sexta-feira, junho 20, 2008

A agenda das nossas visões (2)

Visões


Bush sénior, quando ainda presidente, ficou tristemente famoso por uma “gaffe” mediática. Em resposta à acusação que os meios de comunicação de massas lhe faziam de que o problema da sua presidência era a falta duma visão ele referiu-se "à tal coisa que chamam de visão" (the vision thing). Dessa maneira revelou de facto não ter nenhuma visão. Nas eleições que se seguiram teve que ceder o lugar a Bill Clinton, apesar de ter feito a guerra do Golfo e outras coisas que o eleitorado americano parece apreciar nos seus dirigentes. Até hoje há pessoas na América que acreditam que Bush sénior não logrou a reeleição por falta de visão.

Parece, portanto, que em política é importante ter visão. A questão, contudo, é de saber o que é uma visão concretamente. A palavra em si parece ter duas dimensões. A primeira é temporal e a segunda é prática. A temporal consiste na implicação de que uma visão é algo ainda por vir. Não existe, ainda. Mas pode existir. Se houver vontade. Esta nota optimista define a segunda dimensão. Uma visão só é digna desse nome se encontra expressão num conjunto formulado de acções que têm como objectivo torná-la realidade.

A acusação de que Bush sénior não tinha visão referia-se ao facto de ele não ter - aparentemente - nenhuma ideia donde ele queria conduzir o País e, por conseguinte, não ter nada que fazer para justificar o seu papel de líder. Ao recusar-se a formular a sua visão Bush sénior estava também a recusar-se a definir a América. Nesse sentido podemos até dizer que Clinton ganhou porque ofereceu aos americanos uma definição da sua existência.

Como podemos ver, a ideia de uma visão está intrinsecamente ligada à ideia de um País. Podemos, em certa medida, concluir que se o desiderato é o que dá substância à existência e essência de um País, a visão, por sua vez, é o que dá substância ao desiderato. A Frelimo, a Renamo, a Fumo, a Monamo, o Pimo, etc. proclamam a sua ideia de Moçambique através da formulação de uma visão. Essa visão tem como ponto de partida o devir histórico do País, isto é a coalescência de desideratos que se foram exprimindo e acumulando ao longo do tempo. Quando um partido político ou um grupo de pessoas quaisquer formula uma visão está, na essência, a monologar. Na verdade, o que acontece nessas circunstâncias é que o partido ou o grupo de pessoas projectam os seus anseios, esperanças e desideratos sobre o que fez do País um País.

A vitalidade de um País, podemos começar a tirar conclusões, está, muito provavelmente, no espaço que ele proporciona para a formulação e confrontação de visões. A ideia de um País é profundamente narcisa. Ela constitui-se como uma auto-contemplação. Ela só se realiza na sua plenitude quando consegue estimular esta introversão. Um País com apenas uma visão é um País morto, senão mesmo impossível. A nossa história colonial prova isso. Justamente porque se procurou reduzir a ideia de Moçambique à vontade colonial portuguesa de poder surgiram novos espaços de contestação, imaginação e sonho. Foi o mesmo no período pós-independência. A regimentação do pensamento e dos anseios e sua submissão à necessidade de criação do homem novo acabaram criando novos espaços para a imaginação de um outro Moçambique.

Postas as coisas nestes termos coloca-se a questão de saber quando é que uma visão é uma visão. A nossa história pós-independência insinua-se, neste ponto, com muita insistência. Com efeito, embora seja muito natural que surjam novas visões elas não precisam necessariamente de serem boas ou más. Uma visão reflecte a vontade dos que a formulam. Se não encontra espaço para se exprimir pode se tornar bastante destrutiva. O único contexto de domesticação de visões é a confrontação com outras. Para que isso aconteça é necessário que a visão se troque em miúdos.

8 comentários:

Anónimo disse...

Sem palavras e com muitas lagrimas nos olhos quando em Mocambique temos muitos Bush pais "à tal coisa que chamam de visão" nos devemos combater a pobreza absoluta (nao importa o que seja), e tempo de correr (partindo de onde, para onde, como, nao importa) e empreender (mesmo que isso signifique inventar uma roda quadrada que para andar deva ser tchovada), do saber fazer (nao importa o que, como, nem se e benefico ao pais e sustentavel), pior onde a cada dia o debate e escusado sob o argumento eu sou o chefe tenho prerrogativas de decidir em funcao do cargo que ocupo e nao preciso ouvir ninguem!

Elísio Macamo disse...

caro anónimo, obrigado por passar por aqui e deixar registado o seu pensamento. não sei se é o mesmo anónimo que tem vindo a fazer comentários, mas se for devo dizer que não considero a sua abordagem útil para o tipo de discussão que eu gostaria de ter aqui. estou interessado em crítica, não desabafo, e isso significa para mim que ao mesmo tempo que lamentamos o que está mal - e é muita coisa - não percamos de vista a necessidade de identificar a problemática que deve merecer a nossa atenção. porque os governantes se comportam assim? que aspectos da nossa sociedade tornam esse tipo de comportamento possível? que desafios é que isso nos coloca? repetir simplesmente o que está mal e ironizar incessantemente a incompetência dos nossos políticos não me parece útil. vamos discutir questões para não termos que confirmar o ditado segundo o qual cada povo tem os governantes que merece. cada um de nós tem um papel a desempenhar na melhoria da qualidade da nossa esfera pública.

