Obrigado porquê?
Simmel diz que se de uma assentada fosse saldado todo o sentimento de dívida que cada um de nós por algo bom que nos foi feito a sociedade ia ruir qual castelo de cartas com um sopro. Mas Simmel está a falar da gratidão que se constitui como relação entre dois indivíduos. Não está a falar da gratidão moçambicana. No nosso caso nem sei se é possível colocar a questão nestes termos. Saldar que dívida? Porque é que nasce dívida de uma acção que faço em prol de um colectivo? Como é possível uma dívida sem a individualização que a gratidão exige? As coisas começam a ficar feias aqui, pois nem sei se, filosoficamente, posso mesmo falar de “boa acção”. Boa acção? É possível falar de boa acção quando nos referimos ao cumprimento de um dever? É possível ficarmos gratos por alguém fazer aquilo que deve fazer? Não tenho a certeza e, por essa razão, acho que devemos reflectir um pouco mais.
Vimos na postagem anterior que a relação que uma boa acção estabelece é entre colectivos. Não sei se estou a puxar a reflexão para muito longe, mas algo me diz que num contexto onde a acção social se define pelo tipo de pontes que estabelece entre colectivos ela perde o seu valor intrínseco e fica apenas como um documento de algo exterior a si próprio. Neste sentido, acho justo pensar que se de facto a nossa relação com a gratidão se articula desta maneira, isto é como documento de relações entre grupos, então, se calhar, está aí uma parte da explicação para a dificuldade que muitos de nós temos em apreciar a importância que certas regras e restricções têm para a convivência sã na diversidade. Estou a ver muitos exemplos disto. Por exemplo, o funcionário público que atende um indivíduo fora da bicha apesar de haver pessoas à espera há horas não estaria a praticar uma “boa acção”, mas sim a documentar a sua ligação com o grupo ao qual esse sortudo pertence. Fazer isso, ao invés de respeitar a regra, parece ser essencial para esse funcionário. Já ouvi pessoas na periferia de Xai-Xai a dizerem que não podiam exigir a substituição de um administrador que desviou fundos porque senão as pessoas da administração central em Xai-Xai iam lançar as culpas às pessoas da periferia acusando-as de terem estragado o seu funcionário, pois antes de ele ser afecto àquela localidade não desviava fundos. Isto é, o que as pessoas fazem perde importância e é substituído pelo que documentam em termos de relação entre colectivos. Nós não tocamos na vossa pessoa, vocês também se comprometem a nunca nos chatearam em relação a outras coisas.
O espírito que é o terror das gentes do sul do país, o espírito mudhliwa (que eu traduzo por espírito imprevisível, embora a tradução literal seja “espírito daquele que foi comido”), funciona mais ou menos nestes moldes. Este é o terceiro espírito da tríade que inclui ainda os espíritos naturais e os dos antepassados. É o menos poderoso, mas mais mau. E é mau porque é imprevisível. Os naturais (svikwembu sva tumbunuku) ocupam-se do comportamento da natureza (chuva principalmente) enquanto que os dos antepassados (tinguluvi, que quer dizer literalmente porcos por causa do osso de porco que os representa no saquinho do divinador) se ocupam do bem estar da família. Nenhum destes espíritos mata. Os únicos que podem matar são os imprevisíveis porque estes são chamados para resolverem problemas práticos sem que haja uma contrapartida monetária em troca. Os feiticeiros pegam simplesmente numa alma que anda por aí perdida (soldados tombados em guerra, comerciantes indianos, etc.) e colocam-na ao serviço de alguém que paga ao feiticeiro, mas não ao espírito. A remuneração do espírito imprevisível é que seja levado de volta à casa (para ser enterrado condignamente). Este espírito pode ficar gerações sem mexer, mas um dia pode exigir ser levado de volta à casa mesmo se as pessoas a quem exige isso nunca tenham recorrido aos seus serviços. Basta que alguém da sua família tenha feito isso há gerações!
