terça-feira, abril 15, 2008

O celular (7)

O anonimato

Na postagem anterior debrucei-me sobre o desabafo. Nesta aqui o desabafo continua a desempenhar um papel muito importante, sobretudo na sua vertente política. Não sei se vou conseguir explicar esta questão com a mesma clareza com que a consigo ver na minha cabeça. É assim, para além de ser um acto de auto-vitimização (existe esta palavra? Se não existe passa agora a existir!) o desabafo vive de uma característica bastante curiosa: ele é a opinião de todos de tal maneira que, na verdade, não tem lugar de enunciação. O desabafo é onde a expressão “toda a gente sabe” vai dormir à sexta. Tanto pode ser você ou eu a dizer o que está mal; até pode ser mesmo um membro do governo, do partido (subentende-se a Frelimo, claro!) ou da sociedade civil a dizer mal das coisas do seu próprio pelouro. Nada disso importa porque não seria ele a falar, mas sim a sociedade inteira.

O desabafo é, portanto, uma espécie de anonimato. O que dizemos não nos compromete de nenhuma maneira porque não é, verdadeiramente, nossa opinião. Estamos apenas a dizer aquilo que “toda a gente sabe”. Toda a “coragem” que acompanha a gravidade do que dizemos vem deste pequeno pormenor, isto é do facto de estarmos simplesmente a servir de canal de transmissão de uma mensagem. Cheguei a esta percepção das coisas a partir da reflexão sobre o significado de certo tipo de mensagens que fazem comentário político, sobretudo quando há acontecimentos políticos significativos. O ponto mais alto destas mensagens aconteceu com as explosões do paiol. “Como se diz Ministro da Defesa em inglês? To be as Die”. “Vende-se terreno para construcção por apenas 10 meticais na zona do Malhazine”, etc. São mensagens sem emissor, apenas veias transmissoras que vão girando legitimadas pela ideia de que reflectem o sentimento do povo. São objectos de arte desprovidos de estéctica porque não têm autor, nem intenção para além de produção de algo de consumo imediato, que não compromete e não mexe de forma fundamental com as coisas concretas da vida. São um comentário. Um desabafo.

A sua principal característica é a ironia. Dizem a verdade de forma assim-assim, sem necessariamente estarem a dizer a verdade, mas de algum modo a dizerem a verdade. Quatro formas de ironia são predominantes, todas elas típicas da constituição da nossa esfera pública. Há uma ironia que eu chamaria de sabichão (Titio Turutão Sabe-Tudo), isto é que finge não saber nada, mas na verdade é apenas uma armadilha para revelar a ignorância dos outros (do governo). O exemplo que me ocorre já mencionei mais acima, nomeadamente esta ideia de que se vendem terrenos a preço muito baixo em Malhazine... A segunda forma de ironia é simplesmente cómica e procura apenas provocar hilariedade geral à custa de alguém. Um exemplo seria a mensagem que circulou aquando do incêndio no Ministério da Agricultura e punha a Primeira-Ministra, que acorreu ao local de imediato, a dizer que tinha falado com o Chefe de Estado e que este tinha dado instrucções para que se apagasse o fogo... A terceira forma é o sarcasmo na sua forma mais maldosa, isto é de usar as palavras num sentido oposto. O exemplo que me ocorre é o da seguinte mensagem: “sabes qual é o significado de GREVE?: Guebuza realmente está a ver estrelas”. Outro exemplo ainda pior, porque macabro, foi aquando da morte de Nyimpine Chissano quando circulou uma mensagem que dizia que o julgamento do caso Carlos Cardoso já podia ser retomado lá em cima porque o ofendido, a mãe do executor e o mandante já lá estavam; a mensagem terminava com a informação segundo a qual haveria agências de viagem a oferecer pacotes para quem estivesse interessado em assistir e rematava “mandar o seu nome?”. Finalmente, a outra forma de ironia é a dramática em que o desfecho é uma tragédia. O exemplo que me ocorre aqui é a dos doentes mentais do Hospital de Infulene que gritam “ano novo! ano novo!” quando os obuses do paiol rasgam os céus... Há várias outras categorias de mensagens que mereceriam análise. Luca Bussotti, um amigo sociólogo italiano que vive e trabalha em Moçambique, confidenciou-me que ia fazer um estudo sobre estas mensagens (já te comprometi, Luca!). Gostava de destacar um tipo que considero de muito mau gosto, mas que seria interessante analisar. Trata-se de mensagens sexualmente explícitas e que, curiosamente, são sempre em Xangan. Ao que parece, toda a sua piada vem do facto de serem em Xangan. Não faço a mínima ideia porquê.

