segunda-feira, abril 14, 2008

O celular (6)

O desabafo

Não quero levantar aqui um assunto que esteve na origem de debates acesos na blogosfera e na imprensa escrita. Sei que o debate não terminou, apenas estamos a fazer pequenas tréguas enquanto recobramos forças e afinamos argumentos para nos lançarmos em novas batalhas. Só por isso seria, até, oportuno, voltar à carga enquanto os outros recarregam as baterias. Mas, não, não vou fazer isso. Vou reflectir aqui e agora sobre uma manifestação do desabafo que está associada ao uso do celular. Suponho, porém, que essa manifestação tenha uma ligação com o fenómeno mais geral e que assenta numa contradição muito curiosa: o desabafo, como tentativa de crítica social (já comecei...), funciona através de um mecanismo argumentativo que sempre nos coloca como gente impotente vítima da vontade dos outros. Há uma música de muito mau gosto e da autoria de Azagaia sobre as vítimas da explosão do paiol. Essa música produz os seus efeitos dramáticos através da apresentação do pacato cidadão como vítima não só inocente como também impotente da vontade assassina de outros.

A nossa relação com o celular traz algumas destas coisas à superfície e ajuda-nos, talvez, a explicá-las. A expansão do celular na nossa sociedade colocou às operadoras desafios muito grandes. Por favor, ligue mais tarde tornou-se sintomático não só das dificuldades técnicas ligadas a esses desafios como também, e mais importante ainda, da necessidade de algo que transcende o meramente técnico para que algo funcione a contento, nomeadamente a possibilidade de o consumidor se defender do mau serviço. Como o nosso país produz pouco, mas consome muito, somos, no mundo, e do ponto de vista proporcional, dos povos com maior experiência de consumo. Mas somos uma espécie muito particular de consumidores. Consumimos sem direito de determinar a qualidade do produto que compramos. Somos consumidores que, na verdade, estão numa relação de subordinação ao que os nossos vendedores nos querem proporcionar como serviço.

Quando, de olhos virados para cima, dizemos “pois é, essa Mcel!” e transformamos essa operadora no motivo de longas conversas azedas sobre a qualidade do que é nosso (e não presta! – o que não é bem verdade, acrescento!), estamos a desabafar. Estaríamos a criticar se ao invés de apenas apontar o que não está a andar, fóssemos mais longe e procurássemos saber o que seria necessário fazer para que o que não anda, pudesse andar. Estamos a desabafar porque estamos simplesmente a documentar a nossa impotência e a nossa condição de vítimas da vontade alheia. E isto é algo que se repete em várias coisas da nossa vida de consumidores. Aceitamos a humilhação no “chapa”, apesar de serem eles a implorarem connosco para que entremos na sua viatura; aceitamos o mau tratamento em lojas, restaurantes e repartições públicas, apesar de sabermos que “o cliente tem sempre razão” e o servidor público deve nos tratar com respeito; aceitamos a incúria da polícia de trânsito, do polícia normal, da polícia municipal e de tudo quando se mexe, nos deve prestar um serviço e se esquece convenientemente quem deve o quê a quem.

É esta atitude inexplicável – bom, alguém deve ter uma explicação – que está por detrás do desabafo. O celular traz essa atitude à superfície mostrando de forma gráfica o que está em jogo. O grande sucesso empresarial das operadoras – o expoente máximo disso é o grande e único Mo Ibrahim... – não reside na nossa dependência do telefone celular, mas sim da dependência dos que disponibilizam esse serviço da nossa vontade de consumo. Mas faz parte da forma como o celular se meteu na nossa vida esconder essa relação e meter na nossa mente que nós é que estamos numa relação de dependência. Se há aqui relação de dependência, essa relação é mais do estilo da toxico-dependência, pois nós entregamo-nos à coisa. Não existe entre nós uma associação dos clientes da Mcel ou Vodacom que pode, em nome de todos os outros utentes, reclamar melhor serviço sempre que este não for dado ou fazer representações junto do governo para que se instituam mecanismos jurídicos que formulem e protejam os direitos dos consumidores. Nada disso. É só desabafar: essa Mcel!

E isto é extensivo à nossa cultura política. Aqui também esquecemos que o sistema político está para nos servir a nós, e não o contrário. Ao invés de reflectirmos sobre como podemos reforçar a nossa posição para que o sistema respeite os nossos direitos e nos proteja, preferimos andar a cantar a sanha assassina dos governantes, declamar aos quatro ventos tudo quanto está mal e, sempre, apresentando-mo-nos como uns coitados abandonados à sua sorte. Quando, recentemente, o jornal Notícias (esqueço-me sempre de acrescentar “o governamental...”) noticiou que o Ministro da Saúde teria indicado a intenção de fechar os hospitais de dia para os seropositivos publiquei uma reflexão que caiu em ouvidos moucos numa esfera pública habituada ao desabafo como demonstrou o comentário do jornal Savana (o que se acrescenta aqui? O não-governamental Savana?). Nessa reflexão eu tentava fazer uma distinção entre o direito de sermos tratados com igualdade e o direito a sermos tratados como iguais. E dizia que o espírito da constituição dava liberdade ao governo de definir o tratamento com igualdade ao mesmo tempo que impunha limitações na interpretação do direito de sermos tratados como iguais, nomeadamente a obrigatoriedade de garantir que a prossecução do interesse público não prejudique as minorias que caiem fora dessa definição do interesse público.

Essa reflexão era uma chamada de atenção indirecta à potencial vulnerabilidade do cidadão perante o Estado. Era uma maneira de dizer que ao invés de apenas cantarmos essa vulnerabilidade deveríamos procurar maneiras de a reduzirmos, que criticar significava essencialmente identificar esses atentados à nossa integridade como consumidores, cidadãos e, já agora, portadores do celular. Mas como este último conseguiu nos enganar com a ideia de que nós é que precisamos dele, e não o contrário, dificilmente nos libertaremos dessa prisão celular!

Sem comentários: