terça-feira, abril 29, 2008

A gratidão (5)

Obrigado Pátria amada?

O terceiro elemento que consigo depreender das nossas várias noções de “obrigado” tem a ver com o valor que documentamos. Aqui as coisas são ainda mais complicadas. Na postagem anterior comecei a abordar essas coisas com a ideia de que a gratidão não exista entre nós. Vou tentar desenvolver isso aqui. Na verdade, estou a introduzir um elemento normativo segundo o qual a gratidão seria algo que ocupa o lugar de uma retribuição imediata e de igual valor em relação a algo que nos é dado ou outros fazem por nós. Nas duas anteriores postagens tentei mostrar que o tipo de sociedade que se constituiu entre nós utiliza a gratidão como vínculo entre um indivíduo ou um colectivo, por um lado, e um colectivo por outro. Este último pode ser nosso ou de outros. Neste sentido, temos a ideia de reciprocidade salientada por Marcel Mauss (os meus agradecimentos ao Patrício Langa por este reparo) e, de forma muito significativa, também por Karl Polanyi na sua grande obra “A grande transformação” com a sua ideia de uma reciprocidade generalizada.

Sendo assim, é um bocado difícil falar de “gratidão”, pois o que realmente acontece é que se fica em dívida e que essa dívida deve ser saldada. A ideia normativa de gratidão, porém, não prevê necessariamente a dimensão de dívida, ainda que ela esteja presente quando agradecemos. O que acontece entre nós é uma simples transanção cujo desfecho pode se adiar, mas sempre acontece. Penso que até seria melhor falar de “favor” do que de “gratidão”, reservando esta última noção para o que acontece no interior dos colectivos. Isto é, eu posso estar grato ao meu irmão, à minha tia, ao meu camarada de partido e, onde for relevante, ao meu conterrâneo regional, mas nunca a um indivíduo que pertence a um outro colectivo. Os outros prestam-me favores que eu devo tratar de retribuir o mais depressa possível. O favor é um serviço que integra, no seu raio semântico, outras noções como “jeito”, “ajudazinha”, “empurrão”, enfim, tudo quanto está para além de uma definição restricta do que é nossa função oficial ou que não é passível de formalização.

Reconheço que são ideias ainda em formação, mas o que quero destacar aqui é a possibilidade que elas nos oferecem de explicar algumas manifestações interessantes da nossa sociedade. Por exemplo, existe na nossa sociedade uma expectativa muito forte de retribuição imediata por seja o que for que alguém fizer por nós. Isto conduz a um grau bastante elevado de venalidade nas nossas relações sociais. Isto é, tudo passa a ter valor monetário e é só nessa condição que ocorre como acção social. Assim, quem é guarda de uma residência e, por isso mesmo, tem que ficar no passeio a guardar, aproveita essa condição para cobrar a quem deixe o seu carro arrumado nesse passeio. Ele está a prestar um favor. O mesmo acontece com o funcionário público que no cumprimento do seu trabalho espera gratificação por “facilitar” os trâmites; é o mesmo em relação ao polícia de trânsito que fecha os olhos a uma infracção em troca de alguma coisa para matar a sede; e por aí fora. Isto é, aquilo que chamamos de pequena corrupção tem também outras formas de explicação nas manifestações da gratidão na nossa sociedade e que devemos perceber como condição para entendermos com que animal estamos a lidar quando falamos da corrupção.

Diz-se entre nós que “favor não compra pão”, o que resume tão bem a nossa atitude em relação à gratidão. O “favor” normal teria como consequência apenas a gratidão, mas o nosso “favor” é, na verdade, um serviço que prestamos pelo que ele precisa de ser remunerado. Em condições normais isto estaria a documentar o nosso espírito empreendedor que nos leva a reconhecer oportunidades de negócios em todas as coisas da vida. Nas condições actuais e objectivas do país, porém, o que este entendimento da gratidão, e consequentemente do “favor”, faz é documentar simplesmente a ausência de condições para a gratidão como algo que vai para além da simples retribuição material equivalente por algo que nos foi dado ou feito. Ou seja, somos uma sociedade fragmentada com fraca referência normativa abrangente. Os nossos colectivos imediatos, isto é a família, a região, o partido, etc. constituem as referências normativas que, por definição, são locais e específicas para além de se reproduzirem justamente na ignorância ou hostilização de outras referências.

