quinta-feira, abril 17, 2008

O celular (9)

Supérfluo

Há mensagens de celular que me irritam. Refiro-me às mensagens-armadilha, aquelas que nos querem envolver num diálogo (por mensagem/sms) que pode nos roubar tempo. Vamos supor que alguém gostaria de sair connosco logo à noite. Há aí um concerto, vamos lá, de Azagaia ou Ziqo. Esse alguém sabe que nós gostamos desses músicos e que gostamos de ir a concertos. Sabe que se nos convidar havemos de dizer sim, claro. Então, ao invés de nos enviar a seguinte mensagem: “olá, hoje há concerto de Ziqo no África. Vens comigo?” escreve uma série delas. Começam assim: “oi, xtás ond?”. Respondemos. Logo a seguir vem a seguinte mensagem: “k fazx logo à noite?”. Nada, respondemos, e a seguir entra a seguinte mensagem: “k bom!”. Depois silêncio. É claro que nos vemos obrigados a responder. E fazêmo-lo: “pur k?” e aí vem a resposta: “konsertu d Ziku no África”. Só isso. Mas como nós somos, entretanto, competentes, respondemos: “fixe”. Também só isso. Depois silêncio. Aqui pode acontecer uma de duas coisas. Ou nós voltamos a mandar mensagem com o seguinte teor: “kuandu?” ou esse alguém manda mensagem “ojanoite”. Depois silêncio. Isso é importante. Quando se volta a cortar o silêncio não é para retomar o assunto do concerto. É para falar sobre outras coisas, por exemplo, se já ouvimos a última música dele, se gostamos, se é tocada na FM não-sei-quantos, etc. Duas horas depois vem a pergunta, se calhar até de nós mesmos: “vamux ao konsertu logo?”.

A Mcel e a Vodacom ganham, disso não há dúvidas. Os nossos patrões perdem porque utilisamos o tempo do serviço para essa troca inútil de mensagens. E a minha paciência também. Sei que o melhor seria libertar-me completamente do celular, mas não dá. Mas posso dizer que quando cai uma mensagem e vejo que só tem por aí três ou quatro palavras e termina com ponto de interrogação, evito ler. Já sei que é uma armadilha. Ou então leio e respondo rapidamente a dar toda a informação que eu achar pertinente de uma vez por todas. Vamos lá, alguém me envia a seguinte mensagem: “k fazx logo à noite?”. Respondo logo: “nada de especial, mas se é para sairmos é boa ideia. Diga-me para onde e a que horas. Abraços!”. Só que isso é incompetência social da minha parte. E vejo isso assim que chega a resposta: “estás chateado?”. É o que eu digo: ao invés de nos darem mensagens grátis a Mcel e a Vodacom deviam nos dar doses de paciência. Variações de “estás chateado?”: “u k tens?”, “k ci passa?”, “konteceu algma kouza?”. Odeio estas mensagens de celular. E a coisa não termina por aí. Suponhamos que fique esclarecido que não estou chateado. Vão responder “ok”. Só isso. Cada mensagem pode ter, normalmente, 160 letras. 160. Dava para escrever, “não, pensei que estivesses chateado por causa da resposta que me deste. Ainda bem, estou aliviadA”, ao todo 100, incluindo os espaços. Mas nada. Só “ok” para minutos depois mandar mais uma mensagem a explorar aspectos da minha resposta.

O que é que isto está a documentar? Acho que está a documentar a forma como o supérfluo tomou conta das nossas relações sociais. Perdemos, por razões que não consigo explicar aqui e de forma sucinta, o sentido do que é essencial e do que é supérfluo na nossa vida. Essa perca esvaziou de sentido uma boa parte da nossa vida e trouxe, no seu lugar, muito ar quente. Autênticos bafos. Para tentar explicar este fenómeno ocorre-me uma distinção feita pelo sociólogo alemão, Max Weber, entre o que ele chamou de racionalidade funcional e racionalidade substantiva. Parece mais complicado do que é. Basicamente, Weber dizia que a racionalidade funcional consiste do conjunto de coisas que achamos serem necessárias para que certos objectivos sejam alcançados. A substantiva, pelo contrário, refere-se aos objectivos, isto é explica-os, defende-os e fundamenta-os. Esta distinção está muito ligada à sua sociologia da dominação, muito particularmente ao que ele diz sobre burocracias. Com efeito, a sociologia conduziu Weber a um estado de pessimismo total, pois ele meteu na cabeça que a racionalidade funcional ia cada vez mais conquistar o mundo até ao dia em que perderíamos de vista os fins para os quais fazemos coisas.