Apresso-me a dizer que o que acabei de relatar é simplesmente a forma como muitos de nós vemos este outro mundo que nos habita. Quando digo que os espíritos imprevisíveis matam não quero dizer que eles matam mesmo. Estou simplesmente a dizer que a visão do mundo dentro da qual estas coisas fazem sentido parte do princípio de que estes espíritos realmente matam. O que me interessa não é, evidentemente, discutir a questão de saber se isso realmente é possível, pois essa discussão não nos leva a sítio nenhum. Interessa-me, aí sim, reflectir que consequências práticas essa crença tem na forma como algumas pessoas organizam a sua vida e estruturam as suas relações com os outros. Melhor ainda, a minha impressão é de que o tipo de obrigações que podemos extrair desta concepção da acção constitui um excelente pano de fundo para avaliar a nossa atitude em relação aos compromissos que assumimos como membros de uma sociedade que faz da relação entre o indivíduo e o colectivo um foco permanente de tensão.
Um indivíduo que ignora as obrigações colectivas sujeita-se ao ostracismo social. Estar a trabalhar na polícia, nas alfândegas, migração, hospital, finanças, inspecção de trabalho, etc. e insistir no cumprimento de leis em total ignorância das relações de parentesco, regionais, étnicas, políticas e não-sei-que-mais é razão suficiente para ser acusado de estar feito com o “diabo”, neste caso, com um “espírito imprevisível”, pois como um curandeiro me dizia em Chicumbane não existem maus espíritos, só existem más pessoas. É daí, por exemplo, que um indivíduo profissionalmente bem sucedido tem que se sujeitar à suspeita de ter logrado o seu êxito com base em ajuda metafísica dos espíritos imprevisíveis. É tão grande essa suspeita que sobre essas pessoas contam-se das histórias mais bizarras que se podem imaginar, mas só para salientar o facto de que essas pessoas deram as costas ao colectivo.
Isto sugere-me a ideia de que, se calhar, o sentimento de gratidão não exista entre nós, pois não estão reunidas as condições para a sua existência. É uma conclusão arrojada, mas que me parece necessária para começarmos a pensar seriamente.
5 comentários:
caro elísio,
se wanilahla, como diria o outro. vou concordar com patrício que o assunto não é conversa para um leigo como eu.
bem, há uma questão que levantas mas acima sobre "boa acção" vs "dever". isso remete-me ao prémio mo ibrahim. penso que tivemos umas discussões interessantes na altura. a ideia, se bem me recordo, era de porquê um prémio para alguém que não fez outra coisa senão o seu trabalho? e porquê é que se tinha que dar um incentivo aos líderes africanos para abandonarem o poder no final dos seus mandatos? agora: como enquadrar o "obrigado" de mo ibrahim nesta reflexão? vale a pena esse tipo de "obrigado"? chissano tinha cumprido com o seu dever, terminávamos pelo nosso gesto de agradecimento ou dávamo-lo mais, como o fez mo ibrahim? e quem decide ou deve decidir que temos que premiar os que fizeram o seu dever da "melhor forma"? no nosso caso, porquê é que a maioria dos premiados são os políticos? esta reflexão até pode nos levar à questão de heroi - porque alguns merecem entrar na cripta e outros não? se entendermos que a cripta é o lugar daqueles que estiveram envolvidos na luta de libertação, porquê apenas as elites é que lá acabam e muitos dos que estiveram de facto na mata nem aparecem mencionados, e morrem como desconhecidos e não há nenhum "obrigado"?
o espírito de mudliwa não representa toda a nossa sociedade com toda a sua imprevisibilidade? talvez fosse importante um dia fazeres uma reflexão sobre o espírito mudliwa com a nossa sociedade. acho que existem alguns elementos em comum muito interessantes.
um abração
bayano
caro bayano, tens razão que a coisa não está fácil. mas não é o leigo que é culpado. sou eu. as ideias não estão ainda bem formadas na minha cabeça e quando é assim é difícil produzir um texto fácil de ler. mas chegou um momento que eu precisava de partilhar a reflexão para poder prosseguir.
