quarta-feira, abril 23, 2008

A gratidão (1)

Obrigado!

As recentes discussões aqui no blogue a propósito da série sobre o celular levaram-me a pensar que fosse útil prosseguir com este tipo de reflexão. Refiro-me, especificamente, à reflexão sobre as coisas do quotidiano, isto é as coisas que muitas vezes escapam ao olhar atento dos académicos e intelectuais. Infelizmente, na nossa actividade académica o nosso olhar está preso ao que, nos nossos círculos, está na moda. Somos mesmo reféns de paradigmas – como dizia Thomas Kuhn – e nessa condição corremos o risco de apenas repetir as mesmas perguntas para obtermos as mesmas respostas. Lançar o olhar para as coisas do quotidiano ajuda-nos a escaparmos disso, pois o quotidiano costuma apresentar-se através de formas que resistem à disciplina do projecto de pesquisa. O quotidiano vive a sua própria pujança criativa, espontânea, mas também estruturada.

Tanta palha para dizer que vou iniciar uma série de reflexão sobre a gratidão. Sim, essa coisa expressa pela palavra “obrigado” quando é dita com sinceridade. E como estou a atravessar uma fase simmeliana farei recurso ao pensamento do alemão Georg Simmel, cuja sociologia se baseou essencialmente na reflexão sobre estas coisas aparentemente triviais da nossa existência. Um dos seus textos mais interessantes foi sobre ... a gratidão! É um texto muito breve que ele publicou, inicialmente, num jornal. As ideias nele contido resistem à necessidade que eu tenho de as resumir para poder passar para as coisas que me interessam. Basicamente, porém, Simmel definiu a gratidão como uma espécie de teia que envolve a sociedade para equilibrar o toma-lá-dá-cá entre as pessoas. Normalmente, quando alguém dá alguma coisa, recebe algo em troca e que se supõe ter valor equivalente. Na actividade económica, por exemplo, este dar e receber é garantido juridicamente ou, em casos onde não exista um sistema jurídico digno desse nome, através de normas aceites por todos os intervenientes.

Simmel considera que as relações entre as pessoas são essencialmente relações entre objectos (trocados). Há, portanto, tendência de as relações entre as pessoas perderem muito da sua qualidade uma vez que os objectos passam a ser intermediários do valor que as pessoas atribuem à vida. Acho esta ideia interessante. Na verdade, é ela que me leva a reflectir sobre o significado de gratidão entre nós para saber até que ponto ela é, de facto, o cimento das relações entre as pessoas e o que isso significa para quem esteja interessado em perceber a substância da nossa sociedade. Este é um terreno difícil dentro do qual me embrenho sem a certeza de produzir ideias úteis. Mas para isso serve a academia, o blogue e a discussão com pares. Simmel fala da forma como a gratidão estabelece um vínculo no tempo entre as pessoas envolvidas. Aliás, a própria etimologia da palavra já sugere isso. O gesto de alguém estabelece uma obrigação em nós, obrigação essa que é, na verdade, um compromisso, uma dívida, algo que ainda vai fazer com que os nossos caminhos se cruzem.

A minha questão é de saber se é esse o significado de “obrigado” entre nós. É? O que é que estamos a dizer quando dizemos „obrigado“ a alguém? Como perguntaria outro grande sociólogo da minha preferência, o americano Erving Goffman, o que é que está a acontecer quando alguém faz uma coisa e outra pessoa diz “obrigado”? Obrigado o quê? Em que é que consiste este „obrigado“ do ponto de vista das normas e valores que estruturam a nossa sociedade, do significado que a relação com outros assume na nossa vida, da continuidade de Moçambique como sociedade, enfim, da substância do que faz de nós uma comunidade de destino e, porque não, de valores também? Penso que a reflexão sobre estas coisas precisa de passar por um olhar sobre o sentido vernacular que damos a estas coisas, condição que me parece cada vez mais essencial para a compreensão do nosso país.

Explico-me melhor. Cada vez mais acredito que vivemos em dois mundos bem distintos, cuja tensão parece ser o lugar onde a nossa identidade se constitui sem, contudo, nunca chegar lá. Não sei muito bem o que estou a dizer. De qualquer maneira, esta vida em dois mundos manifesta-se através de duas ordens de relevância normativa e estrutural dentro das quais nos movimentamos. Temos a ordem das nossas tradições culturais que constitui referência permanente, mesmo se mal a entendemos ou interpretamos. Ela está lá e insinua-se nas opções normativas que fazemos e na forma como encaramos as coisas da outra ordem, a saber a ordem, digamos, sobreposta que é, na verdade, o lugar de referência por excelência. Continuo a explicar-me. Digo “sobreposta” porque não me parece útil dizer “moderna” ou “externa” uma vez que não me quero, à partida, limitar no tipo e número de perguntas que preciso de fazer. As referências à cada uma destas ordens são bastante ténues, mas no nosso dia-a-dia partimos simplesmente do pressuposto segundo o qual elas seriam fortes e não problemáticas. É uma pressuposição algo arriscada, mas fazemo-la e as consequências disso deviam merecer maior atenção da nossa parte, sobretudo dos cientistas sociais.

