quinta-feira, junho 26, 2008

A agenda das nossas visões (5)

Não quiz atrapalhar a festa ontem, foi por isso que não coloquei nenhum texto. Vamos, então, prosseguir com a nossa discussão sobre a Agenda 2025.

Os cenários que desenvolveram a Europa

Nos meados da primeira metade do século XVIII registou-se na vizinha África do Sul um suicídio colectivo com o nome "o grande movimento Xhosa de matança de gado". Essa grande etnia sul africana decidiu deixar de alimentar o gado e de cultivar a terra em preparação da ressuscitação dos antepassados. Uma menina de 12 anos convencera a etnia que tinha tido visões - outra vez as malditas visões. Vira, durante uma ida ao poço, e falara com os antepassados que lhe informaram que viriam libertar o povo do jugo europeu e trazer a abundância eterna. Para que isso acontecesse era necessário que todos deixassem de trabalhar, limpassem os celeiros, matassem o seu gado e mantivessem um aspecto limpo.

Para os efeitos do que se segue aqui os detalhes desta história não são importantes. Segundo J.B. Peires, um historiador sul africano que escreveu o melhor livro sobre este acontecimento, este comportamento aparentemente irracional explica-se por vários factores: um cristianismo mal digerido, o receio de uma doença animal trazida pelos europeus bem como relatos de desaires militares europeus na Crimeia. O importante é a trágica simplicidade da solução Xhosa do problema do desenvolvimento. Porque não procuraram saber como os europeus se desenvolveram?

A resposta é que, naquela altura, eles não dispunham dos instrumentos científicos que o PNUD nos proporciona hoje em dia. Na verdade, se os tivessem tido teriam tentado reconstruir o desenvolvimento europeu pelo menos teoricamente. Vamos tentar esse exercício e ver até onde nos leva.

O período da história europeia mais semelhante com o que a África vive actualmente é a idade medieval. Graçam, na altura, epidemias como a peste bubónica, verifica-se um empobrecimento crescente das zonas rurais, a superstição reina, o estado dificilmente se consegue afirmar, antes pelo contrário, a lei do mais forte é que se impõe. A Europa medieval representa o que o filósofo inglês, Thomas Hobbes, chamou de estado natural: A vida é curta, bruta e horrível. Só Leviatão, a comunidade que vai dar liberdade ao homem ao mesmo tempo que tempera a sua vontade de poder, é que é a solução.

Imaginemos que os europeus tenham optado por elaborar uma agenda. Chamemo-la "agenda século XIX e XX" em homenagem à supremacia europeia neste período. Que cenários eram possíveis na altura? Há quatro que se sugerem: do javali, do alce, da raposa e do esquilo. A comissão encarregue de elaborar estes cenários teria sido composta pelas melhores cabeças europeias do tempo: estadistas, filósofos, teólogos e matemáticos. Estas individualidades começariam por fazer uma vénia à rica história europeia. Identificariam a civilização grega e romana bem como a subjugação estrangeira como um património útil para a grande tarefa de perspectivar o futuro da nação europeia. Veriam na filosofia e nos passos titubeantes da matemática, astronomia e geometria importantes recursos para o futuro.

O primeiro cenário é o do javali. Come tudo o que pode esgaravetar. Não olha para os meios para alcançar os seus fins. A sujidade é a condição da sua existência. Se os europeus não conseguissem manter uma certa paz e estabilidade entre os vários principados e controlar os bandos de cavaleiros à solta o continente prejudicaria seriamente as suas possibilidades de desenvolvimento. Correria o risco de produzir sistemas políticos corruptos, ineficientes e criminosos em que a ganância reinaria.

O alce é mais abundante nas densas florestas escandinavas. É o terror dos automobilistas. Tem o hábito de aparecer de repente na estrada e obrigar o motorista a guindar. A indústria inventou até um teste de estabilidade de veículos automóveis com o nome de alce. Um dos modelos da Mercedes ridicularizou-se há alguns anos quando reprovou este teste: sempre que guinava, descapotava. O cenário do alce seria o de um desenvolvimento em que a Europa não mantém um curso recto. Tanto vai para a frente como retrocede. Muitas vezes tem que fazer viragens repentinas. Esse cenário resultaria de uma fraca integração social, isto é do fracasso no alargamento do Agora grego a todos os europeus.