Bayano Valy disse...

caro elísio,
o desafio que nos colocas é muito grande. não sei se não deveríamos ligar este debate aos outros que fizemos, como, eg, da cidadania, da nação, espaço público. acho que o debate desses conceitos pode nos ajudar a perceber o porquê que as várias vontades (visões) falham. o que talvez possa me interessar é procurar saber como é que nas nossas condições, onde até posso atrever-me a dizer com o nosso estado-nação em construção incipiente, podem as várias visões serem materializadas? se as visões devem ter como objectivo principal as metas? me parece que há uma tendência enorme de se olhar para moçambique em termos de resultados, por mais que não elevem a qualidade de vida do cidadão. veja o exemplo da pobreza: reduziu-se os níveis de pobreza, mas descobrimos que os níveis de má-nutrição são altos. então a questão que se coloca: por onde começar a pegar o problema das visões? a agenda 2025 foi aprovada como sendo uma agenda nacional, mas pergunto-me se alguém se recorda de implementà-la? não será que as nossas visões são reféns dos caprichos dos seus mentores? porquê não encontram eco no seio dos populares?

Elísio Macamo disse...

caro bayano, são perguntas pertinentes as que tu colocas. não tenho resposta simples. se calhar as visões vão começar a cmprometer as pessoas que as formulam quando elas partirem da interpretação de anseios que existem no interior da sociedade e não forem simplesmente cumprimento de instruções da indústria do desenvolvimento. talvez vão funcionar quando reconhecermos que várias visões revelam a pujança da nossa sociedade. neste sentido, tens razão quando chamas a nossa atenção para a discussão sobre a cidadania. foi no contexto dessa discussão que nos metemos pelas visões. precisamos de visões sobre o significado de cidadania para cada um de nós.

Matsinhe disse...

Elísio & Bayano,

Hoje recebi mais duas daquelas cartas anónimas, ou daqueles desabafos que os emails ajudam a ampliar. Como aquela carta que publiquei no meu blog, este email me pôs a reflectir.

Venho aqui e encontro estes posts sobre VISÃO e uma frase profunda: "Um País com apenas uma visão é um País morto, senão mesmo impossível."

O email que recebi e que tenho focado aqui atribui a nós moçambicanos, como povo, as culpas pela falta de domesticação de visões através da confrontação com outras. Atribui a nós como povo a incapacidade de trocar a visão em miúdos.

Dizem os últimos parágrafos do email em referência:

"Como "matéria-prima" de um País, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que nosso País precisa! Esses defeitos, essa "CHICO-ESPERTERTICE MOÇAMBICANA'"congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casos escandalosos na Política, essa falta de qualidade humana, mais do que Samora, Chissano ou Guebuza, é que é real e honestamente ruim, porque todos eles são Moçambicanos como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não em outra parte...

Fico triste! Porque, ainda que Guebuza fosse embora hoje mesmo, o
próximo que o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma
matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não
poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá.

Nem serviu Samora, nem serviu Chissano e nem serve Guebuza, nem servirá o que vier. Qual é a alternativa?

Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror? Aqui faz falta outra coisa! E enquanto essa "outra coisa" não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados... igualmente abusados!

É muito bom ser Moçambicano. Mas quando essa Moçambicanidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda... Não esperemos acender uma vela a todos os Santos , a ver se nos mandam um Messias. Nós temos que mudar!! Um novo governante com os mesmos Moçambicanos nada poderá fazer! Está muito claro... Somos nós que temos que mudar! Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a nos acontecer: desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e francamente tolerantes com o fracasso.

É a indústria da desculpa e da estupidez!

Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o
responsável, não para castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim,
exigir-lhe) que melhore seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido.

Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO EM OUTRO LADO.
E você, o que pensa?.... MEDITE!"

Elísio Macamo disse...

caro matsinhe, obrigado por este comentário. o email tem pelo menos o mérito de não insistir no governo como o culpado de tudo. aconselha-nos a fazermos um exercício de introspecção que me parece útil e prudente. infelizmente, muitos de nós preferimos o conforto da atribuição de culpas a outros sem nunca nos preocuparmos em saber que responsabilidade nós próprios temos. penso que é útil fazer esse exercício, salvaguardando, naturalmente, a responsabilidade que o estado tem perante a sociedade. noutros países, pessoas que têm este tipo de ideias não ficam por um email. formam uma associação, fórum ou iniciativa qualquer que procura encorajar o tipo de atitudes que considera estar em falta. espero que a pessoa que escreveu esse email esteja a pensar nisso. eu juntava-me a essa iniciativa se não for de anónimos.

Anónimo disse...

Caro Elisio estou nesta pagina mais para ler e aprender muitas coisas sobre os seus artigos e dai tirar proveitos para eriquecer o meu vocabulario acerca dos teus temas, serei um leitor assiduo. Melhores cumprimentos

Elísio Macamo disse...

caro eusébio marcos dinis, obrigado pela visita. por favor, participe também nos debates. assim ficamos todos a ganhar. cumprimentos!