É fácil verificar isto. Peguem num Ministro qualquer e tentem perceber até que ponto o que ele faz reflecte os fins que ele (ou seu governo) definiram. Verão que muito pouco corresponde a esses fins. O Ministro está refém dos funcionários que lhe dão os relatórios, as avaliações, as dificuldades, as potencialidades, etc. Quem diz Ministro diz Presidente. A burocracia é implacável! Tenho, por exemplo, a impressão de que o actual Presidente da República está, em certa medida, a ser vítima desta racionalidade funcional. Por exemplo, quando ele logo no início começou a falar do combate ao espírito do deixa-andar podia estar (acho que esteve) a querer declarar guerra à ineficiência do aparelho do Estado. O próprio aparelho, porém, pegou nisso e ao invés de se disciplinar usou o slógan para falar mal do anterior governo. Outro exemplo: os Governadores provinciais feitos Ministros. Se calhar a ideia era mesmo de colocar os objectivos (portanto, a política) à frente, mas nas mãos da burocracia isso virou colocar o partido Frelimo à frente de tudo, incluindo esta prática deplorável frequentemente criticada por muitos de obrigar pessoas a serem membros do partido.

Acho que o celular faz isso connosco. Ao invés do fim substantivo de boa comunicação sobre algo realmente de interesse, o celular faz-nos reféns de uma racionalidade funcional que nos limita naquilo que podemos dizer e ouvir. Dantes escrevíamos cartas longas para saber disto mais daquilo; hoje, escrevemos mensagens curtíssimas para não sabermos de nada. O supérfluo tomou conta de nós. Este desenvolvimento assusta-me.

4 comentários:

Jaime Langa disse...

Caro E.M, este é mesmo o teu estilo característico. Sou fã da tua forma “hostil” de abordar certas verdades (razão). Lembras no dia da mentira como "mentiste"? Gostei o exemplo que explica racionalidade funcional...o comportamento supérfluo do Ministro... parabéns

Elísio Macamo disse...

oh, jaime... obrigado. fico à espera da perspectiva económica.

Bayano Valy disse...

caro elísio,
não pude comentar antes por andar fora de maputo. neste momento não tenho muito tempo para comentários mais profundos.apenas quero deixar uma sugestão: o tema que vens escalpelizando ao longo da série é muito importante porque aborda várias questões relacionadas ao celular e suas implicações económicas, sociais e culturais, entre outras. não sei se já abordaste o facto de ser um quebra silêncio (no cemitério, igreja/mesquita/sinegoga, reunião e por ai); não sei se já abordaste o facto de ser um aparelho que contribui (penso eu) de alguma forma para que haja muita gente que não sabe escrever [as regras que se nos impõe a brevidade celularítica (bv marca registada) acabam sendo transferidas para o campo da escrita]; não sei se já explorou o facto de que as horas em que as duas operadoras "baixam os seus preços(?)" e permite que os mais novos se comuniquem são "ungodly" e podem contribuir para o insucesso escolar; não sei se já abordou a questão de o por uma questão de hábito hoje fazem-se mensagens só por se fazer (explico-me: leia is rodapés durantes os debates. o programa é bom. mando um beijo para minha família) por acaso escrevi por extenso. a minha questão é o quê isso tem a ver com o debate?

bem, são tantas as questões mas o queria dizer mesmo é que esta série podia dar num bom livro.

abração

Elísio Macamo disse...

caro bayano, senti a tua falta, mas percebo que o trabalho tem prioridade. algumas das questoes que sugeres foram afloradas, mas a maior parte nao. esse é, na verdade, um grande tpc e alguém tem que fazer isso. urge. obrigado pela sugestao do livro. o passo a seguir devia ser a própria investigacao, pois como podes ver pelos comentários que foram sendo feitos há muita coisa incompleta. depois tinha que saber exactamente o que quero dizer em relacao ao celular, algo que por vezes sei, mas por vezes nao tenho a certeza. o título seria sem dúvidas "a nao devina comédia celularítica". bom fim de semana!