a afinidade entre o espírito do mudhliwa e a nossa sociedade é mais do que óbvia. já fiz várias referências a isto em textos espalhados por aí. talvez volte ao assunto de forma mais sistemática ainda.
boa acção e dever são assuntos bicudos e não sei ainda se estou satisfeito com a distinção. no caso específico do prémio mo ibrahim a questão é de saber se ele estava mesmo a dizer "obrigado". não tenho bem a certeza. e isso é importante, pois este é o problema de fundo desta reflexão: será que o nosso obrigado é mesmo um obrigado? nas próximas duas postagens faço incursões ainda mais arrojadas na direcção de saber que ligação existe entre o obrigado e aspectos centrais da nossa vida. deseja-me sorte!
Concordo com o Bayano. Está difícil digerir estas postagens. Todavia, algo impele-me a enquadrar, hesitantemente, duas questões em dois pontos que referes, isto em jeito de concordar ou mesmo fundamentar o que apresentas primeiro com uma evidência e segundo, procurando ir mais a fundo. Possivelmente este meu comentário enquadra-se melhor na postagem anterior.
Primeiro ponto. “É possível ficarmos gratos por alguém fazer aquilo que deve fazer?” Um chefe de sector de uma das grandes empresas nacionais, no exercício das suas funções, afectou um 4X4, por sinal mais “txunado” do que o dele, a um subordinado que por coincidência é seu primo. Até aqui tudo bem. No entanto, o subordinado quando questionado por malta amiga a proveniência do carro diz que foi o primo que lhe deu. Que este é uma boa pessoa. Um eterno obrigado.
Segundo ponto. “Estar a trabalhar na polícia, nas alfândegas,(....) e insistir no cumprimento de leis em total ignorância das relações de parentesco, regionais,(....) é razão suficiente para ser acusado de estar feito com o “diabo”,...” . Esta é uma questão séria e sobre ela recaem muitas das críticas da má-governação nos países africanos (Moçambique). Existe um livro “o estado em África: a política da barriga” que explica que os africanos vêem a política como uma forma de garantir o “tacho” para si e seus próximos. Isso não porque os indivíduos que entram na política o façam simplesmente para ter acesso ao “tacho”, mas porque as pessoas em volta deles esperam que os políticos lhes sirvam como fonte de emprego, dinheiro, entre outras benesses.
Daí que a pressão social sobre os políticos ou outros detentores de cargos que geram efeitos multiplicadores no combate a pobreza é enorme, e eles devem garantir essas coisas todas para os irmãos, primos, etc. Como toda a gente faz isso, as instituições do estado e a própria sociedade civil se tornam feudos de grupos e tribos específicas. Isto leva até, suponho, a redução ou mesmo esvaziamento da crítica em Moçambique, sobretudo, em relação ao estado pelos que a partida deviam exerce-la. Ao contrário equivalia a violar a máxima que diz: “não atires pedras para o telhado do vizinho quando o teu telhado é de vidro”. Em outras palavras existe uma espécie de “obrigado mútuo” sem que o mesmo seja pronunciado.
Nando Menete
caro nando, sim, as coisas não estão fáceis por aqui. tu levantas uma boa questão com a referência ao livro de bayart. na verdade, esta expectativa que descreves não é africana. em todo o lado é assim, isto é, sempre que possível as pessoas tentam contornar as regras e servem-se do informal para alcançarem os seus objectivos. a moral do informal não é burocrática, mas sim emocional e afectiva. o desafio é perceber porque há cada vez menos espaço para isso noutros países e muito espaço para o mesmo no nosso. penso que as nossas noções de "obrigado" podem nos ajudar a perceber isso. gostei do reparo sobre a crítica. até porque faço referência a isso numa das próximas postagens.
Caro Elisio. Creio que uma parte da resposta ja foi avancada nos teus artigos e discussao sobre a industria do desenvolvimento. Nando Menete
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