quinta-feira, fevereiro 08, 2007

A verdade

Eis algumas ideias para debate...

Ilídio Macia, com quem tenho correspondido nos últimos dias, teve a amabilidade de me enviar um artigo de opinião da autoria de Gil Laureciano, docente no ISRI, em Maputo, que foi hoje publicado no semanário Zambeze. O artigo comenta uma longa recensão crítica que fiz ao livro de memórias de Jacinto Veloso. O livro tem o título “Memórias em voo rasante” e o meu artigo, que foi publicado em duas partes – na semana passada e nesta (no suplemento cultural do Notícias) – tem o título “Memórias de um ‘bufo”. O artigo que comenta a minha crítica traz o título “Elísio Macamo procura seu ‘bufo’ nas memórias de outro”. Achei o comentário curioso. Pareceu-me ter sido escrito com muita pressa, o que pode explicar algumas incongruências e inconsistências no desenvolvimento do argumento, pois o autor parece-me uma pessoa ponderada.

De qualquer maneira, é evidente que a minha recensão não é inocente uma vez que se até um professor universitário a percebe de uma maneira diferente da que eu entendi isso só pode significar que me exprimi mal ou de forma pouco clara. Contudo, existe um princípio em filosofia que se chama “princípio de caridade”. Esse princípio convida-nos a optarmos por uma interpretação que procura apresentar o argumento que queremos atacar da melhor maneira possível. Se o meu crítico tivesse feito isso, teria, talvez, constatado que a crítica decorre de um mal-entendido. Por esta razão decidi não responder directamente. Porém, como algumas incongruências do texto são de pertinência directa para o pensamento sociológico achei útil trazê-las a debate aqui neste espaço. Vou, em textos seguidos, falar da (i) verdade, (ii) história, (iii) memória e (iv) crítica. Começo pela verdade.

Numa das passagens do artigo em questão, o autor escreve o seguinte: “A verdade é que não há verdades fixas, nem no tempo nem no espaço”. E prossegue: “É por isso que geralmente as nossas suspeitas aumentam quando alguém, repetidamente, nos diz que está a dizer a verdade. A mentira de hoje pode ser a verdade de amanhã e vice versa...”. O primeiro problema com estas afirmações é de natureza lógica. A afirmação que ele faz é praticamente impossível. Se, de facto, não há verdades fixas, que estatuto tem a afirmação segundo a qual não há verdades fixas? É verdade ou falsa? Ou melhor: em que condições é que esta afirmação seria verdade? Quando for num contexto da rejeição de uma crítica? Mas se for esse o caso, que critério devemos utilizar para aceitar a sugestão segundo a qual “não há verdades fixas”? Reparem que nem estou a comentar o que precede a afirmação, nomeadamente “a verdade é que...”. Que verdade? A verdade que não é fixa? É por isso que fiquei com a impressão de ele ter escrito o texto às pressas. Na parte introdutória da minha recensão tentei abordar estes problemas, mas ele escreve na sua crítica que as interrogações que lá faço não lhe servem para nada. Pena.

O segundo problema é mais do nosso âmbito. O que dá coerência à afirmação que ele faz segundo a qual a verdade não seria fixa é uma coisa que nos devolve o seu verdadeiro argumento – estou a respeitar o princípio da caridade – a saber a ideia de que todos utilizamos critérios que nos permitem aceitar ou rejeitar uma afirmação como descrição do mundo. Há algumas postagens atrás falei sobre este assunto. Os critérios são importantes e são a base da nossa actividade científica. Fazer ciência é ser transparente em relação aos critérios que utilizamos para descrever o mundo. Esses critérios é que estão no centro da nossa discussão sobre a plausibilidade de uma descrição. Portanto, o que a afirmação “a verdade é que não há verdades fixas, nem no tempo nem no espaço” quer dizer é que para podermos dizer algo inteligível precisamos de chegar a acordo sobre os critérios. Não é verdade que “... a mentira de hoje pode ser a verdade de amanhã e vice-versa”. O que é verdade é que os critérios de validação podem mudar, mas aí não é a verdade que mudou, mas sim os critérios. Não vou comentar, para não complicar as coisas demasiado, a ideia de que a verdade e a mentira são apenas função do tempo. Este é um erro muito pernicioso, sobretudo na nossa esfera pública, e revela a fragilidade epistemológica de alguns dos nossos colegas na academia. Acho que é mais correcto supor que essa afirmação se refira à “verdade histórica” – algo que ainda vou comentar em texto posterior. Só, talvez, nesse sentido, pois desde que nos disseram que a Terra gira em torno do Sol essa verdade manteve-se com uma persistência invejosa nos últimos séculos. Se alguém se sentir tentado a dizer “ah, mas isso é outra coisa”, então, tem que aceitar que a afirmação segundo a qual “a verdade é que não há verdades fixas, nem no tempo nem no espaço” é demasiado geral para ser de alguma utilidade.

O terceiro e último aspecto refere-se à frase “... é por isso que geralmente as nossas suspeitas aumentam quando alguém, repetidamente, nos diz que está a dizer a verdade”. Pelo menos no meu caso, quando alguém me diz repetidamente que está a dizer a verdade não concluo que ela me esteja a mentir. Concluo, talvez, que essa pessoa esteja a reagir ao facto de eu não acreditar nela ou, talvez ainda, ao facto de haver outras pessoas que não acreditam nela e a quem ela, por ventura, estará a responder. Mais uma vez, parece-me que esta incongruência resulte da pressa com que o artigo parece ter sido escrito. Não há nenhuma relação de causalidade entre o facto de a verdade não ser fixa e a nossa atitude em relação ao que outras pessoas nos dizem repetidamente.

O interesse sociológico disto está na importância dos critérios. Quando alguém diz que a verdade não é fixa não está a dizer que a verdade não seja fixa. O sentido não é literal. Está a dizer que os critérios não são fixos. O debate intelectual estrutura-se à volta dos critérios. Não obstante, o facto de os critérios não serem fixos não quer dizer que eles sejam arbitrários. Acho que isto é importante.

1 comentário:

Egidio Vaz disse...

Fragilidade Epistemológica-um aspecto que merece nossa atenção.

Como historiador (qualquer outro cientistas social também o faria, se quisesse), não deixaria de prestar atenção a um aspecto extremamente importante, antes de fazer a critica da critica: o contexto em que Gil escreve.
Sabemos nos que o ISRI (Centro de estudos estratégicos e internacionais, onde ele trabalha) assessorou a organização do livro.
Portanto, antes mesmo de irmos a critica da critica, o simples conhecimento desse facto da para entender a pressa do Dr. Gil. Aquilo não foi nenhuma critica da critica, mas sim uma resposta, a laia de um "comunicado de imprensa" feito por um "academico" (ponto entre aspas porque não cumpriu com alguns preceitos extremamente importantes, nomeadamente, compreender os argumentos esgrimidos pelo critico, as suas teses e os elementos apresentados que a fundamentam.
A emoção esteve a flor da pele e a necessidade de defender a honra de uma instituição falou mais alto que a serenidade necessária para se digerir uma critica.
Voltarei a analise desse texto. E do seu também, quando for apresentar as minhas inquietações.