O terceiro cenário seria o da raposa. A raposa, na imaginação europeia, é um animal esperto, mas individualista e traiçoeiro. Está mais preocupado com a conservação da beleza da sua pele e do aprumo do seu rabo. Devido à sua audácia a raposa representaria um desenvolvimento em que os europeus seriam capazes de tirar vantagens do conhecimento científico emergente, mesmo se persistissem desequilíbrios entre as várias regiões e povos.

Finalmente, o cenário do esquilo, este mimo de animal, pacífico, trabalhador e providente. O seu pleno desenvolvimento requer integração social, participação e o uso do conhecimento científico para resolver problemas reais. Só o bom desempenho destes elementos todos é que iria tirar a Europa da escuridão medieval.

Volvidos uns seculizinhos a Europa encontra-se onde gente de boa vontade na era medieval teria sonhado vê-la. Olhando em retrospectiva poder-se-ia dizer que havia custado, mas valera a pena. De tudo houve um pouco: caça às bruxas, inquisição, guerras religiosas, guerras feudais, guerras étnicas, emigração massiça, colonização interna, colonização externa, escravatura, “limpezas étnicas”, genocídios, revoluções socialistas, revoluções fascistas, epidemias, opressão de minorias, etc. A única coisa que não houve foi auxílio ao desenvolvimento.

Que lição teriam os Xhosa aprendido do desenvolvimento europeu?

11 comentários:

João Feijó disse...

O plano Marshall constituiu um programa de auxílio ao desenvolvimento da Europa

Elísio Macamo disse...

sim, sem dúvidas. contudo, isso não invalida o meu argumento. o plano marshall foi concebido para reconstruir a europa depois da guerra. até essa altura tinham sido criadas as bases do desenvolvimento europeu.

Anónimo disse...

Acho que o jf lembrou bem. Claro, ajuda externa não é tudo, mas, como o nome diz, somente uma ajuda. O Japão e a Coréia também se beneficiaram de ampla ajuda externa. E o ponto do jf invalida, sim, parte do teu argumento: que a única coisa que não houve na história europeia foi auxílio ao desenvolvimento. Por bonita e interessante que seja a arte da retórica, a verdade não tende a ser localizada nos extremos.

umBhalane disse...

Será que também posso intervir?

Antes da implementação do plano Marshall, a Europa, melhor, países europeus como a Alemanha, França, Itália e Reino Unido, só para citar estes, não seriam países desenvolvidos?

Elísio Macamo está certo na argumentação quanto a este item específico, e seu enquadramento económico-histórico.

Elísio Macamo disse...

caro umbhalane, obrigado por esta achega. reconstrução não é construção. penso que um argumento que me poderia criar problemas seria aquele que lembrasse que os países africanos, ao contrário dos países europeus, estão a tentar desenvolver-se em condições diferentes e, sobretudo, em resultado de terem sido obrigados a sair, digamos, da sua própria trajectória histórica. aí sim, não saberia como continuar a discutir o assunto, mas seria interessante reflectir nesse sentido. penso que há muitos que fizeram isso. toda a perspectiva do sistema-mundo e, sobretudo, uma boa parte do que samir amin escreve, inspira-se nesse argumento.
caro jonas, independentemente da retórica penso que o mais importante numa discussão é clareza nos conceitos que usamos. se me dizes que o argumento de jf invalida parte do meu argumento porque ajuda externa não é tudo, mas somente uma ajuda, não sei como não estar de acordo contigo, embora deva confessar não perceber o teu entendimento de ajuda e o que esse entendimento tem a ver com a definição implícita que venho fazendo. sei que os britânicos até utilizaram antigos funcionários coloniais na índia na reconstrução da alemanha. não afundaram a burocracia alemã em projectos, iniciativas, visões, seminários, planos disto mais aquilo. ajudaram os alemães a reconstruírem as suas instituições, a definirem o caminho que queriam seguir e em poucos anos desapareceram da cena. não ficaram décadas na estrutura governamental alemã a dar "no objections" às decisões do governo alemão.
acho o teu comentário sobre a retórica bastante infeliz. eu pelo menos sou um grande adepto da arte retórica. parte da razão está no que escrevo nesta última postagem, mas também naquilo que considero ser essencial para o nosso desenvolvimento, nomeadamente a necessidade de confrontação de ideias e a procura conjunta da verdade. a retórica, muito mais do que a lógica, permitem-nos fazer isto muito bem e é uma pena que dês a entender que um argumento possa pecar por excesso de retórica. tenho estado a ler, por sugestão tua, a obra de hayek "law, legislation and liberty", embora apenas (por enquanto) o segundo volume, nomeadamente "the mirage of social justice". é uma obra escrita de forma retoricamente excelente. é verdade que fere algumas das minhas convicções políticas mais fortes, mas no tocante à questão da justiça social não encontro a sugestão que tu fizeste num dos teus comentários numa outra postagem. ele diz, de facto, que não existe "justiça social", mas o seu argumento é muito subtil e corresponde à minha primeira reacção ao que escreveste sobre a thatcher. hayek alerta simplesmente contra o uso descuidado desse termo e articula isso com a sua visão da importância do mercado na estruturação das relações sociais. ele alerta contra o perigo de deixar que essa expressão seja privilégio de certos grupos sociais que, simplesmente, defendem interesses particulares em nome de algo muito maior que existe apenas na sua imaginação. isso não significa que hayek rejeita a ideia de sociedade. ele escreve sobre a "ordem social", "sociedade", "grande sociedade", etc. ele torna preciso o sentido em que usa essa expressão. anotei, para referência e uso futuro, uma passagem interessante do texto onde ele escreve que a noção de "social" tem o condão de privar todos os termos com os quais é combinado de um sentido claro. é o mesmo com visões e consensos. e tudo isto, caro jonas, é retórica e não localiza a verdade em nenhum extremo. o que faz é dar-nos os critérios por meio dos quais se procura localizar a verdade. e essa é a função do debate.

