O problema (b)
Quando escrevia que a identificação de uma “abordagem sociológica” de um problema e a elaboração de uma tese são duas faces da mesma moeda, queria dizer que, na essência, o desafio é o mesmo. Formular um problema significa estabelecer uma relação entre duas variáveis ou, para ser mais geral e menos técnico, entre dois conceitos. Vimos o problema da venda de bebidas alcoólicas nas bombas de combustível e o número de acidentes de viação. Há vários outros problemas que poderíamos imaginar. Na recente iniciativa presidencial sobre o HIV houve grupos cívicos que formularam o problema da indumentária feminina e o aumento dos índices de infecção; o Conselho Superior da Comunicação Superior, a propósito da publicação das caricaturas de Maomé pelo jornal Savana, formulou o problema da violação da lei de imprensa e a inviabilização do projecto de unidade nacional. Como podem ver, é sempre conceito em relação a outro conceito.
Isto não quer dizer que a relação seja sempre causal. Podemos também estabelecer relações em que os dois conceitos se influenciam mutuamente ou relações em que os conceitos juntam forças para ir influenciar outros conceitos. Mais detalhes sobre este assunto podem ler no livro “A leitura sociológica” (2004, Imprensa universitária, Maputo) por mim organizado. No artigo anterior concentrei a minha atenção sobretudo na forma como um sociólogo – fora da universidade – deve encarar as tarefas que lhe são colocadas. Ele tem que formular o problema por si próprio e não se dar por satisfeito pela formulação que outros fizeram. No fundo, esta atitude não é diferente daquela que um estudante de sociologia deve assumir ao formular o seu projecto de tese. A pergunta é a mesma: qual é o problema?
O trabalho académico difere do desafio profissional porque o académico tem que tornar mais explícitos os seus pressupostos teóricos. Ou por outra, o que mais interessa num trabalho de tese – pelo menos para mim como supervisor – não são os resultados, mas sim a demonstração, pelo estudante, da sua capacidade de observar procedimentos sistemáticos na sua elaboração. Alguém me pode dizer, por exemplo, como conclusão do seu trabalho de tese, que a corrupção está a comprometer o desenvolvimento de Moçambique. Contudo, se eu não puder ver como é que esse estudante chegou a essa conclusão, não posso aceitá-la. Eis aqui, por acaso, uma diferença entre a ciência e a superstição: os procedimentos da ciência reclamam-se transparentes!
É verdade que alguns de nós teimamos em fazer ciência como se estivéssemos a fazer superstição, mas isso não significa que as coisas sejam, na sua essência, assim mesmo. A este propósito vejam, por favor, o decálogo do cientista social preparado por Carlos Serra. No ano passado, houve pessoas no Xai-Xai que me disseram que havia pessoas que voavam. Deram como exemplo o caso de uma senhora encontrada nua e estatelada numa árvore, de madrugada. Escusado será dizer que nenhuma dessas pessoas que me contou a ocorrência vira a tal senhora: ouviu de “fonte digna de confiança” que viu com os próprios olhos. Isso até nem interessa. Porquê a suposição de que essa senhora teria “voado”? A resposta é de que as bruxas voam, que essa senhora esgotou a poção mágica que lhe permitia voar por razões ainda desconhecidas, e que normalmente voam nuas. Só acredita nisto quem “quer” acreditar.
Na ciência, contudo, precisamos de muito mais do que a simples vontade de “querermos” acreditar. É aqui onde os conceitos desempenham um papel extremamente importante na elaboração de um trabalho académico. Já vimos que opomos dois conceitos. O que significam, porém, esses conceitos? Voltemos ao exemplo do álcool e acidentes: o que significa “venda de bebidas alcoólicas nas bombas de combustível”? e “acidentes de viação”? Basta olhar apenas para a quantidade global de bebidas alcoólicas vendidas pelas bombas ou tenho ainda que ver quem compra, quando, que tipo de bebida e com que fim? Igualmente, basta olhar apenas para os acidentes que se registam em Maputo ou então tenho também que ver se esses acidentes envolvem pessoas embriagadas, pessoas que compraram a bebida nas bombas, tipo de acidente, etc.? Quando é que estou a falar de “venda de bebidas alcoólicas nas bombas de combustível” ou de “acidentes de viação” quando estou a falar de “venda de bebidas alcoólicas nas bombas de combustível” ou de “acidentes de viação”? É aqui onde o trabalho académico se torna interessante. Não é aconselhável formular problemas na base de conceitos vagos. É preciso defini-los, condição essencial da sua operacionalização, mesmo para aqueles que tendem para o trabalho qualitativo.
