Cenários
Num dos contos de Mia Couto relata-se a história de um casal cuja mulher tem dificuldades em dar parto. O casal encontra-se em casa de um casal amigo, cujo marido, descobre-se mais tarde, é afinal o pai do bébé que demora a sair. Durante as horas em que as dores de parto se estendem o marido está mais preocupado em beber na sala do que se ocupar da mulher que se contorce em dores na varanda na companhia de sua vizinha. Quando, contudo, a pobre mulher decide que o bébé não sai porque é ilegítimo e confessa o facto, o marido, segundo Mia Couto, “sai para fora com cara de marido”.
Mia Couto, este grande escritor moçambicano, para além de confirmar o seu grau bastante apurado de observação dos detalhes da vida, confirma também um pormenor extremamente importante da vida social. Esta, à semelhança do mundo, e como dizia o grande dramaturgo inglês, William Shakespeare, é um palco. É nesse palco da vida que cada um de nós vai desempenhando papéis e através disso dá sentido ao quotidiano. A expressão de Mia Couto enfatiza esse aspecto: não basta ser marido para ser marido. É preciso ainda fazer o papel de marido. Cada um de nós pode imaginar que cara o marido deve ter feito para representar fiélmente o seu papel: a de um homem que se sente ultrajado no seu amor próprio e que, por via disso, se sente justificado em agir como entender – incluindo o uso da violência – perante a mulher.
É na representação destes papéis que nos reencontramos e somos capazes de confirmar a existência da realidade social. Somos, com efeito, personagens, múltiplas personagens e seguimos nas várias situações do quotidiano roteiros já escritos que interpretamos de acordo com as experiências que vamos colhendo ao longo da vida. A mesma pessoa pode interpretar vários papéis: homem, marido, irmão, primo, empregado doméstico, campesino, de Gaza em Maputo, etc. Para cada papel há um repertório de acções que temos que aprender a praticar para podermos justificar a nossa representação. Um homem bem educado, uma vez deputado da oposição, por exemplo, tem que aprender que faz parte do seu papel como deputado de quando em vez se portar mal no parlamento – destruindo o mobiliário em protesto contra o que o seu partido considera fraude eleitoral.
Portanto, a imagem evocada por alguém que “sai com cara de marido” é teatral. O teatro consiste num palco, actores e audiência. Estes três elementos estabelecem relações entre si para produzir sentido. É quase a mesma coisa na vida real. Quando desempenhamos os nossos diversos papéis no quotidiano estamos, na realidade, a interpretar mais do que um papel: estamos a analisar as relações sociais em que vivemos e usamos o resultado para produzir os contextos de acção que dão sentido aos nossos papéis. A “cara de marido” indica ao auditório – a mulher infiel, ao homem infiel, a mulher ofendida – que o marido é o marido. A reacção destes três, que se orienta no sentido de aceitar como válido o sentimento de ultraje do marido feito marido, confirma o marido no seu papel de marido. E nesse processo, que alguns sociólogos chamam de "dupla constituição", torna-se possível produzir a realidade através da representação de papéis.
O contexto é muito importante para que a representação seja convincente. No teatro, para além de bons actores e duma boa peça, é preciso que a encenação seja boa. O cenário tem justamente a função de proporcionar o pano de fundo sobre o qual os papéis representados possam cativar ainda mais a imaginação do auditório forçando-o a enquadrar o que vê e ouve num único contexto de acção. A polícia, por exemplo, tem muita sensibilidade para este detalhe. É através da reconstrução do cenário - por exemplo, carta de despedida, ausência de sinais de violência, problemas financeiros ou maritais, despromoção no serviço, etc. - que ela decide se o corpo pendente dum lençol enrolado na viga do tecto conta a história de um suicídio ou de um homicídio. O exemplo é algo macabro, admitamos, contudo enfatiza a importância da encenação para o sucesso da interpretação de um papel.
Na vida real a encenação apresenta-se como uma estrutura que age sobre os indivíduos. Nessa qualidade, ela impõe formas e regras de conduta ao mesmo tempo que escreve os roteiros da interacção. Não admira, por exemplo, que muitas áreas da nossa vida sejam caracterizadas pela rotina. Paramos o carro no semáforo, aponta-se-nos uma arma, faz-se-nos um sinal para sairmos sem as chaves, vemos o carro a partir em alta velocidade numa grande bola de fumaça, vamos à polícia - ou não - e contamos aos amigos e familiares a peça em que actuamos no papel de assaltados. O elemento ritual na rotina vem do facto de o desempenho de certos papéis se sujeitar à uma estrutura.
A imagem teatral é bastante persuasiva, mas problemática. Quem define Moçambique precisa não só de uma visão como também de um contexto dentro do qual essa visão se pode concretizar. O problema da vida real, contudo, é que o quotidiano apesar de ser bastante rotineiro permite aos actores sociais muita criatividade. O assalto há pouco relatado tem vários desfechos possíveis, incluindo a possibilidade de aparecer nesse preciso momento a polícia. No teatro a criatividade aparece em forma de improvisação, mas o seu fim último é levar a peça a um desfecho já assente.
Retenhamos, então, como conclusão deste capítulo a ideia de que a criatividade humana é inimiga implacável de estruturas monolíticas.
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