Governar a esfera pública
Este título não é original. É, na verdade, o tema da Assembleia Geral do CODESRIA (Conselho para o Desenvolvimento da Pesquisa em Ciências Sociais em África) que vai ter lugar no próximo mês de Dezembro nos Camarões. É um tema extremamente oportuno. Cada vez mais é evidente, pelo menos para mim, que o nosso desenvolvimento passa pela elevação da qualidade do debate na nossa esfera pública. Sempre tive essa impressão, mas poucas vezes reflecti seriamente sobre as suas implicações. O exercício que acabo de fazer já me ajuda a identificar alguns aspectos importantes do significado desta observação.
A ideia de que o desenvolvimento passa pela elevação da qualidade de debate pode dar a impressão de que estou a colocar o futuro do país refém da fofoca ou da tagarelice. Quanto mais falarmos, melhor estará o país, por assim dizer. É evidente que não é isso que quero dizer. Ao longo desta série tentei mostrar que o que devemos falar é específico e essencial. Estamos a falar de cidadania, portanto, na acepção defendida aqui, da nossa condição de membros da comunidade política que é Moçambique. Falamos para interpelar o Estado – que somos nós todos – sobre o que faz para garantir e proteger a nossa cidadania. Noto, em várias discussões e reflexões, que muitas vezes nos perdemos por não termos bem presente o objecto da nossa fala. Penso que seria extremamente útil para o debate de ideias, pelo menos para o debate que pretende ser político, nunca perdermos de vista que um dos nossos objectos mais importantes, ao falarmos, é precisamente a preocupação de que se proteja e garanta a nossa cidadania.
Aqui surgem problemas sérios que não posso conseguir tratar assim tão rapidamente. Um desses problemas, a título de exemplo, é a natureza do nosso posicionamento ideológico. Em Moçambique temos vários partidos políticos que habitam vários pontos do espectro ideológico que a filosofia política oferece. Uns consideram-se de esquerda (poucos), e outros de direita (também poucos). Há os que dizem ter uma orientação social-democrata, o que nos dias de hoje significa, pelo menos no contexto africano, ponto de recuo dos que, outrora, se consideravam marxistas. Mas o que significam essas coisas todas? Que concepção de Estado está por detrás disso? Se submetéssimos esses alinhamentos ideológicos todos ao teste da garantia e protecção da nossa cidadania que resultados teríamos? Teríamos um discurso coerente e plausível?
Reparem que estas interrogações não são dirigidas apenas aos actores políticos. São também dirigidas aos intelectuais e académicos. Que concepção de Estado é que cada um de nós tem? Passariam o teste da cidadania? Tenho lido na blogosfera críticas ao governo moçambicano que são formuladas de uma maneira que me deixa com dúvidas sobre se quem critica faria algo diferente do que está a criticar se também tivesse poder. Não creio que se trate de um problema lógico, embora seja isso também. Trata-se, mas é, de pouca atenção dispensada ao teste de cidadania na nossa reflexão sobre os desafios enfrentados pelo país. A nossa reflexão ainda não é suficientemente profunda e não é, suspeito, porque ainda não demos a devida importância à fundamentação do que nos confere cidadania.
Mas esta fundamentação, e o debate que ela suscita, é que fazem a esfera pública. Governar a esfera pública é em certa medida trocar impressões sobre estas questões. O pior que nos pode acontecer, e infelizmente tem nos acontecido, é partirmos da ideia de que o Estado sabe, no final de contas, o que é certo. Na verdade, o essencial do debate reside na recusa de uma posição privilegiada de seja quem for, mas na vontade de confrontar ideias com ideias à procura de definições de problemas que possam ser aceites. John Rawls, outro filósofo liberal americano, depois de durante muito tempo ter falado da justiça como fundamento do liberalismo, tem vindo, ultimamente, e em virtude do pluralismo cultural que cada vez mais caracteriza as sociedades modernas, a falar de democracias consensuais, isto é democracias que identificam, no debate de ideias, pontos de intersecção entre várias maneiras de se estar na vida. Não sei se ele tem razão ou se as suas ideias são de alguma utilidade. Sinto, contudo, que a ideia de consenso não joga muito bem com a fundamentação da nossa cidadania.
