segunda-feira, abril 07, 2008

O celular (1)

Eis uma nova série...

Em 1900 Georg Simmel, um dos pensadores mais brilhantes que jamais passou pela face da terra, publicou um livro com o título “a filosofia do dinheiro”. Não sei de nenhuma tradução para o português desta magnífica obra, nem mesmo do texto mais curto sobre o mesmo assunto que ele sempre fazia questão de publicar para resumir as suas ideias centrais. Se não houver mesmo uma tradução é muita pena, pois o livro é rico em ideias. É uma demonstração impecável do pensamento sociológico no seu melhor momento. É não só o texto fundador da sociologia económica como também uma excelente descrição analítica – a partir da reflexão sobre o dinheiro – da morfologia da sociedade moderna.

Na verdade, Simmel usa o dinheiro como pretexto para divagar sobre a transformação das condições de sociabilidade num determinado contexto histórico. O dinheiro é causa e efeito dessa transformação. Nele se manifesta a estrutura da nossa interacção, mas também o que nos leva a procurar a interacção e o que temos de fazer para garantir que essa interacção tenha lugar. Estou a ler neste momento um livro da autoria de um jurista francês amigo, Alain Supiot, que ele me ofereceu recentemente e encontro uma discussão que ele faz da origem teológica da noção de “crédito” na economia e recordo-me do que escrevia Simmel na sua “filosofia do dinheiro” sobre o depósito de confiança, mas também a comprensão de espaço e tempo na ideia de dinheiro. Dinheiro como moeda de relações sociais naquilo que o sociólogo britânico, Anthony Giddens, chama de “moedas simbólicas”.

Longe de mim querer repetir a proeza destes ilustres pensadores aplicando o seu raciocínio e as dicas que nos dão ao celular. Nesta série que inicio hoje pretendo, antes pelo contrário, apoiar-me nessas dicas para ver até que ponto o telefone celular pode ser descrito e intepretado mais ou menos nos moldes sugeridos por Simmel em relação ao dinheiro. Não se trata da “filosofia do celular”, mas sim de uma “etnografia do celular” que gostaria de fazer à morfologia das nossas relações sociais e o que elas estão a fazer à nossa sociedade e ao nosso próprio sentido de identidade. Tenho em mim que o celular se tornou num artefacto essencial à compreensão de alguns aspectos do nosso mundo da vida e isto, tal e qual o dinheiro visto por Simmel, como causa e efeito da transformação das condições de sociabilidade num contexto de cristalização da tensão entre o indivíduo e o colectivo.

Aliás, esta questão da tensão entre o indivíduo e o colectivo parece-me particularmente interessante como ponto de partida para abordar o assunto. Esta tensão, suponho, atravessa a nossa história de uma forma que a nossa historiografia ainda não começou a apreciar devidamente. Na verdade, e conforme já tive a oportunidade de afirmar em escritos anteriores, a lógica da nossa história está contida na procura individual de condições de realização da dignidade humana. A tragédia da nossa história, já agora, reside no não-reconhecimento desta lógica consubstanciado na insistência em soluções colectivas e colectivizantes de um drama que tem sido colocado de forma muito individual. É curioso notar, por exemplo, que mesmo aqueles que, através dos seus estudos e interesse pela dignidade humana alicerçada no respeito pela identidade cultural, fazem recurso a identidades primordiais para defender o direito à diferença no nosso país, não escapam a esta lógica do não-reconhecimento. Um exemplo particularmente problemático disto é a reanimação da chamada “autoridade tradicional”, cuja filosofia de direito subordina o indivíduo a uma autoridade fundada numa vontade dogmática e perene.

A regulação do chamado trabalho indígena pelo poder colonial, a condição de possibilidade da coerência do poder colonial nos finais do século antepassado, reconheceu o que moçambicanos, já antes mesmo de o poder colonial acordar para isso, tinham começado a fazer, isto é procurar no trabalho assalariado as condições de realização da sua individualidade. Ao mesmo tempo, contudo, o mesmo poder colonial fechou as portas dessa realização através da invenção da “sociedade africana”, muitas vezes copiada ao código bantu sul africano e que hoje, ironia de todas as ironias, encontrou um defensor institucional no Ministério da Administração Estatal. O recurso de muitos às igrejas protestantes, sobretudo à Presbiteriana, à Metodista, à Anglicana, à Wesleyana e mesmo ao American Board no centro do país, constituiu uma forma de contornar o fervor essencialista do poder colonial e encontrar, em condições de livre arbítrio, novos contextos de realização da dignidade humana. A independência, ideologizada por razões perfeitamente plausíveis num sentido neo-marxista, voltou a fechar as portas de realização com o fervor colectivista e totalitário dos primeiros anos de liberdade pós-colonial. Hoje, o colectivo insinua-se em nós através do legado desta interpretação problemática da nossa história, mas também através das categorias grosseiras da indústria do desenvolvimento: os pobres, as mulheres, os portadores do HIV/SIDA, a criança, os camponeses, etc.

