Obrigado a quem?
Simmel faz uma observação muito interessante sobre a relação entre a gratidão e a sociedade. Ele começa por dizer que todas as formas de constituição de uma sociedade para além do momento original residem na manifestação dessa constituição de sociedade para além da sua emergência. É uma ideia simples, mas genial, e se parece complicada é tudo minha culpa. Com efeito, o que Simmel está a dizer é que devemos prestar atenção ao facto de que a sociedade não só emerge como também se mantém no tempo. O que é responsável por isso? Ele sugere que a gratidão seja uma manifestação da existência contínua de sociedade para além desse momento de emergência. Por exemplo, se eu dou alguma coisa a alguém hoje e essa pessoa fica agradecida, então esse sentimento de gratidão mantém a relação que iniciámos com o meu gesto para além da duração do acto fundador. Essa relação pode assumir várias formas. Eu posso querer cobrar o favor ou simplesmente estar na expectativa de receber algo em retorno; a pessoa “agradecida”, por sua vez, vai esperar por uma oportunidade para retribuir, pode também procurar rapidamente “esquecer” o assunto e fazer de contas que nunca aconteceu nada. Há gente assim, infelizmente, e alguns de nós temos vergonha de cobrar porque os nossos pais meteram nas nossas cabeças que isso ficava mal.
Mas esse gesto mantém-nos ligados para além do momento em que ele foi feito. Do ponto de vista da sociologia interessa, portanto, saber que tipo de mecanismos a sociedade tem ao seu dispor para fazer perdurar esse momento. Esses mecanismos dão ao sociólogo, por assim dizer, o seu objecto de estudo. A ideia de que o sociólogo estuda a sociedade é muito vaga para ser de alguma utilidade. Começa a ser concreta quando dizemos, por exemplo, que o sociólogo se interessa pelos mecanismos através dos quais a sociedade pode ser apreendida e se mantém ao longo do tempo. Neste sentido, a gratidão constitui uma espécie de porta de entrada para a análise sociológica, mas é ao mesmo tempo um mecanismo muito específico através do qual a sociedade se mantém. Quando dizemos “obrigado” estamos a estabelecer uma relação com alguém. A pergunta que se coloca aqui, portanto, é de saber com quem, em Moçambique, estabelecemos uma relação quando dizemos “obrigado” e tendo em conta as várias maneiras que temos de dizer isso.
A ideia que vou explorar nesta postagem é do “obrigado” que se refere aos colectivos. Na verdade, há um certo sentido em que o nosso “obrigado” não estabelece nenhum vínculo entre indivíduos, mas sim entre colectivos. Nós não dizemos “obrigado João”, mas sim “obrigado família do João” ou, mais concretamente ainda, “obrigado antepassados do João”. Também não dizemos “obrigado João” apenas, mas sim “obrigado à minha própria família ou antepassados da minha família” por fazer de mim pessoa tão interessante ao ponto de merecer a boa acção do João. Isto não é assim tão insólito como possa parecer. É característico, na verdade, do tipo de sociedade que éramos antes de haver sobreposição. Nesse tipo de sociedade, o colectivo tinha prioridade sobre o indivíduo e aí a continuidade da sociedade dependia dos laços que colectivos teciam entre si. Estou a tentar evitar uma argumentação evolucionista que explicaria esta prioridade de colectivos em relação aos indivíduos com base na ideia de que a predominância do individual constituiria progresso. É verdade que é característico de sociedades capitalistas modernas privilegiar o individual sobre o colectivo, mas só isso não coloca estas sociedades num patamar adiantado ao qual todos os outros devem ascender.
Não obstante, a predominância do colectivo sobre o individual tem manifestações muito curiosas no contexto do tipo de economia e de sistema político que sobrepusemos à nossa sociedade. Este contexto parte do pressuposto de que a integração da nossa sociedade é tão complexa (no sentido durkheimiano de orgânica) que precisa de mecanismos jurídicos, por exemplo, para se manter. O nosso “obrigado”, porém, coloca o informal como garante da integração através do dever de reciprocidade colectiva que ele institui. Penso que faz sentido tomar em consideração a sugestão feita pelo Patrício Langa para incluir o “dom” de Marcel Mauss na reflexão. Assim, se João me faz bem, posso retribuir fazendo bem a alguém que faça parte do grupo do qual João é membro. Também, se João me faz bem, então João pode também fazer bem ao meu irmão, primo ou cunhado. Não há nenhuma razão para o bom gesto do João ficar apenas por mim. De igual modo, posso retribuir ao João fazendo bem a alguém do meu grupo, pois é aos meus (antepassados) que tenho que agradecer o facto de ter sido receptor da boa acção do João. Eu sei que o argumento é um bocado arrojado, mas estou à procura de explicação para a nossa preferência pelo informal quando dispomos de mecanismos jurídicos impessoais perfeitamente capazes de nos ajudar a garantir certas coisas.
Alguns dirão que não confiamos nesses mecanimos porque eles não funcionam. Plausível. Mas também se calhar esses mecanismos não funcionam por causa da nossa preferência pelo informal. E reparem que, bem vistas as coisas, esta racionalidade não se limita às coisas do pelouro cultural. A noção de “colectivo” é vasta e inclui “partido”, “grupo socio-profissional” (acho a este propósito interessante uma carta de felicitações ao novo Ministro dos Transportes publicada pela Ordem dos Engenheiros e extensiva a outros engenheiros que já são ministros), “região”, etc. A sua lógica de funcionamento tem tido a tendência de cancelar a nossa sensibilidade para os mecanismos mais formais que poderiam garantir um funcionamento mais orgânico da sociedade. Não é, na verdade, uma particularidade africana tanto mais que noutros quadrantes também, e em determinados contextos, meios sociais e estilos de vida, as pessoas agem de acordo com essa lógica. É só ver como as democracias liberais europeias defendem algumas coisas feitas por um dos seus parceiros (por exemplo, os EUA) mesmo quando está claro que essas coisas violam normas internacionais.
