Estamos mal, muito mal mesmo. Através do Moçambiqueonline obtive o texto que reproduzo logo a seguir. Foi extraído do nosso querido jornal Notícias e parece ser parte de uma crónica. Ainda estou a abanar a cabeça. Se nem mesmo nós que estamos formados dificilmente nos conseguimos libertar desta maneira bastante perniciosa de pensar, que dizer daqueles que não se formaram? Não estou a querer dizer que os outros sejam burros (também depois de ler esta “crónica” não me posso permitir mais esse luxo), nem mesmo a dizer que o conhecimento científico seja o único que conta. Isso até nem é interessante. O que me preocupa neste texto é a própria promoção da superstição, uma promoção que até devia fazer corar de vergonha a própria superstição pela fraca qualidade de reflexão.
Resolvi pegar neste texto e reflectir sobre as suas implicações. Tenho dois objectivos. Um é de abrir uma frente contra a superstição. O outro é de abrir uma nova rubrica neste blogue – depois da caixa de ferramentas do sociólogo, fenómeno da bicha e fala sem consequências – que vai ter o nome de “o direito à razão”. O direito à razão refere-se à obrigação que devia pesar sobre toda a gente que se pronuncia publicamente para o fazer da forma mais racional possível. Ouvir e ler argumentos com cabeça, tronco e membros devia ser um direito humano, sobretudo na nossa esfera pública, onde proliferam verdadeiros atentados à razão. Vou me alongar um bocado na reflexão sobre o artigo que se segue pelo facto de se tratar do primeiro, mas também por se tratar de um tema que melhor do que qualquer outro resume o problema que quero atacar: a superstição. É horrível.
Não quero dizer que haja explicação científica para tudo. O que distingue a ciência das outras formas de produção de conhecimento é justamente a modéstia em reconhecer que há coisas que não sabe explicar. O que quero dizer é que devia haver consenso na nossa esfera pública para falarmos publicamente com base em coisas que cada um de nós pode verificar e estão de acordo com o que nos ensinam na escola sobre a constituição da natureza. E se chegarmos a esse acordo, gostaria de sugerir que nenhuma publicação séria desse espaço a este tipo de charlatanismo. Faz mal ao País, às nossas mentes e expõe-nos desnecessariamente ao ridículo. Gostaria tanto que este tipo de coisas fosse do pelouro privado e individual. Leiam o “artigo” primeiro e vemo-nos mais abaixo:
Esta crónica fala de adultério, uma prática milenar que atravessa épocas e gerações. Um tema de todo inesgotável e, quiçá, apaixonante. Foi assim: a ambulância vinha do Ile a grande velocidade, com a sirene ligada "pedindo licença". Entrou no Hospital Rural de Mocuba e, estranhamente, não parou na fachada frontal para retirar os pacientes. O guarda abriu o segundo portão e a ambulância seguiu até os fundos do edifício, num ponto pouco movimentado pelos utentes. Este facto levantou alguma estranheza e suspeita aos presentes, pois à partida, parece que se pretendia "esconder" algo. No entender das pessoas, "das duas uma": a ambulância estacionaria na morgue, em caso de transportar cadáveres (estávamos no tempo de guerra), ou então na fachada frontal - Banco de Socorros- no caso de outros doentes. E contrariamente ao que poderia se supor, afinal, o "esconder" da ambulância lá nos "confins" do edifício acabaria por espevitar certa curiosidade dos presentes. Ora, quando a ambulância estaciona é logo cercada por serventes e enfermeiros. Ao abrirem as portas, depararam-se no interior com algo que aparentemente não previam, algo para a qual não estavam preparados! Ou seja, não se tratava de vítimas de guerra, nem doentes de cólera e muito menos de crianças malnutridas. Eram "pacientes" invulgares. Tratava-se de duas pessoas unidas. Um homem e uma mulher, "colados" na zona púbica. Estavam "tipo" siameses, a única diferença é que não