Acho útil recordar um pormenor pertinente. A ironia, na esfera pública, este sentido bastante apurado e subtil de crítica, tem sido uma prerrogativa de sistemas políticos totalitários. A União Soviética, a RDA, a Cuba e o nosso Moçambique do período imediatamente a seguir à proclamação da independência foram marcados por uma forte presença da ironia no comentário político à socapa. Rangíamos os dentes, tapávamos a boca com a palma da mão e dizíamos o que não estava bem ou então contávamos anedotas. Acho, a este propósito, interessante que aquando do 5 de Fevereiro a primeira suspeita em relação à maneira como as manifestações foram feitas tenha sido dirigida contra as mensagens do celular. Tudo indica que assim foi, mas ao mesmo tempo algo me diz que isto é exagerado. O efeito de imitação parece-me ter também desempenhado um papel muito importante na coisa.

É possível que este uso político que fazemos do celular faça parte dessa tradição de reacção ao totalitarismo que caracterizou a nossa experiência inicial de emancipação colonial, mas penso que contém elementos novos que merecem atenção. Um desses elementos é o anonimato. Não me refiro aqui ao anonimato da blogosfera com o qual aprendi a conviver apesar de me não agradar, sobretudo quando é usado por certas pessoas para insultarem as outras ou dizerem coisas sem sentido. Percebo perfeitamente que certas pessoas não queiram ou não possam se identificar abertamente. Sei também que essas pessoas, por norma, são pessoas que usam o anonimato para participarem com ideias no debate. Os outros, os que usam o anonimato como instrumento de guerra, estão muito próximos da acepção que tenho em mente no caso da ironia.

Na verdade, o anonimato, nesta acepção, é uma maneira de lançar proposições para um debate sem que isso nos comprometa com a necessidade de as defendermos. Confundimo-nos com a massa informe de “toda a gente sabe” para simplesmente dizer o que é com um ponto de exclamação gordo. A nossa intervenção dispensa mais intervenções. Os nossos receptores (não são interlocutores!) riem-se, chateiam-se ou reenviam a mensagem. Ponto final. Não há discussão. É tudo certezas. Tal como a “crítica social” do hiphop que ganha plausibilidade pela rima, as mensagens irónicas que acompanham eventos de interesse público ganham coerência pelo efeito imediato, instintivo e final de riso. Se faz rir tem que estar certo porque a nossa vida é ridícula. O mesmo princípio aplica-se a muita coisa que passa por análise social crítica, sobretudo, à reacção de quem a produz. A tendência geral (ninguém escapa, incluindo o autor destas linhas) é de ficar perplexo perante a interpelação crítica, pois intervir publicamente significa dizer a verdade das coisas. Como é que alguém ainda pode achar que não estamos certos? Só pode ser maldade.

22 comentários:

Anónimo disse...

