A minha assiduidade continua um problema. contudo, vou lendo algum noticiário. Aí vai um comentário a uma notícia lida no País Online.
“Empossados prometem mudanças
27/02/2007
Depois de empossado, o novo ministro da Agricultura, Erasmo Muhate, disse que quer ver aumentada a produtividade no país e para o efeito espera contar com todos os sectores de produção agrícola. Outro desafio é o desenvolvimento do sector comercial.
“A grande prioridade é produzir comida e para isso temos que levar mais agentes a produzi-la. Se temos, hoje, por exemplo 10 empresas, significa que temos que passar para o dobro ou para o triplo”, sublinhou Muhate.
Filipe Couto foi mais cauteloso e disse que antes de avançar com as mudanças na UEM quer conhecer a casa, por ela ser grande, e espera fazê-lo juntamente com os docentes e directores das diversas faculdades.
“Vamos ver os planos que lá estão para depois vermos o que podemos fazer para conseguir atingir as metas que queremos”, afirmou o novo reitor.
Por outro lado, o reitor da Universidade de Lúrio disse que a prioridade é consolidar a situação da instituição. “A nossa aposta, neste momento, é bastante trabalho. Ela precisa de ser criada e de ser consolidada, porque ainda é uma coisa que não existe. Temos que olhar para as melhores práticas e modelos de universidades e, partindo desses pressupostos, dar corpo à universidade, para que ela seja vista e reconhecida a nível nacional e internacional”, considerou” (fim)
O que o nosso país precisa, muito mais do que novos ministros ou reitores, é de um nível de discussão pública mais apurado. Esta notícia é preocupante por duas razões. Primeiro porque não diz absolutamente nada, mas porque é veiculada, alimenta-se da impressão de que diz alguma coisa. O novo Ministro da Agricultura diz que quer ver aumentada a produtividade. Claro que devia querer ver isso. Que interesse é que uma declaração destas tem para a esfera pública nacional? Não é o que todos nós queremos ver? Qual é a utilidade da sua repetição pelo Ministro? O seu antecessor não queria ver isso? Sei que estou a ser um pouco mesquinho. Mas, na verdade, o nosso país só pode ir para a frente quando a classe política se habituar a reflectir sobre critérios de actuação e o que pensa fazer para que seja possível lograr objectivos. Os objectivos em si são irrelevantes para o debate público.
As mesmas observações aplicam-se às declarações dos novos reitores. Um diz que ainda quer conhecer a casa antes de avançar para as mudanças. Não sei se estou a ler mal a notícia, mas fiquei com a impressão de que ele já tem as mudanças formuladas. Para que precisa ainda de conhecer a casa? Para voltar a reflectir sobre as mudanças? Vai fazer isso? Ou estas respostas são uma maneira de não falar do que é preciso fazer? O outro diz que aposta no trabalho. Em que mais devia um funcionário apostar? E diz que quer olhar para as melhores práticas e modelos de universidade. Estou a ler bem? Criou-se uma universidade e ainda não se sabe como vai ser? É sério isto?
A segunda razão que torna a notícia preocupante prende-se ao facto de esta evasão às respostas não parecer incomodar a nossa esfera pública. Ninguém parece estar preocupado com o facto de que estamos a falar sobre nada. Eu, pelo menos, considero isto extremamente preocupante. No que se refere aos reitores, em particular, que em princípio são académicos, acho a submissão à retórica política alarmante. Mas era de esperar. Na verdade, há uma ligação intrínseca entre substância argumentativa e liberdade académica. Académico que fala com os dentes cerrados fala como político. E este é o efeito perverso da intervenção política na academia.
27/02/2007
Depois de empossado, o novo ministro da Agricultura, Erasmo Muhate, disse que quer ver aumentada a produtividade no país e para o efeito espera contar com todos os sectores de produção agrícola. Outro desafio é o desenvolvimento do sector comercial.
“A grande prioridade é produzir comida e para isso temos que levar mais agentes a produzi-la. Se temos, hoje, por exemplo 10 empresas, significa que temos que passar para o dobro ou para o triplo”, sublinhou Muhate.
Filipe Couto foi mais cauteloso e disse que antes de avançar com as mudanças na UEM quer conhecer a casa, por ela ser grande, e espera fazê-lo juntamente com os docentes e directores das diversas faculdades.
“Vamos ver os planos que lá estão para depois vermos o que podemos fazer para conseguir atingir as metas que queremos”, afirmou o novo reitor.
Por outro lado, o reitor da Universidade de Lúrio disse que a prioridade é consolidar a situação da instituição. “A nossa aposta, neste momento, é bastante trabalho. Ela precisa de ser criada e de ser consolidada, porque ainda é uma coisa que não existe. Temos que olhar para as melhores práticas e modelos de universidades e, partindo desses pressupostos, dar corpo à universidade, para que ela seja vista e reconhecida a nível nacional e internacional”, considerou” (fim)
O que o nosso país precisa, muito mais do que novos ministros ou reitores, é de um nível de discussão pública mais apurado. Esta notícia é preocupante por duas razões. Primeiro porque não diz absolutamente nada, mas porque é veiculada, alimenta-se da impressão de que diz alguma coisa. O novo Ministro da Agricultura diz que quer ver aumentada a produtividade. Claro que devia querer ver isso. Que interesse é que uma declaração destas tem para a esfera pública nacional? Não é o que todos nós queremos ver? Qual é a utilidade da sua repetição pelo Ministro? O seu antecessor não queria ver isso? Sei que estou a ser um pouco mesquinho. Mas, na verdade, o nosso país só pode ir para a frente quando a classe política se habituar a reflectir sobre critérios de actuação e o que pensa fazer para que seja possível lograr objectivos. Os objectivos em si são irrelevantes para o debate público.
