quarta-feira, abril 16, 2008

O celular (8)

Dislexia

Dislexia é uma doença. Não sei se existem casos comprovados desta doença na nossa sociedade. Se não existem, não importa porque o celular rapidamente nos transformou numa população de disléxicos. O termo é de origem grega e combina disfunção e palavra para se referir à dificuldade de ler. Essa dificuldade, porém, não se explica por incapacidade intelectual. Há simplesmente pessoas que têm dificuldades em relacionar letras com o som, ou mesmo identificar em que direcção devem ler. É uma doença da civilização, sobretudo da civilização escrita. E é óbvio porquê. Quem não sabe ler, não sabe ler. Quem devia saber ler – no sentido de ter aprendido a ler – e mesmo assim continua com dificuldades em o fazer, pode estar a sofrer de dislexia.

Suponho que já estejam a imaginar onde quero chegar. Não, vou reescrever esta frase: sbem ond keru xegr? Não vos estou a submeter a nenhum teste de descodificação. Traduzi a frase “suponho que já estejam a imaginar onde quero chegar” por “sabem onde quero chegar” e escrevi tudo isso na nova ortografia que o celular está a impôr. Os portugueses e brasileiros vão discutindo por aí a nova ortografia do Português e o celular, impávido e sereno, e sem grandes alaridos, vai impondo os seus padrões. Que eficiência! O celular está a promover uma forma oficial de dislexia no contexto da qual um erro ortográfico deixa de ser erro e passa a ser economia de palavras e actualidade. Só quem tem o celular pago pelo Estado ou tem um contingente chorudo de mensagens grátis é que se pode permitir escrever bem. Temos que analisar estas coisas, mas antes disso deixem-me estabelecer um paralelo muito interessante com o cinema.

Muitos da minha geração tiveram um recurso muito importante quando aprendiam a ler nos tempos que já lá vão. Esse recurso foi o cinema. Os filmes eram na sua totalidade estrangeiros, portanto em inglês ou francês. Para percebermos o filme dependíamos das legendas. E, muito importante isto, tínhamos que ler rápido! Não era exercício fácil. Acompanhar as façanhas de Bruce Lee, Amita Bachani ou Terence Hill no écran ao mesmo tempo que íamos lendo as legendas e cancelávamos parte da nossa audição – aquela que se dirigiria ao que era dito – e deixávamos uma parte aberta para a banda sonora. Experimentem isso agora. Muitos de nós conseguíamos depois contar o filme com toda a banda sonora. E isso não era só com os filmes indianos! O cinema, portanto, ajudou-nos a desenvolver os nossos sentidos e a saber usá-los com selectividade. Entretanto, esse tipo de cinema é cada vez mais raro, temos a telenovela brasileira que dispensa toda a legendagem e retira todo o peso da informação da fala para a encenação. Assistir telenovela brasileira é o exercício intelectual mais preguiçoso que entrou na nossa sociedade.

Bom, era o exercício intelectual mais preguiçoso. Agora tem forte concorrência do celular. Aquela economia de palavras de que falava há parágrafos atrás não é correcta como descrição das razões que explicam a promoção do analfabetismo. O celular não faz economia de palavras. O celular é de uma pragmática radical que nos obriga a reduzir a nossa mensagem ao que os outros sabem. Explico-me. A pragmática, como sub-disciplina da linguística, ocupa-se do que as pessoas que se comunicam dão por adquirido quando se comunicam. Essas coisas permitem-lhes serem económicas no que dizem, pois os emissores partem do pressuposto de que os receptores sabem do que eles estão a falar. Por exemplo, a mensagem “ontem explosões na Catembe, foguinho de novo em acção” diz muita coisa sem precisar de a dizer. É efeito secundário do celular. O celular reduz a nossa comunicação à capacidade de síntese agressiva do que é complexo nas nossas vidas e, claro, à repetição de lugares-comuns. Não é possível ser complexo e elaborado, muito menos falar de coisas novas; a comunicação no quotidiano virou uma troca de trivialidades, pois a expectativa de que outros estejam dentro do assunto obriga-nos a sermos bastante económicos com as palavras.

Reparem, portanto, que não é porque temos que ser breves que devemos maltratar as regras da ortografia. Os jornais, por exemplo, sempre tiveram que ser breves, sobretudo nos seus títulos, mas nunca maltrataram a ortografia. Na verdade, a brevidade é ela própria a mãe do sentido. Vou explicar isto insistindo na brevidade dos jornais. Eles serviram-se sempre do que os leitores sabem para serem sucintos. Por vezes é perigoso como quando, por exemplo, alguns jornais noticiam “mais um malfeitor linchado”. Malfeitor? E a presunção de inocência? O que está a acontecer aqui? Simples: tudo quanto nós sabemos sobre o “linchamento” cria o malfeitor e impede o uso de qualquer outra palavra para designar a vítima. Quem insiste no uso de uma outra palavra teria que se explicar. Teria que tecer teorias de linchamento e explicar porque as vítimas desse acto não precisam necessariamente de serem malfeitoras, etc. Teria também que fazer recurso aos fundamentos da legalidade no país e explicar porque é importante dar valor à presunção de inocência. Agora, quem tem tempo para isso? Não é melhor dizer o que todos estão a pensar? É melhor, pois. Curiosamente, esta atitude junta-se à daqueles que gritam logo “isso é teoria!” assim que alguém começa a tentar perceber seriamente uma determinada coisa. Sexo dos anjos!