Ora viva, EM.
Não sei se interpreto mal o que dizes, mas, depois de ler o teu texto, torna-se fácil, para mim, estabelecer uma relação entre o anonimato, a tecnologia e a possibilidade de desqualificar o “outro” sem receio de ser responsabilizado.
Será que muitos de nós, moçambicanos com acesso às ICTs, vemos no “desabafo” a melhor forma de participar, de nos manifestarmos publicamente? Se sim, então vivemos num ambiente sociocultural pouco fracturado, ou seja, - e deixa-me arriscar – consensual, no sentido de que a maior parte das pessoas concorda que a manifestação anónima é a melhor forma de resolver os problemas?
Ao mesmo tempo sou tentado a pensar que não, que na nossa sociedade estabeleceram-se profundas clivagens sociais, com visibilidade política difícil de contestar (as eleições não têm mostrado outra coisa). Então, como é possível que tal aparente consenso relativamente ao modo de participação política tenha se produzido tão rapidamente?
Carlos Bavo

Júlio Mutisse disse...

Carlos,

Também não sei se o entendi bem: quando, por exemplo, reencaminhamos a mensagem "sabes qual é o significado de GREVE?: Guebuza realmente está a ver estrelas” fazê mo lo conscientes de que "Guebuza Realmente Está a Ver Estrelas" ou reencaminhamos uma simples piada sem nos preocuparmos com as repercursões do que enviamos?

Acredito que existiria "consenso relativamente ao modo de participação política" que se "tenha se produzido tão rapidamente" se tivéssemos real consciência do significado do que reencaminhamos.

Não temos sido críticos do que nos é dado a consumir. Daí que reproduzimos com muita facilidade qualquer conteúdo que nos chega via email ou SMS.

Elísio Macamo disse...

caro carlos, há muito que nao te via por aqui. bem vindo de volta! e tinhas que vir com perguntas difíceis! bom, concordo contigo que o anonimato pode revelar consenso na sociedade. tens que ver que o celular conduziu à cristalizacao de algo que já andava adormecida na nossa sociedade. temos uma longa história de totalitarismo que comecou no tempo colonial e que continua hoje com a indústria do desenvolvimento. o celular veio simplesmente trazer algumas dessas coisas à luz. mas a questao que o júlio levanta é extremamente pertinente. há muita coisa que reencaminhamos sem termos consciência do seu significado. neste caso, para mim, o mais grave nao é propriamente o conteúdo do que recebemos e reencaminhamos. é sim o facto de que essas coisas nao convidam ao debate. sao conclusoes peremptórias. o celular está a facilitar essa atitude tao nociva à saúde da esfera pública.

Anónimo disse...

Dois aspectos me parecem sociologicamente interessantes(petulância minha!): primeiro, a referência à hipótese da reprodução das estratégias anti totalitaristas: estratégia de sobrevivência,então, não vá o diabo tecê-las! parece fazer sentido de todo;
A segunda, é o aspecto mimético que o processo de tecnologização(diz-se?) encerra: é só kahla! É só fazer ficar claro que estou no ar! E aqui, concordo convosco: Não há e nem pode haver debate, afinal o que está em jogo é eu sublinhar que estou on line! mas o ponto mesmo é toda a pátria estar conectada em cadeia nacional, acriticamente, com todos os males adjacentes: mentira, inveja, superficialidade, desaforo, petulância, arrogância sabetudismo e mediocridade...(diz-se?) Pobre pátria de Mondlane...(juízo de valor)

Patricio Langa disse...

Amigos.

O debate está, realmente, a animar. Permitam-me colocar mais lenha na fogueira retirando questões que insistia em guardá-las comigo para evitar entrar no debate (afinal não estou busy?!). Ainda estou abraços com a busca de espaços de resistência (auntomonia) e de sentido(s) da vida num contexto em que estamos, presumivelmente - subjogados - tomados pelo cell! Ficou assente para mim que ressaltam, pelo menos, duas dimesões deste debate: a) a politica (aqui o acesso ao celular é a questão social pertinente! O desiderato – politicamente correcto- é alargar a possibilidade de connecção a rede. Não a da MCEL ou da sua rival VODACOM, mas a rede societal (existêncial, se quiserdes)! Conecto, logo existo! “Muitos” não conectam, logo não existêm, ainda! Só têm potêncial de se realizar como indivíduo, melhor como cidadão - aquele que consegue se connectar (a solução de intervenção rápida para aqueles que têm compaixão pelos deserdados seria obviamente acusar os governantes que usam 3Gs de serem tudo que Azagaia diz que são e convocar Marcha para o povo tomar o poder, já agora usando Cell para enviar sms).