O pluralismo tem sido uma realidade no nosso país desde os tempos que já lá vão. Curiosamente, e por causa da ausência de uma reflexão séria sobre as bases do nosso Estado, a nossa prática política, e isto desde o período colonial, tem insistido quase sempre na eliminação desse pluralismo. No início a ideia era de nos moldar à imagem dos portugueses; depois, com a independência, a preocupação era de eliminar a diferença e fazer de todos nós “moçambicanos”, isto é nacionais segundo uma definição normativa prerrogativa do governo. Tudo isto cheira-me um bocado a “consenso”, ainda que Rawls não parta da ideia de que haja um árbitro final. Penso, todavia, que mais do que pensar como ser “moçambicano” o desafio consiste em saber quais são as condições de realização da nossa cidadania. Aí não precisa de haver consenso, senão no estabelecimento de princípios. O debate será sobre a política e procedimentos necessários a essas condições de realização.
Este debate tem que começar a sério. O momento é oportuno. E tudo isto constitui o que chamo de desafios da cidadania.
16 comentários:
Ilustre, debates em torno da esfera publica sao sempre urgentes. O que precisamos de ter bem presente e o que a ideia de espaco publico significa e/ou representa em cada contexto e momento. A esfera publica e corporizada por uma cidadania activa. Uma cidadania que nao resigna. Corporizada por cidadaos que discutem. Que reflectem. Que pensam. Infelizmente, ha muitos poucos cidadaos em Mocambique, qual materia prima da cidadania e da esfera publica. O que temos - pouco mais de 20 milhoes - sao habitantes, viventes, pessoas, etc. E que se pode dizer, por estas alturas, da esfera publica em Mocambique, assumindo que ela existe?
Abracos de Ericino de Salema
caro elísio,
as questões que levantas são deveras importantes para serem apenas lidas sem despoletar a necessária reflexão. vou começar por debruçar-me sobre o “consenso”: penso que seria importante acrescentar “baixa intensidade” ao “consenso”.
pois o que este país está a ficar famoso por saber fazer é criar consensos de baixa intensidade. vou dar um exemplo: um antigo dirigente político e hoje um dos grandes da banca aceita uma entrevista para falar sobre as relações económicas moçambique-áfrica do sul e contextualizar isso à luz dos recentes ataques contra imigrantres na terra do rand. aceita o desafio e quando ouve os prounciamentos de ambos os governos que coincidentemente são concordantes, desmarca a entrevista não vai ele abanar o barco num momento tão sensível quanto esse.
o que sobressai é a ideia de que como cidadãos concordamos com a posição do nosso governo. daí que, podemos questionar se o cidadão em causa não sabe que falar sobre essas relações económicas pode abrir-nos uma pequena janela para compreendermos melhor o que aconteceu; sendo ele um membro da nomenclatura, podemos perguntar o que é ele pensa de cidadania e do seu exercício. ademais, no próprio contexto da sadc, que mecanismos se lhe assistem para exercer a sua cidadania? para além do fórum parlamentar e dos comités nacionais, não existe nada onde o cidadão pode exercer esse seu direito. existe um tribunal mas o quê se sabe dele? por exemplo, como é que os emigrantes vítimas de violência podem ter acesso a esse tribunal?
há uma observação que está-se tornando numa verdade: diz-se que em tempos de guerra a primeira vítima é a verdade. quero aquí esticar o conceito de palavra para verdade (ainda não sei como vou fazer isso, mas aviso que dou um salto de fé). temos primeiro que aceitar que estamos em guerra de ideologias ou mesmo de poderes (aqui recupero o poder civil e o poder consuetidinário). seguindo esta lógica podemos dizer que a ausência de palavra (verdade para mím) é fruto dessa guerra. e isso é um golpe ruím para o cidadão porque como se pode esperar que sem ela (uma ferramenta importante) ele possa agir e interagir?
introduzindo a noção do patrimonialismo de weber, não pode custar muito ver porquê isso é assim. penso eu que podemos também questionar até que ponto o neo-patrimonialismo corroi o princípio de cidadania, ou a estruturação do estado à imagem do partido político contribui para diluir mais esse princípio – pelo menos vejo assim enquadrada a crítica sobre o despotismo descentralizado que o ugandês mamdani faz.