Anónimo disse...

Elísio, no tocante ao auxílio ao desenvolvimento, continuo mantendo minha posição. E o problema, creio eu, não é com meu entendimento da tua posição, mas com a tua posição. Da maneira como tu colocas a discussão, parece que não há espaço para influéncia externa positiva no desenvolvimento de um país, seja ela qual for. Parece-me um discurso maniqueísta; ou tudo ou nada. Mas auxílio externo ao desenvolvimento com resultados positivos foi o que aconteceu nos países da Europa ocidental no pós-guerra. Houve, nas palavras do DeLong e Eichengreen, um verdadeiro programa de ajustamento estrutural (para detalhes, ver http://www.econ.ucdavis.edu/faculty/alolmstead/DeLong.pdf#search=%22brad%20de%20long%20marshall%20plan%22), com condicionalidades e tudo. Claro, as diferenças com o que acontece com Moçambique não poderiam ser maiores, em vista das diferentes trajectórias históricas. Não creio que tenham havido visões, de facto, o que, contudo, não invalida que tal seja útil aqui (ou tivesse sido útil lá). E houve planos e iniciativas, com certeza, e não há dúvidas de que muito tempo se gastou em conversações (seminários).
Também não advogo uma interferência exagerada , mas não foi o Banco Mundial que se aproximou de Moçambique em 1984... Acho um grande equívoco nos centrarmos nas instituições financeiras internacionais sem olharmos para as relações que se estabelecem entre aquelas e as elites nacionais. Penso que devemos nos concentrar em second-best solutions, o que envolve certas cedéncias. Aqui, abro espaço para uma pergunta: qual seria a tua solução ao problema moçambicano? Tu vês espaço para auxílio externo ao desenvolvimento positivo (contrariando a minha percepção da tua posição)? Em suma, o que fazer? Estaremos em frente a um catch-22?
No tocante à retórica, usei o termo no sentido da arte do convencimento por meio da persuasão. Neste caso, a verdade é secundária. O que importa é o convencimento. Se Mugabe convence 50% mais 1 dos zimbabueanos de que seu regime, apesar da inflação galopante e da tragédia económica do país, é o mais viável ou justo ou adequado, ele conseguiu o que quer. Fez uso de retórica para tanto, usou estatísticas, história, piadas, tudo. Não se interesseou em misturá-las aleatoriamente e tendenciosamente. Se o Einstein quisesse convencer alguém de que sua teoria era correta, não haveria retórica possível. A navalha de Ockham não favorece os cientistas em seu processo de convencimento. Não estou te comparando ao Mugabe, que fique claro. Mas acho que, por vezes, tu simplificas os problemas para atacá-los mais facilmente e levar teus leitores a concordarem contigo. Como leitura é ótimo e engraçado (gosto dos cenários do alce e do javali); mas não sei se avançamos no debate desta forma.
No que concerne ao Hayek, gosto muito dos seus textos, mas discordo de quase tudo que ele escreveu, e o considero um grande retórico. Claro, ele teve alguns bons insights, como as relações entre sistemas jurídicos e economia, mas faz parte de uma geração de escritores pouco interessados em factos e demasiado concentrados em teoria (ou melhor, ideologia). Teve seu papel naquela época, mas já foi ultrapassado por uma geração de pesquisadores mais interessados, digamos, na ciéncia. E não o acho nada sutil; pelo contrário, acho ele até tosco por vezes. Escreveu num período em que a Guerra Fria estava no auge, e, como tantos outros (no lado oposto da trincheira, o Hobsbawn é um exemplo), deixou-se influenciar. A discussão sobre justiça social é um exemplo disto. Quando ele fala na grande sociedade, fala de sociedade com mero ajuntamento de indivíduos, e a justiça como reguladora de suas ações. Neste sentido, não haveria justiça social, pois só se pode fazer juízo de justiça sobre ações individuais. A tal da grande sociedade hayekiana não poderia ser justa ou injusta, assim como um jogo de xadrez não o é. Se todos seguem as regras, é isso. E quem define as regras? Ninguém, elas evoluem... A constituição hayekiana não é um contracto social; é ato evolutivo, no qual as regras aprimoram-se como vinho em barris de carvalho.
Bom, era isto. Para finalizar, gostaria que tu comentasse, se possível, o que escreveste sobre os tigres asiáticos. Continuas achando que o protecionismo foi um erro? E as ditaduras, não tiveram sua importância?