eram siameses de nascença. Eram pessoas adultas que se tornaram siameses de um momento para o outro! Vinham do distrito do Ile. O hospital local tinha "desconseguira" desunir aquilo que a magia negra tinha juntado! Os enfermeiros daquele pequeno hospital ficaram totalmente desnorteados e rendidos pelas evidências da magia africana. Contudo, o Hospital Rural de Mocuba, granjeava fama de ter um bom médico, que inclusive, recebia pacientes do Provincial de Quelimane! Tratava-se de um cirurgião com boas referências. E foi a pensar nas qualidades profissionais desse doutor, que se pensou em transferi-los do Ile a Mocuba. Acreditava-se que ele iria separá-los com sucesso. Quando o "sô doutor" foi ver aqueles "doentes" , não encontrou explicação cientifica para que tal tivesse ocorrido. Na sua longa experiência de médico, nunca tinha lidado com igual caso. Um caso, diga-se, que chamou à si toda a atenção do pessoal hospitalar, desde enfermeiros até os serventes. A vinda daqueles "siameses" alterou significativamente o ambiente de trabalho colectivo daquele hospital. E como era de esperar, o "caso" foi transportado para fora do hospital. Rapidamente, a notícia foi espalhada aos quatro ventos, num sistema de "telefone sem fio", (nessa altura o celular era ainda utopia). Não é fácil descrever as múltiplas reacções das pessoas sobre esta ocorrência, que não tardaram em se fazer ao local ávidas de ver "in loco" o par "colado", um fenómeno que teve imediatamente, interpretações na crença da magia africana. Ficou logo assente que os "siameses" estavam na prática do adultério e promiscuidade. Foi necessária uma mão dura dos enfermeiros para impedir que a enfermaria que internava o "casal" fosse invadida. Foi vedada qualquer entrada ao referido quarto. A agitação dos mirones lá fora era enorme. Todos queriam ver....Como se tratasse de um caso delicado, revestido de muita superstição, o médico usando o seu bom-senso, preferiu não arriscar na operação. Assim sendo, transferiu-os para o maior hospital, o de Quelimane. E como era no tempo de "motho-motho" (de guerra), a viagem foi feita de avioneta dos "Médicos Sem Fronteira" dos franceses. Chegados a Quelimane, a separação dos corpos unidos não aconteceu, porque tecnicamente era desaconselhável. A realizar-se, seria uma operação de grande risco, para ambos. Enquanto isso, lá na terra, no Ile, vendo que escasseavam alternativas hospitalares, a família da mulher colada", fez das "tripas coração": constituiu uma comissão para dialogar com o "compadre" – verdadeiro marido da senhora "colada" - indivíduo que detinha a "chave" de todo o segredo da união. Só ele tinha poder e competência para separar os amantes adúlteros. Como era de esperar, a comissão familiar foi enxovalhada pelo marido da adúltera. Não foi fácil. Mesmo assim, o grupo rogou de joelhos e, finalmente, o homem meteu a mão no bolso do seu calção "kaki" e retirou um canivete velho fechado. De seguida abriu-o! Nesse instante, lá ao longe, em Quelimane, também os corpos desuniam inexplicavelmente(?). Sem qualquer intervenção cirúrgica, depois de quase duas semanas!
O homem explicou que ele e sua esposa- colada a outro homem- tinham decidido livremente celebrar um "trato" contra o adultério, pois se amavam como "Romeu & Julieta". Procuraram um curandeiro que lhes fez as vontades: de jamais se traírem. O carimbo que legitimava este acordo era o canivete, que uma vez fechado, qualquer infidelidade seria prontamente denunciada. Seria perigoso violar este entendimento. A mulher, mesmo sabendo das consequências, tal como na tentação de Adão e Eva, relatada no Génesis (o primeiro livro da Bíblia), ela acabou comendo a fruta proibida, acto praticado à luz do dia nos canteiros da machamba de mandioca. E, tudo o resto que se seguiu foi a factura da infracção cometida! E você, caro(a) leitor(a) acredita ou não na magia africana? Albino Moisés
Vou fazer tempestade em copo de água, mas parece-me necessário. Qual é a utilidade desta estória? Será que o desiderato de chamar a atenção da sociedade contra a prática do adultério justifica e legitima a violação do nosso direito à razão? A pessoa que escreveu este texto frequentou mesmo a escola? Assistiu aulas de biologia? Sabe que o pénis entra grande e, se for sem viagra, depois de algum tempo fica pequeno e “sai”? Sabe que a vagina é músculo e, como tal, para “prender” um pénis durante muito tempo sem se descontrair só pode estar a “disfuncionar”? E se for esse o caso, é mesmo provável que o médico não faça a mínima ideia do caso que tem em mãos? Pensou o autor da prosa nas necessidades biológicas (menores e maiores) das pessoas “presas”? Acredita ele na possibilidade de uma pessoa passar “duas semanas” sem poder fazer essas necessidades e, miraculosamente, ficar bem assim que alguém abre um canivete? Pensa sinceramente que está a contribuir com utilidade para a nossa esfera pública?
