quarta-feira, abril 09, 2008

O celular (3)

Privacidade

Noutros escritos Georg Simmel fala sobre o que chama de tragédia da cultura. É difícil explicar esta noção com toda a força argumentativa que o olhar atento de Simmel emprestava às coisas. Basicamente, o que ele queria dizer era uma espécie de trabalho de Sísifo (em Moçambique chamamos a isso de trabalho de Marracuene) em que a procura de um espaço individual desemboca num espaço colectivo que procura destruir o indivíduo. O celular contém este momento trágico. Ele é a expressão mais alta da individualidade. Quando entrou no país nos meados da década de noventa, o celular era o símbolo de distinção, realização individual e exclusividade. A sua produção em massa encarregou-se de obliterar isso, mas graças aos Todo-Poderosos as diferenças de marca e preço repuseram a distinção.

Contudo, no contexto do nosso país onde o sucesso individual é muitas vezes visto como tendo sido à custa do sofrimento de demais – refiro-me sobretudo às pressões familiares – o celular crious mais problemas aos que se distinguiram por seu intermédio. Ele encurtou a distância que os separava das demais obrigações. Estar em Maputo ou em missão de serviço deixou de ser um grande problema na colocação de preocupações. Do mais recôndito lugar do nosso país, mas com um masto da Mcel, podiam chegar “please call me” ou simplesmente “beeps”. E, curiosamente, enquanto que dantes os que queriam ajuda de nós tinham que andar quilómetros e quilómetros – e, quem sabe, por causa disso até desistiam – com o celular eles simplesmente fazem-nos pagar para os ouvirmos a colocarem preocupações. Transferem as despesas para nós.

Este é um momento muito particular dos efeitos nefastos da procura de privacidade, uma privacidade que se apresenta como uma quimera, pois força-nos a justificá-la. Explico-me. Dantes podíamos estar ausentes. Simplesmente ausentes. Ausente significava não estarmos por perto ou não estarmos perto de um telefone fixo. Hoje, com o celular, ausente significa não podermos atender à chamada, pois ausentes nunca estamos. O espaço físico evapora-se na nossa disponibilidade permanente. Assim, em princípio estamos sempre presentes. O nosso tempo não é apenas nosso, é também dos outros que, potencialmente, podem querer entrar em contacto connosco. E se não conseguem entrar em contacto connosco porque o nosso celular estava desligado, nós é que devemos explicar porque caímos fora de rede.

E aí a nossa não-disponibilidade vira fonte de suspeita dependendo do tipo de relação que temos com a pessoa que nos queria contactar. Se for um amigo, pergunta “porque não me quer atender?”; se for a mulher ou marido a pergunta é “com quem está?”; se for o pai ou a mãe, pergunta-se “que estará ele a fazer?”; se for o chefe pergunta-se “será que não fez o que devia ter feito e é por isso que finge estar fora de linha?”. Este dado até me leva a concluir que muitos de nós damos graças a Deus pelos problemas técnicos da Mcel. Que seria de nós se não fosse possível dizer “essa Mcel!” como forma de explicar o facto de não termos sido contactados quando alguém nos queria contactar? Não obstante, o que é mesmo evidente é que este aparelho que nos confere auto-estima e distinção acaba retirando-nos o que de mais precioso temos: o nosso espaço privado.

E é aqui onde intervém o que Simmel escrevia sobre a tragédia da cultura e se articula com a filosofia do dinheiro. Simmel fala de três sintomas da tragédia da cultura, o primeiro dos quais (e o único que vou abordar nesta postagem) é a autonomia que os meios ganham em relação aos fins, tornando-se eles próprios fins! Estas ideias ecoam o que Marx escrevia sobre a alienação e o fetichismo, mas trazem à superfície mais um aspecto importante: o progresso tecnológico reduz a cultura cada vez mais ao que é possível fazer com os artefactos tecnológicos e transforma os nossos horizontes individuais nos horizontes desenhados pelas possibilidades técnicas. Não é, ao contrário do também muito perspicaz olhar de Marx, uma questão de nos separarmos do nosso próprio produto; é uma questão de submissão das nossas aspirações mais profundas ao que é possível imaginar no contexto de algo que nós produzimos porque dele precisávamos, mas que se impõe como padrão. O celular faz isto ao nível da nossa privacidade. A cultura, que consiste na comunicação como condição de fazer parte de uma comunidade, empacotada no celular – que vem, ostensivamente, facilitar a comunicação – transforma-se numa espécie de jaula de ferro à qual queremos escapar. A comunicação, com o celular, deixa de ser simplesmente emitir e receber uma mensagem e passa a ser evitar erros: não ser apanhado em contrapé; não dar a impressão de que não queremos falar; não dar a impressão de que nos escondemos de alguma coisa; etc.

O celular, portanto, faz evaporar a nossa privacidade no sentido em que ela só fica inteligível como um espaço colectivo que nos obriga a justificarmos a necessidade que temos de um espaço individual. E o mais perverso nisto tudo é que não podemos fazer essa justificação sem um bocado de má consciência. Não sei se estou simplesmente a falar a partir de uma experiência muito individual. Serei o único moçambicano com má consciência? Ninguém mais se assusta com as duas perguntas mais frequentes quando atendemos o telefone celular: Onde estás? O que estás a fazer? Sou o único mesmo? É que dantes perguntava-se pela saúde... agora é a inquisição!

