Como se diz obrigado em africano?
Confesso que estou a reflectir nos limites do meu conhecimento. Vasculhei todo o conhecimento de xangan (minha língua materna) que tenho para perceber se „obrigado“ é mesmo “obrigado”. E fiquei perplexo. O xangan tem várias palavras para isto. Tem khanimambo (Samora Machel gostava desta palavra!), tem ku khensa (mais em contexto religioso, creio), tem ku b’onga (de origem zulu), tem inkomu (que me parece mais vernacular), tem ku thlangela (que envolve uma manifestação visível de gratidão) e tem a svi feni (que é evocação de espíritos). A Língua Portuguesa que nós falamos só tem “obrigado”. Bom, tem também „grato“, mas é quase a mesma coisa. Daí a pergunta: o que estamos a dizer quando dizemos “obrigado”? Ah, esquecia-me de um pormenor muito importante. Em xangan dizemos também „obrigado“ (birigadu). De novo a pergunta: com tantas maneiras de dizermos a mesma coisa (a mesma coisa?) podemos mesmo estar seguros do que estamos a dizer quando dizemos “obrigado”? Começo a ter dúvidas.
Vamos todos que contribuir aqui. Khanimambo parece-me uma importação do centro do país, lá dos tempos do Monomotapa. Deve ser uma referência ao mambo. Seria interessante saber o que se diz nos vernáculos locais. Não encontro nesta palavra nenhuma referência etimológica clara dentro do xangan. É uma palavra gramaticalmente amorfa, se é que isso é possível. Parece mesmo um empréstimo ou adulteração de alguma outra palavra. Ku khensa já tem uma estrutura morfológica familiar, mas aqui também não consigo perceber a referência etimológica imediata. O único que me vem à cabeça é a palavra ku khizama (ajoelhar-se) que, se calhar, se relaciona com ku khensa no sentido em que a gratidão seria algo manifestado ao grande chefe para quem as pessoas se dirigiam ajoelhadas. Não sei. Ku b’onga é claramente de origem zulu e tem o sentido de louvor como naqueles poemas tipicamente zulus que cantam as proezas de uma grande personalidade. Inkomu é outro quebra-cabeças, pois tem uma estrutura morfológica que me parece zulu, mas parece também fazer referência à enxada (xikomu), instrumento essencial na principal actividade económica das gentes da nossa terra. Ku thlangela tem etimologia clara. Vem de ku thlanga (brincar) ou nthlangu (brincadeira, jogo, festa) e pode ser uma referência à expectativa de que quem agradece o faça de forma manifesta (dançando, por exemplo). A svi feni (tradução literal: que morram!) é uma expressão muito curiosa. Normalmente diz-se isto em direcção aos nomes clânicos, nunca directamente ao indivíduo a quem se agradece por alguma coisa. Mais curioso ainda é que esses nomes clânicos não são os da pessoa a quem se agradece, mas os nossos. É a eles que agradecemos por algo bom que outros nos fizeram.
Qualquer que seja a intepretação correcta destas palavras está visto que o nosso “obrigado” cobre uma área semântica muito vasta e que vai para além do que é coberto pelo “obrigado” que tão facilmente sai da nossa boca. Parece-me evidente que o nosso “obrigado” precisa de ser visto a partir de três elementos essenciais. O primeiro parece-me extremamente importante. Ao contrário do “obrigado” do nosso quotidiano, os “obrigados” que enumerei nos parágrafos anteriores não se referem a indivíduos, mas sim a colectivos. Um gesto bom não estabelece uma relação entre um indivíduo e outro, mas sim uma relação entre o receptor desse gesto e o grupo ao qual o praticante da boa acção pertence ou, também, o grupo ao qual o receptor pertence. Segundo, uma boa acção não é boa por nos fazer, individualmente, bem, mas por fazer algo pelos grupos aos quais pertencemos ou, pelo menos, por manifestar as boas relações que mantemos com os grupos aos quais pertencemos. Finalmente, um bom gesto mede-se por algo que ultrapassa o valor material ou real do que é oferecido ou feito. Essa medida parece ser a nossa condição de membros de uma comunidade normativa.