O problema deste texto, mas também o problema da nossa esfera pública, reside justamente na nossa credulidade. Este tipo de estórias é possível porque muitos de nós assumimos a atitude de que “tudo é possível” porque “nunca se sabe”. Isto é mau. Não é verdade que tudo é possível, ou melhor, aquilo que não é compatível com o que a ciência nos diz não é possível. Isto é, antes de darmos o benefício da dúvida a este tipo de relatos temos que fazer recurso ao que o conhecimento científico nos diz. Atenção que não estou a dizer que o conhecimento científico sabe tudo ou que não seja passível de revisão. Estou simplesmente a dizer que devíamos resistir sempre à tentação de dar plausibilidade às coisas com base na atitude de que “tudo é possível” ou “nunca se sabe”. Esta estória explora ao máximo esta atitude.
Coloquei em itálicos várias passagens do texto para chamar a vossa atenção ao que acho problemático. Não vou, é claro, analisar cada itálico, mas gostaria de dizer algumas coisas sobre a base de plausibilidade desta estória. Já indiquei que a nossa credulidade é um problema. O relato explora esta credulidade com o recurso a estratégias narrativas que nos convidam a completar supersticiosamente o que está subentendido. Começa, por exemplo, por anunciar que se trata de um texto sobre o adultério. Na verdade, porém, o texto não é sobre o adultério, mas sim sobre se não haverá razões fortes para acreditarmos na ideia da existência de uma “magia africana”. Continua construindo um cenário de chegada dos dois corpos num ambiente de sigilo cuja razão de ser não é realmente o relato do que aconteceu, mas preparar o terreno para nos levar a pensar que, de facto, estamos na presença de um caso real, mas misterioso, que ninguém conseguiu manter no sigilo.
Prossegue dando destaque ao facto de o Hospital Rural de Mocuba dispôr de um excelente médico o qual, apesar de todas as suas qualidades, se revela incapaz de resolver o assunto. Isto tudo não precisa de corresponder a nenhuma verdade de acontecimentos, é tudo premeditado para nos dar a entender que a bio-medicina atinge os seus limites onde entra em confrontação com a “magia africana”. Daí a fantasia de que os corpos foram transportados para Quelimane – e para dar côr ao relato, numa avioneta da MSF – onde no hospital maior (esquece-se, entretanto, que tinha dito que o médico de Mocuba era o mais apto...) se chega à conclusão de que o assunto é mesmo grave. A bio-medicina é impotente. Só depois destas voltas todas – duas semanas, não se esqueçam! – é que a família decide fazer o que nas zonas rurais de verdade em Moçambique é a primeira coisa que se faz, nomeadamente ir consultar um curandeiro. No mesmo instante em que o marido traído abre o canivete “enferrujado” (outra maneira de emprestar veracidade ao relato...) os dois corpos também se separam. Escusado será perguntar quem verificou que foi no mesmo instante.
Enfim, um verdadeiro atentado ao nosso direito à razão. Acho isto mau por muitas razões. A primeira razão é que este relato não é verdade. Nada disto aconteceu e parece-me irresponsável que alguém ande a espalhar este tipo de estórias. Segundo, o relato insiste nesta atitude bastante perniciosa de apresentar os africanos como pessoas irracionais que não sabem ver as coisas. Não sei a quem isto serve. Terceiro, isto corrompe os mais novos e os menos precavidos que vão continuar perdidos nas malhas do obscurantismo e superstição. Quarto, põe em causa todo o sistema nacional de educação e a sua tentativa de nos ajudar a apreender o mundo de uma forma que é acessível a todos nós e constitui base para o debate público. Rogério Sitoi, se estiveres a ler este comentário, por favor, poupa aos leitores do teu jornal este tipo de textos. Ninguém te vai acusar de estares a comprometer a liberdade de imprensa. Prefiro mil vezes que o jornal publique mensagens de saudações dos nossos vários partidos. Estou a supor que seja correcta a informação segundo a qual este texto foi publicado no jornal Notícias.
