quarta-feira, junho 11, 2008

A esfera pública e os desafios da cidadania (5)

A perca da palavra

Por preguiça, espero que compreendam, reproduzo aqui um texto ligeiramente alterado que já havia publicado como parte de uma série sobre a palavra. Um amigo filósofo dos Camarões, Jean-Godefroy Bidima, que agora lecciona nos EUA, publicou há alguns anos um livrinho com o título La Palabre. Lembrei-me deste livrinho e das discussões que tivemos sobre vários outros assuntos relacionados com o debate na esfera pública africana. No meio de uma discussão no blogue do Patrício Langa sobre a presença pública do académico moçambicano fui buscar o livro da prateleira, sacudi-lhe o pó e reli-o para descobrir uma reflexão fascinante sobre o debate, direito e as condições do nosso desenvolvimento. É um excelente livro, ainda que em certos momentos da argumentação pese a motivação iconoclasta contra os grandes nomes da academia africana que guardam um silêncio ensurdecedor sobre o desaparecimento da esfera pública.

Bidima identifica a palavra com o político. Ele escreve que a palavra é mesmo o lugar do político. Quando falamos envolvemos os outros numa relação, pois a nossa fala tem um receptor, veicula significados e tem uma história. Abro aqui um parêntesis para recordar uma ideia de Hobbes que expliquei aqui sobre o lugar da razão na justificação da nossa condição de cidadãos. Bidima concentra a sua atenção na palavra proferida no momento de divergência e interroga-se sobre as suas condições de possibilidade. Ele quer saber quem fala quando, como, para quem e em que condições. Ele faz uma defesa apaixonada, e apaixonante, da palavra como o grande ausente da nossa esfera pública em África. Embora ele não o diga explicitamente, ele recupera, na verdade, uma tradição filosófica que desapareceu da Europa no limiar da Modernidade no século XVII e que insistia, tal como o fez Aristóteles, por exemplo, no lugar central que a retórica devia ocupar na apreensão do mundo.

Essa tradição, a tradição de Bacon, Montaigne, mas também de Vico, todos eles insistindo na impossibilidade da certeza, recebeu duros golpes de Descartes e do racionalismo que se apoderou do pensamento intelectual. E com a aliança infâme que o racionalismo fez com o colonialismo e com o etnocentrismo, a retórica desapareceu completamente. No seu lugar impôs-se a Lógica com “L” maíusculo, um sistema de produção e validação de verdades transcendentais. Bidima não diz isto, mas é evidente que ele não é indiferente a esta genealogia. Ele diz, e provavelmente com razão, que o poder colonial vai ser um dos primeiros carrascos da palavra em África, seguido de uma autoridade tradicional instrumentalizada para esse efeito – recordo aqui a noção de “despotismo descentralizado” de Mamdani na postagem anterior – e, claro, do unanimismo de partido único que se abateu sobre a África independente com o canto de cisne da preservação da unidade nacional.

Eu acrescento a esta lista de carrascos sugerida por Bidima as boas intenções da indústria do desenvolvimento que, também, se impõem como critérios de validade em toda e qualquer tentativa de recuperar a “verdade”, uma verdade, está claro, circular, artefacto dessas boas intenções. A insistência com que alguns dos nossos governantes continuam a dizer que a universidade deve participar na luta contra a pobreza absoluta produzindo empreendedores, por exemplo, ou dando soluções aos nossos problemas, mantém em vida uma visão sofista e positivista da ciência que é responsável pela asfixia da nossa humanidade. A visão de ciência veiculada pela indústria do desenvolvimento, e retransmitida por alguns dos nossos governantes, mantém-nos na rota desse beco sem saída com toda a convicção missionária que esquemas totalitários precisam.

Com o silenciamento histórico dos nossos povos a academia sobrou, ou emergiu, como o único espaço ainda capaz de preservar a palavra. A palavra, portanto e segundo Bidima, é o lugar político por excelência. Ela tem um emissor; o emissor tem um receptor; ambos têm um contexto dentro e a partir do qual emitem ou recebem; enfim, a palavra envolve-nos, tece relações, convida-nos a sermos mais precisos em relação ao que evocamos com ela. Referimo-nos ao mesmo? Como o sabemos? E o que nos leva a supor que a forma como sabemos uma determinada coisa justifica o que sabemos? E mais: a constituição da palavra revela relações de poder ou, para ser mais preciso, autoridade e obediência. Quem pode falar? Quando? Como? De quê?

Creio que a reflexão de Bidima nos ajuda a repensar a esfera pública entre nós. Para sermos cidadãos precisamos também de recuperar a palavra. Qualquer que seja a ideia de esfera pública que temos ela só faz sentido se for articulada com a nossa capacidade, mas também possibilidade, de nos articularmos. No fundo, o uso da palavra define a esfera pública, dá-lhe contornos e torna-a visível e relevante para o nosso quotidiano. A questão é, neste sentido, de saber o que significa entre nós recuperar a palavra. Este assunto vai me ocupar na próxima e última postagem.

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