quinta-feira, abril 10, 2008

O celular (4)

Distinção

Na postagem anterior fiz uma breve incursão pela noção de “tragédia da cultura” que Simmel empregou e referi-me a uma das suas manifestações. Acho que dá para continuar com estas manifestações, desta feita, porém, concentrando-me numa outra. Ele define-a como a discrepância entre o espírito subjectivo e o espírito objectivo. Isto é um bocado complicado para se explicar em poucas palavras. Basicamente, Simmel tem uma visão da cultura que assenta na ideia de que o que impele o indivíduo é um espírito próprio (subjectivo) todo ele feito das coisas que cada um de nós valoriza ou gostaria de valorizar. Este espírito impele-nos no sentido da objectivação dos elementos que o nosso espírito valoriza e produz, a partir daí, a cultura que, por sua vez, se constitui como o quadro dentro do qual cada um de nós desenvolve o seu espírito subjectivo. Há, portanto, uma espécie de harmonia entre o indivíduo e a cultura na filosofia existencial de Simmel, harmonia essa que no desenvolvimento da sociologia tem sido apreendida como a tensão entre a acção e a estrutura.

A discrepância, na visão de Simmel, surge com a industrialização e consequente incremento de artefactos sem forma que reclamam constantemente serem adoptados pelo indivíduo. Este, por sua vez, está limitado na sua capacidade de adoptar os artefactos, mas cada vez menos espaço tem de recusar os seus avanços. Resulta daí, e segundo Simmel, a sensação individual de se estar a ser oprimido por estes artefactos, uma sensação de se ser estrangeiro no seu próprio mundo. Mais uma vez, faz bem recordar os paralelos com a noção marxista de alienação, embora aqui, enfatizo, pese muito a força da cultura produzida pelo próprio homem na criação de constrangimentos à sua própria individualidade.

Onde é que o celular entra aqui? Muito simples. Vimos que uma das manifestações da chegada do celular é a marcação do indivíduo do ponto de vista social. Diz-me se tens celular, dir-te-ei se és alguém e pior ainda diz-me que celular usas, dir-te-ei que tipo de pessoa és. Com efeito, com a chegada do celular e sua massificação fica muito difícil não ter nenhum. Fica difícil porque é sinal de falhanço individual. Em alguns contextos a pressão social para ter celular é tão forte que chega a ser mais grave não ter celular do que não ter dinheiro para o “chapa”. Do ponto de vista funcionalista podemos até tentar enquadrar o roubo do celular nesta ordem de ideias. A função do roubo do celular seria de garantir a sua socialização num contexto em que, apesar de todas as promoções que as operadoras fazem, esse maldito aparelho continua demasiado caro para o cidadão normal. Portanto, deixem-me continuar a forçar o quadro funcionalista, o roubo do celular seria, até, uma boa acção... Não obstante, imaginem o efeito cascata desta expectativa. Todos os membros da família precisam de celular, o empregado doméstico precisa do celular, os grupos-alvo precisam de celular, enfim, todo o mundo precisa de celular. Tenho muitas dificuldades em aceitar a ideia de que esta necessidade do celular se justifique pela necessidade de comunicação mais fácil, pois como veremos na postagem que se segue o objectivo do uso do celular é ... usar o celular.

Mas a coisa é ainda mais complicada, sobretudo para aqueles que usam o celular como marca de distinção. Para estes aqui o problema não se coloca ao nível de ter ou não ter celular. Para estes aqui o problema é que tipo de celular corresponde com o meu estatuto? Que tipo de celular me dignifica, dignifica a minha posição no serviço, mostra imediatamente às pessoas quem eu sou (ou quero ser) e, enfim, em que círculos me movimento? E aqui as operadoras são de uma perversidade sem medida. Já não bastava a distinção entre o contracto e o pré-pago que, em si, obrigava muita gente a assinar contracto porque gente do seu estatuto não pode andar com pré-pago. Agora é pior. As operadoras estão constantemente a „oferecer“ novos serviços – internet, etc. – que é preciso ter, não porque é preciso ter, mas porque fica mal não ter. Muitos ficam reféns desta perversidade, uma perversidade que não é das operadoras – mudei isto a tempo para não comprometer os financiamentos da Mcel aos meus textos... – mas desta discrepância entre o espírito subjectivo e objectivo. Somos reféns destes avanços indecentes que os artefactos nos fazem. Somos prisoneiros de uma lógica de desenvolvimento tecnológico que nenhum de nós controla e que está na origem da criação de necessidades que pensamos serem nossas, mas, na realidade, não são.

Do ponto de vista das relações sociais tudo mantém-se na mesma, mas com mais encargos para uns do que para outros. O contracto e o tamanho do celular ditam quem é bipado, quem oferece celular a quem, que tipo de celular os seus mais próximos podem ter sem comprometerem o seu estatuto e, finalmente, que tipo de generosidade se pode esperar dessas pessoas mesmo num contexto em que o celular não é fundamental para a estrutura das relações. Assim, só para ilustrar, fica mal pousar o último grito de não-sei-que-grande-marca na mesa do restaurante e dar gorjeta de 5 meticais, ou falar em voz alta a entrar para o carro e dar o mesmo valor a quem o guardou. O celular marca-nos verdadeiramente ao mesmo tempo que nos transforma, no fundo, em seus artefactos. Sim, isso mesmo!