Elísio Macamo disse...

caro jonas, mais uma vez obrigado pelas tuas observações. acho muito importante que fiquem claros os pontos de discórdia. se não concordas comigo por achares que eu defendo a posição de que não há espaço para a influência externa positiva no desenvolvimento de um país, então estás a interpretar mal a minha posição ou então (e esta seria a terceira vez!) estás a utilizar termos com equivocidade. tenho criticado A FORMA como o auxílio ao desenvolvimento tem sido feito, mas em nenhum momento defendi a ideia de que nenhum auxílio ao desenvolvimento seria benéfico. regularmente, tenho apelado para que nós saibamos como tirar melhor proveito desse auxílio. penso que o manequeísmo está em concluir que quem critica a prática actual está contra e não vê nenhum espaço para essa ajuda. essa é uma atitude muito típica da indústria do desenvolvimento: quem critica está contra. pelo menos aqui na alemanha tenho sido um interlocutor válido e aceite das instituições de cooperação por, nas suas próprias palavras, eu fazer críticas fundadas. penso que podemos discordar em relação ao plano marshall na europa. para mim não foi ajuda ao desenvolvimento; foi ajuda à reconstrução. são coisas diferentes. também não tenho nada contra planos, visões, seminários, etc. desde o momento que recuperem a diversidade da sociedade e não procurem produzir consensos para além da constituição. essa é a minha crítica à agenda 2025. foi um exercício inútil que reuniu as mesmas pessoas que se encontram regularmente noutro tipo de fóruns. e essa inutilidade vê-se na indiferença das pessoas à coisa.
portanto, a resposta à tua pergunta sobre se vejo espaço para o auxílio externo ao desenvolvimento positivo (eu diria simplesmente "desenvolvimento" sem qualificação) é afirmativa. vejo espaço para o auxílio externo e posso até dizer que sem esse auxílio o desenvolvimento de moçambique estaria mais comprometido ainda. o meu problema é com a forma e é isso que tenho criticado. uma boa parte do que esta indústria faz é nocivo (o exemplo da agenda é pertinente; através de um exercício mal concebido que não deu resultados cria-se a ideia de que há falta de vontade de desenvolvimento em moçambique; isso por sua vez vai produzir a necessidade de mais iniciativas de fora...). este narcisismo do auxílio ao desenvolvimento incomoda. é claro que a nossa classe política também tem que ser mais inteligente e ter visões próprias. tenho concentrado a minha atenção nesse lado também, procurando identificar os desafios na minha perspectiva de cientista social e convidando as pessoas a reflectir sobre isso. muitas vezes tem havido boas discussões sobre essas questões; algumas vezes as pessoas concentram-se no menos importante, como por exemplo querendo saber de que lado estou ou se sou indiferente ao sofrimento do povo (reduzindo as nossas opções à ajuda ou não-ajuda).