portanto, em minha pobre opinião o dever e direito de agir e interagir que qualquer estado deve conferir aos seus cidadãos não vão ser efectivos sem se olhar para algumas dessas questões. E penso que não foi por acaso que fizeste essa ligação
Eu noto que os debates sejam elas quais forem, incluindo este de cidadania (a FDC publicou, vem na edicao de hoje do canalmoz, os resultados do estudo do "pulsar" da cidadania aqui na "perola") acabam sempre desembocando em "partidos politicos", "ideologias" e afins. Muito raramente se abordam os assuntos como tais, em que em vez de "consenso" (sejam de baixa intensidade ou para alinhar com a ideologia ou com o q o chefe disse ou "consenso consciente) reine o "bom senso". Acho q esse se nao e', deveria ser um conceito universal e todo o ser humano deveria nascer com uma boa porcao dele.
Secundando aqui o anteriormente exposto eu perguntaria ao amigo Elisio se, o facto de eu pertencer a algum partido politico, me obriga a concordar com tudo o q seja la decidido, mesmo q eu tenha q "capar" as minhas ideiais e reflexoes e fundamentalmente, se ao agir assim "eu" estaria a prestar servico algum ao movimento de cidadania q tanto a nossa e outras nacoes (africanas) precisam?
caro ericino de salema, de facto a questão é de saber se temos uma esfera pública em moçambique. penso que a reflexão que estamos a fazer nos mostra os seus contornos. a questão que se deve seguir é de saber que conteúdo é que a discussão deve ter. o que significa cidadania para cada um de nós? reclamar? protestar? alhear-se? tentei sugerir a ideia de que cidadania é o conjunto dos nossos direitos, cuja realização deve ser o objecto do debate na esfera pública.
bayano, o exemplo que dás parece-me simplesmente de cobardia. infelizmente, temos muita gente assim. pessoalmente, não acredito que haja gente "influente" no partido frelimo ou no governo que seja contra o espírito crítico. é a ilusão do "poder da frelimo", infelizmente. e isto faz mal à palavra, não tanto à verdade, pois esta só se constitui no debate. sem debate não há possibilidade de nos aproximarmos dela. e isto é lamentável.
O Elísio tentou sugerir a ideia (com a qual concordo) de que "a cidadania é o conjunto dos nossos direitos, cuja realização deve ser o objecto do debate na esfera pública."
Insisto na ideia que tenho defendido sempre que abordamos este tema CIDADANIA: só o conhecimento dos nossos direitos pode nos trazer para um debate consciente na esfera pública (o que equivaleria à realização da cidadania).
Infelizmente, no meu ponto de vista, a maioria de nós desconhece seus direitos condição sem a qual não se pode falar do exercício de uma cidadania consciente, para a realização da cidadania através da interpelação ao Estado neste campo gigante que é ou pode ser, a esfera pública.
Por vezes penso que a mania de olharmos o Estado (e a mania deste de se apresentar assim) como "papá" que dá tudo, o medo de abanarmos os consensos alcançados etc., toldou/alienou o interesse de afirmar os nossos direitos, de vir a público questionar a razão de ser das coisas ou, porque não, questionar as opções de desenvolvimento tomadas pelo nosso Governo sejamos ou não militantes do Partido que nos governa.
Se não investirmos no conhecimento, dificilmente chegaremos à tão desejada elevação da qualidade do debate na nossa esfera pública. Continuaremos alheios dos assuntos que nos dizem respeito.
Prezado Elísio,
trouxeste à baila um ótimo repertório teórico, e articulaste bastante bem autores tão diferentes quanto o Mandami e o Rawls. No entanto, não sei se concordo com a tua discussão do Rawls. Em que livros te baseaste? Não me recordo desta guinada dele ao pluralismo e ao modus vivendi. O que ele acabou concedendo, ao final de sua vida (ele já faleceu), foi que, talvez, alguns pressupostos fossem necessários para que os princípios por ele advogados se aplicassem em contextos diferentes do americano. Mas ele hesitava na sua posição. Quanto ao consenso, ele esteve sempre presente na sua teoria (mesmo antes do Justice as fairness), mas era mais no sentido de acordo. Ao final, todos teriam de aceitar a teoria rawlsiana e os princípios de justiça dela derivados, pois tal seria a única opção racional. A Agenda 2025, que, se não me falha a memória, tu criticaste pesadamente, encaixa-se perfeitamente num exercício rawlsiano. A tua posição à época, por outro lado, estava filiada a correntes hayekianas, do domínio do acaso sobre o plano. Ao menos foi assim que interpretei.
