O problema da relevância
Sugeri, na postagem anterior, que uma maneira simples de verificar se o raciocínio da Ministra é empiricamente válido seria de fazer um estudo. Esse estudo iria tentar estabelecer uma relação entre, digamos, dois conceitos: responsabilidade familiar e mendicidade de crianças e idosos. Já chamei a vossa atenção para a necessidade de problematizar estes conceitos, mas isso não é o mais importante para a reflexão. O mais importante é o facto de que, em ciências sociais, conceitos podem estar relacionados de várias maneiras. Primeiro, pode ser que a responsabilidade familiar seja, de facto, a causa da mendicidade de crianças e idosos. Aqui a relação seria assimétrica e, em princípio, é possível que a mendicidade de crianças e idosos seja a causa da irresponsabilidade familiar também. Segundo, pode ser que a relação seja recíproca no sentido em que os dois fenómenos se influenciam mutuamente. Finalmente, pode ser que haja simetria no sentido em que tanto a responsabilidade familiar quanto a mendicidade de crianças e idosos sejam consequências de uma outra coisa, por exemplo, da “pobreza imensa” conforme a própria Ministra sugeriu para o caso das famílias acolhedoras. Isto é, neste último caso, e ao contrário da tese da Ministra, não haveria nenhuma relação causal entre os dois fenómenos.
Estas reservas remetem-nos para um problema de extrema importância, nomeadamente o problema do que é relevante para explicar um determinado fenómeno. Para a Ministra chegar à conclusão de que a mendicidade de crianças e idosos é causada pela falta de responsabilidade familiar, partiu, de certeza, de um processo de avaliação de possíveis factores explicativos. Ao lado da responsabilidade familiar ela deve ter colocado também outros factores como, por exemplo, a guerra da Renamo, as calamidades naturais e a preguiça natural das pessoas. Através de operações analíticas sistemáticas a Ministra chegou à conclusão de que só a falta de responsabilidade familiar é que explica a mendicidade de crianças e adultos. Há várias maneiras de realizar esta operação analítica, muitas delas explicadas por John Stuart Mill. Vou fazer referência breve a duas delas.
A Ministra pode, por exemplo, empregar o método de concordância que diz o seguinte: se apenas uma circunstância relevante é comum a todos os casos em que o efeito ocorre, então essa circunstância é a causa ou está associada à causa. Neste sentido, é possível que a Ministra ou o seu gabinete de estudos tenham analisado vários casos de mendicidade de crianças e idosos segundo o esquema de alternativas mencionadas no parágrafo anterior e chegado à conclusão de que a única circunstância recorrente em todos os casos é a da falta de responsabilidade familiar. A guerra, as calamidades naturais e a preguiça natural das pessoas não aparecem em todos os casos. A responsabilidade familiar sim. Portanto, a concordância entre uma circunstância e o efeito (mendicidade de crianças e idosos) aponta para a causa. Há problemas aqui, mas não os abordo agora por não serem pertinentes. O que posso dizer por enquanto é que, logicamente, o raciocínio é pacífico.
O outro método que a Ministra ou seu gabinete de estudos podem empregar é o da diferença. O princípio aqui também é simples: se duas situações são idênticas em todos os aspectos relevantes excepto num apenas, e se o efeito ocorre numa situação e não noutra, então essa diferença é a causa ou está associada à causa. Aplicada ao nosso caso teríamos uma situação em que verificamos a existência de responsabilidade familiar, guerra da Renamo, calamidades naturais e preguiça natural das pessoas e constatamos que não há mendicidade de crianças e idosos. Pegamos numa outra situação e verificamos a existência de falta de responsabilidade familiar, guerra da Renamo, calamidades naturais e preguiça natural das pessoas e constatamos que há mendicidade de crianças e idosos. Isto é, constatamos que “a falta de responsabilidade familiar” é o único aspecto diferente nas situações idênticas que descrevemos e que quando ele está presente o efeito também ocorre. Aqui também há problemas, mas como já disse, podemos adiar o seu tratamento.
O que me parece mais urgente neste momento é discutir o problema de que falava no início desta postagem, a saber o problema de saber o que é relevante para explicar um determinado fenómeno. De certeza que a Ministra não se preocupou em incluir na sua lista de prováveis factores explicativos o facto de se ser membro ou não da Renamo ou da Frelimo, ser católico ou protestante, ser alérgico à carne de bípedes ou ser adepto do Maxaquene. Não o fez por achar que esses factores não são relevantes. É uma decisão sensata, muito provavelmente fruto de experiência e senso-comum. O que essa decisão significa para nós, contudo, é que estamos em presença de uma explicação muito localizada que pode estar enganada não porque a pessoa raciocinou mal, mas porque procurou a explicação no lugar errado. Portanto, a explicação não depende tanto das coisas como elas realmente são, mas das nossas hipóteses. Nós imputamos às coisas um certo contexto e a explicação confirma apenas a nossa imputação. Espero que não esteja a soar bastante constructivista, pois essa não é a minha intenção.
