Já chegou o celular
Num trabalho sério de pesquisa havia de começar por fazer um levantamento estatístico sobre a presença do celular no nosso meio. Havia de querer saber coisas muito simples como, por exemplo, (i) o número de celulares que circulam na nossa sociedade; (ii) a distribuição de celulares por diferentes camadas, grupos profissionais e grupos etários da nossa sociedade bem como por região, sexo e nível de escolaridade; (iii) o número médio de celular por agregado familiar; (iv) os tipos de uso do celular, se, por exemplo, por razões profissionais, familiares ou mesmo, porque não, para agitação política...; (v) as despesas médias do uso do celular por camada da sociedade ou sexo ou região; etc. Penso que um conhecimento deste tipo de coisas – que julgo estar na posse das operadoras – é importante para perceber melhor a presença do celular no nosso meio.
Como não estou a fazer aqui um trabalho sério de pesquisa não preciso de começar pelo lado quantitativo. Dou-me por satisfeito em constatar algo mais do âmbito da fenomenologia, nomeadamente a questão de saber como sabemos que o celular já chegou. Que o celular anda por aí e que é muita gente a usar o celular isso já sabemos. Vemos isso todos os dias. Mas como vemos? O que nos dá a certeza de que o celular que pensamos estar a ver está de facto por aí? Com estas perguntas estou a entrar no campo que interessa à sociologia. Com efeito, a presença do celular entre nós não é simplesmente uma questão de números. É uma questão do impacto que ele tem na estrutura e natureza das nossas relações sociais. Vou destacar apenas alguns aspectos desta presença a título de exemplo para desenvolver mais tarde ao longo da série.
Primeiro, sabemos que o celular já chegou porque a presença física perdeu muito da sua qualidade de condição de sociabilidade. Dantes era preciso mesmo estar em situação de co-presença para estar presente. O telefone fixo no serviço e em casa – prerrogativa de poucos no nosso país – permitia a alguns de nós estarem mais presentes do que em condições de co-presença. O celular mudou isto. Agora, mesmo a conduzirmos, a viajarmos, a descansarmos no parque, a comermos no restaurante, a festejarmos um casamento, em casa de amante, em lugar escondido, etc. estamos presentes. O nosso espaço privado definhou. “Não estava no serviço” ou “não estava em casa” perderam a sua força ilucucionária. Não querem dizer nada. Absolutamente nada. O que o celular faz com a nossa presença é obrigar-nos a justificar porque não queríamos que os outros soubessem que estávamos disponíveis. Vou analisar com cuidado este problema em postagem posterior.
Segundo, sabemos que o celular já chegou porque ele nos marca. “Diz-me que celular usas, dir-te-ei quem tu és”. Reparem que a questão até deixou de ser “diz-me se tens celular que te direi quem tu és”. O pressuposto mais seguro agora é de que todos temos esse artefacto. A diferença está no tipo, tamanho, funções e o uso que fazemos dele. Um aspecto particularmente interessante do ponto da vista da sociologia é o elemento de vulnerabilidade que o celular, como marca identitária, introduz. A nossa aparência pode ser motivo mais do que suficiente para sermos agredidos por gente que procura o objecto. Dizem que pelas bandas da Mafalala e do Chamanculo, em Maputo, ter o Nokia 3110 é mais perigoso do que não ter celular consigo. Os malfeitores atiram-no para o chão, pisam-no, agridem o proprietário e dão-lhe instruções para ir comprar telefone. Eles consideram perca de tempo assaltar alguém com esse tipo de telefone...
Terceiro, sabemos que o celular chegou porque sentimos uma necessidade imperiosa de comunicar. O ano ganha nova estrutura na nossa mente, pois cada efeméride é motivo inadiável de envio de mensagens a uma quantidade enorme de gente. O nosso círculo de conhecidos e amigos alarga-se ao sabor da necessidade que sentimos de enviar mensagem. E o tipo de mensagem é importante. Pode ser cómico, solene ou picante. Interessante aqui é que não é propriamente o conteúdo da mensagem que conta. O que conta é dizermos ao nosso receptor que também estamos na rede de comunicação e que se ele(a) quiser também pode entrar. Alguns respondem com uma mensagem diferente recebida de outros emissores para dizerem o mesmo, isto é que também estão ligados.
Quarto, sabemos que o celular chegou porque alargamos o círculo dos objectos que devem merecer a nossa crítica. Enquanto que dantes maldizíamos apenas o governo, a APIE, a GOAM (quem não sabe o que estas siglas significam está lixado(a)) e a África do Sul do Apartheid, hoje temos também a Mcel “por favor ligue mais tarde...”. Curiosamente, as insuficiências técnicas da empresa ajudam-nos a contornar a diminuição da nossa privacidade. Quando não nos convém atender uma chamada desligamos e mais tarde dizemos com ar que toda a gente percebe de imediato: “esta Mcel!”.
Quinto, sabemos que o celular chegou porque nele encontramos um instrumento poderoso de desabafo político. O celular, por assim dizer, tornou-se no “hiphop” das classes médias urbanas. Qualquer evento de envergadura pública – paiol, exonerações, Cabora Bassa, morte de figura pública, etc. – perde a sua solenidade a favor do poder profano da ironia mordaz. O celular transformou o protesto e a crítica num riso nervoso que, por vezes, tem a tendência de banalizar o assunto em si ao mesmo tempo que o destaca. Ainda hei-de voltar a este assunto, como aos outros também, para reflectir sobre o significado que esta forma de desabafo tem para a nossa esfera pública. Interessa-me, acima de tudo, analisar a questão a partir da perspectiva do anonimato como marca distintiva da nossa esfera pública.
Disse que ia apenas indicar alguns aspectos desta presença. Nas postagens que se seguem vou tentar elaborar cada aspecto na perspectiva da negociação da tensão entre o indivíduo e o colectivo.
4 comentários:
Ilustre,
Faltou mencionar a "prova" da sua existência pelo manancial de conflitos domésticos/conjugais directa ou indirectamente ligados a ele.
estou ansioso pelos próximos posts.
Um abraço.
JSM
sim, júlio, esse dado é pertinente. obrigado. na verdade, o nando menete contou-me ontem um episódio muito interessante. alguns registam certos números com o nome "excelência" (sabes que números...) e quando a "excelência" liga já têm desculpa para voltar muito tarde. discursos, reuniao de balanco, etc....
Oi Elísio, Esta tua última revelação é interessante. Vou registar alguns números com esse nome mágico de "Excelência". Assim posso voltar tarde o quanto me apetecer.
Obed L. Khan
(risos). dizem que até se estiveres a tomar banho, por exemplo, trazem-te o telefone a gritarem sua "excelência" está ao telefone. é só depois fechares-te lá dentro e marcar o encontro...
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