Prossigo com a reflexão sobre alguns aspectos da crítica que Gil Laureciano, no seu artigo “Elísio Macamo procura seu ‘bufo’ nas memórias de outro”, publicado no semanário Zambeze, fez à minha recensão crítica no suplemento cultural do Notícias com o título “Memórias de um ‘bufo” ao livro de memórias de Jacinto Veloso, “Memórias em voo rasante”. Desta feita, debruço-me sobre a noção de memória. Sobre isto, o autor escreve: “A memória é na essência cultural e social. Ela não conhece uma criação independente dos contextos cultural, social, político ou económico. Não há memória isenta. Na maioria das ocasiões, a memória é evocada como parte de um diálogo com o presente. Ela não é uma colectânea de eventos ou estórias que pararam no tempo e no espaço. A preocupação do Dr. Elísio Macamo com o estatuto da memória faz me suspeitar que ele tenha sido induzido em erro a ver memória como algo estático”. Nós os académicos, sobretudo nós que fazemos ciências sociais, temos o mau hábito de apresentar coisas triviais como se se tratassem de uma revelação profunda da verdade. Talvez seja por isto que o Ministro da Educação não nos considera relevantes para a luta contra a pobreza absoluta. Andar a dizer que tudo é social faz parte desse mau hábito. São coisas que não iluminam ninguém, na verdade, mas a solenidade com que as dizemos assusta os incautos.
Não conheço nada na face da terra, e que faça parte da vida humana, que não seja social ou cultural. Com um pouco de imaginação, até, tudo é social, cultural, político e económico. Tudo. Anseio pelo dia em que esse tipo de pronunciamentos deveria provocar hilariedade na esfera pública. Ou, melhor ainda, anseio pelo dia em que sempre que um cientista social dissesse coisas tão banais como estas fosse obrigado a doar uma soma de dinheiro ao fundo de luta contra a pobreza absoluta de Yaqub Sibindy. O meu interesse pela fenomenologia levou-me a uma definição individual da memória e que me protegeu das banalidades sociológicas do tipo “memória é cultural e social”. Procurei saber o que um indivíduo faz quando se recorda e cheguei à conclusão de que ele, na essência, faz um exercício de introspecção que o leva a seleccionar certos eventos passados que ele viveu, sentiu ou viu como sendo relevantes para o relato que ele quer fazer. Naturalmente que isso ocorre dentro de um contexto social e cultural. As coisas humanas, por regra, acontecem num contexto social e cultural.
Agora, a insistência na relevância do social e do cultural não é, em si, banal. Pode ser que com isso queiramos destacar o facto de que a formação individual, os valores que orientam o indivíduo, a sua inserção na sociedade sejam factores determinantes no exercício de recordação que cada um de nós faz. Essa é uma posição que eu próprio estaria disposto a defender na condição, porém, de que déssemos o passo seguinte que é de verificar com cuidado os aspectos que determinam a evocação da memória “... como parte de um diálogo com o presente”. Dizer apenas que a memória é evocada nesse diálogo, sem dizer quais são os aspectos e de que forma é que eles são trazidos ao diálogo parece-me uma maneira de tornar impossível qualquer tipo de conversa sobre o relato histórico. Aí voltamos ao problema dos critérios de verdade e da História. Aqui como em verdade e História o mais interessante não é a memória em si, que de facto não é estática (nem me lembro de jamais ter feito essa sugestão), mas, sim, os factos sobre os quais reflectimos. Esses, sim, são, estáticos. O contexto de avaliação da sua pertinência muda. Essa mudança, mais uma vez, não é arbitrária e justamente porque não é arbitrária ela deve merecer a nossa atenção.
Pessoalmente, acho mais útil insistir na relação individual com a memória e a partir dessa relação investigar a influência que o contexto tem. Há pessoas que se podem recordar mal de certas coisas. Isso pode se dever a vários factores. Primeiro, as pessoas podem sofrer de halucinações e verem coisas que de facto não existem ou que elas não viram. Segundo, as pessoas podem ter visto as coisas que dizem ter visto na altura a partir de uma posição que lhes não permitiu apreciar devidamente a situação. Isso acontece quase sempre e tem sido, muitas vezes, objecto de acalorados debates em tribunais sobre o depoimento de testemunhas. Terceiro, as pessoas podem simplesmente e de forma deliberada deturpar o passado por razões nobres ou ignóbeis. Há várias razões para isso e nem preciso de me alongar aí. Com todas estas razões parece-me um pouco arrojado, e insensato, deixar a discussão da memória ficar pela constatação segundo a qual ela seria “... na essência cultural e social”. Para nós os sociólogos esta constatação é de extrema importância não só pelo aviso que ela constitui para nos precavermos contra trivialidades no discurso público, como também pela sugestão de que sendo a memória cultural e social haveria, provavelmente, uma memória moçambicana. O facto de estarmos a discutir as memórias de alguém descarta, ou pelo menos problematiza, esta sugestão. Na perspectiva fenomenológica da sociologia que enforma a minha própria reflexão, estas questões estão directamente ligadas à nossa experiência existencial e ao que nós damos por adquirido no nosso quotidiano. A memória, de facto, não é isenta como o autor também diz. A isenção, contudo, não quer dizer que cada qual tenha direito à sua memória ou que tudo seja política. A memória não é isenta no sentido em que ela documenta a sociedade em que vivemos. Mal ou bem. Mas documenta. E, por isso, é importante para a reflexão sociológica. Pelo menos é isto que justifica a minha preocupação com a memória.
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