vamos ter que entrar em desacordo com a tua ideia de retórica. estás a fazer dela um aspecto da lógica, isto é uma falácia (estilo ad populum, etc.). existe uma tradição igualmente forte na filosofia (stephen toulmin, por exemplo) que não tem essa ideia da retórica; há, inclusivamente, correntes da própria história e da filosofia da ciência que não concordam com a ideia de que a ciência produz verdades ou que ela falha ou acerta em função disso (rorty e donaldson são bons exemplos disso para não falar do sobejamente conhecido kuhn). a austeridade estilística na apresentação de um argumento pode ser também um recurso retórico que não dá acesso privilegiado à tal verdade. e quando até apagas a diferença entre teoria e ideologia fico sem saber se temos o mesmo entendimento da função e essência da ciência. eu acho que tenho apresentado argumentos bem fundamentados e susceptíveis de serem contrariados. nem todos que concordam comigo fazem-no porque se deixaram levar pela retórica; nem todos que não concordam comigo não concordam por serem mais perspicazes em relação a argumentos persuasivos. até porque alguém pode discordar simplesmente por não querer reconhecer os factos. pessoalmente, não vejo muita utilidade neste tipo de desqualificação de formas de intervenção, nem acho correcto insultar a inteligência de outras pessoas desta maneira.
neste sentido, embora concorde contigo que há muito de errado nos escritos de hayek, não posso concordar que ele esteja ultrapassado. não vejo nada de tosco na sua visão de sociedade, tanto mais que essa visão está cada vez mais no centro da teorização social. mesmo um intelectual tão insuspeito como habermas defende, na sua teoria da razão comunicativa, uma visão processual (e evolutiva) da sociedade que só do ponto de vista ideológico é que pode ser vista como sendo fundamentalmente diferente do que hayek escrevia. a visão de hayek de constituição e sociedade está bem viva na actual filosofia de direito americana (dworkin) e, como tenho visto pelas decisões do tribunal constitucional aqui na alemanha, mesmo aqui. eu não me definiria como alguém da direita, até porque tenho fortes simpatias pelo liberalismo anglo-saxónico, mas isso não me impede de ler e avaliar o mérito de posições de gente da direita sem preconceitos. isso ajuda-me a redescobrir o que é útil na suas ideias e que foi adoptado por gente de orientação liberal. tenho feito esta recomendação aos que consideram os meus conselhos de alguma utilidade para lerem os autores e tirarem as suas conclusões, ao invés de se fiarem apenas noutros intérpretes.
sobre os tigres asiáticos não tenho a certeza se percebi a tua pergunta. o que eu comentei foi que apesar dessas coisas todas eles se desenvolveram. com isso queria simplesmente chamar a atenção para o facto de que a indústria do desenvolvimento funciona com estes esquemas fixos que sabem de antemão o que é bom e mau e procuram obrigar os outros a agir em sua conformidade. mesmo com "erros" é possível desenvolver-se. e isso não quer dizer que devemos cometer erros. quer simplesmente dizer que devemos prestar menos atenção àqueles que se julgam detentores da verdade das coisas e que acham que toda a discussão, para ser produtiva, tem que ser segundo os seus próprios termos.

Anónimo disse...