A segunda é estética – e aqui, eu incluiria a crítica, por que crítica só é possivel se fôr, também, apreciação estética seja lá do que fôr. A segunda dimensão é para aqueles que já estão na rede. Uns apenas, estão, e lá vegetam - (ao invés de usuarios da facilidade são facilmente usados pela facilidade – os exemplos são os enúmeros trazidos pelo E.M, desde o simples enviar de msg por não ter mais o que fazer até ao que não consigo imaginar) - outros estão e fazem o “devido” uso da facilidade! Aí o celular, ou melhor, o seu uso deve ser diferenciado em função das capacidades de apreciação estética dos indivíduos. Podia arriscar e distinguir entre o “uso leigo” e o uso- (sei-lá)- “não-leigo” do cell. As categorias de apreciação (uso) estétic (o)a não estão -democráticamente distribuidas. A análise de E.M ainda não introduz está distinção. Estamos até, agora, todos a ser vítimas ( ou auto-vitimas) do celular. No meu entender, a análise- com todo mérito-parecer pecar na homogeneização do que é uso “in-devido” (percebo, que não há intenção normativa na sua análise de sugerir como se deveria usar o cell).

Mas já agora, o que seria devido uso? É aquele não alientante, crítico, selectivo com moderação etc? Quando é que consideramos que cada uma dessas coisas é isso aí mesmo? Bom, permitam-me um exemplo para terminar. Imaginem (vocês) – porque aqui há tantos – um (a) estudante – “jovem” – universitário: leva um hipod aos ouvidos- escuta não sei o quê ( para não dizer o doggy style original), uma camara digital do seu cell 3G com connecção a Internet. Assiste a aula de sociologia de conhecimento na UCT; conversa com o irmão, descarrega textos da última aula de ICTs para o seu amigo. Enfim, está em vários espaços sociais e em várias dimensões do real – algumas das quais pessoas como eu não conseguem aprender – em simultâneo. Como e quando é que podemos perceber que este “ser- socio-tecnologico” –está subsumido, aliendado se o artecto estão tão, intrinsecamente, interiorizado em si, nas suas praticas que não mais é uma acessório, mas parte de si. O cell não está para si, mas em está si? E ao que parece da-lhes algum tipo de satisfação?


PS: Esta reflexão não invalida nada do que foi dito sobre o anonimáto e os perigos que representa para o debate de ideias.

Elísio Macamo disse...

de facto, isto está a animar. o que acho interessante mesmo é a possibilidade de darmos largas à nossa imaginacao. acho que só por isso devíamos dar gracas ao celular por estar entre nós. o comentador anónimo deixou-me sem jeito com a sua ironia fina. ainda estou a pensar como perceber o que ele escreve, mas, instintivamente, estou de acordo. o patrício, como nao podia deixar de ser, tinha que vir estragar a harmonia do lugar. fiquei preso ao teu último parágrafo, patrício, que me parece levantar uma questao mesmo central. penso que na última postagem da série tenho resposta a isso, que me parece mesmo política, mas enquanto nao chegamos lá, deixe-me dizer apenas que tens muita razao em levantar a questao de saber se há "uso devido" do celular. há? essa questao nao se refere ao que fazer com o aparelho, mas aos ajustes que a sociedade deve fazer para o acomodar no seu seio. é por essa razao que estou a olhar para a questao numa perspectiva política. pense num exemplo simples como o veículo automóvel. nao basta simplesmente saber conduzir. é preciso respeitar as regras de trânsito, ter mecânicos, oficinas, autoridades de viacao, polícia de trânsito que funciona, estradas em condicoes, seguros, hospitais, advogados, sociólogos que investigam o comportamento, etc., etc. há um processo de domesticacao da inovacao que penso nao estar a ocorrer na nossa sociedade. porque nao? essa é a questao para a qual a reflexao sobre o celular me conduz. nao sei onde isto vai dar!

