Vou fechar a minha reflexão sobre os desafios que o artigo de Gil Laureciano com o título “Elísio Macamo procura seu ‘bufo’ nas memórias de outro”, publicado no jornal Zambeze, me colocou. O artigo era em reacção à minha recensão crítica ao livro “Memórias em voo rasante” de Jacinto Veloso. Publiquei essa recensão no suplemento cultural do Notícias com o título “Memórias de um ‘bufo”. Nos três primeiros artigos de reflexão tentei ponderar sobre as noções de verdade, história e memória. Do ponto de vista substancial parecem-me ser os aspectos que mais atenção deviam merecer numa perspectiva sociológica. O tema sobre o qual agora me debruço tem mais a ver com o debate académico. Um dos aspectos mais curiosos da reacção à minha recensão crítica foi a sugestão de que eu estaria a “desqualificar” o relato de Jacinto Veloso como mentira. A frase original diz até “... o facto de não encontrarmos a confirmação desse nosso imaginário no livro do General Veloso não nos dá o direito de desqualificarmos o que está dito, nem como mentira, nem como verdade” (o sublinhado é meu!).
Já há alguns anos tinha sido alvo de uma reacção violenta e agressiva por causa de uma recensão crítica que fizera ao livro de Lucas Barnabé Ncomo sobre Uria Simango. Nessa reacção dizia-se entre várias outras coisas que incluíam, por exemplo, um trabalho por encomenda (da Frelimo) ou apenas para cair nas suas boas graças, que com a minha insistência no rigor metodológico e analítico estava a “desqualificar” o relato. Recentemente, o jovem Carlos Serra Jr. escreveu um comentário crítico a uma composição musical e grande parte das reacções ficou pela acusação de inveja ou pura desqualificação. Em muitos momentos do debate público entre nós transita-se com muita rapidez do pronunciamento que alguém faz para a contestação desse pronunciamento não com base no seu conteúdo, mas com base no que o terá motivado ou nas suas possíveis consequências. Os méritos do pronunciamento em si não são, por regra, discutidos. É uma fuga ao debate de ideias que mais do que os problemas materiais que temos no país me parece comprometer o nosso futuro.
Gente que devia ponderar as suas ideias antes de as trazer a público, sobretudo quando se trata de académicos que têm a responsabilidade de iniciarem os mais novos no pensamento crítico e na valorização do debate de ideias, apressa-se a publicar coisas deficientemente pensadas na convicção segura de que, ao nível da esfera pública, ninguém se vai interessar pelo argumento e pela sua solidez, mas apenas pelo prazer imediato de ter dado uma licção a alguém. Transformamos o debate de ideias numa fogueira de vaidades em que pesa mais o emocional do que a contribuição que fazemos para tornar a reflexão sobre o nosso país útil. E ainda nos espantamos – pelo menos eu ainda me espanto – que os outros nos digam de caras que não precisam de nós para nada na batalha que travam contra a pobreza absoluta. Eles dizem-nos para primeiro resolvermos a nossa própria pobreza absoluta de espírito.
Ainda vou precisar de algum tempo para perceber porque é que a crítica, no nosso seio, é vista como uma afronta pessoal. Eu tenho consciência de que, muitas vezes, não formulo as minhas críticas de forma simpática e exagero, até, na decoração da minha intervenção. Pensei que estivesse claro para muitos que o intuito não é de atacar pessoas, mas confrontar as suas ideias. No caso do livro de memórias de Jacinto Veloso, um livro que em minha opinião presta um grande serviço à nossa historiografia justamente por nos sacudir da nossa letargia, fiz recurso ao humor para abordar as inquietações que o livro me suscitou. Esse humor faz parte da minha interpelação crítica ao conteúdo, não ao autor, e quando leio o seu defensor – que, curiosamente, reaje ferido como se tivesse sido o autor do livro – a tentar usar esses recursos estilísticos como argumentos contra a minha crítica fico a rezar para que Jacinto Veloso tenha mais sentido de humor do que o seu defensor.
A crítica é a única maneira que temos de dar substância a Moçambique como um espaço social. É nela que negociamos os termos (os critérios) através dos quais damos visibilidade a esta construção. Criticar não significa rejeitar alguém ou atirar para o lixo as suas ideias. Significa, penso, perguntar se alguém nos fornece razões suficientes para aceitarmos a descrição que ele faz do real. É só isso. Precisamos dessa discussão porque partilhamos este espaço, é nosso, interessa-nos e, em princípio, queremo-lo bem. Criticar por criticar é privilégio dos que não querem o debate de ideias por nada, aqueles que só querem discutir conclusões e, provavelmente, abordam a verdade de forma supersticiosa. Quanto maior atenção presto ao essencial da reacção de Gil Laureciano à minha recensão crítica – a mesma atitude adoptada por Lucas Barnabé Ncomo – mais convencido fico de que a ideia que se tem de debate de ideias – portanto, de crítica – é de dizer “sim senhor” ou então nada. Não há verdade fixa, portanto, deixa o autor dizer o que lhe der na gana; a História é consenso de quem detém o poder de seleccionar, portanto, o autor detém esse poder, então cala-te; a memória é na sua essência cultural e social, portanto, não há maneira de contestar seja o que for que alguém disser. Se não aceito este regime de pensamento estou a desqualificar os outros.
Deprimente.
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