Não se trata, portanto, de romantizar a tradição, nem de demonizar o sobreposto. Trata-se, isso sim, de perceber os pontos de contacto e, acima de tudo, saber que mundos é que esses pontos de contacto produzem ou estão em posição de produzir. É uma empresa difícil, mas em algum lado e em algum momento devemos começar. Um exemplo trivial. Muitos de nós, sobretudo no sul do país, temos dois nomes, a saber um “africano” (o meu é Mutsenga) e outro “cristão” (ou sobreposto), no caso “Elísio”. Em cerimónias familiares usamos os nossos nomes “africanos” e, através deles, estabelecemos a relação com toda uma visão do mundo que nos remete para uma história própria e uma identidade específica. Fora do contexto restricto da cerimónia familiar vestimos os nossos nomes “sobrepostos” e entramos num mundo referencial que se constitui segundo regras completamente estrangeiras à visão do mundo do nosso nome “africano”. A pergunta neste caso não é de saber que problemas de identidade isto nos provoca, mas sim o que significa para a substância das nossas relações sociais. Não tenho, por enquanto, resposta porque, infelizmente, ainda não consegui formular a pergunta. Talvez seja possível começar a ver os contornos dessa pergunta depois de mais incursões pelo nosso quotidiano adentro. É isto que me proponho nas postagens que se seguem.

5 comentários:

Patricio Langa disse...

Obrigado!

Patricio Langa disse...

Bom, no comentário anterior estava mesmo provocar ao Mutsenga. Agora, dirijo-me ao “sobreposto”(E.- Macamo o que é?) Mais uma vez, espero que vai ser uma viagem interessante por não sei quantos números (artígos). Um bom motivo para mexer com a massa cinzenta dando azo a imaginação. A primeira coisa – será que foi a primeira? – que me ocorreu ao ler o primeiro texto foi a Dádiva. Sim, de Marcel Mauss. Esse, mesmo, sobrinho de ÉMILE DURKHEIM. A quem nós, os outros, chamamos de pai fundador da sociologia. Deve ser uma maneira de lhe agradecer. Bom, a Dádiva, como dizia, é uma obra ensaística considerada clássica da Antropologia, de Mauss, em que trata sobre a reciprocidade. Uma obra, que infelizmente alguém, aquem eu havia emprestado, considerou-a uma dádiva, e nunca mas a devolveu. Mal agradecido! Dizia, retomando, que nessa obra Mauss debruça-se sobre a reciprocidade.Hoje fala-se mais sobre a obra do que aquela fala por si. Dalgumas interpretações que interpelei interessou-me a que considera que o entendimento da dimensão política de troca de dádivas, em Mauss, bem como a sugestão de universalidade, apesar de estudado e observado em comunidades indígenas das Trobriand e os índios da América do Norte, constitui um princípio forma abstracto e não algo (facto) concreto. Daí o passo seguinte foi extrapolar a dádiva como um fundamento de toda sociabilidade e comunicação humana. No entanto, a presenca desta e sua institucionalização (normas, valores, regras) vão variar de sociedade para sociedade. Interessante, no nosso, caso seria saber, em que medida o “obrigado” é uma dádiva (o que nos diz sobre a nossa sociabilidade)? Em que medida, ou sentido, é que a sua enunciação, nos diferentes contextos em que ela ocorre, representa um compromisso de reciprocidade que o indivíduo têm para com outro e com o colectivo? Bom, E.M, não é para te deixar influenciar por estas notas-soltas. Estou só a mostrar o efeito que o “Obrigado” já está causar em mim. Que seja um bom exercício de reflexão, para o nosso auo-entendimento enquanto sociedade.
PS: De Mauss, penso que, a expressão que mais aproprei foi a de 'fenómeno social total'- apresentada- no livro que mencionei. Agora, estou a imaginar as implicações que o “obrigado” têm em várias dimensões da nossa vida: económica, política, cultural,nas “boas”-maneiras,etc, etc enfim.

Elísio Macamo disse...

caro patrício, acho que isto está a comecar bem. obrigado pela referência a mauss. por acaso, nao me ocorreu esse texto tao importante para a discussao destas questoes. vou tentar integrar o que ele diz em postagens subsequentes, pois parece-me mesmo relevante. o único que me deixa um pouco reticente é o facto de mauss partir do princípio de que a dádiva é aceite. se ele faz disso a condicao de toda a sociabilidade impoe, por essa via, uma condicao normativa na possibilidade de sociedade que me parece limitar o alcance do que ele diz.
tanto quanto sei, macamo nao é um nome verdadeiramente mocambicano. há quem diga que é de origem árabe e indica lugar ou posicao oficial (maqam). nao sei. o que sei é que o verdadeiro apelido (se é que isto é boa traducao) dos macamos é "mpoyombo" do grupo mais alargado "nhlavi" que diz de si próprio (no seu xibongo) que é gente invejada e que vem da pedra grande (ainda nao consegui perceber isto).

Bayano Valy disse...

maqam mahmudo (posição exaltada); bem esse foi apenas um parêntese. bom, estás mesmo a obrigar-nos a dizer obrigado - já viu!!!!

umas perguntinhas só para não variar: como é que o "obrigado" é ou pode ser interpretado nos diferentes estratos sociais? como é que neste caleidescópio a que chamamos moçambique os vários povos interpretam isso? há alguma significação que podemos depreender da palavra obrigado nas nossas linguas, quero dizer, o khanimambo significa o mesmo que ngiyabonga, zikomo kwambiri, por exemplo? porquê para os falantes de português parece haver uma obrigatoriedade e em inglês já não? em francês parece haver uma espécie de merecimento; em árabe aínda não consegui entender a que equivale o shukr. enfim, como é que a "universalidade" da dívida é interpretada por cada povo e cada indivíduo. porquê é que, por exemplo, chegou-se ao ponto de se olhar ao cavalo dado quando se recebe algo, ao invés de dizer "obrigado"? enfim, minhas mesquinhices

abração
bayano

Elísio Macamo disse...

caro bayano, sao boas mesquinhices que me ajudam a reflectir melhor estas coisas. nós damos tanta coisa por adquirido! nao devia ser assim. apesar de nao saber (ainda) muito bem o que quero dizer com esta palavra, obrigado!