Mas a questão que isto levanta é bem simples. Será que a nossa preferência pelo informal se explica pela sobreposição de um sistema económico e político que funciona segundo lógicas formais que entram em choque com os nossos hábitos do quotidiano? Será que a preferência pelo informal é uma forma de resistência (esta é para o Nkhululeko!) às regras da sobreposição?
4 comentários:
Continuo a achar a reflexão interessante, embora –suspeito- menos acessível(não quer dizer impossível) aos, leigos, que não estejam familarizados com a sociologia. O teu primeiro e segundo parágrafo, por exemplo, parece-me querer sugerir o “obrigado”como sendo uma forma de “sociação”. Aquilo que na óptica de Simmel deveria constituir objecto de estudo da sociologia. Uma ideia, simples, mas dificil de perceber (bom, pelo menos, foi para mim. Nem tenho certeza se já a percebi). Não pela falta de clareza do teu texto, mas pelo que o próprio Simmel queria dizer com isso(sociação). Suspeito que muitos terminaram sua formação em sociologia (pelo menos na ex-UFICS, hoje FLCS) sem a ter entendido bem. Bom, isso não vem ao caso. Até porque enga-se aquele que acha que vai aprender sociologia na carteria. Os colectivos (imediatos) – que abordaste algures há alguns anos – parecem cumprir uma função social; (não quero ser Parsoniano, aqui, sugerindo a ideia de imperativo funcional, i.é. função necessária a existência da sociedade) por exemplo de colocar o individuo numa situação de ‘protecção social’ contra infortúnios. A primazia dos colectivos parece reduzir a vulnerabilidade do indivíduo (Pense-se na concepção do filosófica do‘Ubuntu’). Seria interessante perceber qual é a concepção de ‘vulnerabilidade’ e de ‘indivíduo’ nas sociedades que previlegiam o colectivo imediado (ou informal) ao formal. Esse me parece um negócio inacabado (Unfinished business) nas nossas sociedades. E quais quais são os mecanismos para reduzir essa mesma vulnerabilidade? Diz-se, nas nossas línguas, vernáculas, que aquele que têm amigos (familia) terá sempre quem o enterrar (não sei escrever changana- “luwei angani vangano ou maxaka anga ta pfumala waku mu lalha” – algo assim). É aí que as sociedades mais individualizadas se distinguem das nassas por terem conseguido erguer sistemas – autonomos, institucionalizados – de protecção social (seguração social) que assentam menos na primazia e relevância dos colectivos imediatos. Suponho que a idea por detras desses sistemas é de que o que o indivíduo poderá receber, em caso de infortúnio (ou reforma), parte de seu produto social enquanto esteve activo (como trabalhador). A ideia de trabalho aqui é central. [Não sei se no sentido evolucionista Durkheimiano de DTS). Quando se trabalha na machamba do paí, tio, (familia) esta-se a trabalharr para (quem?) alguém? Qual é o valor (social) do trabalho aí? Melhor, qual era a concepção de trabalho no contexto anterior ao sobreposto? Penso que o sobreposto veio, de alguma maneira, individualizar o trabalho (e o seu valor do trabalho, ao separá-lo da colectivo). Elísio. Não sei se se trata de preferência pelo informal. Esse termo, no meu entender, têm uma carga de racionalidade bastante forte (rational choice). Não sei até que ponto as pessoas “optam” pelo ‘xitique’ informal, por ‘preferência’ (ou confiança) ao/no colectivo imediato. É verdade também que o ‘xitique’ institucionalizado, o dos bancos, têm não só custos (juros) elevados, mas outros custos invisíveis (tempo, chatice de bichas, ineficiencia etc). Enfim, mais pano para manga!
caro patrício, este pano já nao é para manga. é para vestido completo! sim, a ideia é mesmo a da sociacao e isto é que torna o assunto interessante para mim. o desafio é perceber como a interacao baseada na gratidao produz formas de sociedade. aqui entram de facto os assuntos que mencionas, esta tensao entre o indivíduo e o colectivo. estou interessado em perceber isso. nao escrevo no texto, mas parto também da ideia de que a dependência de colectivos tem sido imposta pelos "regimes" sobrepostos e aí deve residir uma parte da explicacao para esta aparente "preferência" pelo informal. pega no parpa e procure identificar nele algum elemento de seguranca social. nao vais encontrar nada e isso parece-me estranho, pois aqui na europa nao se combateu a pobreza dessa maneira. ela foi combatida atraves de políticas claras que aliviaram esses colectivos imediatos e tornaram o indivíduo menos dependente deles. gosto destas questoes do quotidiano porque bem pensadas ajudam a perceber alguns dos desafios que enfrentamos.
Ainda a recuperar de uma terrível infecção intestinal, passo só para mandar um abraço.
Fazes lembrar o mundo mágico do filme “favores em cadeia”. Há reciprocidades que nos estruturam, sim. Mas também há as que nos tramam. Suponho que nas postagens seguintes coloques também a questão de saber que tipo de relações estabelecemos quando dizemos obrigado. Aí, mordo a isca, interessam-me muito as formas de reprodução do poder e as subtilezas das resistências. Não me livro da tentação de articular o quotidiano de que falas (incluindo os celulares) com o que tens escrito sobre a ajuda ao desenvolvimento, a falácia do desenvolvimento, a corrupção, etc. Força aí! Abraço.
caro andré, boa recovalescenca! sim, esses sao os assuntos. muito apaixonantes!
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