade, mas enquanto o problema central não for abordado, nomeadamente o da oportunidade do crime, vai ser difícil. É um dilema. Maldito se pune, maldito se não pune.
Sugiro uma reflexão sobre os seguintes assuntos:
- quais são as características sociais dos lugares onde há crime?
- qual é a relação estrutural entre crime e sociedade?
2 comentários:
Bom dia Professor
O meu objectivo nao é o de responder às questoes, por si, sabiamente colocadas, no fim do seu magnifico texto, mas, fazer sim, algumas observaçoes sobre aspectos que me pareceram relevantes. Assim, o meu interesse centra-se, praticamente, sobre a palavra “ocio” , daí as questoes seguintes: porque estarao tais pessoas consumidas pelo ocio? O que as leva a agruparem-se ociosamente nas areas sububurbanas? Serao estas pessoas verdadeiramente ociosas? Ou serao fruto da realidade social de Moçambique? Noutros termos, nao sera o contexto social e politico de seu pais que induz às “praças de ocio”? Serão estas praças lugares fisicos onde se produz o “nada”? Serao estas “praças de ocio” “Lugares que não existem”? (usando suas proprias expressoes) Por ultimo, neste contexto, qual é a relaçao entre a produçao do “nada” e os linchamantos?
Ah! outra coisa, o que sao “espaços sociais sem sentido”?
cordialmente,
Iolanda Aguiar
boas perguntas!
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