Anónimo disse...

Viva Professor,
Parabens por esta serie,que acredito ainda trara mais postagens. A proposito do anonimato,sr prof,quero contar um breve episodio, escrevendo em anonimato:
Frequento o 3o Ano dum curso de ciencias sociais algurem em Maputo. Tenho um docente que, ao que me aparece, ama o anonimato, pois hoje recebemos um teste. Um colega, numa das respostas, comecou a sua argumentacao com uma citacao dum livro de dois autores barsileiros referindo/se a fonte ate o ano, portanto, nao em anonimato. Mas o prof, um doutor, riscou a resposta e escreveu: Isto e prova de que esteve a copiar. E deu nota zero. A serio, professor. E, nos caimos de costas, afinal seria melhor o anonimato? Citar referindo/se a fonte equivale a copiar? O prof estudou metodologia de investigacao cientifica??? Eu disse ao colega, citando a si, que a posicao do nosso ilustre professor e problematica... posso enviar/lhe um scanning para analisa/lo, e ai, claro, nao o farei em anonimato.

Anónimo disse...

Prof.,
Este teclado nao tem acentos nem cedilhas. Desculpa pelos erros ortograficos.

Anónimo disse...

Caro E.M

Esta série de postagens e o devido debate fizeram-me recordar uma instituicao social em voga nos anos 80 e 90: As Peixeiras (creio que incluia peixeiros). Por coincidência, na actual década, com a proliferacao do celular nunca mais ouvi falar dela. Sou tentando a pensar que existe uma ligacao entre a "morte" da Peixeira e a sua reencarnacao no "anónimo/anonimato" das sms.

Para terminar vou contar um episódio caseiro dos anos 80. Certo dia uma senhora vizinha foi acordada bem cedo por outra vizinha. Na volta da casa desta, a primeira, toda estupefacta, disse aos filhos que não tinha coragem de vender o peixe que acabava de comprar. Até hoje, mesmo com a dolarizacao, ela nunca mais vendeu. Solucão: Vou pedir a ela para circular por SMS.
Nando Menete

Elísio Macamo disse...

caro anónimo do curso de ciências sociais, o que relata é grave, embora fosse necessário conhecer as circunstâncias exactas do trabalho que o professor marcou para saber se havia espaco (a minha acentuacao também nao funciona!) para o que o seu colega fez. mas a questao que levanta é importante e tem muito a ver com as implicacoes do que estamos aqui a discutir. o problema do anonimato é um problema de falta de transparência e de falta de procedimentos claros. como é que estudantes podem se proteger dos erros dos seus docentes? mas também, como é que os docentes se podem proteger da má fé (nao me parece o seu caso) dos seus estudantes? uma esfera pública transparente pode criar condicoes para que as instituicoes também funcionem de forma transparente. agora, há, naturalmente, no vosso caso aí também o problema do entendimento que alguns de nós temos do ensino. esse entendimento pode ser problemático. mas isso seria uma razao para ter formas de se defender desses entendimentos problemáticos. isto, infelizmente, é fraco no nosso país. o vosso curso deve ter mecanismos de resolucao desse conflito. se nao tem, nao devia existir!
nando, gosto da ideia da peixeira, é mesmo boa. mas nao percebi o teu episódio, apesar de estar com muita vontade de rir...

Anónimo disse...