Elísio,
Também agradeço a tua gentileza em levar adiante este debate. No que me toca, só tenho aprendido. Sobre a influência externa ao desenvolvimento (o positivo na expressão se referia à locução “auxílio ao desenvolvimento”, e não somente à palavra “desenvolvimento”), fico feliz em ouvir que tu vislumbras um espaço construtivo aos atores externos. Neste ponto, concordamos, enfim. Se interpretei mal tua posição, bom, não sei em qual lado da comunicação está o problema. Provavelmente nunca saberemos. Sei que termos como “indústria do desenvolvimento“ não se encaixam na minha definição de clareza conceitual. Há auxílios e auxílios, e enquadrar tudo na mesma indústria é, desculpe-me, exercício retórico. Também, se tu diferencias entre plano de reconstrução e auxílio ao desenvolvimento, bem, creio que tu estás inserindo diferenciações onde elas não existem. No máximo diria que o primeiro é espécie e o segundo gênero da mesma família conceitual. Como indica o artigo que fiz menção no comentário anterior, o Plano Marshall incluiu condicionalidades e limites à ação governamental dos países recipientes do auxílio. A diferença em extensão e grau em relação ao que acontece com países africanos não altera a similaridade genética, originária entre os fatos. Ainda, se tu criticas a FORMA com que o auxílio tem se dado por estas terras, que não tens nada contra visões, penso que mudaste de posição em relação ao que dizias anteriormente, quando mencionavas que era contra a própria ideia da Agenda 2025, e não à sua execução (que é o meu ponto-de-vista). E uma visão sem consensos básicos é impossível, assim como o é uma constituição. A Agenda 2025 não adentrou em minúcias. Fez um pouco mais que a Constituição fizera (a qual, se bem me lembro tua posição em outro post, já fora longe demais), mas nada exagerado. E espero que não te refiras a mim quando dizes que algumas pessoas concentram-se em saber de que lado tu estás: argumentos ad hominem já não fazem parte da minha argumentação há bastante tempo.
Sobre retórica, não entendi o que tu queres dizer quando afirmas que a minha posição é uma falácia. Sou razoavelmente versado em epistemologia, e sei que há correntes que defendem uma visão de ciência diferente da que esposo. O Kuhn, contudo, está do meu lado, qual seja, o lado que defende que a ciência busca verdades (melhor, verossimilhanças): depois do lançamento do “A Estrutura ...” ele teve que falar inúmeras vezes que, de facto, não era um relativista, que há como distinguir entre teorias. E acho que a austeridade estilística só traz benefícios em ciência: aqui, estou com o Popper, o Ockham (da navalha) e o próprio Kuhn, que elencava a simplicidade como uma das características das teorias científicas. E, calma lá!, não apaguei a diferença entre ciência e ideologia . Se interpretares minha frase no contexto do comentário, verás que o que disse foi que, na época em que Hayek escreveu seus textos, os debates eram demasiado influenciados pela Guerra Fria, o que fazia com que teoria fosse, muitas vezes, ideologia. Não faltam exemplos, e tenho certeza de que tu sabes de muitos (o caso Lysenko, na União Soviética, é um dos casos extremos). E não desqualifiquei tuas intervenções por serem, por vezes, retóricas, assim como não insultei a inteligência daqueles que concordam contigo. Só disse que a intenção da retórica é o convencimento, não a verdade.
Quanto ao Hayek, como disse, acho que ele tem bons insights, mas sua visão está datada. Felizmente, avançamos. Mas li muitos dos seus escritos e o recomendo. Concordo que questões evolutivas estão muito presentes nas ciências sociais hoje em dia, desde um retorno às teorias darwinistícas até o path-dependence. E acho isto extremamente positivo. Contudo, não penso que este fenómeno deva algo ao Hayek, que exagerava na dose de não interferência humana nos assuntos sociais (com o perdão da palavra). Também não sei se o Dworkin concordaria com a tua interpretação.
Sobre os tigres asiáticos, o que quero saber é se tu achas que o protecionismo foi parte do problema ou da solução. E, se tua última frase fosse verdadeira, provavelmente ninguém debateria.

Elísio Macamo disse...

