O tráfico
Há muito que não alimentava esta rubrica. Foram acontecendo várias coisas que me obrigaram a prestar mais atenção à defesa do nosso direito à razão e à protecção da nossa integridade intelectual. A fala sem consequências, isto é esta maneira de falar sem nos comprometermos com o que dizemos, continuou. Regresso, hoje, a esta rubrica para comentar uma notícia que extraí há algum tempo do jornal Notícias aqui e que me parece um bom exemplo para voltar a este tipo de comentários. Já que não tenho a certeza se a notícia ainda continua lá, reproduzo-a logo a seguir:
Tráfico de pessoas mina sensação de segurança - segundo Ministra da Justiça, Benvinda Levi, defendendo a aprovação da Lei sobre a matéria no Parlamento
O TRÁFICO de pessoas, em particular mulheres e crianças, mina a sensação de segurança dos cidadãos e constitui, por isso mesmo, um entrave ao seu total engajamento nas acções de produção e crescimento do país. A Ministra da Justica, Benvinda Levi, que defendeu este conceito ontem no Parlamento, afirmou que estudos efectuados indicam que Moçambique é afectado pelo fenómeno de tráfico de pessoas que nos últimos anos tem estado ligado ao crime organizado transnacional, embora a verdadeira dimensão do problema não seja conhecida.
Maputo, Sexta-Feira, 11 de Abril de 2008:: Notícias
De acordo com aquela dirigente, que falava ao plenário da AR, a propósito da proposta de lei sobre o tráfico de pessoas, em particular de mulheres e criancas, submetida pelo Governo ao órgão legislativo, o fenómeno do tráfico tem vindo a crescer a ritmos assustadores no mundo, sendo associado ao crime organizado, pela complexidade das redes, forma e circuitos de transporte das vítimas.
Disse que actividades de tráfico humano têm se verificado em países da África Austral, envolvendo desde sindicatos globais de crime a simples comércio de pessoas entre as zonas fronteiriças. As mulheres jovens e crianças da região são particularmente vulneráveis a tornarem-se vítimas desta forma moderna de escravatura, pela sua condição económica e física, segundo a Ministra da Justica.
No contexto de Moçambique, acrescentou, mulheres e raparigas são traficadas para o exterior para servirem primeiramente como concubinas, havendo fortes indicadores de que são levadas mulheres para a África do Sul. A legislação existente no país sobre a matéria é ainda incipiente e o combate efectivo aos traficantes que procuram recrutar pessoas mais vulneráveis pela pobreza, desemprego e em geral pela falta de oportunidades tem sido difícil.
No esforço de estancar esta situação, o Governo submeteu à apreciação da Assembleia da República uma proposta de lei, entretanto ontem aprovada na generalidade e por consenso, que, entre outros, fixa a pena de oito a 12 anos de prisão maior a quem recrutar, transportar, acolher, fornecer ou receber uma pessoa, por quaisquer meios, incluindo sob pretexto de emprego doméstico ou no estrangeiro ou formação ou aprendizagem, para fins de prostituição, pornografia, exploração sexual, trabalho forçado, escravatura, servidão involuntária ou servidão por dívida.
Entretanto, no debate da proposta, os deputados da Assembleia da República defendiam penas pesadas que variam de 16 a 20 anos de cadeia aos traficantes de pessoas.
Pela gravidade do problema, documentada de várias maneiras, incluíndo um livro da autoria de Carlos Serra sobre este fenómeno, só podemos aplaudir a reacção do Ministério da Justiça bem como dos nossos deputados ao “aprovarem na generalidade e por consenso” a proposta de lei. A minha atenção ficou, contudo, presa ao último parágrafo do artigo onde se escreve que “[E]ntretanto, no debate da proposta, os deputados da Assembleia da República defendiam penas pesadas que variam de 16 a 20 anos de cadeira aos traficantes de pessoas”. No País Online está a ser feito um inquérito sobre esta matéria e, lá também, a minha atenção ficou presa à fascinação com o número de anos de prisão que estes crimes devem merecer. Escreve-se que a sociedade civil quer entre 16 e 20 anos, mas dos que já votaram mais de metada é a favor de mais de 20 anos.
Comecei a perguntar a mim próprio em que teria consistido o debate desta problemática no parlamento. Oito a doze anos ou dezasseis a vinte anos? Fiquei curioso em saber que mais está previsto na reacção do Ministério da Justiça como forma de combater este mal para além da prisão. Estão previstos, por exemplos, estudos para identificar os mais vulneráveis de modo a que se pense em formas de os proteger? Estão previstas acções concretas de formação (ou reciclagem) dos agentes da lei e ordem para saberem como identificar estes casos e prevenirem-nos ou debelá-los? Estão previstas intervenções especiais nos tribunais para que sejam mais rápidos no tratamento destes casos? Estão previstas acções que visem melhorar os serviços prisionais de modo que os condenados cumpram devidamente as suas penas? Estavam previstos trabalhos de coordenação com outros organismos do estado (por exemplo, Ministério da Mulher e Acção Social, Ministério do Trabalho, Ministério do Interior, etc.) e grupos da sociedade? Está previsto o acompanhamento psicológico às vítimas e acções de reintegração na sociedade? Discutiu-se alguma destas coisas durante o debate no Parlamento? Ou só falaram do tamanho da pena? Procurou-se estabelecer mecanismos através dos quais as instituições de direito podem ser interpeladas caso não cumpram o que está disposto nessa lei? Discutiram-se critérios de responsabilização?