Precisaríamos de dizer “obrigado pátria amada” para termos o sentido normativo de gratidão, mas para esse efeito seria também necessário que houvesse limites à venalidade na nossa sociedade, limites esses apenas possíveis com maiores níveis de confiança à largura da sociedade. Émile Durkheim, o sociólogo francês também co-fundador da disciplina, já havia chamado atenção para esta problemática quando se referia à consciência colectiva. Ele dizia, com efeito, que bem vistas as coisas a sociedade é algo impossível, pois se partirmos da ideia de que os indivíduos agem racionalmente, então somos forçados a concluir que teríamos de partir também do princípio de que os outros vão simplesmente nos enganar sempre que tiverem oportunidade para tal. Não obstante, as pessoas agem e para esse efeito fazem de contas que os outros também agem de boa fé. Em certa medida, portanto, Durkheim estava a dizer que a sociedade assenta numa base irracional. É este elemento de irracionalidade, curiosamente, que nos faz falta em Moçambique. Quase todos nós partimos do princípio de que os outros, se tiverem a oportunidade, vão nos enganar e, por isso, cobramos favores, ignoramos quadros normativos abrangentes e criamos condições para que a gratidão não se afirme entre nós.

7 comentários:

Bayano Valy disse...

caro elísio,

não há dúvidas de que está a animar. pessoalmente, estou a tentar fazer um exercício mental muito difícil. quero ver se confio a minha mente e olho para as coisas da forma mais simples possível: as crianças percebem muitas coisas porque não têm mentes complicadas como as nossas.

bem, enquanto vou fazendo isso ocorre-me acrescentar mais um elemento: isso que a nossa sociedade chama de "favor" não seria "louvor"? é que se parte-se do princípio de que qualquer esforço é remunerado, se todos partirmos da "irracionalidade" de que ninguém nos vai enganar, o resultado do nosso esforço é receber algo em troca - desculpe-me por trazer marx para este debate. não é esta a característica duma sociedade meritocrática?

não há dúvidas que está a animar.

Elísio Macamo disse...

caro bayano, eu acho que a questão de estar na nossa racionalidade. sem confiança, é difícil esperar. ficamos impacientes. mas a confiança não vem também de qualquer maneira. temos que fazer algo para que ela exista. mas como fazer esse algo sem a confiança de que os outros ajam em boa fé? estás a ver o problema? aí a saída é mesmo a de um capitalismo selvagem que monetariza as relações sociais. não quero exagerar no meu diagnóstico, mas tenho a sensação de que cada vez mais áreas da nossa vida social são invadidas pela venalidade. isto não é desenvolvimento capitalista. é uma manifestação negativa dos efeitos da introdução da economia monetária num contexto marcado pelo compromisso com colectivos imediatos. suponho.

Bayano Valy disse...