desculpem-me reagir só agora às vossas interpelações. andei longe da internet nos últimos dias. caro jonathan, eu tenho sempre defendido a ideia de que a filiação num partido político não deve implicar desonestidade intelectual. foi isso que discuti numa palestra no ispu a comentar os receios do líder da oposição em relação aos reitores de universidades públicas. disse na altura, e continuo a dizê-lo, que só quem é honesto intelectualmente pode realmente servir bem o seu partido. é por isso que tem sido muitas vezes difícil discutir aqui na blogosfera, porque muitos querem primeiro saber de que lado alguém está; só depois disso é que avaliam o argumento.
caro júlio, concordo contigo que devemos investir no conhecimento dos nossos direitos. tem que fazer parte da nossa cultura política insistir nesses direitos como a substância de tudo quanto fazemos ao nível político.
caro jonas, baseio-me numa colectânea de 1992 com o título "a ideia do liberalismo político - textos 1978-1989" que inclui uma série de palestras que rawls proferiu na universidade de columbia em 1980, e vários outros textos subsequentes, um dos quais tem o título "a ideia de um consenso generalizado" (estou a traduzir os títulos do alemão, pois a colectânea foi publicada em alemão. baseio-me também em discussões actuais na américa que giram em torno do multiculturalismo e recuperam elementos da reflexão de rawls. o texto sobre o consenso generalizado baseia-se em palestras que rawls proferiu em 1983 e é uma tentativa de fundamentar, ao nível da esfera pública, a sua noção de "justice as fairness". ele parte do pressuposto de que existe algo que ele chama de "pluralismo como facto" que permite que num sistema democrático haja acordo sobre uma concepção racional política da justiça. tanto quanto sei a partir da leitura anterior do seu principal texto "a teoria da justiça" isto é novo, pois nessa obra ele fundamentava a justiça como um exercício especulativo (o véu de ignorância). e tendo em conta a crítica que ele próprio formula contra o que ele considera constructivismo kantiano "o constructivismo kantiano na teoria moral" (faz parte das palestras john dewey que referi mais acima), vejo uma certa contradição. da mesma forma que critica kant por exigir acordo sobre uma concepção antropológica da moral como condição de discussão da liberdade, devia também criticar a sua própria exigência de consenso.
apesar de todas estas reservas, considero o tipo de discussão que ele estimula bastante interessante e importante para a nossa esfera pública. critiquei a agenda 2025 por não ter feito isto. o acaso que privilegio é algo baseado na ideia de que a criatividade humana é imensa e não pode ser limitida por uma visão historicista. a agenda devia ter discutido como garantir o espaço de articulação dessa criatividade. no fundo, portanto, com esta reflexão sobre a esfera pública e a cidadania estou ainda a aprofundar aspectos dessa minha crítica. a inutilidade de todo aquele exercício está patente no facto de não servir de orientação para nada do que estamos agora a fazer no país. ignoramos simplesmente essa agenda. seria mais difícil ignorar uma ideia de cidadania fundada nos nossos direitos, creio.