É na reflexão sobre o sentido dos conceitos onde encontramos subsídios para a interrogação do que nos é sugerido como problema, como também elementos para a clarificação da nossa questão de partida. Se no meu trabalho preliminar de clarificação de conceitos chego à conclusão de que há bombas de combustível que vendem mais álcool que as outras, e que nem por isso há um grande envolvimento das pessoas que compraram das líderes do mercado em acidentes de viação, posso, com toda a propriedade, colocar uma questão de partida: será que o tipo de clientes que uma determinada bomba de combustível tem explica a relação entre venda de bebidas alcoólicas e acidentes de viação? Afinal, é bem possível que não seja só o consumo de álcool que conduz aos acidentes, mas sim o tipo de pessoas que consome álcool. Alguns engraçadinhos vão, de certeza, perguntar que diferença isso faz? Em minha opinião muita. Se calhar a solução não é de proibir a venda, mas sim de trabalhar com o tipo de pessoas vulneráveis ao consumo descontrolado do álcool. Quem sabe, se calhar trata-se de maridos ou esposas abandonados que vão afogar as suas amarguras no álcool, de preferência à noite, longe dos olhares dos demais familiares e em sítios onde são anónimos. Quem sabe? O sociólogo nunca sabe, é curioso, informa-se, certifica-se, desconfia.
Portanto, não basta estabelecer uma relação entre dois conceitos – isto é, formular uma hipótese – é preciso também formular uma questão. Na verdade, é a partir dessa questão que podemos formular hipóteses claras e exequíveis. No fundo, elaborar uma tese consiste em formular uma questão de pesquisa que nos permite formular hipóteses. Essas hipóteses são uma espécie de trabalho de casa. Elas orientam-nos para o tipo de informação que precisamos de recolher para podermos responder à nossa pergunta. Este reparo dá-me a oportunidade de chamar a atenção de alguns de nós para algo que tenho visto com certa frequência. Algumas pessoas usam o princípio do operário que só tem uma ferramenta: o martelo. Para ele todos os problemas são um prego. Isso não é correcto. Depois de elaborar as hipóteses não coloco a pergunta que toda a gente instintivamente coloca de saber, nomeadamente, como elaborar o guião de entrevistas.
Tenho primeiro que olhar para as minhas hipóteses: Que tipo de informação é que elas exigem? Onde e como posso obter essa informação? Lendo relatórios oficiais? Abancando numa bomba e ficando a “piar” o movimento? Falando com pessoas? Que pessoas? Falando o quê? A entrevista não é o único método à nossa disposição para a recolha de dados. Há trabalhos que não precisam de entrevistas. Mesmo os que precisam, não precisam de 30, 50, 70 ou 100. Podem só precisar de 10. Tudo depende das hipóteses e da questão que se pretende responder! Aqueles que fazem sociologia automaticamente é que nos dão mau nome por aí. É preciso reflectir, sempre, sem parar, a cada passo. Sei que ainda não esgotei o tema. Ainda falta falar sobre a famosa “perspectiva teórica”. Fica para a próxima. Enquanto isso, porém, vão formulando questões e hipóteses em torno deste problema. Acima de tudo, peguem nestes subsídios e comecem a interpelar o crime no nosso país. O que significa “polícia” no nosso contexo? O que significam afirmações como “o crime está a aumentar no país?”, “a polícia é ineficiente”, “o ministério do interior não aguenta com isto”, etc.? que relações estão a ser estabelecidas e que sustento empírico é que podem ter?