16 comentários:
Boa, caro elísio.
A afimação que se segue é sua,ei-la:
"Terceiro, isto corrompe os mais novos e os menos precavidos que vão continuar perdidos nas malhas do obscurantismo e superstição." Seria bom que a autora do "Sétimo Juramento"-Paulina Chiziane, lesse esta frase. O debate seria, certamente, muito rico.
sim, ilídio, mas penso que podemos atenuar as nossas exigências quando se trata de ficção declarada. e este é o problema com este texto, iolanda, um texto da autoria de albino moisés e não de rogério sitoi. devia ter explicado. o rogério sitoi é o director do jornal em questão. coitado dele, é uma pessoa culta e racional que não ia escrever coisas assim. pronunciar-se de forma racional é dizer coisas que podemos verificar empiricamente. quando a plausibilidade de um relato depende da minha credulidade a base racional desaparece da comunicação. o meu direito à razão é a obrigação que os outros têm de falarem coisas racionais, isto é empiricamente verificáveis. a relação que isso tem com a superstição é de que esta última viola as regras da comunicação racional. a superstição é horrível assim como os atentados à razão. repare que não estou a dizer que as pessoas não se possam enganar. o erro não é um atentado ao meu direito à razão. antes pelo contrário, podemos continuar a discursar. a superstição é.
No texto, o prof. afirma categoricamente que a estória não é verídica. Pode ser. Mas o mais preocupante para mim é a sua intolerância em relação a outras ecologias de saberes.
É verdade que aos olhos do racionalismo esse texto não existe. Pior, a pessoas também nem teria direito de existir!
A intolerância a outras formas de produção de conhecimento pode fazer perder muito conhecimento. E, provavelmente, essa estória teria um valor educativo e moral muito mais rico, se tivesse sido aproveitado doutra maneira, como por exemplo, explorando as consequências do adultêrio.
Ora, umas perrguntas:
1.Acha o Prof. que usando os mesmos critérios de validação (portanto, científicos)a factos que chama superticiosos, é capaz de aferir alguma plausibilidade no seu relato? Para já, o Prof. chama de "superstição", à tudo o que racionalmente não se explica e por via disso, acusa outros saberes de "ocultos".
2. O que a ciência não explica, não existe?
3.O Prof. acredita em alguma coisa? Como chega à essa cenç?
4. É importante termos razão para acreditarmos nalguma coisa ou nalgum acontecimento?
5.Acha que tudo deveria passar pelo crivo da racionalidade ceintífica para que exista?
6.Quais são os limites da explicação científica? Ou não tem?
Na verdade, se calhar, também sou um grande supersitioso. E provavelmente ela é funcional à nossa existência. Um dia falou numa revista MAIS sobre a sorte, que é funcional. A supeprtição também pode ser.
Rectifico a citação: não foi na revista mais. Foi na Revista POSITIVA.
oh, egídio, o artigo de que fala é todo ele irónico do princípio ao fim! eu estava justamente a dizer que o nosso problema é de atribuir tudo à sorte e não ao esforço individual. são muitas as perguntas que faz. e centrais. ontem li no seu blogue que o líder da oposição tinha tido um acidente de viação. acreditei. se o egídio tivesse escrito que o líder da oposição havia sido visto a voar para a catembe abanando apenas os braços, não teria acreditado. e sabe porquê? não porque isso não seja possível. não. não teria acreditado porque viola o que eu sei sobre a estrutura da realidade. bom, nesse sentido, devo introduzir uma restrição - que está no meu texto - a saber que a ciência torna certas coisas possíveis e outras não. daí, então, a minha afirmação categórica. a história que reproduzo aqui não é possível. é totalmente implausível. egídio, a ciência não sabe tudo. é charlatão o indivíduo que afirma isso. a ciência sabe que não sabe tudo. o charlatão, pelo contrário, vive daqueles que por terem consciência de que não sabemos tudo têm receio de fazer recurso à racionalidade científica para apreenderem o mundo. é esquizofrénico. sou intolerante em relação a tudo o que é oculto e gostaria tanto que um bom número de moçambicanos também o fosse. já reparou que nenhuma dessas histórias é contada por alguém que as viveu? um velho curandeiro de chicumbane, perto de xai-xai, que entrevistei no âmbito de um trabalho de pesquisa em sociologia de religião disse-me uma vez o seguinte: "não há maus espíritos. só há pessoas más". pense nisso, esses tipos são muito mais inteligentes do que alguns de nós. e sabem o que fazem.
iolanda, o problema está justamente aí. o albino moisés, pelo que percebi e pelo que sei da nossa esfera pública, não está a contar uma estória fictícia. e se prestares atenção à reacção do egídio verás também que o texto em questão não é obra de ficção. no contexto onde o texto está a ser circulado não se está a partir do princípio de que se trate de ficção. mas não duvido das qualidades literárias do autor. só que isso não está em questão.