Não somos nós que usamos o celular. O celular é que nos usa a nós. O nosso mundo foi tomado de assalto e deixou de ser nosso. Quem manda nele é o celular, o que equivale a dizer que temos imensas dificuldades em conciliar a nossa identidade com a cultura que criamos como lugar de hospedagem dessa identidade! O celular é a versão tecnológica do xikwembu xa mudhliwa (espírito imprevisível).

6 comentários:

Bayano Valy disse...

caro elísio,

é bom voltarmos à casa e vermos esse tipo de reflexões. acho que escapelizas de uma forma brilhante a problemática do celular. voltando das terras do tio bob pûde observar até que ponto o celular distingue a pessoa. enquanto muitos podem ter o celular dos seus sonhos graças aos brindes da mcel e vodacom, os zimbabweanos não têm esse luxo. portanto, o meu já velho n73 colocava-me alguns degraus acima na escala social. para quê é que o zimbo vai comprar um n73 quando tem grandes preocupações?

depois, devido aos problemas já dos tempos de ian smith (sanções), a infraestrutura zimbabweana foi montada para "sobrevivência", o que quer dizer que vão estar na rede quantos o governo decidir. não se compra um sim card como se estivesse a comprar um rebuçado. aliás, há quem alugue o seu sim card para ter um almoço. isso tudo tem uma desvantagem: ligar para alguém é um sacrifício. tenta-se umas dez vezes (verdade nua e crua). aquí a questão de "essa mcel" nem é levantada porque a sociedade sabe ou finge saber que a rede está congestionada. pessoalmente, não tinha problemas em dizer que era o network mesmo se estivesse com o telefone desligado porque queria a minha privacidade. o que me leva ao meu ponto: cada indivíduo negoceia a sua privacidade em função da sua consciência. acho que essa "sensação individual de se estar a ser oprimido por estes artefactos, uma sensação de se ser estrangeiro no seu próprio mundo" resulta da nossa consciência dos artefactos e do próprio mundo, e de sabermos negociar a nossa própria existência. portanto, para mím, eu como indivíduo negoceio a minha privacidade com o meu celular e por tabela com a mcel e a sociedade.há aqui uma relação de simbiose: eu aceito o celular na minha existência porque reconheço a sua utilidade, e vou negociando essa relação ao tamanho das minhas necessidades.

já falei demais e já nem sei se estou a fazer sentido. o que queria dizer mesmo é que a tua reflexão está sendo brilhante e que já estou de volta.

Abração
bayano

Patricio Langa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Elísio Macamo disse...

bayano, bem vindo de volta! já posso responder à pergunta que há semanas anda no teu blogue sobre o que é uma notícia. bom, uma notícia é saber que estás de volta! o que contas sobre o zimbabwe é interessante. nao tenho a certeza se os zimbabweanos nao compram melhor celular por terem outras preocupacoes. podes ter razao, mas era preciso verificar isso melhor. as questoes que levantas vao no mesmo sentido que as questoes levantadas pelo patrício (patrício, queres saber onde estou? estou na zona! e obrigado ao andré por esta joia de expressao!) e sao difíceis. de facto, como dizes (bayano) tu resistes às orientacoes do artefacto, mas a minha questao está aí mesmo: tu estás a organizar a tua vida e as tuas opcoes em funcao desse artefacto. o teu sentido de identidade está a ser influenciado pela necessidade que sentes de nao seres como os outros que se deixam levar pelo celular. está aqui toda a perversidade (e interesse) deste artefacto. o recurso que fazes à teoria das redes, patrício, documenta isto muito bem. os que nao estao na rede constituem um problema e têm que se explicar. a tua construcao identitária (e a dos que nao têm celular) está a ser feita em funcao dele. tu, para os teus estudantes, és aquele docente que anda com celular velho. o celular está a criar um grupo identitário muito específico. sabes, até tenho medo do poder estruturante deste objecto. durante muito tempo resisti às telenovelas brasileiras e safei-me completamente delas quando saí do país. na altura, porém, sentia-me gradualmente analfabeto porque nao sabia de que estavam a falar os outros...

Patricio Langa disse...

Enquanto aguardamos que o E.M, J. Castiano ou S.Quive cumpram com o seu dever patriótico de traduzir, do Alemão para Português, a filosofia do dinheiro de Simmel. Aqueles, como o Mano Mone, que são ex-Wittsianos podiam ir fazendo o mesmo com a versão Inglêsa. Eh, eh, eh. Peguei-te Mano Mone! Brincadeira. Na verdade quero apenas sugerir, aos interessados, que existe a tradução Inglêsa de Filosofia do Dinheiro.