Caro Prof.,
O meu colega disse-me que foi reclamar junto do professor que lhe deu nota zero por citar uma fonte. Resposta do professor:"eu nao duvido da tua capacidade, mas tu andas a citar livros que eu não conheço, assim, como posso saber se estás a enganar-me ou não. Como solução, eu risco e desclassifico." Que tal, esta parece-me mais problemática ainda... o que acha? É a única hipótese que o professor tem quando confrontado com passagens de livros que ele não leu? Haveria outras, quais, por exemplo?
Agora, basta de anonimato!
Tomás Selemane

Elísio Macamo disse...

caro tomás selemane, essa atitude parece-me grave. uma coisa é dizer aos estudantes para consultarem certas obras para um determinado trabalho. penso que isso é legítimo, embora a razao nao possa ser de que o docente nao conhece outras obras e que, por isso, nao saberia como verificar a sua veracidade. verifica-se consultando essas obras! a outra coisa é como proceder em casos de desconhecimento da leitura e sem possibilidade de verificar. aí penso que só ajuda a plausibilidade do que o estudante escreve. o docente nao precisa de conhecer todas as obras que os estudantes conhecem. parece-me difícil. precisa, contudo, de perceber o raciocínio e avaliar se os estudantes estao a fazer bom uso das suas faculdades. isto pode ser um problema particular de docentes que pensam que saber significa repetir o que certos autores escreveram. a falta de bibliotecas contribui bastante para limitar as nossas referências e encorajar formas intelectuais muito problemáticas. lamento bastante este incidente.

Jonathan McCharty disse...

Caro Elisio!
E' bom nao nos esquecermos que num passado recente, individuos foram "entregues" pelos seus familiares directos porque os consideravam capitalistas ou contra-revolucionarios. Saimos "de fresco" dum cenario em que "tudo mundo" era grupo-de-vigilancia, servicos de informacao, etc. Essas mazelas nao se apagam de uma sociedade de um tempo para o outro. Actualmente e' uma utopia considerarmos absurdo que as pessoas se manifestem no anonimato! O ambiente e' ainda de muita desconfianca! A simples facto de se pensar ou simpatizar pelo diferente, e' razao mais do suficiente para que te "cortem as pernas". So para corroborrar o que acabei de dizer, ocorreu-me agora um episodio contado por amigo "senior" do partidao! Um director, daqueles dinamicos, empreendedores, que trabalham pelo pais, foi destituido do cargo pq levou de um deputado da renamo, uma encomenda para um colega deste (ultimo). Essa foi a razao da sua destituicao!! E' este o nosso dia a dia. Presumo que sejas membro/simpatizante da Frelimo e ocorreu-me verificar a tua coluna de "blogs de interesse"! Podes ter a certeza que, no dia que "ousares" anexar blogs de individuos manifestamente apoiantes da Renamo, algures, lampadas (vermelhas) de emergencia se acenderao! Isso e' so para indicar que a tolerancia (principalmente politica) e de dialogo franco e aberto entre as pessoas, provavelmente "libertara' os individuos! E isso nao e' um problema mocambicano. Quase toda a Africa continua refem desse fenomeno! Urge encontrar-se uma saida pq a esta altura, nao se pode afirmar que as liberdades estejam garantidas.....

Em relacao ao caso do Professor do Tomas, julgo que essa e' a manifestacao da mediocridade que tem assolado o nosso ensino.......Se o estudante indicou um autor q nao conhece, qual e' a dificuldade de procurar o livro e confrontar o q estudante indica e ver se contrasta com a ideia q detinha do assunto. Se esta dificil encontrar o autor, q problema existe em chama-lo e pedir q lhe forneca o livro para consulta??.....!! Portanto, temos professores que devem aparentar sempre que sabem tudo!!! Sera q o estudante (eventualmente correcto) deve ser sacrificado para sustentar esse orgulho barato??

Matsinhe disse...

É bom ter o Jonathan Macarthy por aqui. Ele que noutros fóruns me acusava de ter sempre a mesma argumentação quando o interpelava sobre muitas coisas, me parece que não mudou nada... vejam-se os primeiros parágrafos deste comentário.

