terça-feira, julho 03, 2007

O direito à razão IV

Estes dias tenho estado a viajar muito e com muito trabalho acumulado a precisar de atenção. Daí a falta de assiduidade no blogue. Nos intervalos tenho lido as notícias e tudo o mais que vai acontecendo pelo mundo. Uma das notícias que me tem causado perplexidade nos últimos tempos é a história da cimeira da União Africana no Gana que está seriamente a debater a questão da instalação de um governo continental.

O líder líbio vai mais longe sugerindo também uma moeda e exércitos comuns imediatamente. A política externa não é o meu forte, muito menos o que se passa ao nível da União Africana. Mas acho deveras estranho que pessoas crescidas e com tanta responsabilidade por tanta gente consiga arranjar tempo para perder tempo com assuntos completamente irrelevantes – pelo menos por enquanto – para os seus povos.

Muito estranho, mesmo. Como é que países que nem mesmo no interior das suas fronteiras são capazes de garantir o estado de direito, a protecção dos seus cidadãos e a criação de bem-estar para o maior número possível de pessoas podem estar peocupados com instituições desta natureza? Como é que gente que sabe quão difícil é garantir a transparência dos actos políticos e agir no pleno respeito da legalidade nos seus próprios países pode entreter a ideia de um governo federal africano?

Não me ocorre outra ideia aqui senão suspeitar que estejamos perante mais um atentado contra o nosso direito à razão. E só espero que o Governo moçambicano, na sua profunda sabedoria, saiba se distanciar destas quimeras e vá participar nessas cimeiras apenas com o intuito de identificar o que é bom para o povo moçambicano e tenha presença de espírito suficiente para mandar passear aqueles que têm tempo de sobra.

Houve um momento histórico para este tipo de discursos. E já passou. Mesmo nos tempos de Nkrumah – que afundou o Gana e foi corrido da presidência pelos que hoje o celebram como grande heroi até morrer esquecido no exílio na Roménia – a ideia de Estados Unidos da África nunca passou de um slógan útil à mobilização. Nunca se colocou como hipótese real.

Que tipo de políticos é que o nosso continente produz? Que tipo de gente é esta? Que fizemos nós para merecer este tipo de gente? Que legitimidade teremos nós para apontar a influência negativa do Ocidente quando nós próprios somos incapazes de ver o que é útil para nós mesmos? Porque odiamos assim tanto a razão? Que mal ela nos fez? Alguém me explica isto?

5 comentários:

Bayano Valy disse...

Parece-me que desta o Prof não se aguentou. Está a gritar até ficar rouco. Por acaso concordo com as suas inquietações. Eu procurei ignorar e centrar-me naquilo que via como violação de um direito fundamental para a democracia: liberdade de acesso à informação. O nome é esse mesmo: quimera. Pelo menos o nosso Estado tem-se distanciado. Todavia, penso que devia fazê-lo com mais vigor. O antigo presidente é que vai promovendo a ideia de um estado africano - somente ele saberá a razão.
Foi isso o que aconteceu com a NEPAD. Os políticos discutiram entre eles, e não conseguiram descer ao nosso nível. Hoje já aceitam que a NEPAD fracassou, embora o nosso Firmino Mucavel pense o contrário. Disse bem o Tomáz Salomão que devemos antes concentrar-nos nos blocos económicos. Esta foi uma cimeira para se evitar discutir o zimbabwe, darfur, costa do marfim, somália, entre outros.

Elísio Macamo disse...

sim, bayano, de facto não me aguentei. no fundo, há outras questões importantíssimas ligadas a este tipo de assunto. pessoalmente, não acho bom que o governo tenha liberdade quase total de meter o país em coisas internacionais sem o acordo prévio do povo. referendos são caros, mas discussões internas e abrangentes poderiam ajudar-nos a introduzir o bom senso na política externa.

Bayano Valy disse...

Concordo. Até cheguei a julgar que talvez o parlamento fosse talvez o local "apropriado" para se debater o assunto da política externa. Mas a experiência mostra que a vontade da maioria e não da razão acaba por vingar. As discussões talvez fossem um importante ponto de partida.

Bayano Valy disse...

Acabo de ler o Notícias e vejo que a Declaração de Acra recomenda o estabelecimento de ume studo onde os povos de todos oe 53 países membros da UA e a diáspora africana sejam envolvidos no processo da criação dos tais famigerados EUA. Alguém teve bom senso. Um começo.

Elísio Macamo disse...

já é alguma coisa. bom senso, contudo, seria ignorar esse tipo de assuntos e tratar dos verdadeiros problemas que o continente tem.