Mas há mais. A violação consciente de regras ortográficas faz parte de um momento bastante típico que estamos a atravessar na nossa sociedade. Com efeito, encontramo-nos em processo de negociação de normas e regras e, para isso, até é importante atentar contra as regras já existentes. A nossa violação não é contra o princípio de regra em si, mas sim contra as regras que existem. Com o celular instituímos novas regras que num primeiro momento se fundam na desordem. É cómico, reconheço. Os “erros” ortográficos do celular têm método. Os anglicismos, as trocas de letras, as abreviaturas, está tudo isso contabilizado no método por detrás da desordem aparente que o celular introduziu na nossa escrita. É acto de subversão que revela que o nosso processo de formação como comunidade(s) normativa(s) mal começou ainda.

Seria interessante um estudo mais aprofundado deste fenómeno, pois tenho a impressão de que já começou a transbordar da cultura do celular para a sociedade de uma maneira geral. Tem pipol k xkrev acim mxmu mesmo quando não se trata de mensagem de celular ou 100 mesmo precisarem disso. Só falta falarem também assim, imaginem!

12 comentários:

Nkhululeko disse...

Bro, eh 1a coisa tb d tds xats. O ppl tem k tc mng quick, senao n ketcha puto.
Há múltiplas variantes, em função dos sites, das idades, dos grupos, etc. Estou seduzido por uma frase que se universalizou: lol.
Outras regras, sim. Terá influências na linguagem “oficializada”? Não sei. É possível transitar de um registo para o outro, sem “problemas”? Parece-me que sim. Pode também ser um bom instrumento de trabalho. Ocorre-me agora que, por exemplo, ajuda a tirar rapidamente as notas nas aulas, nos seminários, debates, etc...

Nkhululeko disse...

Ops, a propósito do post anterior, esqueci-me de perguntar porque nunca(?) falas em resistências? Urticária? Abraço

Elísio Macamo disse...

apanhaste-me! eu é que sou analfabeto aqui. tens razao quanto à utilidade. este é um problema que vai estar connosco até ao fim da série. o patrício já o tinha levantado. gostava de ver análises profundas da pragmática das mensagens do celular. acho que ocorre este fenómeno de reducao da complexidade temática do nosso discurso. era para isso que estava a chamar a atencao. andré, urticária sim, a história deixa marcas e as tradicoes científicas muito mais ainda! tenho falado da resistência, mas nao no sentido muito previlegiado nas ciências sociais. na verdade, há uma forte tendência para interpretar tudo quanto nao cabe nos nossos esquemas, mas gostaríamos de integrar na nossa ideologia de emancipacao, como acto de resistência. acho que isso entorpece o espírito analítico. quando uso essa expressao é mais para desabafar em relacao às dificuldades que temos de construir uma sociedade clara.

Anónimo disse...

prof é um prazer continuar a ler sobes esta tematica. inspira-me. força ai. "SOCIOLOGIA COMO FORMA DE VIDA" é altura de nos afirmarmos. abraços a todos que fazem, gostam e aspiram em ser sociologos.

Matsinhe disse...

O Nkululeko disse tudo... o problema não está só no cell, os chats criaram também a sua linguagem.

mas quantos dos mensageiros via sms tem acesso a chats internetianos? Nem todos de certeza. Pelo que...

Elísio Macamo disse...

caro anónimo, a sociologia é mais do que isso. leia o decálogo do sociólogo da autoria de carlos serra e tente, se quiser arriscar ser sociólogo, interiorizar o que ele escreve nesse texto. aprender sociologia é uma maneira de aprender a ser bom cidadao.

Basilio Muhate disse...

Caro Elisio
flando cmo ecnomista dria k é um efeito da intgrcao rgional. Procurmos bxar a qtd de carácteres d sms pra rduzir os custos de comunicacao, mas ao mexmo tempo fazms 1 revolução na linguagem excrita k, cmo foi dito...comexa a sair do teclado p o papel.
Pena é k o new inglês k se fala ao celular em moz ainda n tar a ser bem captalizado nexa vrtente...u know. cause it shood be fin for us

Patricio Langa disse...

Reparem para as notas de “rodapé”? dos debates televisivos! Como em boa parte dos programas os painelistas convidados são interrompidos pelos tele-fonistas- espectadores, seria bom que estes últimos ao ligar tbm fizessem economia, mutilante, das palavras?

Elísio Macamo disse...

caro basílio, chegou a hora de toda a gente confessar os seus pecados aqui! caro patrício, uma vez participei num programa televisivo durante o qual nao consegui formular uma única ideia coerente por causa desses telefonemas. jurei nunca mais participar em programas assim.

Baltazar disse...