caro elísio,
acho que a tua suposição não é despida de mérito. infelizmente parece ser essa a "realidade" (isso é problemático). digo infelizmente porque a sensação com que fico é de que na nossa ânsia de sermos "sobrepostos" (não seria melhor se disséssemos pós-modernizarmo-nos?) acabamos enxertando vícios e não virtudes ao nosso modelo de desenvolvimento (se é que existe tal modelo). isso perpassa quase todas as esferas do nosso quotidiano. de alguma forma encoraja-me o debate sobre a auto-estima, mas já não é encorajador se não existe uma definição clara do que se pretende de auto-estima. quero supor que da auto-estima possa saír a confiança de que o outro agirá de boa fé. mas primeiro teríamos que mudar várias percepções que se tem dos que avançam com o argumento de que é necessário criarmos uma cultura de auto estima; quero dizer que apregoar no deserto não traz mudanças. é preciso que se aja de modo a que todos os moçambicanos compreendam o que está em jogo. falava da outra vez sobre o que é isso de ser moçambicano - muito complicado. como é que definimos a moçambicanidade, por exemplo; ou como definir a unidade nacional. são questões que acho que contam muito quando vamos definir como a gratidão é vista no país. supomos estarmos gratos à frelimo por ter libertado o país do jugo colonial; supomos estar gratos à renamo por ter "lutado pela democracia". o que é que essa gratidão encerra? como é que podemos pagar por ela? se vamos pagar, porquê é que temos que pagar e a quem? e pagaremos por quanto tempo? enfim, começo a ter a sensação de que estou a digressionar.

mas inclino-me a concordar que a tua suposição não deve andar muito longe da "realidade", pelo menos a minha.

um abraço

Bayano Valy disse...

caro elísio,
mais uma questão: como é que começaríamos por aplicar limites à venalidade e por onde começaríamos?

Elísio Macamo disse...

caro bayano, concordo contigo que o debate sobre a auto-estima é oportuno. não creio que seja necessário que quem o incentiva já tenha uma resposta para isso. o desafio nesse caso como na questão da moçambicanidade que tu colocas é de definirmos o espaço dentro do qual cada um de nós pode ser o que quer ser respeitando o direito dos outros de serem o que querem ser. acho que o desafio tem um quê de filosofia política liberal, cujas manifestações institucionais nós adoptamos sem nos comprometermos com o seu conteúdo. a criação de um contexto institucional dentro do qual os nossos direitos, a nossa liberdade e o nosso dever de sermos tratados como iguais sejam respeitados pode contribuir bastante para criar espaço para a gratidão e diminuir, dessa maneira, o espaço da venalidade. precisamos de resistir às receitas da indústria do desenvolvimento que nos obrigam, por exemplo, a privilegiar uma abordagem assistencialista no combate à pobreza em detrimento da criação de mecanismos robustos de segurança social. precisamos de ser mais cidadãos, mas como exactamente não sei dizer. ainda estou a pensar e a reflexão sobre a gratidão (bem como sobre o celular) faz parte desse empreendimento.

Bayano Valy disse...

caro elísio,
vou concordar contigo sobre a necessidade de praticarmos mais a nossa cidadania, ie, sermos mais cidadãos. penso que isso está de alguma forma interligado ao que o nando dizia ser "a redução ou mesmo esvaziamento da crítica em Moçambique, sobretudo, em relação ao estado pelos que a partida deviam exerce-la". se a crítica de um não é respeitada por não usar as cores do momento, como é que pensamos que vai-se amanhã aceitar o grito de que o país está a afundar?
a questão de respeito, que mencionas, me parece fulcral à este exercício. por exemplo, como é que podemos ter respeito de nós mesmo se de gratidão entendemos favor? como é que podemos nos respeitar se dizemos apenas "obrigado" sem ser essa a nossa intenção? como nos respeitarmos se reduzimos todas as nossas acções à venalidade?
isto traz-me para uma outra questão: porquê, por exemplo, no nosso país não existem em "latu sensu" organizações de voluntários? ou se existem, as pessoas que nelas militam aproveitam-se para colher benefícios?

Elísio Macamo disse...

caro bayano, levantas boas questões que mostram a veia sociológica em ti. a reflexão serve para isto, isto é suscitar cada vez mais interrogações. concordo contigo quanto à ligação forte entre auto-estima e gratidão. o mesmo vale para o trabalho cívico que é fraco entre nós por razões provavelmente ligadas ao nosso entendimento da gratidão.