As mesmas observações aplicam-se às declarações dos novos reitores. Um diz que ainda quer conhecer a casa antes de avançar para as mudanças. Não sei se estou a ler mal a notícia, mas fiquei com a impressão de que ele já tem as mudanças formuladas. Para que precisa ainda de conhecer a casa? Para voltar a reflectir sobre as mudanças? Vai fazer isso? Ou estas respostas são uma maneira de não falar do que é preciso fazer? O outro diz que aposta no trabalho. Em que mais devia um funcionário apostar? E diz que quer olhar para as melhores práticas e modelos de universidade. Estou a ler bem? Criou-se uma universidade e ainda não se sabe como vai ser? É sério isto?
A segunda razão que torna a notícia preocupante prende-se ao facto de esta evasão às respostas não parecer incomodar a nossa esfera pública. Ninguém parece estar preocupado com o facto de que estamos a falar sobre nada. Eu, pelo menos, considero isto extremamente preocupante. No que se refere aos reitores, em particular, que em princípio são académicos, acho a submissão à retórica política alarmante. Mas era de esperar. Na verdade, há uma ligação intrínseca entre substância argumentativa e liberdade académica. Académico que fala com os dentes cerrados fala como político. E este é o efeito perverso da intervenção política na academia.
4 comentários:
professor, pensar custa. e como custa. se o reitor estava na lista de reitoraveis, entao devia ter um projecto na manga, seus lobbies deviam estar sustentados num conhecimento profundo do cargo que concorria. nao devia funcionar assim? esta mania é antiga, " se o partido manda para la, eu vou, afinal o partido sabe o que esta fazer", uma total preguica de pensar e criar coisas.
o problema deste pais, esta ai. a frelimo se tornou deus, onde os anjos nem se dao o luxo de tratar das suas asas, em nome de uma santidade de preguica, acreditam no milagre da limpeza. a religiosidade da ignorancia. e a frelimo pagou caro com isso nos ultimos trinta anos e corre risco de pagar ainda mais, se continuar assim.
estamos perante o intelectualismo burocratico? como escreveu Merton e freud? a legitimizacao da incompetencia atraves da ritualizacao de mandatos e discursos? esta ritualizacao do discurso é uma manifestacao para busca de confianca e poder.
somos podemos continuar a questionar, pelo menos exercitamos a mente.
Sinceramente acho que este país esta a precisar de uma reformulação geral ou lavagem cerebral partirmos para uma terceira ou quarta via. Não sei como faze-lo, mas com os politicos que temos e o povo que temos não iremos a lado nenhum.
eu acho que apesar de a situação ser séria não devemos cair no desespero. acho útil interrogar. essa é que é de resto a nossa função. devemos interrogar não no intuito de demonstrarmos que sabemos melhor o que é bom para este país, mas sim no intuito de devolvermos o país ao debate crítico e isento. pessoalmente, tenho muita admiração pelos políticos, pois não deve ser coisa fácil aceitar tarefas tão duras e defíceis como as que eles aceitaram mesmo se alguns tiram muito proveito disso. eu não estaria a altura de nenhuma dessas tarefas. por isso, faço o que acho ser melhor, nomeadamente interpelando o que eles fazem e dizem e suspendendo a minha crença na sua boa vontade. interroguemos sempre, é útil.
caro gabriel, boas perguntas! na verdade, acho que todos nós agimos em certos momentos politicamente. quando fazemos isso abandonamos o registo que nos define. essa questão, contudo, não se coloca verdadeiramente no caso vertente por uma razão um pouco complicada: o facto de esses indivíduos terem sido colocados nos lugares por decisão política (algo que eu considero muito problemático para a liberdade académica) é que suscita a questão de saber se eles são políticos ou académicos. como devem agora agir? como políticos ou como académicos? penso que eles querem agir como académicos e, nesse caso, é legítimo esperarmos que tenham uma outra sensibilidade para estes assuntos. se eles não podem agir como académicos, então estamos aí perante o argumento contra a sua indicação pelo presidente da república.
de facto, o discurso oco não é privilégio moçambicano, embora estas declarações (salvo se a reportagem for deficiente) sejam um exemplo particularmente mau; contudo, o facto de ser assim em todo o lado não faz da coisa boa coisa nem nos pode impedir de a apontar como problema. para mim a questão não é de impaciência; há 30 anos que somos independentes e se queremos verdadeiramente fazer alguma coisa, sobretudo agora que abrimos o espaço político, temos que começar a exigir com maior força que o discurso seja menos oco. para mim, o novo ministro da agricultura desqualificou-se completamente com as declarações que prestou. precisamos de falar de critérios de desempenho e acho legítimo que nós, cuja tarefa é pensar, devemos interpelar estas coisas sob pena de ficarmos votados ao silêncio porque os outros "sabem o que estão a fazer" e em devido tempo as coisas vão ficar bem. o que me desagrada na esfera pública do país é que desanimemos e passemos simplesmente um atestado de incompetência aos políticos. só com a nossa interpelação crítica é que eles vão, com sorte, ter melhor desempenho.
Enviar um comentário