Ainda sobre "Memórias em voo rasante"...
Gil Laureciano, que escreveu o artigo de opinião com o título “Elísio Macamo procura seu ‘bufo’ nas memórias de outro”, publicado no semanário Zambeze desta semana, em resposta a um artigo de recensão do livro de memórias de Jacinto Veloso “Memórias em voo rasante” que eu publiquei no suplemento cultural do Notícias com o título “Memórias de um ‘bufo” escreve o seguinte sobre a História: “O Dr. Macamo deve saber que a História é uma espécie de consenso dos que, numa determinada altura, detêm o poder de seleccionar, entre as várias Histórias, aquela que interessa para o momento...”. Parece-me uma ideia interessante da História, mas não me parece bem formulada. Antes de a comentar, vou tentar apresentar o seu argumento de forma mais clara.
O autor parece partir da ideia de que existem várias Histórias no mundo. Abro aqui um parêntesis para comentar um problema ortográfico que pode, talvez, ser da transcrição que recebi. A palavra “História” está escrita com “h” maiúsculo, o que dá a ideia de singularidade. A História como coisa única. Parece-me incongruente sugerir a existência de várias “Histórias” com a manutenção desta grafia. Espero que seja um lapso. O mais importante, porém, é a ideia da pluralidade de História. Sendo assim, o que ele parece defender é o argumento de que o que vale num determinado momento como a verdade da História é apenas uma das várias Histórias que existem no mundo. Penso que, assim, o argumento fica mais claro e espero não estar a criar apenas um espantalho.
De toda a maneira é evidente que esta é uma visão problemática da História e repete, quer me parecer, os problemas que já havíamos visto com a noção da verdade. A existência de várias Histórias implicaria, num sentido literal, tempos e espaços diferentes. A História da China, por exemplo, é diferente da História de Moçambique no sentido em que ambas ocorreram em espaços e tempos diferentes. Podemos dizer isto sem prejuízo dos cruzamentos que num e noutro momento tiveram lugar. O mesmo podemos dizer de grupos ou comunidades no interior do mesmo território. Assim, a História dos Macuas, por exemplo, seria diferente da História dos Ronga no sentido em que ambas ocorreram em espaços e tempos diferentes. Aqui também aplicar-se-ia o princípio de não prejudicar possíveis cruzamentos. Na verdade, porém, o que a afirmação segundo a qual “... a História é uma espécie de consenso dos que, numa determinada altura, detêm o poder de seleccionar, entre as várias Histórias, aquela que interessa para o momento...” quer dizer não é, em minha opinião, que alguém selecciona uma entre várias Histórias (a não ser que ele escrevesse “estórias”). A afirmação quer dizer que os critérios de avaliação dos acontecimentos históricos são eles próprios historicamente contigentes.
Ou por outra, a História não é o resultado de uma espécie de consenso dos que têm o poder de seleccionar; ela não pode ser isso porque ela é feita de factos. O poder de determinar a relevância dos factos bem como a perspectiva a partir da qual esses factos devem ser vistos é que produz a tal História. Ora, o autor parece utilizar esta afirmação para sugerir que uma vez que a História é assim mesmo, tudo é legítimo. Do ponto de vista político pode ser assim. Do ponto de vista científico, isto é do debate transparente de ideias, não é. A afirmação não pode estar a dizer-nos que a História é o que uns dizem. Por acaso, tenho lido muito este tipo de afirmações em Moçambique, sobretudo no contexto da discussão sobre os heróis, uma discussão que considero bastante pobre metodologicamente. A História é o resultado da confrontação de ideias sobre o que é relevante. Isso significa que ao invés de aceitarmos a História como uma fatalidade devemos, antes pelo contrário, colocar a questão dos critérios no centro da discussão e interpelarmos os critérios que estão por detrás da versão que nos é oferecida.
Mondlane escreveu em “Lutar por Moçambique” que Moçambique como nação era o produto do colonialismo português na medida em que fora a experiência comum de opressão que conduzira à coalescência de um sentimento comum dentro do espaço territorial em que essa colonização operou. Mondlane não estava a escolher uma entre várias Histórias ao afirmar isso. Ele estava a expor os critérios que o levavam a sugerir que as pessoas que hoje se dizem moçambicanas façam parte de um mesmo destino histórico. É nesta base que podemos interpelar o que outros nos dizem sobre o que pensamos ser a nossa História. Jacinto Veloso, ao escrever sobre a sua vida – cujos momentos cruciais se confundem com o devir histórico do nosso país – não estava apenas a relatar a sua vida. Estava também, e foi nesse sentido que o tentei ler, a precisar os critérios que nos levam a falar de uma História de Moçambique. A verdade e a mentira não desempenham absolutamente nenhum papel. O que desempenha algum papel é a questão de saber se a partir desses relatos ficamos a saber mais sobre esses critérios. Isso é que importa.
Para a sociologia, sobretudo a sociologia de Max Weber, a História é de extrema importância. A acção social devolve-nos o sentido do mundo em que vivemos. Esse mundo, por sua vez, é histórico na medida em que se constitui na nossa acção quotidiana. Fazer sociologia significa, também, prestar atenção às condições de possibilidade da nossa acção. Elísio Macamo não procura nenhum “bufo”; Elísio Macamo procura os critérios que lhe permitem perceber a nossa História e colocá-los ao debate público.
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