terça-feira, junho 24, 2008

A agenda das nossas visões (4)

O desenvolvimento

Existe um ditado chinês muito conhecido: se der peixe a um homem esfomeado, ele vai matar a fome nesse dia. Se lhe ensinar a pescar, ele vai matar a fome para toda a vida. É um dos ditados mais preferidos da indústria do desenvolvimento. Serve para legitimar a nobre ideia de que o seu papel não é de alimentar as pessoas, mas sim de lhes ensinar a serem auto-suficientes. Só se aprende fazendo. Eis aqui um sacrilégio: aprender a pescar não é a única maneira possível de tirar lições para a vida. Há tanta coisa que se pode aprender quando se nos é dado peixe: podemos aprender a distinguir tipos de peixe e sabores; podemos aprender a saber fazer ou dizer o tipo de coisas que vão assegurar que continuemos a receber peixe. Podemos, em suma, utilizar a caridade como um recurso na luta pela sobrevivência.

A prática do desenvolvimento confirma este lado bastante didáctico do provérbio chinês. Até aqui a grande lição aprendida não foi como desenvolver os nossos países. Foi, isso sim, como continuar a receber ajuda: articular as nossas necessidades em termos de projectos ao mesmo tempo que as adaptamos às preocupações conjunturais dos doadores. Se o que está na moda é "gender", então façamos tudo nesse sentido; se é a pobreza, idem. A lição da vida, a nobre ideia de que podemos aprender a fazer o desenvolvimento nós próprios, essa custa a entrar. De resto, de que vale quando no final de todas as contas temos que nos haver com o proteccionismo do mundo desenvolvido, com a lide com o direito internacional só quando lhes convém. É como aprender a pescar para depois ficar a saber que a cana de pesca custa mais do que as nossas pobres finanças podem conseguir despender, que é preciso ter licença de pesca para ter acesso às águas que ficam mais perto, que os melhores sítios já têm donos, etc., etc.

O problema do desenvolvimento, contudo, não é ser uma empresa contraditória. É ser perfeito. Quando se olha para os programas de desenvolvimento, quer seja os que combatem a pobreza, os desajustes estruturais ou promovem sistemas políticos eficientes é difícil encontrar pontos fracos que não sejam susceptíveis de correcção pela própria indústria do desenvolvimento. E o mais importante ainda é que se esses programas de facto se desenrolassem conforme os planos traçados iriam, com muita probabilidade, alcançar os objectivos almejados.

Infelizmente, esse não é o caso. E é aqui onde se coloca o problema da perfeição. O desenvolvimento é perfeito no sentido em que sempre tem razão; tem razão no sentido em que as soluções que ele preconiza para os problemas por ele definidos são correctas; correctas no sentido em que são as únicas capazes de conduzir aos resultados desejados; desejados no sentido em que eles tornam possível a realização dos objectivos do desenvolvimento; possível no sentido em que criam as condições necessárias à realização dos objectivos do desenvolvimento; necessárias no sentido em que elas definem, no fundo, o próprio desenvolvimento. É difícil imaginar um empreendimento mais narciso do que este. Isto para não utilizar um termo mais adequado, mas fora da moda: fetichismo.

A perfeição torna-se problemática porque transforma o desenvolvimento num grande programa de reeducação. Para que ele seja bem sucedido é necessário inventar pessoas perfeitas: incorruptíveis, altruístas, que colocam o País sempre a frente, cumpridoras fiéis de leis, mesmo quando ninguém está a olhar. Em suma: pessoas que aprendem a pescar, mesmo quando é mais fácil viver do peixe oferecido. As pessoas têm que perder a sua humanidade em prol do desenvolvimento.

O desenvolvimento é um “espírito” difícil. É muito exigente. É preciso sacrificar muito para o satisfazer. Não é que o que ele representa não seja positivo. Quem não quer acabar com a fome, nudez e miséria? Quem não gostaria de viver num País são, com poucos analfabetos e politicamente estável? Quem não gostaria de viver num País com índices de desenvolvimento humano e PNB de inspirar orgulho? Ninguém. O problema do desenvolvimento é que na sua perfeição libidinosa, para parafrasear a feliz expressão do sociólogo francês, Michel Maffesoli, parte do princípio de que a realidade social se resume a um diagnóstico correcto da situação que só permite uma única solução. Tudo o resto que não corresponda a esse diagnóstico é aberrante e precisa de ser eliminado.

Os cenários que alimentam visões fazedoras de nações partem de pressupostos idênticos. Até porque o desenvolvimento é o denominador comum dos cenários. Traçam-se vários, mas só um é que é correcto. E é correcto porque é o único que conduz com segurança ao desenvolvimento. Para que isso seja possível, todavia, é necessário que os actores sociais assumam os papéis que lhes são atribuídos na nova edição da fisiocracia a que estamos a assistir com o fetichismo do desenvolvimento.

A pergunta que se coloca, em jeito de conclusão, é de saber como aqueles que se desenvolveram o fizeram. Será que a perfeição é o único caminho?

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