Simmel, Georg, 1858-1918. The philosophy of money / Georg Simmel ; edited by David Frisby ; translated by Tom Bottomore and David Frisby from a first draft by Kaethe Mengelberg. London; New York: Routledge, 2004.

PS: E.M a reflexão está aliciante.

Um excelente documento sobre a transformação “radical”- do tempo-espaço que vivemos, hoje, resultante da chegada desse artecfato tecnológico (o celular). A referência, analógica, a Jaula de ferro Weberiana, encaixa-se perfeitamente. Como eu sou do contra, agora, ponho-me a pensar até que ponto o celular subsume na totalidade o individuo no sentido sugerido por E.M? Que tipo de indivíduos podem escapar a essa lógica “alienante” e perversa “imposta” pelo celular? Aqueles, como eu, por exemplo, e imagino que haja mais eus por aí, que se ficam pelo 5110, onde se encaixam? Tudo bem. Estamos na rede. Porque realmente não nos resta outra alternativa de sociabilidade. Mas estar na rede em si representa um potencial inexorável para se submeter a lógica perversa do celular? Não é a marca que nos connecta a rede. A marca distingue-nos. A marca cumprea função social da distribuição social (desigual) do prestígio.

Manuel Castells, nas suas obras sobre a sociedade de redes (The Rise of Network society, Information Age, Internet Galaxy etc) elabora exaustivamente este argumento da conectividade a partir do termo cunhado pelo Holandes Jan Van Dijk . Castells, e uma série de seus seguidores, defendem que vivemos numa era em que a combinação de redes sociais e da media ( redes de comunicação) constituem e moldam os modos de organização e as estruturas sociais a todos os níveis, individual, organizacional e societal. Castells leva ao extremo as análises de Giddens e demais sobre a mudança estrutural (radical) das categorias de espaço e tempo na estruturação das nossas vidas na sociedade (onde se fazem sentir os efeitos da globalozação). As sociedades de rede, segundo Castells, constituem a nova morfologia social das nossas sociedades.

Enfim, não vou elaborar mais esta descrição que os textos de E.M fazem-no muito melhor do que eu faria. O ponto que quero levantar é o seguinte. Mesmo considerando que a rede (sociedade de rede) é uma realidade em expansão e da qual poucos vão escapar, (se é que vão) existe ainda uma percentagem significante daqueles que estão disconectados (Castells, chama a isso de blackouts). Há, ainda, pessoas fora da rede. Poderiamos dizer “connect or perish?”.

Bom, resumindo. 1) existem aqueles, como eu, que mesmo conectados são reflexivos (pelo menos pretenciosamete) para não se deixar “alienar”- enjaular- por esses artefactos. Reajem reflexiva e subversivamente a sua lógica pervesa. Essa reflexidade talvez não seja apenas um aspecto cognitivo mais societal. Quais são as condições sociais que podem suscitar tal reflexividade?

2) Existem aqueles – no black out – disconnectados. Em que lugar se encontram estes na reflexão? Enfim, não são questões para inquisação – as quais deves reponder-me já! (onde estás?) . Pretendo apenas ampliar o âmbito da análise e do debate.

Abraço.

Patricio Langa disse...

Realmente, estar disconectado é - como se fosse – uma anomalia, hoje! É preciso acabar com os disconectados. Os índices de conectividade, “digital divide”, o lugar dos países no “ranking” das economias de conhecimento e de informação constituem um novo eixo para definir quem está na “Zona”! Há uma coisa, no entanto, que incomoda na maneira, não só como o celular se insinua sobre nós, mas na falta de alternativas. Ou nos deixamos levar pela onda de conectividade ou reagimos - como eu e o Bayano – a sua presença coercitiva reoganizando nossas vidas em função das opções que o artefacto nos impõe. Existem também os rótulos, pronto a servir, para os diferentes graus de resistência! Algo me diz que a disconectividade é o maior fardo que o indivíduo pode carregar. Um individuo disconectado está fora de jogo. Não será a que a conectividade têm um potencial societal, “libertário”? Mas do que ter de se explicar, parece-me que, a possibilidade de realizar o potencial de ser “ser social” é cada vez mais limitada para os disconectados. Como sugeres numa das postagens anteriores : “Conecto, logo existo”! Enfim, isto está interessante!

Elísio Macamo disse...

patrício, este teu último comentário levanta um problema que me parece essencial e crucial. já tinha comentado rapidamente com o nkhululeko. trata-se do problema político, sobre o qual me debruco na última postagem da série. penso que nao ter celular ou resistir às suas insinuacoes sao as respostas que o celular nos obriga a adoptar, imensas desculpas pelo determinismo! o desafio, porém, é de definir espacos de cidadania que tenham, por exemplo, em conta a necessidade de respeitar a diferenca (no vosso caso) e nao violar o princípio de igualdade consagrado na constituicao no caso dos que nao têm celular (por nao poderem ter). é por isso que acho que estamos em presenca da tensao entre o indivíduo e o colectivo. estamos a negociar essa tensao e a política parece-me a melhor saída.