Elísio,
Grato pela resposta. Reli meus escritos sobre o Rawls, e acho que não me expressei bem na minha primeira intervenção. Desde sempre, Rawls foi um defensor do pluralismo em termos de “concepts of the good”. Afastava-se, assim, de discussões teleológicas e essencialistas em teoria moral. Para ele, todos temos nossas concepções do que é bom para nós, e não há como se chegar a consenso nesta área. De gustibus non est disputandum, e a arena pública deveria ficar livre deste tipo de discussão. Contudo, uma vez que temos de viver em sociedade e há recursos limitados para tanto, precisamos definir como estrutaremos tal convivência e dividiremos seus custos e benefícios. Aqui, surge a arena pública e a ideia de justiça, sendo que esta estrutura a organização social de forma que todos considerem o arranjo justo e racional. Para operacionalizar sua teoria, Rawls introduz o véu da ignorância e a posição original, cuja combinação, um sujeito ignorante de suas características pessoais afora as essencialmente humanas (aqui, em termos humeanos, não kantianos)e de sua posição social, conduz a um ser humano (sem adjetivos) capaz de escolher como gostaria de ver as estruturas da sociedade em que viverá organizadas . Surgem, da reflexão deste ser humano, os dois princípios da justiça, os quais são consensualmente escolhidos pelos membros da sociedade, pois todos veriam neles a opção racional para cooperarem. Inicialmente, este é o arranjo rawlsiano. Após anos de críticas, Rawls modifica sua concepção de justiça para uma concepção política de justiça, migrando do ser humano para o cidadão, aceitando que seus princípios de justiça fundam-se em características de sociedades democráticas liberais, não de qualquer sociedade. A teoria perde força, mas ganha consistência e coerência.
Em resumo, há em Rawls, tanto o antigo como o moderno, tanto consenso (político) quanto pluralismo (ético).
Sobre a agenda 2025 e uma cidadania fundada em direitos, infelizmente tem os ambos e ambos são ignorados, e tal não diminui sua importância. Em um post anterior, tu também criticaste a quantidade exagerada de direitos na atual constituição, pelo qual eu respondi dizendo tal ser a regra na maioria das constituições modernas (a alemã sendo um dos grandes exemplos, mas também a portuguesa e a brasileira). Ao que lembro, ambas tuas críticas dizem respeito à própria ideia de regular e estruturar a sociedade, o que vai de encontro às ideias de Rawls, não ao encontro. Claro, penso que tais documentos são exageradamente ambiciosos e foram pouco participativos na sua formulação, mas tal é problema de execução, não de concepção. Os esforços em torno da concepção da Agenda 2025, se bem coordenados e executados, teriam sido válidos, pois ajudaria a estruturar a ação política, a ordenar a divisão de benefícios e deveres sociais.
J.
A quem interessar:
Freeman, Samuel (ed.) (2003) The Cambridge Companion to Rawls, Cambridge, Cambridge University Press.
Kelly, Paul (2004), Liberalism, Cambridge, Polity Press.
Kukathas, Chandran; Philip Petit (1990), Rawls, A Theory of Justice and its critics, Oxford, Polity Press.
caro jonas, obrigado pelos seus comentários. ajudam-me a reflectir melhor sobre estas questões. não vejo desacordo na interpretação de rawls, apenas ênfases diferentes, mas espero que me corrija. o que eu leio nos textos de rawls é justamente pluralismo político e consenso ético (o que me parece contradizer a sua auto-inscrição numa tradição constructivista kantiana), mas o essencial para esta discussão, e que o jonas muito bem salienta, é a concepção de justiça que migra do ser humano para o cidadão.
isto revela uma concepção minimalista da ordem política e eu estou a favor disso. isso, porém, não implica que a prática política não conduza ao incremento dos nossos direitos. a constituição alemã tem tantos direitos quantos tem em resultado de uma história de luta e negociação. suponho que seja assim no brasil e em portugal. que ideia preside à formulação dos direitos que estão na nossa constituição e como é que eles se justificam a partir da nossa história? esta pergunta leva-me, por exemplo, a não concordar consigo quando diz que o facto de, em sua opinião, a constituição e a agenda 2025 terem sido exageradamente ambiciosas e pouco participativas, constituiria um problema de execução, não de concepção. não, é o contrário. trata-se de um problema de concepção e é por isso que a execução é difícil. lembro-me de na altura ter dito que tínhamos a constituição e que era ela que devíamos discutir, não um documento suplementar, pois queríamos reflectir a nossa ordem política e social. o debate é a esse nível, mas a agenda (assim me pareceu) queria simplesmente tornar esse debate supérfluo.
no fundo, é este tipo de discussão que estamos a travar agora que interessa à fundamentação da nossa ordem política e social. é este tipo de discussão que faz muita falta. por essa razão, agradeço-lhe bastante por estas contribuições. devemos continuar.