caro jonas, também estou a aprender. penso que precisamos de um conceito mais geral que nos ajude a entender o lugar certo para "plano de reconstrução" e "auxílio ao desenvolvimento". não creio que a distinção espécie/gênero clarifique a relação entre dois termos. acho que há uma diferença fundamental entre as duas coisas e essa diferença tem a ver com o que aconteceu na europa antes da guerra e o que está a acontecer em áfrica hoje. são tarefas completamente diferentes. a europa desenvolveu-se sem auxílio ao desenvolvimento, e foi reconstruída com auxílio ao desenvolvimento. concordo contigo que há auxílios e auxílios e que o uso da expressão "indústria do desenvolvimento" pode apagar as diferenças. creio que é a partir de termos gerais como esse que devemos começar a fazer distinções que tornem a nossa fala mais precisa. vou, contudo, continuar a utilizar o termo "indústria do desenvolvimento" porque através dele designo esta forma problemática predominante nos nossos dias. e creio que isso me permite apreciar o que é diferente ou mesmo ser receptivo ao que outros me dizem não encaixar na minha definição. pode ser exercício retórico, mas cumpre bem a função de clarificação conceitual para qual definições são convocadas.
em relação à impressão que dei de ter mudado de opinião quanto à visão deve-se, talvez, à má articulação do pensamento. quando escrevi que não tenho nada contra visões estava a repetir o meu argumento principal de que várias visões de diferentes grupos são saudáveis; foi por isso que acrescentei que não dependessem de consensos. é claro que no interior desses grupos que formulam visões tem que haver consenso. em relação à constituição o consenso tem que ser à volta das regras e o debate pode nos levar à elaboração e expansão dessas regras como aconteceu noutros países. portanto, ainda estou dentro do meu argumento, incluindo os excessos na nossa constituição que prometi discutir oportunamente, apesar de teres, na altura, sugerido que não valia à pena.
quando escrevi que havia pessoas que queriam saber de que lado estou não me referia a ti. referi-me a ti na questão da desqualificação, pois se dizes que uma boa parte do que escrevo é retórico (e o retórico é que está virado para convencer, não para a verdade) não sei como interpretar isso doutra maneira. acho que isso é um argumento ad hominem, pois não é a substância do que digo que atacas, mas a forma como o digo para depois dizeres que o que digo não está certo.
agora, o que escrevi sobre o que entendi da tua ideia de retórica é que estás a transformá-la num erro de argumentação. não disse que a tua posição é uma falácia. disse que ao dizeres que a retórica está virada para convencer (do que procurar a verdade), estás efectivamente a dizer que a retórica é um aspecto da lógica e que, como tal, é uma espécie de falácia. penso que insistes nisso no teu último comentário. não sei como podes estar com kuhn e ao mesmo tempo dizeres que a intenção da retórica é o convencimento, não a verdade. uma boa parte da discussão de kuhn (e de toulmin, donaldson, rorty, etc.) consiste justamente na ideia de que a verdade se produz nos critérios estabelecidos. essa é, na realidade, uma tradição muito antiga que teve em vico, bacon e mesmo montesquieu grandes percursores, isto é gente que resistiu ao sentido cartesiano que conferes ao debate. portanto, o que convence é o que corresponde aos critérios da verdade. quando muito, poderá haver discussão sobre a natureza desses critérios e as distinções que lá fizermos podem nos levar a excluir certos argumentos. e aí não há de facto nenhum relativismo. não acho, portanto, útil a distinção que fazes entre convencer e verdade.
quanto ao apagar da diferença entre teoria e ideologia referia-me apenas ao que escreveste: "... em factos e demasiado concentrados em teoria (ou melhor, ideologia)". pensei, portanto, que estivesses a dizer que teoria e ideologia é mesma coisa. ainda bem que não querias dizer o que percebi; e aí tudo bem. não obstante, não sei se estou de acordo com a leitura que fazes do período da guerra fria. é verdade que a discussão tinha forte dose ideológica, mas a plausibilidade do que hayek escreveu sobre o mercado e sobre a sua própria ideia do liberalismo não depende do posicionamento ideológico. penso que estás no teu direito de considerares hayek irrelevante. pessoalmente e embora não tenha sugerido que o que se discute hoje se deva a hayek (como pareces ter entendido), acho errada a ideia de que as suas ideias não sejam relevantes para o que se discute hoje. mas olha, jonas, também não sei se hayek, dworkin, weber e não sei quem mais concordariam com a minha interpretação do que eles escreveram. é bem possível que concordem com a tua, mas é por isso que estamos a debater. a interpretação tem dessas coisas e, por essa razão, não os leio apenas com a intenção de ser fiel ao seu pensamento. leio-os também para saber como formular as questões para mim próprio e avançar.
sobre os tigres asiáticos acho que o proteccionismo foi parte da solução, mas só essa constatação não diz muito. se eles não se tivessem saído bem poderíamos dizer que foi parte do problema. para mim, o essencial é perceber o que uma e outra coisa quer dizer e em que circunstâncias uma e outra coisa podem ser certas.
sim, se a minha última frase fosse verdadeira, provavelmente ninguém debateria. é por isso que chamo atenção a isso.

João Feijó disse...