Concordo até certo ponto que se trata de a “nova ortografia” criada pelo celular e que pode ajudar por exemplo a “tirar rapidamente as notas nas aulas, nos seminários, debates”, como refere Nkululeko. em minha opinião, o problema reside nos “efeitos perversos” desta prática..por exemplo, esta “nova ortografia” que é filha do celular, é extrapolada quase que com muita frequência para “escrita oficial”, o que de certa forma interpõe-se no processo de ensino e aprendizagem…que o digam os teachers….

Anónimo disse...

Caro professor,

Acompanhando esta tão atraente série de postagens sobre celulares, não somente pelas suas postagens, como também pelos interessantes comentários de leitores, encorajei-me a fazer um incipiente comentário, o meu primeiro neste blog, que poderia ter como mote:Usos e abusos da cotidianidade: por uma dislexia gestual (aproveitando o “capítulo” 8, da série O Celular). Espero que ele não exceda a uma página, seguindo rigorosamente um dos seus ensinamentos em sala de aula.
O que poderíamos pensar ao ver um homem de negócios, trajado elegantemente, a chacoalhar rapidamente os bolsos interno e externo do paletó, da calça, da camisa? Terá ele uma comichão?
E uma mulher que passa na rua e leva a sua bolsa até o ouvido, uma duas, três vezes? Uma enlouquecida?
O jovem em um ônibus lotado (pode ser no Chapa 100 também), sem poder mexer um fio de cabelo sequer, contorce-se todo, pega o celular e fala sem cerimônia, tudo e qualquer coisa. Um outro fala baixinho. Estará ele em posse de códigos secretos?
Uma pessoa está em casa e o celular que não toca o dia inteiro. Ansiosa, ela liga do seu telefone fixo para o seu próprio celular e ainda deixa recado... só para ter certeza que o celular está funcionando, por que afinal não tocou uma só vez nas últimas 24 horas.
- Empresta aí o seu cartão SIM!
Aqui no Brasil posso assegurar, sem medo de errar, que só quem não possui celular é aquele abaixo da linha da pobreza, na miserabilidade. O pobre tem celular, mas... não tem créditos para ligar. O jeito é pedir um chip emprestado.
Os toques é que são uns espetáculos à parte. Não são toques de campainhas. Ao invés disso, são vozes que dizem: atenda o celular, atenda o celular. Ou, atenda! Tem um (***) chamando. Tudo com direito a sotaques regionais ou distorções semânticas.
Mas, assustei-me mesmo, de verdade, foi quando percebi que as pessoas estavam andando e falando sozinhas e até pedi desculpas, por que pensei que a pessoa ao lado estava falando comigo. Qual nada...! É a tecnologia bluetooth !
De certo, seria pouco modesto da minha parte, dizer que há o bom uso ou o mau uso do celular, afinal de contas e em primeira análise, a razão, a posse e a utilidade de cada objeto são dados por quem os usa.
O meu olhar coloquial, neste momento acrescido pelas discussões anteriormente postadas no blog, é que me conduz a pensar numa lógica boba. Se numa ponta do vértice temos as discussões sobre mercado, produção e reprodução de consumo, ideologia, por exemplo. Na outra temos o consumismo, o fascínio do consumidor, as lojas, as “necessidades” criadas, o “estar conectado”. No meio destes vértices, está o indivíduo (talvez o não cidadão, só indivíduo) recriando a sua expressão, as suas formas de comunicação, ainda que sejam mesmo risíveis. E a rotina vai remodelando-se com direito a todos os usos e abusos que possa conter.
Em um devaneio final, perdoe, o “habitus”, em Bourdieu, teria algo a nos dizer sobre o supra citado? Ou, em outros termos, “como dar conta dos determinismos inconscientes que marcam as nossas representações e das capacidades estratégicas e criativas?” (Jean-François Portier, 2002, p.5).

Daqui da “terrinha”, minhas cordiais saudações!

Elísio Macamo disse...

sueli, sueli, sueli, olá! foi preciso reclamar lá no "olhar sociológico" para ter direito a tao belo e rico comentário! olha, a uniao europeia vai decidir dentro em breve deixar de proibir o uso do celular nos avioes. o último bastiao da privacidade, aquele que comecava na pista com os mais renitentes a dizerem "olha, querida, tenho mesmo que desligar...", vai desaparecer! nao conheco a obra desse jean-francois portier, mas interessa-me essa ideia de "determinismos inconscientes", pois se é o que penso, entao corresponde ao que eu respondia ao patrício e ao nkululeko. o celular desafia-nos a nos darmos conta desses determinismos e a reagirmos a eles de forma consciente. da mesma forma que marx exortava os operários a se darem conta do estado de alienacao em que se encontravam, temos, nós também, que nos darmos conta do que está a acontecer às nossas subjectivdades. nao vai ser fácil, pois a nossa dominacao pelo ocidente sempre consistiu na producao destes "determinismos inconscientes" que se insinuaram em nós sempre com muito sucesso. no caso da indústria do desenvolvimento, por exemplo, a manifestacao mais clara disto é a trivializacao da política, isto é a insistência em tratar tudo como técnico. excelente comentário o teu sueli! em menos de uma página (!) tanta coisa!
caro baltazar, sim, o demónio já saiu da garrafa!