Elísio,
novamente agradeço a resposta. Acredito, como tu, que a palavra e o diálogo são essenciais ao desenvolvimento de uma cultura política tolerante (mas não complacente), inclusiva e democrática. Infelizmente, nem todos concordam conosco. Aquele que foi talvez o maior poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, bem captou o quanto de Sisífiano há em tal tarefa no seu poema "O Lutador", do qual segue um excerto "(...)Lutar com palavras, é a luta mais vã. Entanto lutamos, mal rompe a manhã."
De volta à nossa conversa. De facto ainda discordaria de ti no tocante ao Rawls. Sua teoria é, obviamente, normativa; mas ela se localiza no campo da filosofia política, não da ética per se. Rawls rejeita o utilitarismo, por exemplo, mas principalmente por ele disputar espaço com sua teoria no campo político. Infelizmente, não estou com A Theory of Justice comigo, mas tenho claro que ele sempre privilegiava acordos sobre "(...)the concept of the right over the concept of the good(...)". Ou seja, se discutiria e se chegaria a um acordo sobre as regras que guiariam a vida em sociedade (uma constituição, que seguiria seus princípios de justiça), mas não se discutiria o que cada um deve fazer nos limites de tais direitos (ou seja, nada sobre virtudes e similares, se se deve maximizar o prazer, viver estoicamente, etc). Rawls deixa de fora da arena pública a discussão sobre os "ultimate ends", reservando-a para debates sobre os direitos e deveres que permitiriam um convívio justo e estável, assim como a coexistência de diferentes visões sobre os objetivos da vida.
Sobre a Agenda 2025 e a Constituição, percebo que temos uma visão um tanto diferente sobre o funcionamento da sociedade. Concordo contigo que instituições tendem a ser o resultado de uma série histórica de relações sociais, lutas e conquistas. No entanto, diferentemente de ti, também vejo nas instituições (no político) um papel constitutivo, onde poucos podem muito. A relação de causalidade iria em ambas as direções, do social ao institucional e do institucional ao social. Um executivo forte, como o consagrada na Constituição, é resultado da história do país, e dificilmente será alterado. O papel das chamadas autoridades tradicionais, no entanto, o tem sido, mesmo que gradualmente, quando estas foram equiparadas a outras autoridades políticas (secretários de bairro e similares). A liberdade de expressão e associação também facilitou grandemente o florescer de um ambiente político mais plural. A constituição actual é ocidentalizada (muito similar à brasileira e à portuguesa)e segue de perto as normas de direito internacional, mas não vejo problemas de concepção nisto. Algums direitos, admito, não precisariam ter sido constitucionalizados. No que toca à Agenda 2025, não vejo ela como concorrente à Constituição, mas como complementar, buscando operacionalizá-la. A sua apropriação pelos agentes políticos foi pobre, mas isto deve-se mais ao atual cenário político do país (exageradamente confrontacional e com baixíssimo nível de confiança), e não à sua concepção. A ideia de se ter uma visão de país com a qual boa parte dos agentes políticos concorda, poderia ter ajudado a erguer uma arena pública, estatal, acima das questões políticas-governamentais do dia. Mas isto, apesar da retórica, não parece interessar às forças políticas.
Aí vai, a quem interessar, o belíssimo poema do Drummond:
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.
Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.
Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.
Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.
Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.
O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.
Acho problematica a definicao de confianca politica, que esconde cumplicidade partidaria. O que temos em Mocambique, confianca partidaria ou politica no sentido de ser alguem que tem perfil e competencia para levar a bom termo determinada politica. Nao basta apenas ser do partido para ter confianca, e ha que criar instituicoes que forcem os politicos a colocar pessoas competentes e capazes, senao um dia teremos um ministro da Saude do tipo o mecaanico genecologista, apenas porque alguem tem a prerrogativa de nomear que quiser desde que alegue confianca politica.
Caro Elisio!
Concordo contigo quando referes que so' os individuos honestos intelectualmente podem servir devidamente o Estado. Na percepcao, podemos assumir que todos individuos que tem sido nomeados (incluindo os reitores) tem agido honestamente? Que determinados "interesses" nao sao considerados na execucao das suas actividades?
