quarta-feira, maio 30, 2007

O fenómeno da bicha VI

Como costuma dizer Jorge Matine “la famba bicha”. La famba, impela. O fenómeno da bicha continua. Agora é o incansável Vice-Ministro do Interior que vem dizer que o corpo de salvação pública vai ter um reforço orçamental para a aquisição de duas viaturas viradas ao combate ao incêndio. Leiam a notícia (do jornal O País Online) e vemo-nos logo a seguir:

13 milhões de Mt para reforçar bombeiros

29/05/2007

Numa tentativa de se redimir do desastre de sexta-feira última no Ministério da Agricultura, o Executivo moçambicano fixou recentemente um valor de 13 milhões de meticais a ser concedido, ainda este ano, ao Serviço Nacional de Bombeiros, com vista à aquisição de duas viaturas viradas ao combate ao incêndio.

A informação foi revelada pelo vice-ministro do Interior, José Mandra, durante uma visita de trabalho efectuada segunda-feira à sede destes serviços em Maputo a propósito da passagem de mais um aniversário do Dia Internacional dos Bombeiros.

Com este investimento, passa para seis o número de viaturas disponíveis para debelar incêndios na capital. No entanto, das quatro já existentes apenas uma é que se apresenta operacional a tempo inteiro, sendo que as restantes debatem-se regularmente com problemas mecânicos.

Devemos aplaudir a medida, mesmo se for necessário acrescentar “já não era sem tempo”. Mas devemos mesmo aplaudir a medida? Acho que não. É mais um sinal de desorientação total. Não gostaria de estar na pele deste governo. Maldito se não aje; maldito se aje. Mas porque não devemos aplaudir? Não porque a decisão venha muito tarde, mas sim porque a decisão revela que ninguém está preocupado em atacar os problemas pela raiz. Duas séries de perguntas: 1. Quem devia ter pensado nos bombeiros e não o fez? Porque não o fez? Porque esperou por esta situação para agir? Porque se deve confiar nessa pessoa ou instituição para garantir que coisas piores não aconteçam? Esta é a primeira série de questões. A última pergunta é importante. O caso do paiol é recente e devia nos lembrar que se quem de direito tivesse agido aquando das explosões em Janeiro, não teríamos tido a tragédia que tivemos em Março.

A segunda série tem a ver com o que é necessário para dotar o corpo de bombeiros de meios para trabalhar. Agora faltou viatura. Próxima vez vão ser escadas, ou mangueiras, ou botas, ou capacetes. Nessa altura o bom do Vice-Ministro do Interior há-de ir oferecer dinheiro para a aquisição de escadas, mangueiras, botas ou capacetes? E assim sucessivamente? Porque não se analisa agora o problema geral? Porque não se pergunta como está a segurança nas nossas cidades, se cada edifício está dotado de equipamento contra incêndios, se a legislação está actualizada, se as medidas de reacção estão instaladas, se os sistemas de evacuação, socorro, etc. estão nos seus lugares, se cada ministério e instituição pública tem alguém que responde por essas coisas, etc.? Porque não se faz isto e se pára de uma vez por todas com a transformação do Governo num corpo de bombeiros? Será que o combate à pobreza perdeu importância? O Governo quer passar o tempo em Conselhos de Ministros a analisar crises e instalar comissões de inquéritos?

Lá está: o Governo pensa que é a solução. Fenómeno da bicha. O Governo não é o problema, é a solução. E que pena. O Vice-Ministro do Interior paece-me uma das poucas pessoas naquele Ministério que sabe realmente o que diz e o que está a fazer, pelo menos a julgar pelo que tenho lido na imprensa. E isto confirma uma teoria muito pessoal: não são sempre as pessoas que são incompetentes. O contexto torna-as incompetentes. É pena mesmo. E a pergunta essencialíssima do ponto de vista político nem está colocada: afinal de quem é a responsabilidade no caso de incêndios? Ah, esquecia-me: em todo o mundo há incêndios...

Mas há um reparo que tenho mesmo de fazer antes de terminar esta reflexão. Parece-me importante e não sei se terei oportunidade para voltar ao assunto. A julgar pelos comentários que muitos temos feito sobre o número de acidentes que andam a embaraçar os combatentes contra a pobreza absoluta e as comparações que fazemos com o período do “deixa-andar” parece haver a crença de que estes acidentes todos estão directamente ligados à forma de agir dos que querem apressar o passo. Este tipo de ilações é injusto. Pessoalmente, até acho que muitas destas coisas podem estar directamente ligadas ao estilo anterior de governação e que o actual Governo esteja a herdar os problemas. Não creio que o desleixo tenha aumentado agora. O Presidente Chissano teve apenas sorte que estas coisas não tivessem acontecido durante o seu mandato. Agora, o que não se pode perdoar ao actual Governo é a incapacidade de aproveitar estes problemas para mudar radicalmente o estilo de governação.

Podia ter feito isso com a demissão do Ministro da Defesa aquando do paiol. Não o fez. Podia se ter distanciado das declarações hostis à democracia feitas por quadros séniores do partido Frelimo. Não o fez. Podia ter exigido consequências aos juristas que deixaram que Ministros e outros quadros grandes actuassem em contravenção da legalidade. Não o fez. Podia ter mandado passear Ya Qub Sibindy aquando do Nono Congresso. Não o fez. Podia ter chamado atenção a todos quantos se puseram a falar mal das ciências sociais. Não o fez. Podia ter proibido o uso de chavões como “combate à pobreza absoluta”, “auto-emprego” e “criação de riqueza” quando se tornou inflacionário e irreflectido. Não o fez. Podia ter chamado atenção à Primeira Ministra quando começou a confundir o público com o privado. Não o fez. Pode ainda responsabilizar o Ministro e Vice-Ministro da Agricultura por terem deixado os seus gabinetes arderem. Não o vai fazer, porquê, não sei. Pode fazer uma moratória à dispendiosa “Presidência aberta” e analisar se os custos justificam realmente as despesas e se não haverá outras maneiras de governar perto do povo sem tantos encargos, sem impedir as pessoas de trabalharem e com critérios mais claros. Não o vai fazer.

Um dia vai ser um outro fulano da Frelimo a governar-nos e vai dizer que está a combater o espírito do deixa-andar do seu antecessor. Tudo isto porque os actuais combatentes do deixa-andar não parecem fazer a mínima ideia por onde pegar o tal espírito. Mas vontade têm.

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