11 comentários:

Egidio Vaz disse...

A analise sociológica mais penetrante que já li neste blog sobre o nosso quotidiano

Elísio Macamo disse...

obrigado, egídio.

Nkhululeko disse...

Uma comunidade empacotada no celular à qual queremos escapar…ou talvez não, Elísio. Pertencer a esse pacote pode também ser uma forma de autoconservação. Imagino que em determinados contextos não ter celular pode ser sinónimo de não-existência. O “onde estás” muitas vezes é gratamente acolhido por um “estou sempre na zona”.
Penso que a vida é feita da tensão entre a “atitude de reserva” (que garante uma margem de liberdade individual) e a “cultura objectiva” de que fala Simmel, sem que necessariamente haja “vencedores”. Nalguns casos eventualmente os haja. De que dependerá? Não sei. Mas provavelmente estar empacotado também seja uma razão (assumida) de ser.
Abraço

Elísio Macamo disse...

andré, estás sempre a antecipares-te ao meu raciocínio. bom sinal? na próxima postagem, que é sobre a distincao, tento abordar esta questao que levantas, sobretudo o conjunto de questoes que empacotaste nesta belíssima expressao "estou sempre na zona". interessa-me, na verdade, expor a problemática e ver até onde ela me leva. na última postagem da série a pergunta que colocas sobre o que determina quem ganha e quem perde insinuou-se por si própria. a minha resposta é de que temos um problema estético e político. quem ganha é quem consegue colocar os objectos no seu devido lugar. prontos. se tivesse chamado fetiche ao celular, teria agora que preconizar a solucao revolucionária. mais uma razao para o nao ter feito...

Nkhululeko disse...

;)... ta fixe. difícil a empreitada de evitar o xicuembo...vamos acompanhando ;)

Unknown disse...

essa da inquisicao elisio, foi mesmo "bem brilhante". ano passado na ilha do ibo, havia ponto, sitio, melhor um lugar perto das TDMs onde podia-se "apanhar a rede" mcel, foi interessante ver como as pessoas reuniam-se naquele "mcelado lugar" a espera de uma sms ou chamada. eu acabei chamando aquele "mcelado lugar" de "se calhar", porque o enfermeiro com quem trabalhei obrigava-me a passar por aquele santo lugar todas as vezes que davamos uns "giros" pela ilha, e a justificao era: se calhar dr hoje vamos ter mensagens. e foi tao bonito ver gente da ilha ali reunida, com celulares nas maos esperando pelo se calhar. entao vejo a expressao estou "sempre na zona" como espectacular para a minha experiencia na ilha do ibo. parabens pela abordagem elisio.

Elísio Macamo disse...

tu me metes medo, andré. xikwembu vem, como terás visto, na última postagem... jorge, porque nao alargas a reflexao sobre o "se calhar" à toda a nossa vida no país? nao é uma boa metáfora para pensar a nossa insistência em vivermos, apesar de tudo? imagino o espectáculo desse lugar! o nosso país é rico.

chapa100 disse...

elisio! como sempre "queres" obrigar-me a pensar, vou comecar a ter medo de comentar aqui!. mas podia ser uma metafora interessante. o celular e a nova mampsincha.

Elísio Macamo disse...

jorge, meu caro, é possível ensinar todo o tipo de coisas a um indivíduo. mas fazê-lo pensar!? mais a sério: a parte mais importante do trabalho de pensar já fizeste. é preciso muita reflexao para achar útil descrever esse lugar (já nem falo de simplesmente ficar com a atencao presa nele!) como um "se calhar". um indivíduo com essa capacidade tem que ser convidado a continuar... só isso.

Anónimo disse...

A "acção" do celular não se fica pelo facto de nos estruturar, ou do fetiche, ou mesmo da hierarquização do consumo, conspícuo ou não! (confesso que não sei nada disso mas tenho ouvido falar em Nokia 6996, 3310, 4911, 3310 e por aí adiante). Tal como dizes, isso hierarquiza e revela possibilidades de mercado. Mas esse não é o ponto, este revela-se tal como o afloraste e bem, no plano da gaiola de ferro. Essa é de tal ordem que nós passarinhos sentimo-nos tão constrangidos ao ponto de já haver quem consiga distinguir o som: estás a falar da casa de banho! estás num quarto,tu! estás na paragem do chapa? estás num sítio fechado, tu! Não é sem razão que uma das peças de teatro da companhia Gungu mostra um conjunto de amigos na algazarra e, quando a esposa de um deles telefona, ele combina com os outros para que emitam sons de mera bebedeira. Pareceria menos mal a bebedeira que uma terceira hipótese que, supostamente, traria confusões existenciais do tipo passional com a kossikassi! Filimone Meigos

Elísio Macamo disse...

mone, estás a dar-me muito que pensar. enquanto nao chego à conclusao, eis uma anedota que parece encaixar: um ginecologista estava no seu escritório a tomar café com uma das suas pacientes. de repente ouve passos no corredor e exclama: dispa-te rápido, vem aí a minha mulher!