Se formos a olhar para o percurso dos paises que lograram atingir estagios elevados de desenvolvimento, os seus governos definiram estrategias e planos elaborados por tecnocratas versadas em areas especificas. Esses planos foram sendo seguidos ou eventualmente sofrendo algumas alteracoes, independentemente dos "partidos" que foram assumindo o poder. Uma coisa comum e' a definicao de "targets" e "meios" para os alcancar. Concordo com o Jonas quando diz que a Agenda 2025 foi pobremente acolhida pelo regime actualmente no poder. Na minha humilde percepcao, o nosso governo e' pouco "ambicioso", nao quer se dar ao trabalho e prefere optar pelo caminho mais facil que e', entreter o eleitorado com planos economicos e sociais (PES) que de ano para ano nao tem continuidade e ninguem sequer avalia a sua progressao ou desempenho. Se continuamos com esse tipo de postura, podem crer que nem daqui a 100 anos conseguiremos atingir patamar algum de desenvolvimento.
Agora e so correr nao importa para onde nem como e meia volta engolir a saliva cuspida. O plano de aproveitamento dos regadios para arroz, e o cultivo de arroz na Zambezia jogados fora durante os ultimos tres anos, hoje voltam a ser buscados para salvar-nos da crise mundial de alimentos e como se fossem ideias novas.
caro jonas, vai me desculpar o longo silêncio. voltei a estar longe da net. vi o seu comentário ontem, mas não tive tempo para responder e como aborda questões de fundo preferi esperar pelo regresso à casa para sacudir o pó ao meu exemplar de "a theory of justice". adquiri-o em outubro de novembro por influência dos meus professores de política social que nos anos oitenta nos obrigaram a ler e a discutir rawls e nozick. confesso que sempre me senti inclinado para o lado de nozick, apesar das suas tendências de direita. penso que podemos entrar em desacordo quanto à interpretação do que rawls faz. pelo menos na versão original ele inscreve o que faz no âmbito da filosofia moral, portanto, do que é bom ou mau, aliás como kant também fez. em textos subsequentes, os que li para as passagens da minha postagem, ele distancia-se desse aspecto da visão kantiana, e já não impõe o que é mais racional como critério da sua própria antropologia.
acho que sobre a agenda 2025 também podemos entrar em desacordo. achei esse exercício completamente supérfluo e teria preferido, no seu lugar, o que o jonas e eu e muitos outros fazemos na esfera pública, isto é discutir continuamente e, através da acção política, enformar a constituição que é o que interessa. é neste sentido que não considero os problemas que a agenda tem como sendo resultado de fraca execução. não é executada porque foi mal pensada, porque não é aí por onde se deve começar. repare que não tenho nenhum problema com uma agenda 2025 do governo; de preferência até devia haver várias agendas que convidem, a partir de várias perspectivas, a sociedade a discutir visões do que a nossa sociedade deve ser.a este propósito, caro jonathan, não tenho a certeza se há falta de interesse por parte do actual governo tanto mais que o governo da frelimo esteve à frente dessa agenda e em tudo que é documento relevante a agenda é, pelo menos, mencionada. o problema aqui, porém, é que há certas coisas que precisam da satisfação de certos requisitos societais para poderem ganhar corpo e substância. um direito em si, sem procura e eleitorado, vai ser difícil de implementar e fazer implementar. a partir do momento que certas coisas dependem do governo para serem feitas, estamos mal.
por essa razão, caro jonathan e anónimos, não estou certo se concordaria com os vossos argumentos. não podemos julgar um governo pela sua capacidade de escolher a pessoa certa para o lugar certo. devemos julgá-lo pela sua capacidade de reconhecer erros e remediar. e isso depende muito do espaço que existe no interior da sociedade para apontar esses erros e fazer com que sejam vistos. os nossos debates na blogosfera servem para isso também. temos que perguntar a nós próprios que mais podemos fazer para que se limite o espaço de irresponsabilidade tendo em conta que nós também não detemos todo o discernimento que é necessário. alguns países parecem estar muito melhor do que nós simplesmente porque têm maior capacidade de absorção de erros. frederick cooper, um historiador americano, dizia-me há alguns anos que uma das grandes vantagens que a américa tem é de se poder permitir muito disperdício.
errata: escrevi "adquiri-o em outubro de novembro..." onde queria escrever "adquiri-o em outubro de noventa (1990)!
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