Tomás o que contas também passei. A problemática do nosso ensino é grave. Os nossos professores não tÊm tempo para investigar e acabam fazendo de nós caixas de ressonância do que dizem.

No meu tempo de estudante era PERIGOSO citar livro diverso do que o professor DITA nas aulas. Mas isso não nos impedia de consultar outros só que NUNCA deviam ser citados no texte porque, o professor, não tendo lido RISCAVA.

Elísio Macamo disse...

caro jonathan, a questao da desconfianca é muito importante. concordo consigo. suponho também que as nossas tradicoes políticas tenham contribuído bastante para esse estado de coisas. em tempos escrevi um conjunto de textos para o notícias com o título "o poder da frelimo" em que dizia que esse poder nem sempre é mesmo poder da frelimo. pode ser simples oportunismo de algumas pessoas, mas num contexto em que alguns de nós meteram na cabeca que existe uma coisa chamada frelimo que está contra quem a critica é difícil privilegiar o pensamento autónomo e isento. o que devemos fazer para mudar este estado de coisas? continuarmos a privilegiar formas problemáticas de debater ideias? nao! acho que devemos lutar contra o "anonimato", isto é com a cultura de apresentacao de argumentos que nao sao para serem discutidos. precisamos de menos certezas (de um e de outro lado) e mais dúvidas que é bastante salutar para o nosso intelecto. a responsabilidade é sobretudo dos críticos e é por isso que insisto sobre eles. se criticam mal (desabafando) nao podem contribuir para uma outra esfera pública. a responsabilidade comeca onde estamos. composicoes como as do azagaia, por exemplo, ou alguns textos de custódio duma por muito que sejam justificadas por tudo quanto nao anda ou anda mal, nao podem constituir contribuicao para a mudanca, pois servem-se do mesmo tipo de argumentos e estratégias. vamos realmente criticar, preservando as nossas preferências políticas, mas nao perdendo de vista o nosso compromisso com o país.
caro matsinhe, estou cada vez mais agastado com esta história do docente. as coisas estao assim tao mal por aí?

Jonathan McCharty disse...

Caro Matsinhe,
Pelo seu comentario, fico com a percepcao que esta' ciente que ha' grupelhos aqui na blogsfera. Infelizmente, ando sem tempo e sempre que posso, vou "descobrindo" blogs. Procuro, sempre que possivel, e quando me ocorre comentar, ser honesto nas minhas abordagens e discutir ideias, e nao pessoas! Nesse processo, nao guardo rancor e nem levo desaforo para a "cama"! Em relacao as acusacoes que referes, com franqueza, nao me recordo de que e' que estas a falar!
No entanto, poderias dar "uns centimos" ao debate, no que concerne a esta questao do anonimato e ai ficaria mais claro, nao so pra mim, mas para os outros leitores,o que eventualmente distorce os factos "nos primeiros paragrafos" do meu anterior comentario!

Jonathan McCharty disse...

Caro Elisio,
A forma que eu vejo para Mocambique (e Africa em geral)ultrapassar esse dilema, passa pelo surgimento duma "classe media" robusta que exerca as suas actividades, sustentada em conhecimento (know-how), empreendedorismo e uma visao planejada e futurista (temos q sair da "praga" do lucro facil e rapido) e fundamentalmente, que nao esteja dependente do "poder instituido" para progredir. O nosso pais ainda esta' "cru" e prenhe de oportunidades para os que querem trabalhar. Os jovens q se vao formando (os que conseguirem sobreviver ao "sindroma do professor do Tomas") tem um papel fundamental a desempenhar nesta area.....Precisamos de comecar (eu ja tou a fazer a minha parte, hehe), pq acredito q uma sociedade que proceda com regras claras e que nao tenha a "mente aprisionada", tem os ingredientes necessarios para poder progredir!
Concordo consigo q o debate tenha que ser responsavel, mas neste momento, todo o mundo quer proteger a sua autonomia financeira (emprego), familia, etc, e nao seria "compensador" desatar a sua mente e se "expor"..