Tudo isto parece-me interessante por, em minha opinião, contextualizar melhor a gratidão no nosso quotidiano. Há muito mais que ocorre para além do simples “obrigado”. Há sociedade que se constrói no dorso desse “obrigado” e as condições dessa construção parecem ser fulcrais para entender a nossa historicidade. Devo tornar claro que não me interessa apreciar estes aspectos culturais como parte de algo essencial e perene. Há pessoas mental e cientificamente melhor preparadas do que eu para fazer isso também muito melhor do que eu. Não vejo muito mérito numa perspectiva assim enformada, mas cada louco com a sua mania. Eu gostaria de olhar para estes aspectos culturais como fazendo parte de um repertório existencial que os indivíduos utilizam como caixa de ferramentas para reparar coisas estragadas nos seus quotidianos. Se, como alguém dizia, qualquer objecto, bem segurado, pode ser uma arma, então olho para o conteúdo dessa caixa de ferramentas como um arsenal onde cada um de nós vai buscar as armas que o vão proteger na selva existencial e normativa que o nosso país tem sido desde o tempo da colonização. Se calhar mesmo antes disso.
Quero, então, analisar cada um dos elementos que defini brevemente há dois parágrafos. Devem encerrar dicas interessantes sobre a pergunta mais geral que coloquei aqui.
4 comentários:
essa minha mania de ler um testo e tentar reagir!!! estou a ver que algumas das questões que levanto na postagem anterior estão aqui retratadas.
Interessante o"africano" e o"sobreposto".Hoje, a caminho do servico, acompanhei uma "discussao" de quatro senhoras funcionarias publicas e estudantes do Instituto de Formacao em Administracao Publica e Autarquica. Elas estavam a discutir filosofia em ronga/changana - tenho imensas dificuldades em distinguir ronga de changana e vice-versa-.Ou melhor, estavam a falar da filosofia de Socrates e Aristoteles em ronga/changana. Nao sei escrever ronga/changana, mas entendo. As senhoras estavam a tentar resumir as ideias destes filosofos nessa lingua hibrida. Ao ouvir as senhoras, lembrei-me do africano e do sobreposto, discutir em africano o ocidental.
Interessantes reflexões. Em algumas línguas latinas diz-se "gracias" no lugar de "obrigado". Etimologicamente, "gracias" parece ter algo a ver com clemência. Receber "gracia" parece ter o mesmo sentido que receber clemência.
Os espanhois e os latino-americanos referiam-se ao ministro da justiça nos seguintes termos: MINISTRO DE LA GRACIA Y DE LA JUSTICIA (que pode ser traduzido por ministro do perdão e da penalização. A propósito, diz-se em espanhol que alguem foi ajusticiado para significar que foi fusilado. Assim, justicia equivaleria a punição. Neste gosto do contraditório, os espanhois diziam MINISTRO DE LA GUERRA Y LA PAZ, para ministro da Defesa).
Estou a tentar dizer que, nas várias línguas, agradecer expressa diferentes associações de ideias. Para os portugueses liga-se agradecimento com o estar-se (eternamente?) obrigado a alguém. Em Xangana, agradecimento expressa festejar (ku tlangela) e em espanhol parece expressar perdão ou clemência.
Gracias. Obed L. Khan
caro obed, estás a pedir clemência? brincadeira. obrigado pelas dicas. o meu interesse é de perceber o que estas diferencas significam para a sociabilidade entre nós. nao faco a mínima ideia.
caro anónimo, acho essa conversa filosófica interessante. gostaria de a ter acompanhado. estavam mesmo a resumir as ideias dos filósofos, ou estavam simplesmente a falar deles? de qualquer maneira, há elementos (muitos) da filosofia "ocidental" que nós chamamos "ocidental" por uma questao de hábito. na verdade, trata-se de algo que documenta o que é humano (e talvez universal) pelo que nao haveria problemas em discutir isso em "africano".
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