É que se só tiverem falado da pena, estamos mal. Toda esta boa reacção não passará de fala sem consequências, pois o que separa o rapto da própria pena é que é verdadeiramente o trabalho que precisa de ser feito. Mais um ou menos um ano não fazem, em minha opinião, absolutamente nenhuma diferença se, à partida, a discussão da lei não prevê este trabalho todo que a prevenção, o combate e o tratamento das vítimas implicam. A palavra é para vocês que acompanharam os debates: do que se falou? Estou a ser mesquinho?
3 comentários:
Caro Prof EM,
De facto, os debates na AR sobre o tráfico de pessoas foi uma "fala sem consequencias". Eu acompanhei os debates mas nao ouvi nenhum debate, nenhum questionamento, nenhuma proposta de accao sobre a prevencao do tráfico nem sobre o que faz com que alguém trafique pessoas. Mesmo fora da AR, na imprensa, por exemplo, nao vi nenhum debate nesse sentido. Talvez tenha havido!!!
Tomás Selemane
Oi Elísio, eu venho torcendo o nariz ao termo, hoje em voga, de "tráfico de pessoas". Este termo feio é aplicado para os milhares de mahgrebinos que demandam a Europa em barcaças com os mais diversos níveis de conforto e segurança. O termo (feio) é aplicado aos cidadãos da região dos grandes lagos que demandam o eldorado que é hoje a África Austral (principalmente a África do Sul). Estes últimos usam a nossa fronteira de Tete, para entrarem no nosso país, vindos do Malawi.
Também usa-se o termo para outros tipos de fenómenos, que reputo de universais, como por exemplo, tráfico de mulheres para a prostituição, tráfico de meninas de prostituição infantil. Esta prática é tão universal que os Europeus inventaram para ela o termo "escravas brancas".
Há também tráfico de pessoas para venda de órgão humanos para fins médicos e/ou mesmo para rituais mágicos e de feitiçaria. Este negócio é também à escala universal.
O que me faz torcer o nariz é a tendência de catalogar como "tráfico de pessoas" um fenómeno milenar que é o da migração. Na verdade, aqueles mahgrebinos que se diz estarem a ser traficadas para a Europa, na verdade, estão a emigrar. Essa emigração pode ser legal ou ilegal. Os cidadãos dos grandes lagos que demandam a África Austral (ou África do Sul) não estão a ser traficadas. Estão a seguir uma tendência milenar que é a de o homem procurar, sempre, as melhores condições de vida, mesmo que em lugares longinquos. Considerar esta tendência humana como "tráfico de pessoas" é abuso de linguagem. É, sobretudo, DESQUALIFICAR A MIGRAÇÃO, QUANDO ELA É FEITA PELAS PESSOAS QUE VIVEM NA PERIFERIA DO MUNDO. Isto porque ninguém há-de ouvir este termo aplicado a um Europeu que migrou clandestinamente para qualquer lugar do mundo. A esse se chamará migrante ilegal. Um Mahgrebino, um africano, um asiático ou um índio que emigra clandestinamente se dirá que foi "humanamente traficado". Esta parece-me uma tactica de o centro se defender da "INVASÃO" da periferia.
Essa linguagem estigmatizadora já entrou, e com muita força, na nossa própria comunicação social. Alguns dos nossos melhores pensadores usam esses termos para se referirem a este tipo de migração. Há uma carrinha que é interceptada no cruzamento de Inchope com 16 jovens recrutados no Dondo para trabalharem na África do Sul (ou no Maputo)? Pois se dirá nos jornais e nas análises sociológicas que estamos em presença de "tráfico de pessoas".
Caro Elísio, não deveríamos começar a chamar isto como migraçao, pura e simplesmente?
Obed L. Khan
caro tomás selemane, está a confirmar os meus piores receios. sem a discussao dessas questoes nao é possível ter uma lei útil, creio.
caro obed, levantas uma questao muito bicuda que me mostra que nao percebo muito bem o assunto. infelizmente, nao vi o texto dessa lei e, por isso, nao sei exactamente o que está incluindo nessa categoria "tráfico de pessoas". agora, se esse termo se refere a todos estes fenómenos que enumeraste, entao temos mesmo um problema sério. penso que o termo "migracao" é útil como termo geral. concordo contigo que devemos procurar perceber como essa prática pode ser "criminalizada" e que papel desempenham as relacoes assimétricas entre o centro e a periferia. ao mesmo tempo, porém, precisamos de uma designacao para práticas que fazem parte deste fenómeno geral que é a migracao e que constituem um atentado à dignidade humana. aí veremos uma dificuldade particularmente perniciosa desta lei. de certeza que ela só proíbe quando, na verdade, devia proibir certas coisas e regulamentar outras (por exemplo, os servicos de contratacao de mao de obra, mesmo para a prostituicao). sinto, contudo, que devia ler a lei para me inteirar melhor sobre o fenómeno que ela aborda.
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