Na verdade, o que eu quero dizer com este reparo é algo ligado à relevância das ciências sociais. Já discutimos neste blogue a expectativa algo ingénua dos políticos e de alguns académicos de que a relevância das ciências sociais se reduza à sua contribuição prática para o combate à pobreza absoluta. Aqui e aqui tentei interpelar criticamente. Volto à carga para dizer que mesmo trabalhos de pesquisa que somente aumentam o nosso conhecimento sobre coisas independentemente da sua relevância prática são importantes, pois eles vão enformar a nossa capacidade de formular hipóteses. Estou a falar da paciência das ciências sociais. Não há conhecimento irrelevante.
5 comentários:
Caro Prof. tenho vindo a deleitar-me com os seus textos. Trazem muita boa informação e remetem-nos a pensar seriamente. Hoje somente quero comentar sobre a última frase: "Não há conhecimento irrelevante." Ligando isso à medicina tradicional, posso inferir que este conhecimento é relevante? Ou mesmo daqueles que falam do que nos termanos de susperstição (este não se enquadra no crivo epistemológico da ciência moderna)?
caro bayano, boa pergunta! a resposta está na clarificação dos termos. se por medicina tradicional quer dizer saberes terapéuticos e curativos detidos por gente sem formação bio-médica na nossa sociedade, não vejo porque haveria de considerar isso irrelevante. mas se quer dizer com isso um tipo de conhecimento misterioso e não acessível à bio-medicina, então diria que a questão não se coloca, pois isso não é conhecimento. é superstição. superstição é irrelevante. não concordo que ela não se enquadre no crivo epistemológico. enquadra-se perfeitamente, mas como recusa de pensar. repare, porém, que o conhecimento irrelevante a que me refiro no meu texto não diz respeito ao conhecimento em geral, mas sim à distinção entre conhecimento científico social imediatamente relevante para a prática (combate à pobreza absoluta) e conhecimento científico social meramente académico (clarificação conceitual ou teórica).
Agora pude perceber melhor. Da outra vez falava eu do conhecimento emancipatório e escravizante. Fazendo uma comparação, o conhecimento emancipatório será o conhecimento científico social imediatamente relevante para a prática (combate à pobreza absoluta) e o conhecimento escravizante será o conhecimento científico social meramente académico (clarificação conceitual ou teórica). Pois, penso que é este segundo tipo que leva com que cidadãos simples, directores e mesmo ministros (pelo menos são as conversas dos corredores) procuram os serviços dos curandeiros, dos shehes, entre outros, para fins que somente eles compreendem. Quero dizer que talvez uma esmagadora maioria dos moçambicanos mesmo indo ao hospital vai de algum modo procurar o curandeiro. Agora, o que será que os leva a procurar tais serviços mesmo sabendo (pelo menos teriam aprendido) que não esses nem se podem ajudar a si próprios? Não sei se existe alguma racionalidade no irracional!
caro bayano, ainda não nos estamos a entender. adistinção que faz entre conhecimento emancipatório e escravizante não é a mesma que eu faço. boaventura sousa santos faz uma distinção igual à sua (conhecimento-regulação e conhecimento-emancipatório, se não estou em erro). o conhecimento meramente académico é o que está a ser marginalizado pelos combatentes contra a pobreza e eu estou a dizer que precisamos dele. é relevante. a racionalidade do irracional é um jogo de palavras. com um pouco de imaginação tudo é racional. é, talvez, por isso que as teorias da escolha racional são problemáticas. acho que são vários os factores que levam as pessoas aos curandeiros. enquanto isso for privado e individual pouco me importa. fico preocupado quando alguém começa a espalhar essas coisas na esfera pública sem nos proporcionar uma base intelectual sólida para discutirmos a sua plausibilidade. a nossa credulidade não basta. é problemática. mesmo em sociedades tecnologicamente avançadas o recurso a essas coisas existe. mas está confinado, e isso parece-me importante. os cidadãos europeus não são mais racionais que nós. mas eles vivem dentro de contextos que os obrigam a fazer recurso à ciência para explicar circuntâncias da vida. seria interessante iniciar um debate sobre o recurso aos curandeiros, mas melhor ainda seria fazer estudos sobre o fenómeno. ainda sabemos muito pouco sobre quem vai, porquê, quando, para que tipo de situações e, acima de tudo, em que consiste a visão de mundo subjacente.
Caro Prof, agora já entendi. Salto para o penúltimo parágrafo e dizer que concordo que talvez se deva fazer um estudo sobre os curandeiros e seu impacto na nossa sociedade.
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