Ora bem Professor, porque nao disse logo de inicio? Este assunto (racionalidade/superstiçao) interessa-me, o que eu tentei fazer foi contextualisar-me, à partida. Pois, tentei compreender se o texto é um relato veridico ou uma ficçao. Assim ja comprendo sua indignaçao.
Pareceu-me que toda a critica do Dr Egidio é em torno do conhecimento previo das posiçoes assumidas pelo Professor Macamo, e noa propriamente sobre o texto.
Em resposta a uma afirmação do Prof. macamo "já reparou que nenhuma dessas histórias é contada por alguém que as viveu? " (antepenúltimo comentário), queiram por favor ir até o link que se segue para baixar o testemunho de Salimo Muhamed, que foi tratado por um curandeiro para ser invisível, quando, pela primeira vez, aventurou-se para África do Sul. E, nas suas palavras, o curandeiro mosrtou-se competente.
Siga:http://egidiovaz1.4shared.com/file/17806875/a0f75224
PS: Quis enviar por email mas não consegui carregar o arquivo.
"Lembra-se, a caminho de Gazankulu, daquele Boer que quase lhe esmagava os testículos com as botas e a arma?" (Pergunta do Jornalista)
-(Risos). Eu tinha sido tratado por um curandeiro para ser invisível. Um curandeiro que me provou depois que era muito bom. Ele disse-me que ia chegar ao meu destino. Numa das etapas da minha viagem a pé, de repente apercebo-me da aproximação de um carro da polícia que para muito perto do local onde eu estava escondido. Do carro desceu um boer [polícia], que se aproximou do arbusto onde estava agachado. Ficou menos de dois metros de mim, MAS O BOER NÃO ME VIU (letras maiúsculas são minhas. Eu à rasca, mas o boer não me viu. Foi aalgo fenomenal. Ficou um tempo interminável (acho queria dizer que ficou ali por muito tempo que até o punha desesperado) para ver se me via mas, nada. Voltou e entrar no carro e foi se embora. E notei que o curandeiro e os meus defuntos estavam comigo.
Salimo Muhamed, in Entrevista. Suplemento Cultural do Noticias. 13.06.07
egídio, por favor, não desonre a sua própria educação. obrigado por me ter enviado a entrevista e por reproduzir o excerto aqui. temos, então, um caso claro de alguém que viveu uma situação "inexplicável" pela ciência. temos mesmo? leia bem o excerto. salimo muhamed supõe que o polícia não o tenha visto por ele ser invisível em resultado da intervenção do curandeiro que o tratou. supõe. e ele não ficou à frente do polícia a dançar xigubo, mas ficou escondido atrás de um arbusto e segurou a respiração. é isto que quero dizer: estas estórias só fazem sentido por causa da nossa credulidade. ao invés de procurarmos saber, a partir do que sabemos da constituição da natureza, porque o polícia não o viu, supomos imediatamente que é porque ele era invisível. quando eu não vejo uma coisa não é porque ela seja invisível. é porque não a vejo. acho estranha esta credulidade.
Eu não quis, aqui defender nem Salimo nem o autor da crónica. Pura e simplesmente reproduzi uma passagem da entrevista, tentando responder à sua pergunta. Portanto, continuo, acho, fiel a minha educação.
Voltarei para responder ao seu comentário.
ok, não tinha percebido a intenção. as minhas desculpas.
o que achas, iolanda? acho mais útil que cada um de nós tente desenvolver as suas ideias a partir do pontapé de saída que dei. senão repito o que já escrevi ou está subentendido. qual é que achas que podia ser a relação entre educação e superstição? e racionalidade? a que educação estaria eu a referir-me quando pergunto se alguém foi à escola e assistiu aulas de biologia? vamos pensar juntos.
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