É neste contexto de tensão entre o indivíduo e o colectivo que o celular assume uma importância particular para a discussão das condições de sociabilidade no nosso país. O celular, quero sugerir, tornou-se na expressão da negociação da individualidade e do sentido de comunidade no Moçambique dos nossos dias. Compreender a etnografia do celular é, julgo, compreender Moçambique. Ao longo das próximas postagens vou aflorar alguns aspectos dessa etnografia.

6 comentários:

Anónimo disse...

Elísio: acho que tu, mais do que ninguém, (há duas ou três pessoas que podem fazê-lo(traduzir) Simmel: dever patriótico! e essa coisa do dinheiro vem mesmo a calhar! mais ainda porque tu aplicas-lo (decai o s) ao celular, que hoje, vale tipo dinheiro na nossa cosmogonia. Mas, dizia eu, que há 3 pessoas (pelo menos) que conheço, que têm o dever patriótico de traduzir Simmel para nós outros que ñào falamos alemão, para nosso infortúnio: és tu, o Quive e o Castiano: estou a desafiar-vos em nome da pátria amada (mesmo que o vosso argumento não deva (obviamente) ser desse tipo. Que tal o challenge?
Bom 7 de Abril para as alemãs tuas amigas, cunhadas e colegas! em meu nome e do da minha família!
Actredito que, uma vez lançado o repto, empreendedor que és, darás sentido ao que eu diss, à boa maneira weberiana! tu sabes o que estou a dizer, não fosses instrutor da FIFA no CODESRIA!

filimone meigos

Elísio Macamo disse...

mone, tanta mistura de metáforas só pode revelar a extensao da necessidade. espero que o quive e o castiano estejam a ler. nao seria bom que eu decidisse essas coisas sozinho. eu até prefiro dar-lhes prioridade, pois quando se trata de patriotismo nao podemos ser agarrados... mas há várias maneiras de traduzir textos, por exemplo, interpretando-os, falando deles, maltratando-os, etc. dê gracas à tua cosmogonia por nao leres alemao, pois nao tenho a certeza se depois de leres simmel no original ainda ficavas bem humorado se alguém te sugerisse que o traduzisses...

Jorge Saiete disse...

PROFESSOR, BOA PROPOSTA ESTA! NA VERDADE O CELULAR OCUPOU UM LUGAR JAMAIS IMAGINADO NAS NOSSAS VIDAS. SE ESTIVESSE POR CÁ, IRIA LHE SUGERIR QUE ESCUTASSE UMA MUSICA DO CANTOR (OU MÍSICO?) SUL AFRICANO DE NOME GENERAL MUZIKA, BEM FAMOSO NO SUL DO PAIS. NA MUSICA ELE FAZ REVELAÇÕES INTERESSANTES SOBRE O LUGAR DO CELULAR EM NÓS.

CONCORDO COM O SOCIOLOGO MEIGOS, O PROF. MACAMO E OUTRO FALANTES DO ALEMÃO TÊM O DEVER PATRIOTICO DE NOS APROXIMAR AO SIMMEL, NEM QUE MALTRATANDO-O...

Elísio Macamo disse...

caro jorge saiete, vamos fechar um negócio: passa-me a letra dessa composicao do músico sul africano e eu fico a pensar na proposta de responder ao dever patriótico. o que acha? vocês nao têm medo de usar essa prerrogativa presidencial? nao compete só ao presidente decidir o que é dever patriótico?

Nkhululeko disse...

Alô Elísio,
Nos tempos de Simmel, os relógios de bolso na "cidade grande". Agora os celulares (entre outras coisas). Uma pergunta: Porque não o "fetiche da mercadoria" de Marx?
Abraço

Elísio Macamo disse...

boa pergunta, andré. porque nao o fetiche da mercadoria? por duas razoes. primeira, porque a aparente clarividência de conceitos marxistas entorpece a mente de alguns que pensam que a referência a marx explica tudo. isso é maldade da minha parte. segunda, porque a ideia de fetiche concebe-nos como vítimas do artefacto e nao nos convida a ver tudo quanto se torna possível com o artefacto. portanto, o fetiche parece-me ahistórico, enquanto que simmel convida-nos a ver todo o campo de possibilidades. recupero algumas destas questoes na última postagem da série. um bocado de paciência.