Elísio Macamo disse...

caro jonathan, a questao da "classe média" já foi tratada por juergen habermas num livro em que ele introduziu a nocao de esfera pública para o debate na sociologia. uma das coisas que ele diz nesse livro é que a constituicao da esfera pública esteve intimamente ligada ao surgimento de uma classe burguesa que deu corpo e forma ao debate público. portanto, qualquer que seja o remédio, nao há maneira de escaparmos à maior responsabilidade no debate público. algumas das pessoas que hoje se afirmam como grandes críticos esquecem-se do seu protagonismo na defesa da intolerância no passado. nao digo que as pessoas nao mudem. claro que mudam. mas a veemência com que criticam hoje devia obrigá-las a, pelo menos, dizer como se situam em relacao ao que defenderam no passado. a intolerância nao é só má quando praticada pelos nossos inimigos. isto e mais outras coisas coloca obstáculos a uma atitude mais responsável no debate de ideias.

Anónimo disse...

Elísio, estou fascinado pela qualidade de debate que conseguiste despoletar. É sempre salutar quando uma série de postagens consegue convocar todos estes argumentos, toda esta discussão.

Obed L. Khan

Elísio Macamo disse...

caro obed, fascinado estou também eu em constatar que é possível discutir ideias tao bem. estou a aprender muito! abracos!

Jonathan McCharty disse...

Caro Elisio!
Julgo que estamos em consonancia relativamente a questao da "classe media" e a "atitude responsavel" no debate...Noto tambem a "urgencia" que impoes na resolucao do problema do anonimato!
Penso que a partir daqui, surge o "dilema" do ovo e da galinha! Quem precede a quem?! Se vivemos num pais onde o Estado e' o maior empregador, sera' que se pode considerar que a aludida "classe media" ja existe? Sera que existe (mesmo que na fase embrionaria) um segmento social que se preocupa para que crescamos como "nacao"? E qual e' a atitude de cada um de nos em relacao a isso tudo, ao nosso Mocambique?
Faco estas perguntas todas pq acho q e' fundamental, que cada um esteja embuido deste espirito nacionalista!! Ocorreu-me esta manha perguntar-me, "o que me faz mocambicano?" Ainda nao obtive uma resposta clara....cada um devia encontrar a sua e partilharmos todos......pq nessa falta de "referencias" deve estar a origem do "grupismo" a que temos estado votados...cada um defende o seu circulo e seus interesses...nao enxergamos para alem da linha divisoria do nosso "distrito"....e passamos a ter uma atitude de intolerancia, desconfianca,de "inimigo, mesmo" para o q nao e' do nosso raio de accao!
....Sera' que ha condicoes para q o "anonimato" desaparece da nossa esfera de debate?

Elísio Macamo disse...

caro jonathan, acho que há condicoes para que o anonimato comece a desaparecer. você e eu, mas muitos outros que andam pela blogosfera, nos jornais em mocambique, etc. somos exemplo claro disso. nao, a questao nao pode ser do ovo e da galinha. há certas coisas que nao podemos resolver de uma vez por todas e nao ajuda estarmos sempre a insistir sobre elas. o ovo e a galinha é uma delas. vamos olhar para a sua funcao respectiva hoje, neste momento, nas condicoes actuais, e vamos prosseguir com o que deve ser feito. nao podemos ser como o personagem de voltaire em "candide" que preferia se ocupar do seu jardim. tenho insistido aqui na identificacao do que torna a conversa possíve (incluindo a discussao) mesmo tendo em conta preferências políticas diferentes. isso pode desferir golpes fortes ao anonimato. o que far de si mocambicano é a capacidade de se indignar e isso já é um bom ponto de partida. mais importante ainda do que ser mocambicano é ser cidadao. e aí a indignacao tem que tomar os outros em consideracao. abracos!