Mais um contributo (desculpem o atraso, mas só agora vim ler os comentários):

O Fundo Social Europeu financia inúmeros programas de desenvolvimento de todas as regiões europeias, cujo nível de desenvolvimento esteja abaixo de 75% da média comunitária. Muitos regiões europeias beneficiam desse apoio, inclusivamente em Espanha que, de país rural e arcaico (como o era na década de 1970) se apresenta hoje como uma grandes potência mundial, que até já manifestou interesse em pertencer ao grupo do G8. Durante os 3 primeiros quadros comunitários que beneficiou (e beneficiou bastante!), a Espanha era um pequeno contribuinte da Europa. O desenvolvimento de países europeus (em infra-estruturas, formação de recursos humanos, etc) como Espanha, Portugal e Irlanda não teria sido possível sem ajudas externas ao desenvolvimento provenientes da União Europeia.

Em relação ao plano Marshall, se vulgarmente se considera "ajuda à reconstrução da Europa", não compreendo porque não há-de ser também entendido como "ajuda ao desenvolvimento da Europa" (teria que se definir "reconstrução" e "desenvolvimento"). Em 1945 muitas regiões da Europa não tinham um edifício de pé (incluindo escolas, hospitais e edifícios públicos, fábricas, etc.) Grande parte da indústria estava canalizada para o esforço de guerra e não para necessidades de desenvolvimento internas. Em muitas regiões, a população estava não só altamente envelhecida (uma grande parte da população activa morreu nos campos de batalha, de concentração, de doença, etc.) e endémica. Os anos de 1946 e de 1947 foram de fome. Muitos estavam refugiados por toda a parte da Europa, grandes cérebros morreram ou fugiram para os Estados Unidos, havia falta de médicos, de professores, de quadros técnicos especializados. Muitos campos estavam abandonados (até por falta de mão-de-obra). Havia ódios, rivalidades étnicas e perseguições. O cenário era dramático e não deixa de poder ser comparado a crises humanitárias actuais como a do Darfur. Será que sem a ajuda ao desenvolvimento que beneficiou (se calhar a maior de toda a história da Humanidade) a Europa teria conseguido atingir os níveis de desenvolvimento que atingiu nas décadas seguintes?

Em relação ao conceito “auxílio ao desenvolvimento” não sei se constituirá propriamente um auxílio - no sentido mais altruísta do conceito (trata-se de um conceito político) - porque, desculpem a crueldade redutora, neste mundo ninguém ajuda ninguém. Trata-se, isso sim, de um negócio que tem sempre contrapartidas, vantajosas para os doadores, sejam eles os EUA (na “ajuda”) à Europa; a Alemanha e Inglaterra (enquanto principais contribuintes da EU) na “ajuda” a Portugal e Espanha (também contribuintes mas sobretudo beneficiários), ou dos ditos “países desenvolvidos” aos “países em vias de desenvolvimento”. Seja em termos económicos, políticos ou simbólicos há sempre uma contrapartida e nunca (ou raramente) uma ajuda desinteressada. Portanto, tratando-se de um negócio, a questão do desenvolvimento passa pela capacidade negocial de ambas as partes, pelo acordo que é conseguido, bem como pela gestão dos recursos que foram concedidos -é comum ouvir que a Espanha e a Irlanda aproveitaram melhor os recursos que Portugal e Grécia pelo facto de terem conseguido atingir maiores índices de crescimento económico. Também é comum ouvir que países beneficiários como a República Checa ou a Eslovénia estão a utilizar melhor as "ajudas" que Portugal ou Grécia, ainda que comparativamente estejam a beneficiar de um apoio bastante menor.

Não é que esteja a discordar do seu argumento. Mas parece-me que estes dados merecem ser tidos em consideração na compreensão da "ajuda ao desenvolvimento" de qualquer região do planeta.

Cumprimentos

Elísio Macamo disse...

caro jf, obrigado pela achega. acho que a nossa discussão agora é mais verbal do que substancial. não sou de opinião que o plano marshall tenha sido ajuda ao desenvolvimento. foi ajuda à reconstrução e acho que isso é diferente, apesar de toda a situação dramática que descreve em relação à europa do pós-guerra. é só comparar a própria segunda guerra mundial e as nossas guerras em áfrica para ver a grande diferença mesmo em termos de organização logística para já não falar da capacidade técnica.
creio que há várias maneiras de não saber tirar proveito de ajuda. nós praticamos algumas dessas maneiras. mas também há maneiras de não nos ajudarem com a ajuda. no nosso país isso também é praticado pela indústria do desenvolvimento. nenhuma dessas coisas, porém, nos devia conduzir a uma conclusão baseada em fatalismo histórico do estilo "era preciso vir não-sei-quem" para país tal se desenvolver. abraços